CAPÍTULO 3 Cor, sangue e procedimento: os rejeitados no Santo Ofício em razão do
3.5 Ímpetos normativos e vontade de esquecimento
A análise das habilitações recusadas em virtude da ocorrência de ascendência ou descendência notada de sangue africano revela aspectos fundamentais para a compreensão da atuação do Santo Ofício frente às candidaturas de postulantes marcados pelo universo da escravidão, bem como de seu papel como instituição normatizadora na sociedade portuguesa. Além disso, permite ainda dimensionar o que a busca pela insígnia inquisitorial representava para a realidade social dos candidatos que tinham em seu passado genealógico, ou em suas escolhas contingenciais, o estigma do mulatismo.
Como se sabe, no caso dos descendentes de judeus e mouros, os preceitos da política de recrutamento de agentes usados pelo Santo Ofício endossaram e propagaram a desigualdade pelo nascimento e a exclusão pelo sangue previstos nos estatutos de limpeza de sangue que vigoravam na Península Ibérica desde os séculos XV e XVI. A nódoa de sangue mulato, porém, seria incorporada às políticas régias via decreto publicado em 1671. No entanto, assim como nas políticas de recrutamento de outras instituições, nas análises inquisitoriais sobre o passado genealógico de candidatos mulatos a limpeza sanguínea não teve o mesmo peso que teria para cristãos-novos. Antes de tudo, isso se daria porque a nota de sangue africano poderia se dissipar ao longo das renovações geracionais. Depois, porque o uso de critérios morais, tendo a observação da fisionomia como estratégia de verificação da ocorrência da nota de sangue, atuaria de forma mais determinante na aceitação ou recusa da habilitação de descendentes de africanos escravizados. A hipótese explicativa para isso parece ser a aguda preocupação que tinha o Santo Ofício com sua reputação e prestígio junto à sociedade, levando sempre em conta o risco de ter sua imagem arranhada ao nomear um candidato que não inspirasse os ideais de pureza e autoridade que vigoravam e que ele próprio procurava emanar.
Com base nestes fundamentos e em seus desdobramentos, a Inquisição negou provimento a candidatos que tinham antepassados escravizados, aos que possuíam feições mulatas, aos que tinham relações matrimoniais com mulheres com estes mesmos traços ou tocadas pela servidão, e ainda àqueles que tivessem filhos ilegítimos não brancos. Dessa maneira, a forma como o Santo Ofício lidou com a pecha de sangue africano ancorou-se nos valores que alicerçavam as sociedades escravistas. Daí a condenação da mestiçagem – fosse em nível geracional ascendente (dentro do 4º grau) ou descendente –, típica dos ideais de pureza de sangue e da honra da época. Daí também o apego aos aspectos morais associados aos mestiços e o desprezo pelos que de alguma maneira eram marcados pela escravidão.
No entanto, ao mesmo tempo, o fato de haver debates e dissensos entre avaliadores e instâncias avaliativas na hora de ajuizar o provimento ou recusa da insígnia inquisitorial a um candidato mostra que o Tribunal do Santo Ofício, ainda que fosse uma instituição com relevante poder regulador na dinâmica da mobilidade social lusitana, naturalmente fundamentado em ideais conservadores e normativos, não esteve imune às transformações e pressões políticas de seu tempo. Diferentes casos aqui analisados revelam certa preocupação daqueles que periciavam as provanças, sobretudo dos inquisidores das mesas dos tribunais distritais, de não adotar absoluta rigidez para com os descendentes de mulatos, pois isso implicaria em consequências negativas numa sociedade que, no alvorecer dos Setecentos, tornava-se cada vez mais complexa, sofrendo mudanças demográficas e nas bases de seu processo de estratificação. Assim, o exercício de regulação da sedimentação social promovido pelo tribunal foi, frente ao desejo de ascensão dos mulatos e seus descendentes, frequentemente permeado pela consciência de alguns setores da instituição de que era necessário absorver e acomodar minimamente as demandas de acesso a patamares de distinção empreendidos por descendentes de africanos escravizados, abrindo exceções contingenciais quando se tratasse de casos que apresentassem baixos riscos à imagem do tribunal. Tal circunstância parece explicar a aprovação de alguns mulatos a cargos inquisitoriais, como os exemplos apresentados por Olival e Figueroa-Rego301. Em muitas
outras ocasiões, os descendentes de africanos não teriam a mesma sorte, como se viu ao longo deste capítulo. Ainda assim, nestes casos, por mais que ao final dos trâmites fosse deliberada a rejeição por parte do Conselho Geral, instância derradeira da tramitação das petições, a pressão por acesso à insígnia por parte dos notados de mulatismo claramente se fez sentir nas
mesas dos tribunais distritais desde fins do século XVII e teria efeitos políticos reais no último terço do século XVIII, como se verá mais adiante.
