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Ação Escalar do Discurso: Local, Nacional e Global

DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL NAS ONDAS DO RÁDIO ∗

3. Ação Escalar do Discurso: Local, Nacional e Global

No que diz respeito à interpretação dos vários discursos que circulam na sociedade, é preciso atenção, pois, no interior de uma fonte jornalística se pode deparar com um discurso e este pode estar relacionado com outro discurso. No entanto, pode ser apenas um reflexo, pois

[...] os combates não carregam mais as armas de idéias ofensivas ou defensivas. Avançam camuflados em fatos, em dados e acontecimentos. Apresentam-se como mensageiros de um “real”. Sua atitude assume a cor do terreno econômico e social. Quando avançam, o próprio terreno parece que também avança. Mas, de fato, eles o fabricam, simulam-no, usam-no como máscara, atribuem a si o crédito dele, criam assim a cena de sua lei (CERTEAU, 1996, p. 287).

No trabalho ora elaborado, os programas jornalísticos são fontes, mas também são discursos estruturados de tal forma que se apresentam aos ouvidos do público em diferentes

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Ao propor um trabalho com fontes jornalísticas, faz-se necessário destacar que, em várias circunstâncias, o jornalista despreza acontecimentos e, muitas vezes, por imposição política, omite fatos relevantes, sendo que estes silêncios são de grande utilidade para o geógrafo. Nesse sentido, as fontes jornalísticas abrem um imenso leque de lacunas a serem preenchidas, abrindo caminho para novos debates. Por esse motivo, entende-se que o geógrafo deva lutar contra as amarras das receitas prontas e isto sinaliza para a idéia de que:

[...] o entendimento real de um discurso noticioso depende não apenas de sua estrutura manifesta mas também das estratégias de interpretação e representação. Em outras palavras, a estrutura do discurso noticioso é, no final, aquela que é dada ao texto pelo espectador, o conjunto de expectativas que o espectador possui antes mesmo de consumi-lo (SILVA, 1985, p. 36).

A estrutura jornalística representada pelo discurso noticioso cria e recria, no ouvinte, as circunstâncias apropriadas para o consumo e a aplicabilidade da mensagem. As ações interferem na opinião do ouvinte, sugerindo ao mesmo a atenção para as falas da administração pública. De forma especial, a atenção do público é direcionada para o “aprendizado” que as palestras fornecem.

Na nossa carreira de jornalista da imprensa falada, procuramos todas as formas de colaboração à autoridade, colaboração esta que inclui sugestões, que poderão ser aceitas ou não, ou mesmo modificadas para aprimorar. As sugestões são frutos de nossas observações pessoais ou de palestra com nossos amigos que nos visitam diariamente (RADIO DIFUSORA, v. 9, 20.05.70 a 30.09.70).

O que se ouviu como justificativa desenvolvimentista é um processo produzido por discursos voltados à região, como também, em certo sentido, a todo o país, reunindo argumentos necessários para afirmar ou reafirmar a integração regional. É a partir deste arsenal discursivo que movimentos como a Marcha para o Oeste contribuíram, com o objetivo de integrar regiões no contexto do desenvolvimento nacional.

Os discursos de Getúlio Vargas, integrados ao programa do Estado Novo, justificam o desenvolvimento brasileiro através da ampliação das fronteiras para o Oeste. No que se refere aos projetos de ocupação e integração regional – como o reforço à modernização agrícola ideologicamente sustentado pelos discursos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek –, pode-se dizer que o governo deste último foi marcado pelos planos ambiciosos, representados pelo slogan “Cinqüenta anos de progresso em cinco de governo”. A política adotada pelo governo “JK” contemplou a construção de várias obras públicas, e, entre elas, tem destaque a nova capital federal. Sua política econômica – caracterizada por alguns como modernizadora e por outros como desnacionalizadora – forneceu elementos importantes para o quadro político da época e deu sustentabilidade às propostas desenvolvimentistas, alicerçadas no progresso e exaustivamente repetidas nos discursos da rádio local.

Com a queda de João Goulart, instaurou-se a ditadura comandada pelos militares. O reflexo da situação militar escreveu sua história, lançando mão do abuso de poder e controle da opinião pública, semeando o medo e abordando o direito de livre expressão. Difundiu-se, durante a ditadura, um modelo de desenvolvimento vinculado à tecnologia estrangeira, denominado “Milagre Brasileiro”. Com isso, pode-se conferir nos discursos jornalísticos a vasta presença de falas que

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enfocam o progresso e o desenvolvimento, encaminhando a população para o consumo. Um dos recursos amplamente utilizados para isto foi o rádio. Dessa maneira, a difusão de valores tornou-se uma tarefa de certa forma fácil, pois o poder público tinha o controle dos meios de comunicação.

