• Nenhum resultado encontrado

Destinação e técnica da alteridade constitucional

3.3 Alteridade constitucional: uma reviravolta atitudinal

3.3.4 Destinação e técnica da alteridade constitucional

O absenteísmo moralmente reflexivo é uma técnica da questão subjetiva do autointeresse, posto que é preciso desenvolver um instrumento que se preocupe com a subjetivação, contracenando o normativo e o comportamento. O absenteísmo a serviço da alteridade é uma terceira via, não é nenhum estado liberal, tampouco o estado social ou intervencionista. Veja-se que o absenteísmo participa da alteridade constitucional, porque, em regra, ele não se revela como intervencionista, mas pode participar para salvaguardar interesses solidários.

Essa é a perspectiva da pesquisa, que não pode imaginar um retrocesso ao liberalismo puro ou neoliberalismo, também não se pode retroceder a um estado endurecido rígido, sob a perspectiva socializadora, mas fala-se aqui da regra da extensão e, por exceção, de um consenso aplicável, em busca da solidariedade. Daí o seu papel, diga-se assim, papel primário do sujeito e da sociedade civil para emancipar-se em uma perspectiva subsidiária da

sociedade. Essa é a lógica que se pensa para o absenteísmo jurídico enquanto é ideologia de Estado.

O seguinte esquema resume a instrumentalização da alteridade constitucional, cujo propósito é a legitimidade do discurso da proposta teórica. Faz-se utilizar da forma piramidal para traçar no vértice a dimensão da alteridade constitucional alicerçada pela reflexão do absenteísmo moral, e a decorrente responsabilidade como consequência potencial das ações a serem tomadas.

A alteridade constitucional levará em conta condições de possibilidade na infinitude do pensamento de Emmanuel Lévinas que levem à compreensão e à inclusão do outro em quaisquer medidas dos direitos fundamentais. Basta que uma perspectiva se faça possível, manifeste-se o suficiente para retirar da exclusão totalitária qualquer circunstância que malfira o lugar do outro.

Não bastaria o lugar do outro na esteira dos deveres constitucionais. É preciso enxergar se o interesse do outro é legitimamente refratário ao respeito comum, a despeito das diferenças e dos autointeresses. Pensando no lugar do outro é que se deve, ou não, fazer algo, pois, do contrário, a responsabilidade recairá potencialmente sobre os atos praticados. Por isso, é preciso mensurar o cotejamento do absenteísmo reflexivo em face da síntese intencionalista-consequencialista à luz dos direitos fundamentais.

Mas quem fará responsabilizar? As instituições, ora interna, ora externamente. Daí que a ordem interna e global, abstendo-se do ufanismo que as prejudica, ou ainda abstendo-se do utilitarismo nefasto de ordens igualitaristas injustas, não se absterão. Porém, de medidas solidárias, como a de colaborar com alimentos a uma sociedade famélica, ou demandar a edificação de sistemas educacionais e profissionais a grupos menos favorecidos economicamente. Em último caso, a ingerência das regulações previstas e o descumprimento

de normas jurídicas concorrem aos sujeitos, à sociedade e ao próprio Estado as responsabilidades que lhes são inerentes. O fato é que se chega necessariamente à era da alteridade com ética, e é neste sentido que se deseja agora fundamentar a tese do absenteísmo no direito.

Tratando-se de uma nova conjectura, é possível que se esbarre na problemática das ideologias naturalistas e relativistas que se demandam no século XXI, mas é possível buscar uma síntese entre esses pensamentos, posto que a crise do neoconstitucionalismo nada mais é do que a crise entre o relativo e o absoluto, ao passo que a filosofia se demandou a esta perspectiva ao longo dos tempos, a exemplo das intenções e das consequências das ações. Esse é o paradoxo que se deve sintetizar se quiser se chegar a uma próxima era, à era da alteridade.

Em princípio, é possível responder que não é preciso se abster da subjetividade simplesmente, mas da subjetividade infeliz, desta que prejudica o pensamento comum em detrimento de si mesmo e dos outros. O absenteísmo nesta proposta temática é dotado das duas correntes: a intencional e a consequencial, e uma questão contumaz é aquela sobre a possibilidade da experiência jurídica emancipar-se do atual estágio em que se encontra se não superar as contingencias que a impedem de evoluir.

Parece que a maior parte dos problemas assinalados na justificativa sob a vertente da arbitrariedade e do conflito de aparências esbarra na questão de lhes oferecer ora um sentido estrutural, ora um sentido funcional exclusivista. Com efeito, todo fato regulado por estruturas normativas implicará a perspectiva humana da liberdade e do espírito solidário, no amadurecimento para uma autocrítica social e descentralizadora em virtude da experiência brasileira, resguardada na atuação do jurista que detenha a verdadeira aspiração de corresponder à realidade social para a construção de paradigmas jurídicos pluralizados.200

Vide o seguinte esquema:

Isso é o que ele encontra no apanágio de sua existência. Se todos arbitram, hei de arbitrar também. Um novo quadro se agiganta na aurora dos tempos, é o que se vem a chamar

200 É o que se inferi de Miguel Reale: “O que há, porém, é uma tomada de posição, de fundo necessariamente axiológico e volitivo, perante a realidade social e em função dela, de tal modo que entre o modelo jurídico preferido ou reconhecido e a experiência deve haver uma correspondência isomórfica, como condição de seu êxito operacional ou de sua efetividade”. REALE, Miguel. Estudos de filosofia e ciência do direito. São Paulo: Saraiva, 1978. p.20.

de revolução do altruísmo, revolução esta que sai de dentro para fora, e não o inverso, embora o mesmo status dialogal se apresente em um primeiro momento, ou seja, o correlacionismo entre a consequência e a intenção. Mas como demandar a outra etapa dialogal, vale dizer, a contumácia entre a ausência de percepção e o vício?

