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O grupo familiar é dominado por uma ordem arcaica que aumenta a desgraça e o sofrimento, em vez de impedi-los. Pois, se algum sucessor, pressionado por um sentido cego de compensação, quiser posteriormente colocar em ordem algo que aconteceu a um antecessor, cria um ciclo vicioso e o mal não acabará mais. Esse tipo de ordem mantém sua força enquanto permanece inconsciente. Entretanto, quando vem à luz, podemos cumprir sua finalidade de outra forma e sem consequências funestas, pois efetivamente atuam outras ordens que, mesmo no que diz respeito ao equilíbrio, concedem aos membros mais novos os mesmos direitos dos mais antigos. A essas ordens eu chamo ordens do amor. Em contraposição ao amor cego, que procura compensar o mal com o mal, esse amor

é sábio. Ele compensa de forma curativa e, através de boas ações, põe um fim nos acontecimentos nefastos.

Ilustrarei isso com alguns exemplos, começando com as frases: "Eu sigo você" e "Antes eu do que você".

Quando alguém diz interiormente essas frases, sugiro que as diga diretamente para a pessoa que deseja seguir ou em cujo lugar está disposto a sofrer, expiar ou morrer. Quando ele realmente olha essa pessoa nos olhos, não é mais capaz de dizer essas frases. Percebe que ela também o ama e recusaria seu sacrifício. O passo seguinte seria dizer a essa pessoa: "Você é grande, eu sou pequeno(a). Eu me curvo diante de seu destino e tomo o meu destino como me é dado. Por favor, abençoe-me se fico e se deixo que você se vá - com amor". Então fica ligado a essa pessoa com um amor muito mais profundo do que quando quer segui-la ou assumir o destino dela, em seu lugar. Então essa pessoa, em vez de representar uma ameaça, como talvez tivesse receado, passará a velar com amor pela sua felicidade.

Ou se uma pessoa quer seguir alguém na morte, por exemplo, uma criança que quer seguir um irmão prematuramente falecido, esta pessoa pode dizer: "Você é meu irmão, eu honro você como meu irmão. Você tem um lugar no meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da forma como foi, e tomo o meu destino como me foi determinado". Então, ao invés de os vivos se juntarem aos mortos, são os mortos que se juntam aos vivos e velam por eles com amor.

Ou se uma criança se sente culpada por continuar viva quando o irmão morreu, pode dizer a ele: "Querido irmão, você morreu, eu ainda vivo mais um pouquinho e depois morro também". Assim a presunção diante dos mortos cessa, e a criança que vive pode viver sem sentimento de culpa.

Ou quando um membro do grupo familiar foi excluído ou esquecido, a completude pode ser restabelecida na medida em que os excluídos são reconhecidos e respeitados. Isto é basicamente um processo interno. Então, por exemplo, uma segunda mulher diria à primeira: "Você é a primeira, eu sou a segunda. Eu reconheço que você cedeu lugar para mim". Se a primeira mulher sofreu uma injustiça, ela ainda pode dizer. “Reconheço que tenho o meu marido { sua custa". E acrescentar: "Por favor, olhe com carinho para mim, se o tomo e conservo como meu marido, e olhe também com carinho para meus filhos". Nas Constelações familiares pode-se ver como se relaxa o semblante da primeira mulher e como ela é capaz de concordar com o pedido, por ter sido respeitada. Então a ordem é restabelecida e já não é necessário que alguma criança represente essa mulher. Vou ainda dar outro exemplo:

Um homem ainda jovem, empresário e representante exclusivo de um produto em seu país, chega dirigindo um Porsche e fala de seus êxitos. É evidente que possui poder e um charme irresistível. Mas ele bebe, e seu contador o adverte de que está retirando da empresa muito dinheiro para fins pessoais, pondo o negócio em risco. Apesar dos êxitos que tivera até então, ele secretamente tencionava arruinar-se.

Apurou-se que sua mãe mandara embora seu primeiro marido porque ele, segundo sua expressão, era um bolha. Depois casou-se com o pai do cliente, levando para o novo matrimônio um filho do casamento anterior. Este, porém, não pôde mais ver o próprio pai e perdeu o contato com ele, nem mesmo sabia se o pai ainda estava vivo.

O jovem empresário percebeu que não ousava continuar tendo sucesso porque devia sua vida à infelicidade do irmão. A solução que encontrou foi a seguinte:

Primeiramente, reconheceu que o casamento de seus pais e sua própria vida estavam associados pelo destino às perdas sofridas pelo irmão e pelo pai dele.

Em segundo lugar, conseguiu, apesar disso, dizer sim à sua própria sorte e dizer aos outros que se considerava igual a eles e com os mesmos direitos.

Em terceiro lugar, dispôs-se a prestar a seu irmão um favor especial, como prova de sua vontade de equilibrar as contas entre o dar e o tomar. Assim, resolveu procurar o pai de seu meio-irmão, que tinha desaparecido, e promover um reencontro entre eles.

Onde as ordens do amor são aplicadas, cessa a responsabilidade por injustiças cometidas no grupo familiar. A culpa e suas consequências retornam às pessoas a que pertencem, e começa a vigorar a

compensação através do bem, substituindo a necessidade sinistra de equilibrar através do funesto, que gera o mal a partir do mal. O sucesso acontece quando os mais novos aceitam o que receberam dos mais velhos, apesar de seu preço, e os honram, independentemente do que tenham feito, e quando o passado, bom ou mau, já pode ser considerado como passado. Então, os excluídos recuperam seu direito de ser acolhidos e, em vez de nos atemorizarem, abençoam-nos. Quando lhes damos o lugar que merecem em nossa alma, ficamos em paz com eles. E, de posse de todos os que nos pertencem, sentimo-nos inteiros e plenos.

Ordens do amor entre o homem e a mulher