2 CONDIÇÃO PÓS-MODERNA E FIM DA MODERNIDADE: O ITINERÁRIO
2.5 A pós-modernidade “de” Vattimo
2.5.1 Überwindung e Verwindung: ultrapassamento e convalescença
Como, então, se daria a passagem da modernidade à pós-modernidade para nosso Vattimo? De saída, ele argumenta que a modernidade não pode ser superada criticamente, porque é propriamente esta categoria de novidade e superação crítica que constitui o pensamento moderno. Sendo assim, ele admite não ser possível sair da modernidade, nem da metafísica, pela simples via da superação (Überwindung)94 ou da mera crítica, pois isto ainda
implicaria a permanência no horizonte moderno e fundacional. Por isso, a atitude com relação ao metarrelato moderno deve ser a da convalescência: sofremos os efeitos de sua presença passada, mas ainda não nos recuperamos o suficiente para poder contribuir como algo novo e alternativo.
O pós-moderno compreendido por Vattimo carregaria uma espécie de manutenção de vínculo com o moderno, em termos de aceitação-distorção, a um só tempo, trazendo em si as “marcas” da modernidade. Se transformarmos esta declaração em uma imagem, de uma maneira bem rudimentar, poderíamos ilustrar com o seguinte: não se trata de pôr de lado ou apartar algo, como quem pretende apagar um erro ou jogar fora uma roupa velha (este é o sentido de Überwindung), mas a alegoria aqui estaria próxima da de alguém que carrega em seu corpo os sinais de uma enfermidade por que passou e da qual ainda segue convalescendo (eis aqui a Verwindung)95. Por isso, o pensamento pós-moderno não chega abandonar por
92 VATTIMO, Gianni. Nihilismo y emancipación, p. 69. 93 VATTIMO, Gianni. A sociedade transparente, p. 8.
94 Apenas como adiantamento podemos dizer que com termo Überwindung Vattimo faz alusão às intenções
heideggerianas de quem carrega grande influência em sua teorização, conjuntamente com Nietzsche. Vattimo emprega este termo em certo sentido semelhante àquele de aufhebung, para indicar uma superação ou supressão dialética de um estado em relação ao outro. O termo que Vattimo se vai utilizar para confrontar a Überwindung será Verwindung, querendo indicar uma relação “de aceitação, de continuação, de (dis-)torção” (VATTIMO, Gianni. Para além da interpretação: o significado da hermenêutica para a filosofia [1994]. Trad. br. Raquel Paiva, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999, p. 81). Mais adiante trataremos detidamente esta questão.
95 Esta ideia está bem comentada na nota n.º 14 do capítulo IV (Religião) em VATTIMO, Gianni. Para além da
interpretação, p. 87: “É o termo que Heidegger utiliza para indicar a relação a relação que, para ele, o
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completo o moderno, como dissemos, mas também já não está mais “preso” a estes seus discursos. Vattimo compreende esta relação ainda com outro vocábulo alemão: An-denken, isto é, a relação entre um e outro momento do pensamento (moderno e pós-moderno) está baseada na re-memoração do ser que, a exemplo da Verwindung, é a atitude dis-torcionante em relação aos discursos herdados, transmitidos96 pela metafísica.
a metafísica não pode ser objeto de uma superação, como se fosse um erro do qual nos libertamos mediante a crítica, (...) a modernidade não pode ser superada
criticamente, porque justamente a categoria de superação crítica lhe é constitutiva;
não se pode sair da modernidade – ou da metafísica – através da via da superação – ou da crítica –, porque isto significaria permanecer precisamente dentro do horizonte moderno, da fundação, do historicismo97.