Há uma problemática que alcança toda uma geração contemporânea, que é o enquadramento repetitivo quase sem espaço para uma reflexão criativa e intuitiva. Daí a falta de percepção sobre os próprios que se assenhoram do ser: não se pode vivenciar nem mesmo o agora, a preocupação com o passado, a apreensão pelo futuro, e o espaço de distração que enseja viver o agora, hodiernamente. Para tanto, é preciso refletir os problemas jurídicos com antecipação.

E quanto à falta de percepção dos novos fenômenos jurídicos? Essa é uma problemática contumaz que acompanha o sujeito, a instituição, enfim, toda a sociedade. Eis a falta de esclarecimento que acompanha a conscientização social como um todo. Não seria possível evoluir se novos apontamentos não surgissem para conter o arbítrio humano. Destarte, a liberdade humana não pode ser cerceada, mas não pode evadir-se do ideal comum. É preciso enxergar mais além, com muita cautela, a fim de não tolher a liberdade humana, mas que não se venha a tolerar tanto, a ponto de tolerar até os intolerantes, como diria Karl Popper, que não pensam sob um viés solidário. Um novo modelo agora se apresenta:

O problema da efetividade de uma teoria ou de uma técnica com aporte teórico é que em qualquer tempo e lugar não será tão-somente o semântico ou, de forma mais ampla, o hermenêutico, mas também a capacidade/sensibilidade de o jurista promover a sociedade plural e superar o gravame da indiferença à alteridade. 201 Neste caso, pode-se valer de dois aspectos para firmar pela precisa fundamentação do absenteísmo no sistema jurídico:

I. Especial proteção jurídica para a promoção de questões relevantes sobre aspectos valorativos da justiça, em detrimento do arbítrio no direito e do conflito de aparências. É que, do ponto de vista ético, há um apelo sociocomportamental, ou mesmo uma

201 Com o termo alteridade, adota-se aqui a expressão de Emmanuel Lévinas, em palavras suas: “Esta inversão do em-si e do para-si, do ‘cada um por si’, em um eu ético, em prioridade do para-outro, esta substituição ao para-si da obstinação ontológica de um eu doravante único, mas único por sua eleição a uma responsabilidade pelo outro homem – irrecusável e incessível – esta reviravolta radical produzir-se-ia no que chamo encontro do rosto de outrem.” LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Trad. Pergentino Pivatto (coord.). 5a. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. p.242.

reviravolta que se desenvolve no sistema em face de imperiosa evolução ética na ordem global.

II. Interlocução entre as dimensões público e privada, posto que a ética jurídica não se imiscui dos segmentos, é antes uma privatização da esfera pública. Logo se vê que é um microssistema jurídico que incorpora normas de direito público e de direito privado, apesar de não existir um sistema que as regule unificadamente.

Questões como essa se revelam como dilemas, à medida que a boa-fé processual, rechaçada de seu aspecto semântico, é uma moldura passível de conteúdos múltiplos, infinitamente (des)prestigiadas de significados. Dispondo-se Gilbert Ryle aqui que em razão do dilema “[...] o que está em jogo não é qual ganhará ou qual perderá uma corrida, mas quais são seus direitos e obrigações recíprocos e também diante de todas as outras possíveis posições de queixa e contestação”.202

Determinismo ou argumentação? Se determinismo fosse, estar-se-ia vivendo como se quer viver hoje: plenamente no estado da natureza ou da técnica, e se argumentação o fosse, assinalar-se-ia uma plêiade de possibilidades em decorrência da legitimação de discursos que só iria acontecer, inexoravelmente, à liberdade humana. A bem da verdade, hoje, nem mesmo as mais avançadas tecnologias conseguem deter os percalços do arbítrio ou das aparências, a estagnação ou a inação das atividades jurídicas, em detrimento da justiça social.

Esta tese, que provocou preliminarmente o pensamento absenteísta no Direito, quer enfatizar, por ora, uma conciliação pragmática que será feita na segunda parte. Preferiu- se uma temática ética em torno da religião para que se faça evidenciar um fenômeno emergente e, com isso, a disposição absenteísta no problema enfrentado. A religião, que de certo modo dividiu com o Estado a ocupação de suas instituições, é agora problematizada nos capítulos que iniciam a segunda parte, vale dizer, em torno dos contornos entre o Direito e a religião e, na sequência, o fenômeno do abuso do poder religioso que experimenta esta tese.