CAPITULO 6- PERSPECTIVAS DA ÉTICA CONTEMPORÂNEA: TOLERÂNCIA,
6.4. A amor como fundamento da sociabilidade humana
conciliação; 6.8 Uma crítica à ética procedimental.
6.1. Ontologia e ceticismo na ética contemporânea.
Neste capítulo buscaremos fazer um quadro geral de alguns dos principais elementos e tendências que norteiam a ética contemporânea; para tanto, focaremos nossos estudos no debate a respeito do problema da alteridade, tentando mostrar as possibilidades e limites de abertura de um espaço social para expressão do diverso.
Tendo esses fins em vista, optamos pela estratégia de encaixar (com grande dose de arbitrariedade) as diferentes perspectivas em dois grandes grupos, um de inclinações mais céticas e o outro de tendências mais radicais e ontológicas. Incluiremos nesse último a ética de Maturana e Levinas, autores que apresentam visões bastante específicas, divergentes em muitos aspectos; mas que têm em comum o fato de focarem suas éticas no estabelecimento de um novo relacionamento que permita abertura para novos modos de estar em relação com o Outro.
Do outro lado colocaremos a “ética da tolerância” de que fala Adeodato, como veremos, um modelo mais moderado e condizente, até certo ponto, com a modernidade e com o positivismo. Ao final, tentaremos articular as teorias, observando seus principais pontos de convergência e de divergência; questionaremos se prevalecem complementaridades, o que possibilitaria uma conciliação, ou se os antagonismos são mais fortes, tornando-as incompatíveis.
Estudaremos também um pouco da ética procedimental, que se tornou o centro da discussão contemporânea, mas que apresenta problemas, sobretudo por se assentar sobre o “mito da identificação”, como aponta Da Maia. È importante, desde logo, deixar claro que nosso objetivo não será resolver o problema, eleger ou construir um sistema ético único e
definitivo, o desiderato é enriquecer a discussão e dela retirar algumas idéias a partir das quais chegaremos a algumas orientações a respeito de ética e democracia (discussão que aprofundaremos no oitavo capítulo).
6.2. O acolhimento da alteridade
Levinas, em seu empirismo radical, desvela o enclausuramento provocado pela filosofia que se estabeleceu como ontologia, como totalidade que tenta aprisionar a alteridade. Para o autor, o infinito está na experiência concreta que não desconsidera o corpo, é um face a face sem mediação; não é assimilável pelo sujeito, pois não é só um pensar, uma expressão pura e simples da consciência. Tentativas de posse, de captura absoluta do real por uma idéia ou sistema qualquer, são delírios narcísicos de um sujeito prepotente e dominador213.
Da aproximação do pensamento levinasiano com a psicanálise emerge a possibilidade de se pensar uma ética que se funda na falta, no reconhecimento incompletude e da finitude humanas ao invés da onipotência que vem da crença em significante último214, que nos remete à autoridade por trás dos silêncios da lei. O ego, para se afirmar, busca reduzir o concreto ao abstrato, constrói um universo em que tudo é calculável, controlável, forja um espaço em que a consciência não precisa lidar com seus limites. O eu auto-consciente cria a própria imagem e a imagem do mundo ao seu redor a partir exclusivamente de referenciais abstratos e não enxerga o que lhes é exterior; mas, por ser uma fração, o ego jamais conseguirá apreender a totalidade, não pode alcançar uma verdade ou moral absoluta. A ontologia - nesse sentido totalitário - converte-se em estratégia compensatória que tem por escopo esconder a fragilidade egóica; o cartesianismo, então, pode ser compreendido como um ótimo instrumento de proteção, catalisador de fantasias de onipotência (fato que ajuda a explicar sua hegemonia e fortíssima resistência a mudanças).
A psicanálise mostra que não se pode permitir que infans “possua a mãe”; da mesma maneira, o sujeito que conhece precisa de limites, precisa ter frustrado seu desejo. Para que haja diálogo é necessário submissão ao real.
É curioso notar a atribuição de um caráter concreto a uma idéia ou o apego excessivo a sistemas abstratamente elaborados e desprezo em relação à experiência é um comportamento considerado, pela psicanálise, como sintoma de esquizofrenia (mas, claro que é um exagero diagnosticar todos os autores apegados ao próprio sistema como gravemente neuróticos).
