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Minidemocracia: a convergência da Igreja Católica

2.3 O absenteísmo estatal e a liberdade confessional como promessa republicana

2.3.1 Minidemocracia: a convergência da Igreja Católica

A República Velha, marcada pelo oligarquismo, aristrocratismo e instabilidades políticas, após a Revolução de 1930, acabou por desencadear o Movimento Constitucionalista de São Paulo em 1932. A pretensão emancipatória ou de uma Constituinte, de origem Bandeirante, passou a ter a adesão de setores do Clero. Por essa razão, as tropas

78 Por essa razão Konrad Hesse leciona: “Para usar a terminologia acime referida, ‘Constituição real’ e ‘Constituição jurídica’ estão em uma relação de coordenação. Elas condicionam-se mutuamente, mas não dependem, pura e simplesmente, uma da outra. Ainda que não de forma absoluta, a Constituição jurídica tem significado próprio. Sua pretensão de eficácia apresenta-se como elemento autônomo no campo das forças do qual resulta a realidade do Estado. A Constituição adquire força normativa na medida em que logra realizar essa pretensão de eficácia.” HESSE, Konrad. A força normativa da Constituição. Trad. Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1991. p.15-16.

federalistas, com representação numerosa do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, cercaram os paulistas e, como assinala Dilermando Ramos Vieira:

[...] se posicionaram contra os insurgidos e os ‘constitucionalistas’ se encontraram circundados por 100.000 soldados legalistas. No dia 9 de agosto de 1932, foi lançada a campanha do ‘ouro para o bem de São Paulo’, com o objetivo de financiar o governo ‘constitucionalista’, à qual a população acorreu solicita, o mesmo o fazendo um setor do clero.79

Não obstante, o movimento constitucionalista de São Paulo não logra êxito, passa a sofrer a intervenção federal, ao passo que o setor clerical da unidade federativa manifesta-se nas palavras de Dom Leme: “No momento histórico em que se decidem os destinos da pátria, cidadãos como os que melhor o sejam, os católicos não podiam ficar de braços cruzados. Não formaram é certo partido político, mas cerrarão fileiras em torno dos princípios religiosos, morais e sociais da Igreja católica”.80

É então que, para romper com a transitoriedade da Revolução de 1930, surge uma minidemocracia, sob o advento da Constituição de 1934, que não perduraria por muito tempo em razão do Estado Novo, mas que veio inaugurar o Estado Social na perspectiva dos direitos fundamentais e novas garantias que ansiavam o espírito democrático. Com relação à confessionalidade dos direitos, a Igreja Católica, majoritária e progressista, fez arregimentar a Liga dos Eleitores Católicos (LEC), dizendo um dos seus fundadores tratar-se de instituição acima dos partidos, organização suprapartidária, visando a influir nos programas dos partidos e dos candidatos.

Em razão da Assembleia Constituinte de 1934, a LEC fizera-se assenhorear dos programas político-partidários para garantir os postulados da Igreja, mas receoso de quaisquer reviravoltas no quadro político-constitucional, mais uma vez Dom Leme afirmava: “Apesar dessa convicção e de todas as precauções, já tomadas, é possível que alguns tentem fugir ao compromisso alegando: ‘não voto contra e basta’; ‘não é matéria constitucional’; ‘os católicos aqui e ali não foram leis’ etc.”81

Com efeito, a Constituição de 1934 amplia o rol dos direitos e garantias fundamentais relativos aos direitos confessionais e estabelece a facultatividade do ensino religioso nas escolas públicas do País, cujo absenteísmo constitucional no campo da fé se faz

79 Dilermando Ramos Vieira complementa ainda: “O envolvimento do clero a citada ‘campanha do ouro, foi realmente grande, se se considera que, em São Paulo, o Mons. Gastão Liberal se tornou um dos seus líderes, fazendo da cúria mesma um dos lugares em que as pessoas vinham doar suas joias, sobretudo alianças, recebendo em troca o dístico ‘dei ouro para o bem de São Paulo’. VIEIRA, Dilermando Ramos. História do Catolicismo no Brasil, (1889 – 1945): v. 2. Aparecida (SP): Santuário, 2016. p.222.

80 VIERA, Dilermando Ramos. Ib.idem. p.223. 81 VEIRA, Dilermando Ramos. Ib.idem. p.227.

mais promissor, positivamente, ao passo que o regresso da instituição católica se faz retomar no plano fático. Vide os dispositivos enunciados da primeira Constituição social brasileira:

Art. 113 - A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à subsistência, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

4) Por motivo de convicções filosófica, políticas ou religiosas, ninguém será privado de qualquer dos seus direitos, salvo o caso do art. 111, letra b.

5) É inviolável a liberdade de consciência e de crença e garantido o livre exercício dos cultos religiosos, desde que não contravenham à ordem pública e aos bons costumes. As associações religiosas adquirem personalidade jurídica nos termos da lei civil.

6) Sempre que solicitada, será permitida a assistência religiosa nas expedições militares, nos hospitais, nas penitenciárias e em outros estabelecimentos oficiais, sem ônus para os cofres públicos, nem constrangimento ou coação dos assistidos. Nas expedições militares a assistência religiosa só poderá ser exercida por sacerdotes brasileiros natos. 7) Os cemitérios terão caráter secular e serão administrados pela autoridade municipal, sendo livre a todos os cultos religiosos a prática dos respectivos ritos em relação aos seus crentes. As associações religiosas poderão manter cemitérios particulares, sujeitos, porém, à fiscalização das autoridades competentes. É lhes proibida a recusa de sepultura onde não houver cemitério secular.

[...]

Art. 153 - O ensino religioso será de freqüência facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão religiosa do aluno manifestada pelos pais ou responsáveis e constituirá matéria dos horários nas escolas públicas primárias, secundárias, profissionais e normais.82

A perspectiva do Estado fora marcada por diversos movimentos sociais, que deliberadamente se organizavam para enfrentar aquele Estado liberal que já não mais se fazia prudente. É o Germinal de Émile Zola que espreitava a realidade brasileira, em uma sociedade agrária e análoga à de escravo, que não se fazia desenvolver-se, a não ser, multiplicar-se e povoar imenso território. Acontece que os movimentos ufanistas se organizavam de uma forma ou de outra. Basta ver que o integralismo brasileiro expressou, a despeito de seu espírito cívico, um dos movimentos mais nacionalistas que se conheceu organizadamente no Brasil, sendo seu grande articulador Plínio Salgado e partícipes como o jurista Miguel Reale.83 Neste sentido, cogitou-se o apoio da LEC ao integralismo brasileiro.84

82 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (de 16 de julho de 1934). Suplemento e republicado. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasilia, DF, 19 dez. 1935. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm. Acesso em: 09 jan. 2020.

83 Vamireh Chacon considera: “Seria porém a Ação Integralista Brasileira quem polarizou a fina flor da intelectualidade nacionalista, católica e autoritária da época. Integralismo prenunciado pelo discurso ‘Saudação a Roma’ de Plínio Salgado em visita à Itália a convite do governo fascista, publicado pelo jornal carioca A Razão em 26 de abril de 1932, cujo redator era San Tiago Dantas. CHACON, Vamireh. Vida e morte das Constituições brasileiras. Rio de Janeiro: Forense, 1987. p.167.

84 Argumenta ainda Dilermando Ramos Vieira: Nesse pressuposto, colocava a seguinte pergunta: ‘Como encara o integralismo a colaboração dos católicos?’ A resposta engenhosa era a seguinte: Como preciosa colaboração. O Catolicismo é a religião da grande maioria, ou melhor, da quase totalidade dos brasileiros. Isto exprime tudo.