O direito não tem como antever os comportamentos morais abusivos, mas pode responsabilizá-los. O abuso sofreu os contornos civis, reconhecidamente, como abuso de direito e invadiu a esfera pública à expressão do abuso de poder.
247 É por essa razão que Michael Walzer vai dizer a respeito desses interesses institucionais religiosos: “Os grupos que fazem as reivindicações mais vigorosas são minorias cujos membros estão comprometidos com uma versão tradicionalista ou fundamentalista da religião e da cultura, e que são marginais vulneráveis, [...], ao menos, por causa desse comprometimento”. WALZER, Michael. Política e paixão: rumo a um liberalismo mais igualitário. Trad. Patrícia de Freitas Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2008. pp. 65-66.
Quando uma liderança religiosa, ou mesmo um sectário, tem apoio institucional da igreja para um projeto político-partidário, por mais bem-intencionado que transpareça, pode estar levando consigo um flagrante contrassenso da instituição religiosa à política, e por consequência, ilegitimidade no acesso às instituições públicas do poder.
A instituição religiosa não há de ser instrumento para legitimar o sujeito eleitoral passivo no processo de sufrágio, posto que a fé é apaixonada e levaria os sectários a representarem políticas que não refletem seus interesses espirituais, tampouco aprovariam a domesticação da religião aos mecanismos ilícitos do mundo. Além disso, a instituição religiosa que ojeriza os oportunismos mundanos, não poderia se favorecer desses mesmos oportunismos escalando seus fiéis em pé de desigualdade nos processos eleitorais, ou mesmo favorecendo-se da moeda de trocas nos cenários políticos partidários infelizes. Está aí o contrassenso.248
Só por essas razões, um número de ações eleitorais, aliadas à atuação da sociedade, de causídicos, dos entes ministeriais, surgiu na jurisprudência dos Tribunais Regionais, passando a observar o fenômeno do abuso do poder religioso eleitoral com certa estranheza, pelo qual se valem da fala ardil nos púlpitos das igrejas, protagonizando verdadeiros espetáculos midiáticos, difundindo informes publicitários com a facilidade de recursos compartilhados entre os correligionários, ora na doação de campanha, ora na propagação oral, e impelem a si mesmos o discurso apaixonado da fé, como as liturgias dogmáticas dos cultos.
Neste sentido, a exemplo do Rio de Janeiro, um dos estados da federação brasileira onde há ocorrência deste fenômeno, com base no aumento e difusão da linhagem pentecostal em parcela da sociedade religiosa, bem como o aumento do número de seus representantes no poder público, realizou-se um levantamento em um estudo de atuais julgados que tiveram como escopo o abuso de poder econômico religioso. Os dados a seguir apresentados têm origem na base disponibilizada pelo TRE/RJ, apresentando como parâmetro
248 Atualmente, no contexto mundial da pandemia da Covid-19, especialmente no Brasil, não faltaram igrejas que oferecessem benefícios espirituais, como a água milagrosa a curar da enfermidade, além disso, discute-se abertura e templos, para cultos e liturgias, como atividade essencial em meio à pandemia, independentemente, do risco de contágio no âmbito das igrejas. PIRES, Breiller. Igrejas desafiam recomendação de suspender missas e cultos diante da pandemia do coronavírus. IGREJAS desafiam recomendação de suspender missas e cultos diante da pandemia do coronavirus. El país. São Paulo, 19 mar. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-20/igrejas-desafiam-recomendacao-de-suspender-missas-e-cultos-diante- da-pandemia-do-coronavirus.html . Acesso em: 29 mar. 2020.
a jurisprudência entre os anos 2010 e 2017, e analisam ainda se as ações foram procedentes ou não, assim como as consequências jurídico-políticas para os agentes relacionados.249
Buscou-se estruturar tal estudo de forma mais simples e de fácil percepção. Foram realizadas pesquisas na base de dados de jurisprudência de julgados do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE/RJ), sendo utilizados os parâmetros: i) abuso religioso; ii) religião; iii) abuso religião; iv) poder religioso; tendo como período de 01 a 15 do mês de agosto do ano de 2019, dispondo como base pesquisada os dados de jurisprudência dos julgados do tribunal regional eleitoral do estado do Rio de Janeiro.
