4.4 A liberdade confessional e o liberalismo político
4.4.1 O problema da sujeição eleitoral religiosa
Quem deseja perpetuar a continuidade política no poder precisa arregimentar o seu eleitorado e, além disso, conservá-lo, sob o risco da escolha oportuna do opositor político. Entender o processo eleitoral enquanto processo empírico pode ser decepcionante, ao passo que é preciso enfrentá-lo quando se pretende tornar mais democrático este movimento.
Agora é chamado o povo de Deus para a escolha do candidato. A relação é complexa: por um lado, o espectro liberal pelo qual a vontade se singulariza e, por outro, a ordem solidária em que o sujeito se institucionaliza. De certo modo, é a dialética proposta por Marcel Gauchet ao cotejar a moral do indivíduo privatizada com a moral totalizante que quer explicar a destinação do sujeito no espaço público eleitoral, emancipada pelo viés religioso.294
O complexo aqui se apresenta na ambivalência liberal-solidária, ao passo que a liberdade política é uma via de mão única. O direito ao voto, de escolher o candidato em manifesta solidariedade, reclama uma via de mão dupla que enseja uma reciprocidade: eu voto em certo candidato que venha a conservar a instituição da qual eu participo, ou ainda, os nossos votos garantem a continuidade política do candidato. Assim, para a comunidade religiosa, é uma boa representação democrática que venha a consolidar um grupo forte representativo politicamente.
Com efeito, o Brasil, que se afigura como a maior pátria católica do mundo, agora divide espaço com o segmento (neo)pentecostal político-religioso, que tem representantes no Parlamento e no Executivo com expressão manifesta. É que a instituição religiosa promove bons eleitorados, mais que os seculares. O problema é a veia religiosa que, após sofrer tanta ingerência do Estado, não deveria mercadejar ou competir com a relativização que o mundo oferece.
294 Afirma Marcel Gauchet: “O eclipse da moral foi, em boa parte, o produto dessa ascensão das ideologias em direção a um poder de explicação total da destinação social do homem. É precisamente a perda dessa capacidade totalizante que reativa novamente as morais, que as reabilita na sua função distinta. É mesmo possível afirmar que assistimos à consagração da independência da moral. Ela emancipa-se definitivamente da tutela religiosa, com o desaparecimento do que podia subsistir como vocação englobante da parte da esperança de salvação e da fé no sobrenatural. Essa moral é deduzida do princípio do poder da ideologia – mesmo supondo-se que advenha uma sociedade economicamente justa, a questão da conduta das existências e das relações interpessoais continuaria a existir. As normas que devem prevalecer nesse domínio específico devem ser definidas entre os interessados. A força da problemática comunicacional encontrasse na sua capacidade de dar aparência tangível a essa consistência autônoma do domínio das regras que nos comprometem uns com os outros, indicando sua fonte deliberativa e argumentativa. Aquilo que obriga os indivíduos só pode nascer de um acordo entre os indivíduos.” GAUCHET, Marcel. Religião, ética e democracia. Numen: Revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 16, n. 1, 2013. p. 15-28. pp.26-27.
As teorias clássicas eleitorais se afirmam no sentido de que eleitor/eleição são construídos em um processo de individuação, institucionalização e nacionalização. Mas é prudente observar que, não raro, afigura-se a construção do eleitor na esteira das trocas e manobras políticas, expostas ou veladas, que deturpam o jogo democrático, senão monopolizam esse processo eleitoral.
Por outro lado, o sujeito eleitoral passivo religioso também se inventa. O candidato religioso é o sujeito eleitoral passivo que pode ser votado pelos seus fiéis, e isso não é problema; os que descreem também têm os seus. Mas, há um levante no Brasil de parlamentares, cuja ocupação é pastoral, e isso tem se fortificado no País. Por isso, padre, pastor, pais de santo, médiuns podem ser candidatos à eleição. Sob um ponto de vista democrático, não há maiores questionamentos; todavia, sob o ponto de vista ético, pode apresentar alguma problemática.
Aqui vem a concepção da liberdade que não se confunde com o liberalismo. O espaço da liberdade é fato, mas também pode ser fato o sujeito eleitoral passivo que se diga religioso e adentre no Parlamento, ou no Executivo, mas que quer a grande massa religiosa no parlamento? Uma hegemonia de forças que, embora conflitantes, por vezes consagram aspectos comuns através de projetos de lei ou de controles políticos que enfatizam ideologias comuns, desde que respeitados os direitos mínimos tanto das maiorias, como das minorias, bem como os direitos fundamentais assinalados pelo Poder constituinte originário.
