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2.1. A TEORIA DOS CUSTOS DE TRANSAÇÃO (TCT)

2.1.3. A abordagem e os principais conceitos da TCT

O elemento central das contribuições teóricas da Teoria dos Custos de Transação consiste em demonstrar como o desenvolvimento de instituições com estruturas de governança particulares resulta de tentativas dos agentes de encontrar a solução apropriada para o problema de coordenação das transações econômicas, tendo por objetivo a minimização dos custos associados. As estruturas de governança diferem em termos dos mecanismos de monitoramento, incentivo e controle de comportamentos adotados, apresentando capacidades de flexibilidade e adaptabilidade distintas em cada ambiente econômico específico.

2.1.3.1. Características dos agentes e atributos das transações

Williamson (1985) busca identificar as condições que estimulam os agentes a alterarem a organização do meio em que atuam, visando melhorar seu desempenho econômico, em função das características dos agentes ou hipóteses comportamentais – racionalidade limitada e oportunismo – e dos atributos da transação – especificidade dos ativos, frequência e incerteza.

No que concerne à primeira característica dos agentes, a racionalidade limitada, Williamson (1985) reconhece limites na competência cognitiva humana, ou seja, vê o

individuo como intencionalmente racional, porém limitado. Em relação à segunda característica, o oportunismo, o autor considera que o agente tende a buscar avidamente os seus próprios interesses, o que pode levá-lo a mentir, roubar, trapacear e fraudar.

Williamson (1985) assume o pressuposto de que a racionalidade limitada e o oportunismo impedem a redação de contratos completos ex ante. Deste modo, uma parte importante dos custos de transação só é conhecida ex post, o que reforça a necessidade das empresas desenvolverem mecanismos contratuais para evitar ações oportunistas, bem como de monitorarem as atividades e o ambiente, realizando ajustes e adaptações nos seus contratos, quando requerido. Entretanto, o autor ressalta que não é esperado que essas adaptações ex post sejam facilmente obtidas, especialmente quando existem interesses conflitantes em disputa e os esforços de ambas as partes pelos benefícios dependem de intensa barganha.

Williamson (1985) define três atributos das transações: especificidade dos ativos, frequência e incerteza. O autor ressalta que a especificidade dos ativos é o atributo mais importante e o que melhor distingue a economia dos custos de transação dos outros tratamentos da organização econômica, embora os outros dois atributos também desempenhem papéis significativos. A existência de especificidade dos ativos pressupõe o uso de tecnologias especializadas, investimentos não triviais e a necessidade das instituições privadas elaborarem contratos adequados e garantirem o cumprimento desse contrato. Surge, então, a necessidade de governança na transação e de definição de salvaguardas contratuais para prevenir ações oportunistas.

Williamson (1985) cita ainda que os investimentos em ativos específicos são mais arriscados, no sentido de que eles não podem ser reimplantados sem o sacrifício do valor produtivo, ficando os agentes vulneráveis na hipótese dos contratos serem interrompidos ou prematuramente terminados. Entretanto, caso o contrato seja bem-sucedido, tais ativos frequentemente geram ganhos que compensam os riscos.

Williamson (1985) identifica quatro tipos principais de especificidade de ativos: a) especificidade locacional: surge quando estágios sucessivos de produção estão

localizados próximos um do outro, de forma que se economiza nas despesas com estoque e transporte. A condição de imobilidade de ativos implica que as

partes devem operar numa relação de troca bilateral por toda a vida útil do ativo. Além disso, os custos de instalação e/ou realocação são expressivos; b) especificidade de ativo físico: relaciona-se aos atributos físicos do ativo que

lhe conferem especialização para determinadas finalidades. Quanto maior a especificidade física de um ativo, maior a dificuldade de recuperar o valor investido mediante a sua venda, uma vez que suas possibilidades de reutilização são restritas;

c) especificidade de ativo humano: refere-se ao conhecimento acumulado pelas pessoas mediante a realização de uma determinada atividade (learning-by-

doing) ou aos problemas crônicos de alteração de capital humano em

configurações de equipes. Por exemplo, um funcionário altamente capacitado na operação de uma determinada máquina pode ser considerado um ativo humano específico;

d) especificidade de ativo dedicado: representa um investimento discreto em capacidade de produção generalizada (quando contrastada com propósitos especiais) que não seriam feitos a não ser pela perspectiva de vender uma quantidade significativa do produto a um cliente específico. Por exemplo, investimentos em expansão de uma planta fabril para atender a um cliente específico.