Foram excluídas as decisões monocráticas e interlocutórias, e outras manifestações dos desembargadores que não fossem expressão do colegiado para que fosse validada a pesquisa, sendo necessariamente utilizados seus acórdãos. As ações que impulsionaram os processos analisados foram a Ação de investigação eleitoral, o Recurso eleitoral e a Representação do Ministério Público Eleitoral. Após exclusão das peças em duplicata, foi analisado o inteiro teor de 36 acórdãos, dentre os quais 13 foram selecionados por apresentarem a pertinência temática. Essas peças selecionadas foram, então, escrutinadas em busca do entendimento pela procedência ou improcedência de abuso de poder econômico e religioso.
Na sequência, ora para os julgados como procedentes, ora para os julgados como improcedentes, foi realizada uma busca sobre as consequências dos processos para os réus, ou seja, se esses mantiveram suas candidaturas/mandatos, ou sofreram alguma sanção. Dos 13 acórdãos analisados, apenas 30,8% foram julgados como procedentes para a ocorrência de abuso de poder econômico religioso. No restante ˗˗ 69,2% ˗˗ foi declarada a improcedência do vício em estudo. Dentro do grupo dos julgados procedentes, as consequências para os agentes políticos foram a multa ou inelegibilidade por 8 anos. Por outro lado, nos julgados improcedentes, a maioria dos candidatos foi eleita e assumiu seus postos políticos. A tabela 1 mostrada a seguir resume as causas e as consequências das ações ajuizadas.
Tabela 1 - Resumo do teor dos acórdãos analisados no TRE/RJ
Nº Tipo de ação Causa (cabimento) Resultado Consequência
1 Investigação judicial eleitoral
Distribuição de material de campanha em templos. Propaganda durante cultos eclesiásticos
Improcedente Candidato eleito
2 Recurso em representação
Propaganda extemporânea em cultos evangélicos
Procedente Candidato eleito Multa
3 Investigação judicial eleitoral
Disponibilização de ônibus coberto de propaganda aos fiéis
Improcedente Candidato eleito
4 Investigação judicial eleitoral
Uso indevido dos meios de comunicação e propaganda extemporânea em evento evangélico
Improcedente Candidato eleito
5 Investigação judicial eleitoral
Showmício evangélico Improcedente Candidato eleito 6 Recurso em
representação
Propaganda eleitoral irregular em bem de uso comum e templo religioso,
Improcedente Candidato eleito 7 Investigação
judicial eleitoral
Utilização indevida dos meios de comunicação em templos religiosos
Procedente Inelegibilidade por 8 anos
8 Recurso em representação
Showmício evangélico Improcedente Candidato eleito 9 Representação Oração dirigida a notório pré-candidato, na
sua presença
Improcedente Candidato não eleito
10 Recurso em representação
Campanha levada a efeito Igreja em seus cultos, programas de rádio e televisão e redes sociais
Improcedente Candidato eleito
Cont.
11 Recurso em representação
Apoio nominal de igreja a candidato Improcedente Candidato eleito 12 Recurso em
representação
Participação do candidato em missa, no interior de templo religioso, ocasião em que foi por ele citado salmo bíblico com o número de sua campanha eleitoral
Procedente Candidato eleito Multa
13 Investigação judicial eleitoral
Uso indevido dos meios de comunicação e propaganda em cultos evangélicos
Procedente Inelegibilidade por 8 anos Fonte: elaboração própria.250
Também foi realizado o mesmo procedimento investigativo no âmbito jurisdicional mineiro, com o objetivo de apresentar uma análise crítica dos mais recentes julgados sobre a temática do abuso de poder religioso, ajuizado na base de dados jurisprudenciais do TRE/MG, no período de 2009 a 2018, justificando-se o estudo diante da crescente inter-relação entre religião e política na realidade daquela unidade federativa. Ações até emblemáticas foram encontradas, sendo que uma delas serviu de suporte para o novel precedente de 2018 do TSE em que se consolidou o abuso do poder religioso coadjuvante ao abuso do poder econômico.