Pois se um dia, um renovado e grandioso parlamento confessional nascido de instituições religiosas, ou do aparato das mesmas, conforme o Parlamento em projetos de lei de seus interesses comuns, e o Judiciário estiver diante de homens confessionais que não zelem pelos direitos mínimos em franca ascensão de bancadas religiosas, volve-se ao modelo absolutista, senão de exceção.
E a alteridade, com relação aos direitos das minorias e os direitos fundamentais políticos? Uma revolução altruísta não é aquela que contraria as liberdades, mas, efetivamente, é a que promove as liberdades individuais a partir das capacidades das pessoas nas quais a alteridade há de reconhecer ou respeitar a liberdade de alguém.
Ocorre que a dogmática confessional, democraticamente, não mais conseguiria reverter o espírito que vive a sociedade brasileira. Em verdade, um modelo global que não se retoma nos segmentos que a vida secular albergou. Porém, se o crescimento da representação confessional ocorre no acesso ao processo eleitoral de forma desproporcional à sociedade brasileira, imaginando-se que a denominada Frente Parlamentar Evangélica, praticamente,
encontra o montante exato do percentual da parcela da população do País no Congresso Nacional, e é cada vez mais crescente no parlamento, a conclusão é a seguinte: ou toma-se a população majoritariamente neopentecostal como exemplo da hegemonia social, ou crê-se que há uma desconfiguração no processo de acesso eleitoral deturpado no Brasil, com viés abusivo.
Demograficamente, não é homogênea sequer uma classe do grande gênero “evangélico”, embora, engradece-se, cada vez mais, uma homogeneidade pentecostal, típica dos modelos das igrejas estadunidenses transplantados para o Brasil, com verdadeira customização da fé à moda brasileira.295 Some-se a isso o fato de que alguns prognósticos levam em consideração a crise dos movimentos socialdemocratas tradicionais e suas inclinações progressistas insuficientes, dando margem à fixação do capitalismo pelos próximos anos.296 Por isso, um modelo liberal exsurge para atrair os olhos das camadas sociais da população que não sabe ao certo o que viriam a ser essas políticas liberais contemporâneas, apenas que o nacionalismo econômico e a manutenção de certas instituições sociais são viáveis para o Brasil, o que poderia ser bom para uma sociedade homogênea economicamente, ou razoavelmente equilibrada, como em alguns países, mas não para um
295 Max Weber firmava em seu texto – ascese e capitalismo: “Nos Estados Unidos, território em que se acha mais à solta porquanto despida de seu sentido metafísico [ou melhor: ético-religioso], a ambição do lucro tende a associar-se a paixões puramente agonísticas que não raro lhe imprimem até mesmo um caráter esportivo. Ninguém sabe ainda quem no futuro vai viver sob essa crosta e se ao cabo desse monstro hão de surgir profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascer de velhas ideias e antigos ideais, ou – se nem uma coisa nem outra – o que vai restar não será uma petrificação chinesa [ou melhor: mecanizada], arrematada com uma espécie convulsiva de autossuficiência. [...]
Por fim, valeria a pena acompanhar seu vir a ser histórico, desde os primeiros ensaios medievais de uma ascese intramundana até sua dissolução no puro utilitarismo, passando em revista cada uma das zonas de disseminação da religiosidade ascética. Só daí se poderia tirar e medida da significação cultural do protestantismo ascético em comparação com outros elementos que plasmam a cultura moderna. [O que aqui se tentou foi apenas, se bem que num ponto único mais importante.] mas depois, ainda seria preciso trazer à luz o modo como a ascese protestante foi por sua vez influenciada, em seu vir-a-ser e em sua peculiaridade, pelo conjunto das condições sociais e culturais, também e especialmente a econômicas.” WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Trad. José Marcos Mariani de Macedo; rev. tec. ed. de texto, apresentação, glossário, correspondência vocabular e índice remissivo Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. pp. 165-166.
296 Monica Baumgartem de Bolle em estudo sobre a política econômica do governo Bolsonaro e a Frente Parlamentar Evangélica vai dizer: “Por que escrevo sobre a bancada evangélica? Em 24 de outubro de 2018, a poucos dias do segundo turno das eleições, membros da bancada entregaram ao candidato Jair Bolsonaro um manifesto intitulado ‘O Brasil para os brasileiros’. O documento, de 65 páginas, versa não apenas sobre as pautas geralmente defendidas pela Frente Parlamentar Evangélica (FPE), a saber, a causa dos costumes, com temas que vão da proibição do aborto à chamada ‘cura gay’. Vai além: o manifesto, redigido como um plano de governo bem elaborado, trata de temas como reforma do Estado e caminhos para o crescimento da economia brasileira, terminando, evidentemente, com a proposta do Escola Sem Partido e a pauta dos costumes. A elaboração do documento em si sugere que a FPE tem pretensões políticas que ultrapassam um punhado de projetos de lei. Parece de fato disposta a influenciar toda a agenda de governo, com alguma atenção para a economia”. BOLLE, Ibidem. 2019. p.84.
estado desequilibrado como é o brasileiro. Longe das polarizações políticas, seria necessário pensar em um modelo para aqueles que compõem a massa da população nacional.