Vemos, portanto, que esta característica do pensamento moderno, a saber, aquele “em que dominam as categorias de novidade e de superação”98, já não se sustenta, uma vez
que tal noção de superação (Überwindung) indicaria uma substituição de uma verdade por outra “mais verdadeira” e, como nos indica o pensamento pós-moderno, a Überwindung acaba cedendo espaço para a Verwindung99, ou seja, para a aceitação-distorção. Esta noção
retirada de Heidegger pretende substituir aquelas pretensões da modernidade de estabelecer o novo sucede a outro novo e assim continuamente. Com isso, a Verwindung não carrega a pretensão de uma superação por algo mais novo e mais forte que o estágio anterior. Desse
então, ‘superada’ (überwünden); mas, por não se tratar de corrigir o erro da metafísica com uma visão mais objetivamente verdadeira de como as coisas são, a saída da metafísica se mostra mais complicada. (...). O que podemos fazer para ‘sair’ do esquecimento metafísico do ser é apenas uma Verwindung: termo que, mantendo um nexo liberal com a überwünden, superar, significa, porém, no uso comum: convalescer de uma doença, conservando-lhe, porém, os traços, resignar-se de alguma coisa”. Adicionamos, ainda, a contribuição de Dario Antiseri (1993) sobre esta terminologia em que ele defende que a “Verwindung é o modo no qual o pensamento pensa a realidade do ser entendido como Ueber-lieferung e Ge-schick. Neste sentido, é sinônimo de An-denken” (ANTISERI, Dario. Le ragioni del pensiero debole, p. 12).
96 Outro vocábulo muito caro a Vattimo e que também importa do sentido alemão Überlieferung. Indicando que
o ser se dá, se transmite. Liga-se a outra noção de que é esta transmissão o destino (Geschick) do ser. Este termo pretende indicar o caráter do Ser como evento e que se envia e é também enviado. A forma Geschick representa este envio-destino do ser entendido como mensagem que se transmite a partir da tradição da qual é proveniente.
97 “la metafisica non può essere oggetto di un superamento, come se fosse un errore di cui liberiamo mediante la
critica, (...), la modernità non può esser superata criticamente, giacché proprio la categoria del superamento critico la costituisce; non si può uscire dalla modernità – o dalla metafisica – attraverso la vi del superamento per l´appunto nell´orizzonte moderno, della fondazione, dello storicismo” (VATTIMO, Gianni. Etica
dell´interpretazione, p. 18. Tradução nossa).
98 VATTIMO, Gianni. O fim da Modernidade, p. 10.
99 A primeira vez em que Vattimo se apropria deste termo é em um texto de 1980: As aventuras da diferença. Lá
encontramos a dicção: “Esta complexidade manifesta-se, por exemplo, no texto sobre a Ueberwindung der
Metaphysik, onde a aproximação dos termos Ueberwindung e Verwindung alude ao fato de que a metafisica, na
realidade, não se pode superar verdadeiramente. E isto não só no sentido de que não é algo que se ‘deixe pôr de parte como uma opinião”, mas também, e principalmente, na medida em que a ‘metafísica, uma vez ultrapassada, não desaparece. Regressa sob uma outra forma e mantém o seu domínio como distinção permanente do ser em relação ao ente” (VATTIMO, Gianni. As aventuras da diferença [1980]. Trad. port. José Eduardo Rodil, Lisboa: Edições 70, 1988 (Biblioteca de filosofia contemporânea, v. 6), p. 122).
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modo, a “novidade” – se podemos falar assim, mas sem aquela ênfase a que nos referimos – da pós-modernidade está na noção de uma “dissolução da categoria do novo, como experiência de ‘fim da história’”100. Finalizamos este tópico com a citação preciosa de um
texto retirado de La transestética postmoderna (2003) da venezuelana Margot Römer (1938- 2005), neste, que é um de seus últimos textos encontramos:
Vattimo (1991) aceita, como característica comum da pós-modernidade, a afirmação constante acerca do fim da história, ao qual alguns colocam um tom apocalíptico, sobretudo, diz ele, quando o asseveram as esquerdas. Assim, o tema surge, às vezes como negação polêmica, como é o caso de Habermas e, outras, como alternativa positiva, que seria o caso de Lyotard. (...). Ambos desconfiam dos metarrelatos e da guia dos intelectuais101.