Com efeito, realizaram-se buscas de jurisprudência no sítio eletrônico do TRE/MG entre os dias 1º e 15 de agosto de 2019, utilizando-se dos mesmos descritores e combinações da pesquisa anterior, a saber: i) abuso religioso; ii) religião; iii) abuso religião; iv) poder religioso. Após a exclusão das peças em duplicata, foram analisados 8 acórdãos com manifesta pertinência temática. Desses, apenas 37,5% foram julgados como procedentes para a ocorrência de abuso de poder religioso. Nos demais, em 63,5% foi declarada a improcedência dos recursos em estudo.
Tabela 2 - Resumo do teor dos acórdãos analisados no TRE/MG
Nº Tipo de ação Causa (cabimento) Resultado Consequência
1 Investigação judicial eleitoral
Evento religioso utilizado para promover Prefeito, candidato à reeleição.
Procedente Inelegibilidade por 3 anos 2 Investigação judicial eleitoral nº 537003 (Caso paradigmático do TSE)
Apresentação de tese sobre "abuso do poder de autoridade religiosa" ou "abuso do poder religioso", que deveria ser coibido pela Justiça Eleitoral.
Procedente Inelegibilidade por 8 anos Multa
3 Recurso em representação
Abuso de poder religioso e econômico. Doação de fonte vedada, nos termos do art. 24, inciso VIII, da Lei n.º 9.504/97. Beneficiamento da candidatura não evidenciado.
Improcedente Candidato eleito
Cont.
4 Recurso em representação
Pastor e candidato a cargo eletivo que discursa em púlpito de igreja evangélica em município e que exalta suas qualidades sem haver pedido de voto. Convite realizado a todos os demais candidatos. Inexistência de abuso de poder político, econômico, religioso e do uso indevido dos meios de comunicação social ainda mais quando não se tem a quebra da legitimidade e isonomia do pleito.
Improcedente Candidato eleito
5 Recurso em representação
Abuso de poder econômico pelo suposto uso da estrutura da Igreja Assembleia de Deus para a realização de pedido de votos.
Abuso de poder religioso.
Improcedente Candidato eleito
6 Recurso em representação
Pastor e candidato à reeleição ao cargo de Vereador em culto religioso na Igreja, na qual é pastor, com participação no palco. Candidato não eleito. Não há provas de que o evento religioso tenha ocorrido com a finalidade eleitoreira. Não há elementos que comprovassem que a celebração religiosa tenha sido condicionada ao voto ou apoio político ou que tenha ocorrido pedido de voto em prol do então candidato. Não há provas de violação da liberdade de votos dos fiéis ou mácula à legitimidade das eleições ou igualdade entre os candidatos.
Improcedente Candidato não eleito
7 Recurso em representação
Além de não ser uma conduta ética tanto por parte do líder religioso quanto da candidata, vez que se utilizaram de uma instituição religiosa para auferir votos para a campanha eleitoral da recorrente, é fato que a conduta por eles pratica, tais como a distribuição de santinhos e o pedido expresso de voto para a referida candidata dentro do templo demonstram o viés econômico do abuso.
Procedente Cassação de diploma
8 Recurso em representação
Propaganda em templo religioso e nas dependências de sindicato - O prazo para o oferecimento de representação por propaganda eleitoral irregular esgotou com a data das eleições. Ação ajuizada posteriormente ao pleito. Impossibilidade de exame.