Na ausência de enfrentamento do povo-massa para um projeto de ética comum em um mundo repleto dos reagentes da globalização com ingerência de países desenvolvidos sobre os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, e ainda, a problemática da proibição do retrocesso constitucional em um mundo marcado pela ascensão tecnológica, antes de um progressismo em meio à esquerda, e de um novo modelo liberal, é preciso passar por uma metamorfose moral, sem moralismos, que venha superar os desgastes de uma crise política, de crises econômicas também vivenciadas, mas principalmente de crise moral, a primeira que deve ser superada.
Mudanças legislativas endereçadas às instituições religiosas, sob um viés prioritariamente econômico, precisam esclarecer as consequências que o preço da ilegitimidade nas eleições reflete a toda a sociedade democrática. Com o modelo eleitoral desenvolvendo-se, eleitores e candidatos, em plena transição geracional, devem adaptar-se às promessas sociais legítmas, não mais (re)produzindo o modelo retórico anterior, mas, oportunizando a solução dialogada e construindo saberes com o povo em uma espécie de democracia global.
Não sendo homogênea a população evangélica no Brasil, e levando em consideração a experiência de algumas instituições pentecostais, que fracassaram nas escolhas de lideranças indiferentes à experiência histórica que o Brasil passou, busca-se neste trabalho avaliar a intromissão confessional no campo eleitoral de forma abusiva, assim como analisar de que forma a igreja se apropria da política partidária. O objetivo maior, então, é propor a alteridade constitucional como instrumento de limites a esse panorama, agora e no futuro, como será abordado no próximo capítulo.
5 CONFESSIONALIDADE NAS ELEIÇÕES E ALTERIDADE CONSTITUCIONAL PARA O FUTURO
“Articular de forma adequada a ética cívica e as éticas propostas de felicidade, sejam religiosas ou não, é uma das tarefas urgentes nas sociedades pluralistas, e uma boa maneira de começar a pensar essa articulação consiste em dar-lhes nomes” (Adela Cortina em Aliança e Contrato).297
Só a incredulidade não perceberia o contrassenso que há no abuso do poder religioso eleitoral ao mesmo tempo em que exsurge uma ameaça à democracia. Há ainda os que lutam na fé pelo reconhecimento de direitos, sem que a sombra dos interesses econômicos lhes domine o pensamento.
Regressando ao questionamento utilizado no início deste estudo pela qual não se via a intromissão da fé na política, tratando-se o fato como mera atitude da liberdade de expressão confessional, sem que isso se caracterize abuso econômico de instituições religiosas no processo eleitoral, não passa pois de uma reflexão comum, largamengte utilizada na defesa das instituições de fé, mas que não se coaduna como uma defessa legítima, passando à categoria de mera reflexão antagônica.
Quando lideranças, como as do pastor americano Martin Luther King Jr., reivindicavam direitos civis contra o apartheid, não estavam diretamente reivindicando pleitos religiosos, mas direitos mínimos, pois o homem de fé não se esvazia de sua raça ao lutar contra os preconceitos raciais, nem abandonará seu gênero, sua deficiência, sua vulnerabilidade econômica por ser cristão, e esses interesses são comuns entre os que creem e os que não creem, enquanto que oportunismos políticos e econômicos não o são.
É preciso mudar esse cenário urgentemente. Todo homem de bem considera-se detentor de um plano de mudanças, ele sonha o melhor para sua geração e para as gerações futuras. Ele sabe que deve viver seu tempo, se não quiser sofrer as angústias de um amanhã infeliz; contudo, se pudesse, faria o melhor agora. Não obstante, o homem de bem depara-se, no enfrentamento dos percalços humanos, com os obstáculos à vida comum, sobretudo ao processo democrático.
A morte é sinal de dever cumprido para a secularização e presságio da vida futura para os que creem, mas ambos querem o melhor para este mundo. Os seculares almejam um
297 CORTINA, Adela. Aliança e contrato: Política, ética e religião. Trad. Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 2008. pp.148-149.
mundo de justiças e de reconhecimento de direitos; os que têm fé almejam trazer o reino espiritual e suas leis para a Terra, embora estes últimos já reconheçam essas leis na intimidade e não queiram postergar esse futuro espiritual sempre que possível, querendo experienciá-lo aqui e agora.
