Top PDF Recepção e leitura no horizonte da literatura.

Recepção e leitura no horizonte da literatura.

Recepção e leitura no horizonte da literatura.

Jauss considera que, entre a obra e o leitor, estabelece-se uma relação dialógica. Essa relação, por sua vez, não é fi xa, já que, de um lado, as leituras diferem a cada época, de outro, o leitor inte- rage com a obra a partir de suas experiências anteriores, isto é, ele carrega consigo uma bagagem cultural de que não pode abrir mão e que interfere na recepção de uma criação literária particular. As- sim, quando se depara com um romance como Dom Casmurro, de Machado de Assis, ele sabe de antemão que esse romance é um clássico da literatura brasileira, que foi escrito após Memórias pós- tumas de Brás Cubas e antes de Esaú e Jacó, que infl uenciou auto- res como Graciliano Ramos, Fernando Sabino e Ana Maria Ma- chado, por exemplo; o romance, portanto, vem carregado de uma história de leituras que se agregam a ele. Da sua parte, esse leitor, independentemente de sua formação ou profi ssão, carrega também sua história de leituras, construída a partir de sua relação com a li- teratura e com outras formas de textos transmitidos pela escrita. Assim, o diálogo entre a obra e o leitor coloca frente a frente duas histórias, a partir da qual se estabelece uma troca: o leitor incor- pora a leitura de Dom Casmurro, com todos os elementos que o romance traz consigo, à sua própria história; Dom Casmurro, por sua vez, agrega à sua identidade de obra literária a leitura desse lei- tor, que fará uma decodifi cação específi ca do texto a partir de sua matriz pessoal e cultural.
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QUESTÕES SOBRE A RECEPÇÃO DA LITERATURA NO SÉCULO XXI

QUESTÕES SOBRE A RECEPÇÃO DA LITERATURA NO SÉCULO XXI

Restam, nos domínios da sociologia da leitura, algumas questões problemáticas: a sociabilidade leitora acontece no diálogo autor-obra-leitor, como já apontava Antonio Candido (cf. 2010). Autores querem expressar-se, comunicar uma visão de mundo a possíveis leitores. Se conseguem ou não, depende da obra consumada, de seu gênero, sua estruturação, estilo, linguagem, temas. Da parte do leitor, ele necessita, como sustenta Reimão e também a Estética da Recepção (vide Jauss, 1979), de um repertório prévio de experiências de vida e de leitura, a fim de partir dele para cada nova proposta e aceitá-la ou não. Alguns buscam o livro para aprender, a maioria para divertir-se, e outros para ampliar horizontes e consciência, ou maravilhar-se com a beleza ou o pensamento. Há, pois, diferentes níveis e escalas de leitura, mas é dela que autor e obra dependem. E é aí que se inserem os processos materiais de produção e comércio, inevitavelmente voltados para o mercado e para a atração de seus consumidores e que formatam a literatura em termos de temas e modelos mais palatáveis para o consumo pelos processos de seleção, edição e de circulação. (Santos e Machado Júnior apresentam um panorama útil da publicidade no século XXI – vide 2016).
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Rejeição e recepção das ideias francesas na literatura portuguesa