A respeito do perfil dos habilitandos rejeitados por mulatismo, vale destacar que, via de regra, os candidatos com nota de mulatismo que requisitaram habilitações do Santo Ofício foram homens que, de alguma maneira, já haviam minimamente adentrado a porta do universo social branco e livre. Levando-se em conta suas posições sociais e os ofícios declarados no momento de suas petições, estes postulantes a agentes inquisitoriais parecem ter engendrado, até aquele momento de suas vidas, alguma acomodação nos espaços de poder a nível local. Aspirantes a comissários ou familiares ligados ao universo mercantil, eclesiástico ou militar, homens de ofícios fabris ou de algum letramento, buscaram na insígnia inquisitorial um reconhecimento de maior lastro e autoridade para consolidarem suas posições alcançadas. Na maior parte dos casos, a nota de sangue mulato estaria distante duas ou três gerações, evidenciando a paulatina gradação das qualidades, comum no universo mestiço302, e levando a crer que a busca de acesso a cargos inquisitoriais por parte de descendentes de africanos representou um ambicioso passo na consolidação do processo de “branqueamento” – processo marcado pelo esforço de ultrapassar definitivamente a memória do cativeiro presente em seu passado familiar, de desvanecer alguma infâmia ainda persistente e, principalmente, de reagir aos constrangimentos da discriminação social institucionalizada. Em suma, almejaram servir ao Santo Ofício para rechaçar a exclusão que a nota de mulatismo gerava e assim adentrar o “estado do meio”, como já anunciara Isabel Drumond Braga303. As
dezenas de casos que fundamentaram a presente análise têm em comum o fracasso nesta empreitada.
Assim, buscou-se demonstrar aqui que no exercício de classificação social empreendido pelo Tribunal do Santo Ofício o centro de poder decisório não tratou todas os impeditivos da mesma maneira. No caso da ocorrência de sangue africano, existiu uma paleta composta por múltiplos critérios que a instituição utilizou para vetar o acesso à carreira inquisitorial e, consequentemente, frear a paulatina ascensão das camadas de mulatos e pardos aos grupos intermediários em diferentes espaços do império. Pelo outro vértice de análise, percebeu-se, na busca das insígnias inquisitoriais por parte de descendentes de africanos, o esforço de esclarecer – ou encobrir – os rumores da ocorrência de mulatismo que a voz
302 SILVEIRA, Marco Antônio. Op. Cit. FURTADO, Júnia Ferreira. “O retorno como missão: o mulato Cipriano Pires Sardinha e a viagem ao Daomé”. Anais Eletrônicos do 14º Seminário Nacional de História da Ciência e da
Tecnologia. Belo Horizonte: UFMG, 2014.
pública lhes imputava, estimulado pela necessidade de suprimir e apagar da memória social as marcas do cativeiro e de uma presumida imoralidade indicada pela cor, tão constrangedoras frente à violência do discurso normativo da época.
Identificados os meandros procedimentais do Santo Ofício para empreender a rejeição, bem como os principais enredos das candidaturas de cristãos-novos e mulatos ao longo do período de maior poder e autonomia da instituição, cabe perguntar: até quando a capacidade classificatória do Santo Ofício amparou-se nestes procedimentos de veto? As normativas da rejeição mudariam depois que a Inquisição foi elevado a condição de tribunal régio em 1769? Os candidatos obstruídos teriam diferente sorte após as transformações políticas ocorridas no chamado período pombalino? Estas são algumas das questões que o próximo capítulo buscará responder.
CAPÍTULO 4 - Inquisição e regalismo: a (re)avaliação de candidaturas frustradas