Neste espaço de convivência, é preciso enfrentar a crise comum dos interesses oportunistas que promovem ingerências sobre a ética e sobre a política. Quanto a isso, o
mundo precisa ter pressa em melhorar. Por essa razão, Stéphane Hessel vai afirmar: “Não há
mais tempo a perder. Os desafios que devemos enfrentar de imediato são conhecidos, estão compilados e descritos. Os responsáveis são os detentores do poder político e do poder financeiro. Não são os mesmos. Aqueles não aprenderam a submeter estes.”298
Stéphane Hessel tem razão quando diz que o poder político não aprendeu a submeter o poder econômico. Não significa dizer que o poder político não quer que isso aconteça, mas a especulação do poder econômico é tão forte sobre o político, que é praticamente impossível resistir. A ameaça é real, pois a doce ilusão do conforto econômico abraça o sujeito de um modo que passa a ser fácil esquecer o desconforto dos outros. Há um estranho privilégio conformista que não se deve olvidar, já que uma das grandes angústias do homem deveria ser o de estar no meio das injustiças e das desigualdades sociais das massas.
O ser humano vive para o seu próprio destino; todavia, no âmbito do pensamento universal, quer seja filosófico, ou ético, ou religioso, não há um consenso que protagonize o domínio sobre esse fenômeno da existência, salvo os dignificantes exemplos individuais, não raro de altruístas, plenos de per si na realização da vida. A multidão se exaspera diante do fenômeno da existência: é o momento tardio, o medo do desconhecido, os mitos que a sondam, as crenças e os conhecimentos populares.
Esse enredo entre a vida real e a espiritual assume na condição pós-moderna um dos dramas mais contundentes da falência das dimensões dos direitos fundamentais, vale dizer, o antagonismo forte entre o secularismo emancipado e o dogmatismo religioso, se não o fundamentalismo confessional. O problema é: como têm contribuído alguns secularistas e algumas instituições religiosas para a perpetuação de interesses oportunistas no espaço público, cada qual com seu grau de responsabilidade, e até quando? O mundo tem pressa em demover a ideia nefasta do egoísmo humano que está no lar, na família, na sociedade, nas instituições religiosas, na política.
298 HESSEL, Stéphane. Logo, resumo...! In: GOLDMAN, Sacha (coord.). O mundo não tem mais tempo a perder: apelo por uma governança mundial solidária e responsável. Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. p.137.
No campo político, é convenientemente aceito que a sociedade vive em estruturas viciadas de deturpação do poder, e vícios não se combatem somente com preceitos normativos morais, como mero jogo de palavras solidárias. Não raro, serão necessárias prescrições sancionatórias capazes de garantir a sua execução. Antes, estava o abuso do poder religioso a se entranhar até nas vias jurisdicionais eleitorais pelo descuido e pela forma ingênua em se lidar com o processo eleitoral, o que não pode mais acontecer. Urge que não se repita um neocoronelismo sobre o abuso do poder religioso, como disse Victor Nunes Leal:
“É, sobretudo, esse interesse que determina a entrosagem de juízes, promotores, serventuários
da justiça e delegados de polícia no generalizado sistema de compromisso do ‘coronelismo’.”299
Não há por que se solidarizar com esse sistema retrógrado e, por assim dizer, de deturpação pós-moderna, uma espécie de escravidão mental movida pela apropriação inadequada dos textos sagrados para que não se venha mais alcançar aos céus, e quando possível introjetar-se, na vida do semelhante, sob o alicerce da palavra de fé, para alcançar fins políticos humanos, capaz de causar desiquilíbrio ilegítimo no processo eleitoral, intenção essa que deve ser rechaçada para o amadurecimento do processo democrático brasileiro.
Neste capítulo, será proposta a alteridade constitucional reflexiva como antídoto para o abuso do poder religioso. Por isso, essa alteridade reflexiva recorre, não raro, ao discurso do absenteísmo constitucional, sobremaneira no âmbito das relações pessoais como instrumento ético capaz de enfrentar o abuso de direito irrefletidamente vivido e, por consequência, o abuso do poder na esfera pública. Esse abuso apresenta-se repleto das características do moralismo oportunista, do viés de confirmação dissimulado e da ganância econômica que ofende o interesse comum. Com isso, persegue-se, também, no contingenciamento deste capítulo, a contextualização das eleições em face do fenômeno religioso e possíveis reformas políticas com base na alteridade constitucional, sob o signo da urgência ou para um urgente futuro.
5.1 A problemática da alteridade constitucional em face da manutenção de interesses