Improcedente Candidato eleito
Fonte: elaboração própria.251
De acordo com a pesquisa realizada, observou-se uma forte tendência à improcedência das ações de investigação sobre o abuso de poder econômico e religioso, de forma até mais prevalente no Rio de Janeiro, por motivos discutidos anteriormente. Para
ilustrar a situação do relacionamento entre atuação política e atuação religiosa naquele Estado, segue uma amostra da jurisprudência aplicada:
AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL. ELEIÇÕES 2014. ABUSO DE PODER ECONÔMICO. NÃO CONFIGURAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. 1. Para a configuração do abuso de poder econômico, com a consequente cassação do registro de candidatura ou do diploma do candidato beneficiado e a decretação da inelegibilidade dos responsáveis pela ato abusivo , é
necessária prova robusta da prática do ilícito eleitoral, exigindo-se ainda que a conduta seja grave o suficiente para ensejar a aplicação dessas severas sanções, nos termos do art. 22, inc. XVI, da LC 64/90. 2. No caso vertente, foi
devidamente comprovada apenas a utilização da estrutura física de um único templo da Igreja Mundial do Poder de Deus em benefício dos candidatos investigados, não havendo provas da divulgação de propaganda eleitoral ou ocorrência de pedido de votos durante os cultos ou outros eventos religiosos. 3. A violação ao disposto no art. 37, § 4º, e no art. 24, inc. VIII, da Lei 9.504/97, que proíbem, respectivamente, a veiculação de propaganda eleitoral em templos e o recebimento de recursos estimáveis em dinheiro procedentes de entidades religiosas, não ensejam, por si sós, a caracterização do abuso de poder econômico. 4. Com relação à irregularidade na propaganda eleitoral, trata-se de ilícito que dá ensejo à representação específica prevista no artigo 96 da Lei 9.504/97, cujo objeto é a imposição da correspondente sanção pecuniária. No caso em exame, foi ajuizada pelo Ministério Público Eleitoral em face dos ora investigados a Representação 7768-52, já julgada por este Tribunal. Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. 5. No tocante à violação da vedação ao recebimento de recursos procedentes de entidades religiosas, trata-se de irregularidade com aptidão para influir no julgamento da prestação de contas de campanha dos candidatos, mas não denota a gravidade necessária para configurar o abuso de poder econômico. 6. Evidentemente, não é elevado o valor econômico auferido pelos candidatos com a cessão do espaço físico do templo para deposito dos materiais de campanha, faltando-lhe, portanto, força suficiente para desequilibrar a disputa eleitoral. Precedente desta Corte. 7. Improcedência dos pedidos. (TRE-RJ - AIJE: 800841 RJ, Relator: MARCO JOSÉ MATTOS COUTO, Data de Julgamento: 23/09/2015, Data de Publicação: DJERJ - Diário da Justiça Eletrônico do TRE-RJ, Tomo 194, Data 29/09/2015, Página 33/38).
Nota-se, com base no julgado acima citado, uma tentativa de definir de forma objetiva a conduta de abuso de poder religioso. Nesse ponto é onde reside boa parte da problemática acerca da tipificação de condutas para posterior criminalização dos atos e possível enquadramento e condenação dos acusados.
Por outro lado, em determinadas situações, as atitudes e condutas acabam por extrapolar o bom senso e, independentemente de tipificação formal, se coadunam com outros aspectos sancionatórios da legislação eleitoral. Dessa forma, apresenta-se o seguinte julgado também do TRE-RJ:
RECURSO ELEITORAL. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL. ELEIÇÕES 2012. USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. ABUSO DO PODER RELIGIOSO. UTILIZAÇÃO DA IGREJA PARA INTENSA CAMPANHA ELEITORAL EM FAVOR DE CANDIDATO A VEREADOR. PREGAÇÕES, APELOS E PEDIDOS EXPRESSOS DE VOTOS. CITAÇÕES BÍBLICAS COM METÁFORAS
ALUSIVAS AO BENEFICIÁRIO. PESQUISAS DE INTENÇÃO DENTRO DOS CULTOS. DISCURSOS DO CANDIDATO NO ALTAR. DISTRIBUIÇÃO DE MATERIAL PUBLICITÁRIO NA PORTA DA IGREJA. PRESSÃO PSICOLÓGICA RELATADA EM DEPOIMENTOS TESTEMUNHAIS. VIOLAÇÃO À MORALIDADE, À LIBERDADE DE VOTO E AO EQUILÍBRIO DA DISPUTA AO PLEITO. POTENCIALIDADE LESIVA IRRELEVANTE. GRAVIDADE DA CONDUTA CONFIGURADA. MANUTENÇÃO DA CASSAÇÃO OU DENEGAÇÃO DO DIPLOMA DO CANDIDATO E DA INELEGIBILIDADE DE TODOS OS REPRESENTADOS. DESPROVIMENTO DO RECURSO. 1) A entidade religiosa, enquanto veículo difusor de doutrinas apto a alcançar um número indeterminado de pessoas, é talvez o meio de comunicação social mais poderoso de todos, porquanto detém a capacidade de lidar com um dos sentimentos mais intrigantes e transcendentais do ser humano: a fé. 2) Os depoimentos testemunhais demonstraram que os