Rejeição e recepção das ideias francesas na literatura portuguesa

conirmar, através dos estudos já efectuados e da consulta das próprias fontes, a preponderância de títulos franceses, quer no âmbito da divulgação cientíica e cultural, quer no âmbito do puro prazer, associado deinitivamente e a partir de então à prática da leitura. Na verdade, é ainda na primeira metade do século que os catálogos das principais casas livreiras concedem um espaço cada vez maior a uma literatura mais ligeira, anunciando já o futuro protagonismo que ao romance e à novela caberá desempenhar e que tantas críticas há-de suscitar, ao nível da arte, mas também em nome da moral e bons costumes. Os autores são, pois, predominantemente franceses, e à língua francesa em que circulam rapidamente se associam as traduções, garantindo a fuga à banalidade do quotidiano a um maior número de consumidores: as histórias de amor, de aventuras e também o chamado romance negro ou de terror constituíam os sucessos que, traduzidos, tornavam familiar junto do público português uma lista imensa de escritores, como Alexandre Dumas, Ponson du Terrail, Eugène Sue, Georges Ohnet, Paul Féval, Paul de Kock, Arlincourt, Octave Feuillet e muitos outros ainda, de que apenas os velhos catálogos guardam a memória. Há que referir ainda que o êxito de que gozava a novela sentimental, ornamentada com mistérios, sobressaltos e a ousadia dos destinos marginais, foi aproveitado muito para lá da simples tradução e, a partir da receita aprendida nos originais, o mercado foi invadido por traduções livres, versões e imitações, levando Garrett a descrever, em 1843, numa das páginas das suas Viagens, o modo como, com tesoura e cola, se fazia a literatura nacional:
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A RECEPÇÃO DO REALISMO MÁGICO NA LITERATURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

A RECEPÇÃO DO REALISMO MÁGICO NA LITERATURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

Creio que vai sendo tempo de rever umas quantas ideias feitas sobre o que se tem denominado «realismo mágico» ou «real maravilhoso» na ficção latino-americana contemporânea. Não para lhos negar, evidentemente, mas para distinguir neles o que haja de inovação autêntica e o que é aproveitamento e reelaboração de temas e visões provenientes doutras regiões literárias. Escusado será dizer que não pretendo (por absoluta falta de competência) pôr mãos nesse trabalho. Lembro, em todo o caso, que não faltam nas literaturas europeias exemplos de escritores que sendo considerados, com maior ou menor propriedade do termo, realistas, também percorreram em algum momento da sua vida os caminhos do maravilhoso. Realista, e mesmo naturalista, foi Maupassant, e escreveu Le Horla. De Prosas Bárbaras, de Eça de Queiroz, apetece-me dizer que pode ser lido como um compêndio de temas do maravilhoso para uso de autores em crise de imaginação. O maravilhoso é coisa velha: realistas, e maravilhosos também, são a Ilíada e a Odisseia. No que a mim respeita [...], recordo um brevíssimo conto – «A morte de Julião» – publicado no longes de 1948, onde já o maravilhoso dilui um acto de suicídio consomado. Atrevo-me mesmo a pensar que essa dimensão do olhar literário nunca esteve inteiramente ausente do meu trabalho. Mesmo nos livros que cita como excepções. Levantado do Chão não poderia ter sido escrito sem o pressentimento do «real sobrenatural» (este rótulo, que acabo de inventar, serve tão bem como qualquer outro) e História do Cerco de Lisboa, com os seus distintos níveis sedimentares de leitura e as suas transmigrações de factos históricos, não é entendível de um ponto de vista estreitamente realista. E que direi das crónicas reunidas em Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante? Não é que eu queira ser «maravilhoso» à força, para aproveitar a maré, simplesmente me parece que a literatura não pode respirar fora dessa quarta dimensão que é a imaginação fértil. Para ser ainda mais claro: custa-me tanto a compreender, para dar só este exemplo, um surrealista que não seja realista, como um realista que não seja surrealista... Ecletismo topa-a-tudo? Nada disso. Apenas uma visão circular do mundo 95 .
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As fábulas e os bestiários na literatura de recepção infantil contemporânea

As fábulas e os bestiários na literatura de recepção infantil contemporânea

Destaque-se o especial relevo que as originais ilustrações ocupam, assim como as implicações semânticas da mancha gráfica com recurso a grafismos variados e a carac- teres de dimensão diversa. Em Eu não fui!, os vários animais declinam sucessivamente a responsabilidade pelo acontecido, apontando outro culpado e repetindo o encadeado de acções que se sucedem, recorrendo a orações relativas sucessivas. A criança leitora/ouvinte será capaz não só de reproduzir o enunciado como de antecipar o seu desenvolvimento nas páginas seguintes, até porque conhece todas as personagens: «a culpa é do mosquito que me picou o traseiro. Eu apanhei um susto e dei uma bicada no rabo do gato que arranhou o lombo do cão que mordeu a pata do porco que deu uma cabeçada no burro que deu um coice no rabo da vaca» (Voltz, 2004). As próprias ilus- trações, através da reutilização/reciclagem de diversos materiais e utensílios, apontam para uma leitura do álbum no sentido do apelo ao respeito pelo meio ambiente e por todos os seus habitantes.
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Sociologias da literatura: Do reflexo à reflexividade.