Inseridos neste processo, os programas da rádio local manifestam “preocupações” referentes ao desenvolvimento do município de Marechal Cândido Rondon. Isso não impede pensar que durante o processo de implantação da modernização, este tenha estimulado alguns elementos que se assemelhavam pela mesma visão de realidade, sugerindo problemas e soluções, a partir de denominadores comuns. Com as mensagens veiculadas, passam a ser balizados temas considerados significativos para o debate. Nesse caso, remontando o contexto histórico das programações, cabe identificar as relações entre imprensa e poder: a “simpatia política” entre donos de emissoras de rádio e determinadas formas políticas pode ser o alicerce para a divulgação de certas notícias. Como exemplo, tem-se o caso de jornalistas que passaram a exercer a liderança inscrita em cargos de prefeito ou de deputado estadual e/ou federal.

A ação de proprietários da Rádio culminou com a equação do processo, caracterizado pela dinâmica política que cercou e ainda cerca as emissoras de rádio no município. Atualmente, as duas emissoras (Rádio Difusora e Rádio Educadora) lideram movimentos políticos estratégicos que representam grupos opositores. Mas, a soma dos acontecimentos presentes nas programações analisadas, apresenta uma romaria de proprietários, pois, todos de certa forma, estão identificados com alguma representação política.

O vínculo com a política ocorreu durante a administração das emissoras, pois estas lançaram as bases para carreiras políticas, após o estabelecimento de uma rede de comunicações com a comunidade. O entendimento do processo vai ordenando os objetivos dos administradores das emissoras, tendo como resultado as manifestações favoráveis à estruturação da modernização em Marechal Cândido Rondon.

[...] No estágio de um mundo regido pelos direitos e razão tecnológicos, os meios de comunicação transformam-se em agentes dotados de força própria e suplantam as

forças naturais que eram o mito de uma sociedade sacral e mítica. Este

distanciamento permite à classe dominante abandonar e disfarçar seu papel de possuidor monopolístico desse aparato ideológico, e, por conseguinte, pode assumir o direito de denunciar a influência perniciosa e desagregadora ou o conteúdo vulgar,

violento ou pornográfico das notícias de rádio, da TV, ou do cinema, escudando-se,

dessa maneira, por detrás de seu próprio moralismo (GUARESCHI, 1985, p. 18, grifos do autor).

As mensagens jornalísticas disfarçam seu papel ideológico, situando-se diante do público como atores moralistas, por detrás das cortinas de seus interesses particulares. Na passagem do dia das comunicações, o Prefeito Municipal, na ocasião, Almiro Bauermann, destacou a participação dos comunicadores e seu incentivo ao “progresso”, considerado como realização e satisfação do ser humano.

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edificantes que a comunicação nos trás. Pelo progresso e pelo desenvolvimento que os meios de comunicação, rádio, televisão, telefone, jornal e outros, nos trazem (RADIO DIFUSORA, v. 35, 29.04.77 a 11.06.77).

Como se pode identificar neste trecho, é através do discurso do desenvolvimento que são criadas expectativas junto aos agricultores, a partir das quais estes poderão atingir o “progresso”. Esse quadro indica que o:

[...] aspecto da mistificação dos meios de comunicação reside no caráter ideológico das mensagens que eles irradiam. A ideologia, como um sistema de representações, é inseparável da experiência vivencial cotidiana dos indivíduos. Dizer isso significa afirmar que a ideologia impregna os hábitos, desejos, reflexos das pessoas; significa, também, afirmar que a grande maioria das pessoas atravessa a vida sem, talvez, nunca se dar conta dos verdadeiros fundamentos dessas representações (GUARESCHI, 1985, p. 19).

Os programas são direcionados para aqueles valores prestigiados pelo público. Cabe observar que os agricultores do município de Marechal Cândido Rondon convivem com idéias e conceitos centrados no trabalho e na honestidade. Tal questão remete ao entendimento de como os discursos foram incorporados e interpretados pelos agricultores: esse apego ao trabalho e à honestidade representa terreno fértil para receber as sementes do “progresso”3.

UM PROGRAMA PARA OS AGRICULTORES

Os nossos amigos da colônia, recebem de nossa parte as mais carinhosas manifestações, e ao mesmo tempo levamos sempre uma nota que visa alertar nosso homem do campo sobre o que possa interessar diretamente a família rurícula. Neste informativo noticioso do final da semana, levamos ao conhecimento do agricultor um assunto de importância que estará em desfile pelos nossos microfones amanhã no espaço destinado ao programa ABC dos direitos do agricultor. Amanhã das 12 às 12:30, estará em nossa emissora o Dr. Ézio Bernardinis que falará sobre a nova lei do imposto de rendas do agricultor para o ano que vem. O assunto é importantíssimo para o qual se pede a especial atenção do nosso agricultor durante aquele espaço. Todo o colono de nossa região deverá ouvir aquele espaço, colhendo preciosas informações que serão prestadas pelo ilustre advogado Dr. Ézio que dará movimento ao programa que já citamos. A preciosidade das informações fez com que montássemos uma nota no sentido de alertar e amanhã nosso homem do campo poderá se inteirar sobre a matéria que tem muito respeito para com as suas lidas pelo setor agrícola (RADIO DIFUSORA, v. 7, 25.08.69 a 31.12.69).

