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3.3 Alteridade constitucional: uma reviravolta atitudinal

3.3.2 A alteridade responsável

A alteridade conecta-se com o princípio da responsabilidade, preservando ou assegurando a imagem e semelhança, pela qual faz escola Hans Jonas, a saber: “A responsabilidade é o cuidado reconhecido como obrigação em relação a um outro ser, que se torna ‘preocupação’ quando há uma ameaça a sua vulnerabilidade”. Destarte, enfatiza-se a integração da semelhança individual com o todo.190

A alteridade constitucional abre espaço para a edificação das instituições sociais, pela segurança em que se organiza o sujeito na sociedade civil. Por isso o sujeito agremia-se à instituição religiosa, à associação civil, como aporte para a sua estruturação social e para não se sentir vulnerável socialmente. O sujeito acredita que desta forma poderá desenvolver um papel especial no trato da coisa comum, a fim de que exsurja no desiderato social uma justiça melhor. Assim, a solidariedade humana cumpriria este trampolim da vitória para a emancipação do grupo.

Nesse porto de esperanças, contudo, vê-se ainda o sujeito insatisfeito, quando o Estado corrompe-se na mais alta das instituições, ora a via administrativa, ora a legislativa, ora a jurisdicional, ou lamenta que também o grupo do qual participa mede esforços com os compromissos da pacificação social, ou ainda, infelizmente, o grupo corrompe-se tal quais as esferas de poderes estatais, quando não o próprio sujeito faz parte dessas imoralidades. É então que a solidariedade se vê à berlinda, quando não pode cumprir a seu tempo o papel que deveria cumprir.

Neste sentido, parece nunca se ter falado tanto em ética como na atualidade, sobretudo quando castelos aparentemente seguros ruíram. Por isso, a solidariedade, por si só mesma, não vai conseguir consolidar-se sem ética. É o que tem tematizado Hans Küng. O teólogo alemão destaca os números catastróficos da corrida bélica, os flagelos destruidores de epidemias e da fome, mas adverte que, embora causados pelo próprio ser humano, é preciso

190 JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Trad. Marijane Lisboa, Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. p.353.

uma postura positiva diante da crise, e não negativa, questão que perpassa por seu projeto de Ética Mundial.191

Além disso, volve-se uma vez mais ao papel da responsabilidade na verve de Hans Jonas, pela qual Estado e sociedade civil devem responsabilizar-se pelas ações nefastas que venham a acometer, por uma espécie de temor, como sentido ambivalente de esperança. O princípio da responsabilidade, considerado desde a perspectiva liberal, demanda consequências gravosas a quem transgrida os deveres e imputa sanções aos desiquilíbrios de quem cabia equilibrar; responsabilidade, portanto, ao livre que arbitra, ao gestor que desiguala injustamente e ao solidário que se omite ou age com desconhecimento.192

Outrora, postulava-se a responsabilidade subsidiária da sociedade em relação à responsabilidade primária do Estado, mas eis que em tempos de globalização as ordens se inverteram, como se tem enfatizado em vários segmentos, tal qual a proposta da Encíclica Laudato Si’, em que se passa a explicitar que o cuidado da casa comum reflete a comunhão ambiental com o Estado, cujo princípio político é subsidiário.193 Ou seja, há um processo de concretização que se dá primeiro na própria sociedade, e de forma subsidiária se realiza pela via estatal.194

Veja-se que no estado da solidariedade não cabe o individualismo, tampouco os equívocos em torno da igualdade, posto que é altero. Mas uma questão o persegue, como ponto nevrálgico, vale dizer, as represálias por suas ações incertas e por suas inações.

Eis aí a crise da subjetividade que se persegue na vida contemporânea. Por isso, um sujeito não vale tanto pelo que tem ou pelo que é, mas pelo que aparenta ser. E também a crise das aparências que radicalmente se insere na seara jurídica, verbi gratia: um magistrado cometido de crimes contra a administração, não raro, é afastado compulsoriamente da função,

191 Veja-se em Hans Küng: “Dito de modo diferente: nós precisamos refletir sobre a ética, sobre o comportamento fundamental das pessoas. Precisamos da ética, da doutrina filosofia e teológica sobre os valores e as normas que devem orientar nossas decisões e ações. A crise deve ser entendida como uma oportunidade. Deve-se achar uma reposta a essa situação de transformação. Porém, uma resposta a partir da negação dificilmente será o suficiente se a ética não quiser aparecer técnica de conserto de déficits e pontos fracos. Precisamos, pois, nos esforçar para achar uma resposta positiva à pergunta por uma ética mundial.” KÜNG, Hans. Projeto de ética mundial: uma moral ecuménica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Paulinas, 1993 (Coleção Teologia hoje). pp.54-55.

192 Vide Hans Jonas: “Os homens experientes sabem que um dia podem desejar não ter agido desta ou daquela forma. O medo de que falo não se refere a esse tipo de incerteza, ou ele pode estar presente apenas como um efeito secundário. Com efeito, é uma das condições da ação responsável não se deixar deter por esse tipo de incerteza, assumindo-se ao contrário, a responsabilidade pelo desconhecido, dado o caráter incerto da esperança; isso é o que chamamos de ‘coragem para assumir a responsabilidade’”. JONAS, Hans. Op. cit. p.351.

193 FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Loyola, 2015.

194 GASDA, Élio Estanislau. Economia e bem comum: o cristianismo e uma ética da empresa no capitalismo. São Paulo: Paulus, 2016. Coleção Ethos.

mas não é destituído do seu múnus público em detrimento de seus vencimentos, como sói acontecer.

Se se levar em conta a ausência de competências que regulem o processo de eficiência no serviço público, que não só afetasse a economia do agente público, mas também colocasse em xeque o exercício de sua função, eis uma sanção punitiva que hoje não se coligaria à chamada sanção premial, ou seja, conferir-se-ia a um servidor não só o índice de sua produtividade do ponto de vista econômico, mas, necessariamente, dar-lhe-ia o desassossego de uma eventual demissão administrativa.