Sociologias da literatura: Do reflexo à reflexividade.

romances, mas também textos escolares, histórias em quadrinhos, jornais, revistas, enim, textos populares e massiicados. Para tanto, certamente concorreram também a história do livro, os estudos da cultura impressa e a sociologia da leitura. De outro lado, mesmo reconhecendo o sentido democratizante implicado nessa pretensão de igualar materiais culturais diversos, os estudos culturais acabaram, em muitos casos, simpliicando excessivamente a relação entre práticas estéticas e realidades sociais, fortalecendo ainda mais uma visão reiicada e dicotômica de sociedade e literaturaLiteratura e sociedade seguem, então, sendo frequentemente vistos como termos externos um ao outro, e não mutuamente implicados na relação que formam, esta sim a unidade de análise mais signiicativa da sociologia da literatura, a nosso ver. Pensamos que nessa reiteração perde-se, entre outras coisas, a possibilidade de se perceber o caráter propriamente relexivo da relação literatura e sociedade, este o campo problemático mais amplo que gostaríamos de discutir. Uma investigação dessa relação requer uma abordagem não disjuntiva das práticas de produção e recepção textual e de suas posições diferentes nas hierarquias de valores simbólicos no interior da vida social. Procuraremos qualiicar relexividade ao inal do artigo a partir de debates recentes na própria teoria sociológica contemporânea, destacando contri- buições de Anthony Giddens e Niklas Luhmann. Embora o escopo das propostas desses autores seja muito maior (Botelho, 2006), nossa aposta é que a relexividade possa vir a se constituir em uma perspectiva de renovação signiicativa também da sociologia da literatura – como, aliás, alguns debates nos balanços bibliográicos examinados permitem já apontar – não apenas ao problematizar o termo “literatura”, mas também “sociedade”, bem como a própria “relação” signiicativa entre eles. A seguir apresentaremos, em linhas muito gerais, o movimento de pluralização das abordagens teórico-metodológicas, tal como proposto nos balanços bibliográicos que tomamos como material de pesquisa; depois buscaremos sistematizar as princi- pais questões que os perpassam e que nos deixam como desaios para repensarmos a sociologia da literatura.
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Recepção da literatura eletrônica infantil: entre a virtualização e a atualização

Recepção da literatura eletrônica infantil: entre a virtualização e a atualização

Jauss propõe que a implicação esté- tica reside no fato de a própria recepção já encerrar uma avaliação de seu valor estético, uma vez que o leitor de uma obra estabelece comparações com outras obras já lidas (1994, p. 23). Para o as- pecto histórico, coloca-se a possibilidade de, numa mesma cadeia de recepções, a compreensão dos primeiros leitores ser continuada e aperfeiçoada pelas gerações seguintes, decidindo o próprio significado histórico de uma obra e realçando a sua qualidade estética. Isso situa a literatu- ra na dimensão da recepção e do efeito, rompendo a dicotomia entre o aspecto estético e o histórico, de modo que o efeito seja compreendido como o momento con- dicionado pelo texto e a recepção, como o momento condicionado pelo destinatário, para a concretização do sentido como duplo horizonte: “o interno ao literário, implicado pela obra, e o mundivivencial (Lebensweltlich), trazido pelo leitor de uma determinada sociedade” (JAUSS, 1979, p. 50).
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A recepção das literaturas hispano-americanas na literatura portuguesa contemporânea: edição, tradução e criação literária Isabel Rute Araújo Branco