Ao apresentar a programação, as falas utilizam-se de termos carinhosos, tais como “nossos amigos da colônia”, “alertar nosso homem do campo”, “família rurícula”, um discurso estabelecido na credibilidade, destacando a importância que os agricultores devem dar ao espaço e às informações sobre o imposto de renda. A pretensão do discurso em transmitir comunicados importantes ao ouvinte, assegura a recepção desejada através do uso de argumentos, como a confiança entre agricultores e os representantes da programação, reforçando os laços da comunicação. “[...] No momento da recepção, o confronto volta a ocorrer e se dá através das diferentes interpretações e reelaborações que cada segmento social dará ao que vir e ouvir” (SILVA, 1985, p. 21).

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Alguns autores alertam para as trilhas ideológicas presentes em muitos dos meios de comunicação de massa. Isto faz com que:

[...] constatem-se alguns aspectos até mesmo prejudiciais desse grande desenvolvimento das comunicações. Alguns teóricos da comunicação de massa são até bastante reticentes quanto a essa questão. Segundo eles, essa eficiência da comunicação teria sido, ou pode ser, usada em alguns países, com objetivos ideológicos (CALDAS, 1991, p. 55).

O objetivo é oferecer aos ouvintes informações que lhes permitam compreender o processo de modernização, transmitido como transformação “necessária”, sem apontar para os possíveis problemas.

[...] esses veículos, em última instancia, são altamente responsáveis pela formação da opinião pública. O gosto, o comportamento, os anseios, a visão de mundo, o juízo de valor, são alguns dos aspectos onde esse sistema influenciará. Noutras palavras: os veículos de comunicação de massa, se quiserem, têm um poder suficiente grande para destruir num curto prazo de tempo a imagem de um ídolo popular. Seja da política, da canção, dos esportes, ou qualquer outra atividade profissional. A recíproca, porém, é verdadeira. Eles podem, nesse mesmo espaço de tempo, transformar uma pessoa anônima num ídolo de projeção nacional. Só para lembrar rapidamente: a jovem atriz Cláudia Raya, desconhecida do grande público até recentemente, hoje é um sucesso nacional. Mas as duas coisas também podem acontecer ao mesmo tempo: esse ídolo pode aparecer e desaparecer na mesma velocidade (CALDAS, 1991, p. 83-84).

A perspectiva de inserção de anseios junto à opinião pública, manifestada nas palavras dos meios de comunicação de massa, garante a estes veículos poder suficiente para intervir no seu tempo. Este poder é reconhecido por aqueles que fazem destes meios o canal, através do qual, atingem seus ouvintes. Isto pode ser identificado na homenagem do Diretor Regional do Dentel de Curitiba, ao reportar-se ao dia das comunicações, caracterizando as telecomunicações como algo perigoso, capaz de estimular ações indesejadas e, por este motivo, caberia ao ouvinte estar atento ao papel que desempenha o governo no controle das programações, tendo em vista a necessidade de manutenção dos princípios morais e éticos. O teor do comunicado remete à responsabilidade político- social, inscrita na dinâmica social formada e manifestada nas expressões “indissociabilidade entre práticas do poder político e a falsa moralidade que esconde os desejos ideológicos do “grupo oficial que fala em nome de todos”: “sendo as telecomunicações uma arma de dois gumes, de posse de uma [...] transmissora, qualquer um poderá tornar-se um disseminador de [...] estimulantes de vícios, tóxicos, subversão ou terrorismo” (RADIO DIFUSORA - FRENTE AMPLA DE NOTÍCIAS, v. 26, 23.03.76 a 17.05.76).

Jogando um pouco de luz sobre a questão da modernização, é preciso investigar, a partir das particularidades da agricultura regional, as condições históricas e discursivas, através das quais, tal processo é implementado. Pode-se indicar que os elementos que constituem tal processo se configuram através da pretensão à universalidade:

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Inseridos nesse contexto, cabe aos pesquisadores observar e ter clareza de que o jornal, a revista e em especial o rádio, podem ser entendidos como falas que se cristalizam no ruído do tempo. Assim, navegar nas ondas do rádio fornece ao pesquisador uma viagem no tempo, na qual se encontram registradas formas específicas de viver de cada comunidade.

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