A existência de ativos específicos gera uma relação de dependência mútua entre os agentes envolvidos numa determinada transação, configurando uma situação similar ao monopólio bilateral. A presença destes laços de dependência, por sua vez, favorece a ação oportunista. Deste modo, os agentes devem administrar continuamente situações de barganha, além de construir mecanismos e interfaces que proporcionem adaptabilidade a mudanças e promovam a continuidade da relação.

Williamson (1985) afirma que em transações com especificidade nula (tecnologia de uso geral) não são necessárias estruturas de governança protetoras e as transações podem ocorrer via mercado spot, sob as leis da concorrência. Por outro lado, a presença de especificidade de ativos demanda o estabelecimento de salvaguardas para garantir que a transação seja contratualmente estável.

O segundo atributo das transações, a frequência, está relacionado à regularidade ou número de vezes que dois agentes transacionam (uma única vez, esporadicamente ou recorrentemente). Williamson (1985) explica que a frequência das transações é uma dimensão relevante porque influencia na estrutura de governança. À medida que aumenta a frequência de ocorrência de determinada transação, aumenta a confiança e o conhecimento entre os agentes envolvidos, o que tende a reduzir os custos de transação. Além disso, é mais fácil recuperar o custo das estruturas especializadas de governança em grandes transações de tipo recorrente, ou seja, quanto maior a frequência com que ocorre determinada transação, maior a possibilidade de diluição dos custos associados.

A respeito da incerteza, o último dos três atributos das transações, Williamson (1985) preocupa-se em explicar como a governança das transações é afetada pelo aumento do grau de incerteza. Segundo o autor, este atributo é mais relevante nas transações que envolvem investimentos específicos. Devido à natureza idiossincrática e não trivial desses investimentos, o aumento do grau de incerteza torna imperativo que as partes desenvolvam mecanismos para “resolver as coisas”, uma vez que as lacunas contratuais serão maiores e as ocasiões de adaptação futura irão aumentar em quantidade e importância.

Williamson (1985) destaca ainda que as incertezas podem se originar: (a) de contingências do estado, isto é, dos atos aleatórios da natureza e das mudanças imprevisíveis das preferências dos consumidores; (b) de falta de informação, que ocorre quando o tomador de decisão desconhece as decisões e planos dos concorrentes; e (c) do comportamento humano, que surge pela não revelação, dissimulação ou distorção estratégica da informação. As incertezas comportamentais introduzem desigualdade e complexidade às transações econômicas, dado que, nas negociações bilaterais, a informação privada não pode ser plenamente comunicada ou compartilhada entre os agentes. Isso abre brechas para a ocorrência de ações oportunistas, que as empresas precisam mitigar inserindo cláusulas de adaptação e salvaguarda nos contratos, elevando-se, assim, os custos de transação.

2.1.3.2. Estruturas de governança e suas propriedades

Fiani (2002, p. 277) define estrutura de governança como “(...) o arcabouço institucional no qual a transação é realizada, isto é, o conjunto de instituições e tipos de agentes diretamente envolvidos na realização da transação e na garantia da sua execução”.

As estruturas de governança possuem propriedades diferenciadas em função da necessidade de coordenação de cada tipo de transação. De forma geral, tais propriedades estão relacionadas a sistemas de incentivo, controle de conduta e flexibilidade/adaptabilidade a mudanças. Williamson (1996) discute as particularidades de três tipos de estruturas de governança: (i) mercados, (ii) hierarquias e (iii) formas híbridas (contratual).

Os mercados coordenam as atividades econômicas a partir do sistema de preços, que combina mecanismos associados à rivalidade decorrente da competição entre os agentes e “incentivos de alta potência” (high-powered incentives), sendo estes definidos por Williamson (1985, p. 132) como um “status reivindicativo residual pelo qual um agente econômico, seja por acordo ou pela definição prevalecente de direitos de propriedade, apropria-se de um fluxo líquido de renda, derivado de receitas brutas e/ou custos que podem ser influenciados pelos esforços por ele despendidos”. Nesta estrutura, a intensidade dos incentivos é forte o suficiente para garantir o comportamento responsável dos agentes, de modo que há pouca necessidade de controles administrativos e os compromissos contratuais são cumpridos com baixo risco de comportamento oportunista. A coordenação resulta das adaptações que os agentes fazem em suas condutas, de forma autônoma, buscando aumentar o próprio lucro.