A recepção das literaturas hispano-americanas na literatura portuguesa contemporânea: edição, tradução e criação literária Isabel Rute Araújo Branco

e de venda em tabacarias inclui obras de García Márquez, como «Biblioteca Visão», «Asa de Bolso», «Prémio Nobel», «Bisleya» e «Mil Folhas», entre outras. Assinalemos também a publicação, em 2000, de seis contos para adultos numa colecção dirigida ao público infantil, a «Edições especiais» da Dom Quixote, ilustrada por Carme Solé Vendrell: A Luz É como Água, A Sesta de Terça-Feira, O Verão Feliz da Senhora Forbes, A Última Viagem do Navio Fantasma, Maria dos Prazeres e Um Senhor Muito Velho com Umas Asas Enormes. Existem no mercado várias obras críticas sobre o autor e a sua obra, como História de Cem Anos de Solidão. Em Busca das Chaves de Melquiades, de Elígio García Márquez, O Aroma da Goiaba, de Plinio Apuleyo de Mendoza e Gabriel García Márquez, e Gabriel García Márquez, de Dagmar Ploetz. Há que referir ainda o Posfácio da autoria do escritor português João de Melo publicado na edição da Dom Quixote de O Amor nos Tempos de Cólera, a partir da sexta reimpressão. Outra forma de reconhecimento, e importante fonte de vendas, é a inclusão de Crónica de Uma Morte Anunciada no Plano Nacional de Leitura 1 . Duas obras do escritor foram editadas com diferentes títulos pela Europa-América e pela Quetzal (textos publicados pela Dom Quixote em 2007 e 2008): La hojarasca surgiu nos escaparates em 1972 como O Enterro do Diabo (com tradução de João da Silva) e em 1989 como A Revoada (António Gonçalves); La mala hora como O Vento da Madrugada (Pilar Delvaulx) em 1972 e Horas Más (Egito Gonçalves) em 1993. As primeiras edições em Portugal de García Márquez – e de outros escritores – foram adaptadas de versões brasileiras, o que pode explicar as opções de tradução, nomeadamente dos títulos. Isto aconteceu principalmente numa fase inicial, talvez por razões económicas, e pode considerar-se como uma espécie de «tradução indirecta», fenómeno estudado por José Lambert, quando refere o caso de o sistema receptor (neste caso, o português) tomar emprestados os produtos culturais de outros sistemas (neste caso, o brasileiro).
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A poesia no ensino fundamental: uma discussão sobre as orientações da BNCC

A poesia no ensino fundamental: uma discussão sobre as orientações da BNCC

Sem dúvida, a BNCC apresenta avanços no que diz respeito a uma compreensão particular da linguagem literária, da leitura especificamente literária e da sua inserção desde as séries iniciais do ensino fundamental. Nesse sentido, o documento orienta para a singularidade da leitura de fruição, ideia que implica a compreensão do efeito estético do texto artístico, mobilizador da empatia do leitor. Todavia, se há acréscimos positivos nesse documento, há ainda, como já mencionada aqui, a necessidade de melhor compreensão e delimitação das teorias que respaldam suas ideias de literatura e leitura literária, pois essas se encontram conflitantes no texto oficial, ora acompanhando os avanços para o conceito de literatura e leitura literária, representados pelas teorias recepcionais, ora resvalando para um conceito textualista de literatura, inoperante num projeto educacional de formação de sujeitos autônomos. Acredita-se que abordar o texto literário em sala de aula, a partir de suas especificidades estéticas, é a única via para um trabalho efetivo, humanizador nos termos de Candido (1995), com a literatura. Indubitavelmente, o conhecimento de uma base de teoria literária possibilita: diagnósticos mais precisos da turma em relação ao letramento literário dos alunos; seleções de textos mais acertadas, considerando o “horizonte de expectativa” da turma e a necessária “quebra desse horizonte” e escolhas mais conscientes da metodologia a ser utilizada em cada turma.
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A leitura de narrativas sobre a ditadura na recepção de leitores juvenis

