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Quando um paciente se queixa de seu destino ou de seus pais, por que está se queixando? Qual o seu objetivo? Deseja que o outro sinta pena dele e que aja no seu lugar. Esse tipo de ação, no entanto, jamais conduzirá ao sucesso.

Também podemos lidar de outra forma com ele. Quando alguém, por exemplo, se queixa de seus pais e de seu destino, permitimos que nos conte tudo e ainda perguntamos: "O que aconteceu exatamente?" Ele nos contará tudo nos mínimos detalhes. Em seguida, dizemos: "Então, essa não foi uma oportunidade maravilhosa de se desvincular de seus pais e começar a realizar algo através de sua própria força? Se outra pessoa, que não passou pelas mesmas experiências que você tentasse realizar o mesmo, não seria capaz, pois lhe faltaria a força necessária." Assim, independentemente das experiências às quais alguém é submetido, elas sempre lhe darão forças para que possa crescer, caso realize algo a partir delas. Seja lá como tenha sido o passado de alguém, ele se transformará, através das ações baseadas na força que emerge.

Por isso, o ajudante sempre observa de que modo aquilo que o cliente revela pode contribuir para o seu crescimento, ajudando-o a agir de modo correto.

Quando um cliente prefere fixar-se em suas reclamações e acusações, não devemos trabalhar com ele. A maior ajuda que pode receber é quando alguém lhe diz: "Para mim isto é demasiadamente perigoso." Toda pessoa que se queixa ou reclama é perigosa. Isso nós podemos ver quando nos recusamos a trabalhar com ela. Ninguém consegue ficar mais agressivo. Por isso, tenham cautela.

Existem terapeutas que são acusados e atacados. Por quem? Por aqueles que eles decepcionaram, pois não fizeram o que desejavam e se vingam por isso. Sentem se bem quando acusam, pois agem, enfim, porém, não a seu favor.

Quando alguém ajuda de modo leviano no caso de questões de vida e morte, acreditando poder colocar-se acima do destino de um cliente, combater o mesmo com sucesso, corre um profundo perigo. Aqui ninguém pode brincar de ser Deus sem prejudicar o cliente e a si mesmo.

Temor

Fui acusado algumas vezes de dizer coisas muito ousadas que poderiam prejudicar o cliente.

Meu ponto de vista em relação a isso é um tanto radical. Nenhum terapeuta é capaz de prejudicar um cliente. Como poderia realizar tal empreendimento, a não ser que o matasse? Todos nós somos livres para fazer o que bem entendemos. Quando o cliente quer ser prejudicado, ou seja, quando age de um modo como se tivesse sido prejudicado, então esse é o seu desejo.

Porém, deseja isso de um modo específico, de um modo que o isenta da responsabilidade. Ao invés disso acusa o terapeuta. Mas olhando de perto, um terapeuta não é capaz de prejudicar um adulto. Se digo algo errado, todos têm a liberdade de ter um ponto de vista diferente.

No entanto, quando alguém age como eu, às vezes corre o perigo de ouvir: "Isso não está acontecendo, isso é impossível." Eles podem acusar o terapeuta de estar fazendo algo errado. Quando um ajudante cede diante desse temor, o que acontece com ele? Perde a clareza da percepção e não se pode mais confiar nele.

Uma das condições para este trabalho é deixar o temor para trás. Quem cede torna-se uma criança e o outro, do qual se sente medo, é transformado internamente por ele em pai ou mãe. Ser fiel à sua percepção e ter coragem de verbalizá-la exige força.

Verifiquem agora se perceberam algo diferente do que eu e se teriam tido coragem de dizer o que perceberam.

Mais algo: quando vamos até o limite máximo - e isso aqui foi um limite máximo - algo decisivo pode acontecer. Muitas coisas ocorrem apenas no limite máximo; apenas quando temos coragem de ir até o limite máximo, algo pode tomar um rumo melhor. Vencemos a guerra no limite máximo. Apenas no limite máximo.

A cautela

A nossa existência não é muito segura. Nada possui limites claros. Os limites são permeáveis e por vezes nós nos perdemos. A nossa estabilidade psíquica também é precária. As tentativas realizadas por alguns de transpor os seus limites psíquicos, através de drogas ou certos exercícios, por exemplo, são perigosas. Estamos mais seguros quando permanecemos no aqui e agora e nos alegramos com isso,

enquanto dura.

O rio

Fechem os olhos. Coloquem no chão aquilo que seguram, para que nada os distraia.

Agora centrem-se e exponham-se àquilo que emerge de seu centro e se revela para vocês. Olhem para isso, sem medo, sem desejos, simplesmente abertos tal como uma criança que olha para o mundo pela primeira vez. Uma criança que não sabe nada ainda sobre palavras e definições, que escuta um passarinho sem saber o nome do mesmo, uma criança que se encontra conectada com tudo de modo imediato.

A alma é como um rio. Entramos nesse rio e deixamos que ele nos leve. Não sabemos para onde flui e mesmo assim ele nos sustenta. Entregamo-nos a ele.

Se eu começar a trabalhar agora com casos isolados não estarei trabalhando apenas com eles, trabalho simultaneamente com todos vocês. Pois aquilo que emerge a partir do trabalho com eles, em termos da qualidade humana essencial, refere-se a todos nós. Toca nossa alma imediatamente. Nadamos com eles no rio da vida.

Ajudar de igual para igual