A estrutura hierárquica se configura pela internalização de atividades em uma única empresa, o que é conhecido como integração vertical. Este movimento das firmas é explicado por Williamson (1985) a partir de dificuldades que emergem principalmente em transações envolvendo ativos específicos. Na visão do autor, a decisão de integrar estágios da cadeia produtiva (a montante ou a jusante) ocorre quando a eliminação de conflitos instrumentais e a introdução de mecanismos de incentivo e controle administrativos proporcionam economias de custo de transação. Embora reconheça a influência de outros fatores, tais como o determinismo tecnológico, Williamson (1985) afirma que as decisões de integração são tomadas, primordialmente, visando à obtenção de vantagens competitivas a partir da redução dos custos de transação.

As hierarquias têm como característica central a atribuição de autoridade a um ator, de forma incompleta e assimétrica, para dirigir as atividades de outros com algumas limitações (MILLER, 1992). Nesta estrutura, o empregado deve reconhecer o direito do empregador de definir tarefas, estabelecer padrões de desempenho, determinar condições de trabalho e ditar códigos de conduta. Os efeitos nocivos do oportunismo e da diversidade cognitiva/moral são atenuados por uma série de mecanismos e sistemas administrativos de monitoramento,

incentivo e controle que buscam limitar a ocorrência de iniciativas descentralizadas e garantir a convergência das ações e decisões no sentido de melhorar o desempenho global da organização. Desse modo, a incerteza comportamental é reduzida tendo em vista que unidades interdependentes se ajustam a contingências imprevistas de maneira coordenada e os conflitos e barganhas podem ser resolvida por fiat5. As hierarquias também permitem a obtenção de

ganhos no processo decisório, mediante a definição de padrões de comunicação relativamente homogêneos, o estabelecimento de fluxos e canais de informação e a divisão de responsabilidades dentro da cadeia hierárquica.

A característica essencial da integração, em termos transacionais, é que “a tomada de decisão adaptativa e sequencial é implementada sob a propriedade unificada e com o apoio de sistemas de incentivo e controle hierárquico”, e o comportamento dos agentes é submetido a relações de autoridade (WILLIAMSON, 1985, p. 70). Todavia, em comparação aos mercados, os incentivos na hierarquia são fracos e as organizações estão sujeitas ao surgimento de novas modalidades de oportunismo nas relações internas, decorrentes do esforço de indivíduos para manipular o sistema administrativo visando o atendimento de interesses individuais ou coletivos, em detrimento dos interesses da organização como um todo. Williamson (1985) parte do reconhecimento de que existem custos de transação internos à firma para explicar a natureza e a dinâmica das inovações organizacionais, que, na definição do autor, consistem em mudanças nas formas e mecanismos organizacionais tendo por objetivo a redução desses custos. Nas palavras do autor, “the modern corporation is mainly to be understood as the product of a series of organizational innovations that have had the purpose and effect of economizing on transaction costs” (WILLIAMSON, 1996, p. 1537).

As formas híbridas são estruturas de governança intermediárias entre mercados e hierarquias, que buscam estabelecer uma coordenação superior das interações interfirmas e, ao mesmo tempo, preservar parte dos incentivos de mercado ainda que na presença de certo grau de especificidade de ativos (WILLIAMSON, 1996). Isto é obtido por meio de contratos complexos e de longo prazo que se apoiam em salvaguardas e mecanismos de coordenação, incluindo procedimentos administrativos, de compartilhamento de informações e de resolução de barganhas e conflitos. As formas híbridas se apresentam como uma alternativa para lidar com a dependência bilateral de forma menos extremista do que a integração vertical.

5 Fiat é uma palavra em latim que literalmente significa “seja”, “faça-se”. Williamson a utiliza para se referir à

solução de um conflito ou divergência pela intervenção de uma instância superior, capaz de impor-se sobre as partes envolvidas.

Contudo, quando a especificidade dos ativos se eleva, as hierarquias tendem a se impor às formas híbridas, uma vez que a resolução de conflitos e a implementação de adaptações por fiat é geralmente mais eficaz e menos custosa do que por meio de arbitragem de terceiros ou litígio. O aumento da frequência dos distúrbios é outro fator que leva os agentes a preferirem as estruturas de governança via mercados (para ativos de baixa especificidade) ou hierarquias (para ativos de alta especificidade), em detrimento das formas híbridas, uma vez que aquelas apresentam modos de adaptação que não exigem consenso mútuo, que pode tomar tempo para ser alcançado (WILLIAMSON, 1996).