A leitura de narrativas sobre a ditadura na recepção de leitores juvenis

Dessa forma, a literatura instiga o leitor a posicionar-se mediante as estratégias construídas pelo texto. No entanto, quando este leitor é uma criança ou um jovem, outros elementos entram em jogo no processo de interação, sobretudo recursos que visam à adaptação do texto, pois, afinal, em se tratando de livros destinados a leitores em formação, é preciso ter presente que “o esforço do leitor para subir a sua escada requer ‘um corrimão’ no qual possa apoiar-se.” (COLOMER, 2007, p. 84-85). Além do mais, o leitor, mesmo sendo criança ou jovem, não pode ser visto como alguém sem vivências e experiências, pois, desse modo, não haveria possibilidade de interação. A relação com o já vivenciado, juntamente com os elementos simbólicos, a estrutura e a linguagem, entre outros aspectos, produzem efeitos que certamente influem na recepção do texto. Afinal, “desde a idade mais tenra, todo menino, toda menina é considerado como sujeito ativo na construção de seus conhecimentos e de sua cultura.” (PETIT, 2009, p. 40).
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LEITURA E RECEPÇÃO: A TEATRALIDADE EM JOÃO GILBERTO NOLL

LEITURA E RECEPÇÃO: A TEATRALIDADE EM JOÃO GILBERTO NOLL

Em A Fúria do Corpo (1981), primeiro romance de João Gilberto Noll depois de sua bem sucedida experiência com o conto O Cego e a Dançarina (1980), contatamos surgir diversos aspectos que o colocam dentro de uma literatura do meio, do entre, do não- lugar, do intervalo, de uma identidade difícil de ser apreendida pelo leitor em sua totalidade. Tal dificuldade surge a partir de uma indefinição do próprio gênero narrativo, expandido-se para além da linguagem escrita e de um trato com a palavra enquanto produto e produção advindos da necessidade de doar ação à palavra e sentido (paladar, olfato, visão, audição, tato) ao mundo e às coisas. “Dar sentido”, aqui, significa entrar nas camadas dos próprios sentidos que o livro propõe como forma de atuação e performatividade do corpo, espaço primeiro de comunicação.
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"Variae Medeae": a recepção da 'fabula' de Medeia pela literatura latina: a recepção da fabula de Medeia pela literatura latina

"Variae Medeae": a recepção da 'fabula' de Medeia pela literatura latina: a recepção da fabula de Medeia pela literatura latina

mitologia fundacional romana, que ao menos desde Névio pusera Dido no caminho de Eneias para anunciar as Guerras Púnicas. Ademais, a possibilidade de leitura metafórica do episódio de Dido por meio do viés histórico da aliança entre Cleópatra e Marco Antônio 376 parece evidenciar-se na preocupação que Virgílio demonstrou em descrever o contraste entre as uniões legítimas e as ilegítimas – consideradas assim aquelas movidas pela paixão, como se destaca nos episódios de Dido, sempre angustiada por descumprir as promessas de fidelidade que fizera ao finado marido Siqueu 377 . Recorde-se, ademais, a promulgação da lex iulia de maritandis ordinibus e da lex iulia de adulteriis coercendis, entre 18 e 17 a.C., com o fito moralizante de coerção dos adultérios, de incentivo à natalidade e de proibição dos casamentos entre membros de classes sociais distintas, quando o matrimônio se tornou um dever para com o Estado, transformando o adultério um crime público, não mais sob a jurisdição do paterfamilias, mas sob a esfera pública 378 . Desse modo, a reprimenda feita a Eneias por Mercúrio, que o admoestou a deixar as roupas tírias e a espada de pedrarias que lhe dera a rainha de Cartago para de pronto ir ao mar e cumprir sua divina missão de ir fundar a nova Troia 379 , parece repetir o reproche feito a Marco Antônio por Roma, que o viu abandonar seus deveres cívicos para entregar-se ao gozo desmedido e à paixão deletéria da rainha estrangeira, cada vez mais caracterizada literariamente como uma mulher devassa e aliciadora. Dido tornou-se também o suporte para o anúncio augustano do perigo existente para aqueles que deixavam a força da paixão suplantar os deveres da pietas e a virtude cívica – atributos últimos da romanitas encarnada inteiramente em Eneias. Tal entendimento pode ser inferido pontualmente na fala de despedida do herói, quando este se desculpou com a rainha cartaginesa pela partida, ao afirmar que seu amor estava onde estava a pátria – hic amor, haec patria est 380 ; do mesmo modo,
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Análise de uma experiência no Carro-Biblioteca da Escola de Biblioteconomia/UFMG com textos de Cordel :: Brapci ::