pastores representados, muito mais do que apenas induzir ou influenciar os fiéis, efetuaram, ao longo do período eleitoral, uma pressão para que votassem no candidato indicado pela igreja, incitando um ambiente de temor e ameaça psicológica, na medida em que levavam a crer que o descumprimento das orientações, que mais pareciam ordens, representaria desobediência à instituição e uma espécie de desafio à vontade Divina. 3) O
abuso da confiança de um sem número de seguidores, representou conduta violadora à liberdade de voto e ao equilíbrio da concorrência entre candidatos. 4)
Propósito religioso que restou desvirtuado em prol de finalidades eleitoreiras, com templos transformados em verdadeiros comitês de campanha, cuja localização em áreas humildes da região pressupõe público-alvo, em princípio, mais suscetível a manipulações. 5) A prática vem se mostrando cada
vez mais frequente na sociedade, levando alguns estudiosos a vislumbrar uma nova figura jurídica dentro do direito eleitoral: o abuso do poder religioso. Apesar de não possuir regulamentação expressa, tal modalidade, caso não considerada como uso indevido dos meios de comunicação, merece a mesma reprimenda dada as demais categoriais abusivas legalmente previstas. 6) Recuso desprovido. (BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral. RE: 49381 RJ, Relator: Leonardo Pietro Antonelli. Julgado em: 17 jun. 2013. Rio de Janeiro: Diário da Justiça Eletrônico, Tomo 125, 24 jun. 2013. p. 13/22).
O julgado acima, de resultado negativo no grau recursal para os denunciados, exemplifica de forma clara a que ponto as relações podem chegar de entrelaçamento entre política e religião. Tal fato denota a lacuna legislativa e a carência de discussão do tema no seu aspecto constitucional.
Tudo isso leva à consideração do contrassenso do fenômeno religioso em uma sociedade pluralista e globalizada, senão os reclames de um oportunismo idólatra no ressentimento religioso em face da política. As dissimulações de lideranças religiosas sobre seus adeptos são das mais violentas porque os próprios líderes não creem nos seus abusos. O que lhes ocorre é um autoengano, ao passo que se são conhecedores do abuso que cometem no espaço público, promovem por má-fé e prejudicam o comportamento social.252
252 A expressão auto-engano é expressão estudada em livro homônimo por Eduardo Gianetti, cujo conceito analítico é pesquisado sobre vários vieses, em uma dessa acepções conflita a problemática do ser que não tem conhecimento o domínio de si mesmo, o eu-agora, com o sujeito idealizado, compreendido e dominado, eu- depois, em face do auto-engano. Em certa parte do compêndio avalia: “O abuso de poder do eu-agora – assim como diversas medidas cautelares ou desesperadas para evitá-lo – aparece com clareza no exemplo do herói
O sujeito que se emancipa na vida social passa a projetar a interlocução de seus atos através da linguagem, que o diferencia de outros sujeitos, daí os processos de influência e influenciação que se desenvolvem e passam a interessar à sociedade e ao Direito também. Um caminho que se fez percorrer na ordem jurídica é a lógica das convivências, como quer Julián Marías. Há uma verdade velada que se aflige no seio das instituições sociais e que não se faz esclarecer. Por isso, é dever jurídico a busca das verdades implícitas para que se possam empreender asserções mais justas no trato da coisa comum.253
Ocorre que a concretização de fenômenos não é facilmente reconhecível, como pré-jurídicos ou jurídicos, senão através da categorização que os relaciona em tutelas afirmadas ou asseguradas pela ordem pluralista. Fenômenos como a escravidão foram aceitos com certa comodidade, podendo ser considerados válidos ainda hoje sob o ponto de vista da condição análoga à de escravo em algumas sociedades, de tempos em tempos.
É claro que há um determinismo das relações interpessoais pelo grau de influência e poder que se exerce sobre as pessoas, mas é dessa subjetividade nociva que se deve abster, de modo que a busca da verdade não se pode deixar enveredar por verdades veladas. Sobre a problemática conceitual normativa do fenômeno, é preciso verificar que o fenômeno religioso não é bem uma variável para o problema jurígeno, senão uma qualidade para os comportamentos já existentes na legislação.