Análise de uma experiência no Carro-Biblioteca da Escola de Biblioteconomia/UFMG com textos de Cordel :: Brapci ::

vista com leitores do carro-biblioteca na região perife rica de Belo Horizonte, observando'os seguintes aspec tos: recepção do folheto e sua aceitação, tendo como po lo de leitura, o lei[r]

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Degradação ambiental no socialismo e no capitalismo — Outubro Revista

Degradação ambiental no socialismo e no capitalismo — Outubro Revista

As leis do mercado comandam a economia capitalista. Isto significa que depredar ou contaminar a natureza supõe um benefício econômico para o responsável. Quando um processo econômico p[r]

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EFICÁCIA ESCOLAR E LIDERANÇA PEDAGÓGICA DOS DIRETORES ESCOLARES DA REDE MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE BELO HORIZONTE NO CONTEXTO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA – Mestrado em Gestão e Avaliação da Educação Pública

EFICÁCIA ESCOLAR E LIDERANÇA PEDAGÓGICA DOS DIRETORES ESCOLARES DA REDE MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE BELO HORIZONTE NO CONTEXTO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA – Mestrado em Gestão e Avaliação da Educação Pública

Perfil da E. M. Carlos Drummond de Andrade (EMCDA): situada em Belo Horizonte, na Regional Venda Nova, a escola possui 10 turmas de 25 alunos por turno do 3º Ciclo, correspondente ao sétimo, oitavo e nono ano do Ensino Fundamental, num total de 20 turmas e 519 alunos no turno diurno. No noturno, a escola possui o funcionamento de sete turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), num total de 219 matrículas. É considerada uma escola referência na Rede Municipal de Educação, devido ao trabalho pedagógico consistente de sua equipe e de direções bem avaliadas. Possui indicadores pedagógicos acima da média do Município, conforme demonstrado pelo IDEB e nos resultados do AVALIA BH. No entanto, o seu bom desempenho é também um grande desafio para a gestão pedagógica, pois apesar de apresentar um aumento constante no IDEB, a escola não consegue alcançar as metas propostas pelo MEC. Estas características da escola tornam a escolha da sua gestora bastante significativa para a aplicação do instrumento. A seguir, os dados do IDEB e do AVALIA BH, edição de 2011, em Língua Portuguesa e Matemática no 9º Ano, por níveis percentuais e padrão de desempenho.
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Interculturalidade e o ensino de alemão como língua estrangeira.

Interculturalidade e o ensino de alemão como língua estrangeira.

Se o leitor e o seu universo cultural específico não podem ser dissociados da compreensão dos enunciados, parece-nos pertinente refletir sobre o diálogo cultural que os leitores brasileiros estabelecem com textos de língua alemã e as dificuldades provenientes deste diálogo. Dornbusch, ao propor uma nova perspectiva de ensino de Literatura Alemã no Brasil, destaca a dificuldade de compreensão do leitor/estudante/brasileiro no campo da ficção. Segundo a autora: “O elemento estranho deve existir num certo grau, subvertendo o sacralizado, focalizando o já conhecido de forma dife- rente, produzindo distância crítica. Aquilo que me é completamente estra- nho no sentido de alheio, não produz empatia, impossibilitando o diálogo” (1997, p. 16). Desta forma, dificulta a formação de sentido e de consciên- cia da alteridade pela ausência de uma mediação cultural-pedagógica mais adequada.
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O campo e a cidade na literatura brasileira   Luiz Ricardo Leitão

O campo e a cidade na literatura brasileira Luiz Ricardo Leitão

Após a derrocada da república Velha e da política do ‘café com leite’ imposta pelas oligarquias de minas gerais e São paulo, o advento de um ciclo regionalista em nossa prosa de ficção é um fenômeno emblemático. o sucesso dos escritores nordestinos nos anos 30, em plena era de expansão monopolista do capitalismo brasileiro (cujo principal centro de acumulação era a burguesia agroindustrial pau- lista), é digno de nota. A literatura, a seu modo, não apenas pressagia como também influi sobre a marcha da modernização sem ruptura: fora da órbita cosmopolita dos bandeirantes, articula-se uma ampla frente do romance regionalista (de linguagem mais convencional, porém permeado por sopros de renovação estética e temas de grande interesse social, como nos evidencia a obra de graciliano ramos), que impõe outro ritmo à saga da modernidade brasileira. e assim, sob a cadência lenta e inexorável dessa metamorfose “prussiana”, é possível empreender uma reflexão acerca da decadência da velha ordem oligárquica, como faz José lins do rego em Fogo morto (1943), antes de chegarmos ao novo ciclo de industrialização dos anos 50-60, quando o pós-modernismo, seja na prosa única de guimarães rosa ou na poesia lapidada de João cabral de melo neto, se ocupará de reinterpretar o urbano e o agrário no imaginário coletivo nacional. repassemos, pois, essas três estações do Modernismo, valendo-nos dos textos preciosos de seus mestres.
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Abordagem, Diagnóstico e Tratamento da Ferropénia no Adulto – Normas de Orientação Clínica

Abordagem, Diagnóstico e Tratamento da Ferropénia no Adulto – Normas de Orientação Clínica

1) Ocorre quando as reservas de ferro existem mas este não é libertado para a eritropoiese, como na anemia de doença crónica por doença inflamatória ou neoplásica e insuf[r]

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"Loucura do povo e loucura da burguesia". Baudelaire: ator, poeta e juiz da revolução de 1848

"Loucura do povo e loucura da burguesia". Baudelaire: ator, poeta e juiz da revolução de 1848

XX o refrão serviria de palavra de ordem para aquilo que Walter Benjamin deno- minaria a recepção conformista de Baudelaire. Eu diria que ele serviu de chave de leitura não apenas para biografia de Baudelaire, mas igualmente para sua obra e para a história da boêmia de 1848 como um todo. Ao dizer “recepção conformis- ta”, não me refiro apenas à recepção do público conservador, penso também na leitura que a maior parte dos intelectuais de esquerda, a começar por Aragon e Sartre, fez da obra de Baudelaire. Sartre não conferiu tanta importância a esta ane- dota quanto o editor das obras de Baudelaire na Bibliothèque de la Pléiade, ninguém menos que Claude Pichois, o mesmo que, em sua biografia do poeta, intitulou o capítulo sobre a Revolução: “É preciso fuzilar o general Aupick!”, 3 O fato de Bau-
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Viviane Capoane Geógrafa e Mestre em Ciência do Solo pela Universidade Federal de Santa Maria, Doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Paraná. e-mail: capoanegmail.com Danilo Rheinheimer dos Santos Professor Associado II do Departamento de Solo

Viviane Capoane Geógrafa e Mestre em Ciência do Solo pela Universidade Federal de Santa Maria, Doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Paraná. e-mail: capoanegmail.com Danilo Rheinheimer dos Santos Professor Associado II do Departamento de Solo

O assentamento Alvorada foi implantado em um ecossistema bastante vulnerável e como desde a sua implantação não houve a preocupação com o manejo dos recursos naturais, or[r]

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