213
PELIZZOLI, Marcelo: Levinas – A Reconstrução da Subjetividade. Porto Alegre: EDPUCRS, 2002, p. 113. 214
PHILIPPI, Jeanine Nicolazzi: A Lei – Uma Abordagem a Partir da Leitura Cruzada Entre Direito e
A ética levinasiana é centrada no modo em que lidamos com o mistério e com a falta de controle, relacionamento que – de acordo com o Levinas - precisa ser acolhedor: a ética deve preceder a ontologia, é preciso interditar posses e acolher a alteridade. Para que haja diálogo com o real é necessário o desejo metafísico, desejo de ira além das totalizações, conceitos e paixões. Ser ético significa não reduzir o Outro ao Mesmo, mas acolhê-lo; não apenas em abstrato, é preciso partir do não enclausuramento da alteridade na experiência concreta. Deve-se de fato acolher outrem enquanto ser infinito, incluir os socialmente excluídos como o estrangeiro, o órfão, a viúva; da mesma forma, incluir dimensões excluídas pela filosofia, como o corpo e as emoções.
Vimos no primeiro capítulo que a ética levinasiana é bastante radical, é ontologia (como não poderia deixar de ser) que critica a ontologia dominante na história do
pensamento filosófico; parte da infinitude e propõe o acolhimento como caminho para uma aproximação (que jamais deve pretender ser completa) como a alteridade.
6.3. Ética e biologia.
Maturana apesar de seguir um caminho bem diferente, chega a um ponto não muito distante de Levinas. Como tivemos a oportunidade de estudar, a biologia do conhecimento mostra que a percepção se concretiza pelo acoplamento entre sistemas, emerge das interações entre observador e observado. Depende não só do objeto, mas também da estrutura do organismo que observa, que é única e condicionada por uma infinidade de variáveis (educação, etnia, memória, variações do ambiente, história, estado emocional momentâneo), cada ser vivo possui seu universo próprio e individual215. Os sistemas biológicos não apenas absorvem informações passivamente, mas respondem. Tais trocas conformam “contextos consensuais’,ou“domínios lingüísticos”.
Assumir que explicações nascem dessa dinâmica intersistêmica e não se referem a entidades independentes do observador é - nas palavras de Maturana - colocar a “objetividade entre parênteses”, ou inserir-se no “domínio das ontologias constitutivas”.216 Para o biólogo, uma explicação é uma reformulação da experiência aceita por um observador; nesse sentido, o critério definidor de cientificidade não faz referência ao objeto; ciência é, simplesmente, o modo particular de reformular experiências usado pelos cientistas217.
215
MATURANA, Humberto: Ontologia da Realidade. Belo Horizonte: Ed UFMG, 2001, p. 120-130. 216
MATURANA, Humberto: Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p. 42-43. 217
Em oposição ao caminho explicativo da objetividade entre parênteses, está o viés da objetividade sem parênteses. Nesse espaço o observador não assume a biologia, não dá a devida importância ao fato de que é um ser vivo e tende a colocar-se em uma posição irreal e privilegiada. A referência a uma realidade objetiva gera um argumento que obriga outrem em função de uma suposta posse de um saber inequívoco.
Mais que duas posturas epistemológicas, são dois modos de estar em relação como o outro. No viés da objetividade sem parênteses o observador não é responsável por sua explicação, pois estaria apenas expondo como as coisas são, sua postura é impositiva, totalitária e sua explicação, uma petição de obediência. Do outro lado, tem-se em cota a biologia e o fato de que o ser vivo na experiência não pode distinguir ilusão de percepção (a distinção ocorreria num momento posterior, na hora da explicação, que se dá em função do aprendizado cultural, de acordos, da relação com o outro218), não pode pretender ter um acesso privilegiado ao explicar.
Qualquer afirmação é válida apenas em seu contexto de coerências próprio, existem vários domínios de realidade, vários sistemas explicativos do mundo, colocar a objetividade entre parênteses é reconhecer a legitimidade de diferentes pontos de vista. Determinada explicação pode não agradar, mas ao afirmar que apenas não agrada (ao invés de tachá-la de falsa ou absurda), o sujeito assume a escolha emocional de suas premissas e desse modo responsabiliza-se por sua predileção e não nega a legitimidade de outro domínio de realidade219.
Note-se que não há impossibilidade de crítica, ou a aceitação necessária e passiva de qualquer explicação por ser apenas um outro modo de ver o mundo. O observador pode negar determinado domínio de realidade, mas, responsavelmente, ao contrário da irresponsabilidade e da impessoalidade implícitas no caminho explicativo da objetividade sem parênteses.
Maturana ensina que na vida cotidiana as pessoas se movem de um espaço para outro um modo de estar em relação para o outro; não há, então, uma divisão maniqueísta e simplista entre pessoas boas e humildes que aceitam a existência de várias coerências explicativas e pessoas más e arrogantes que pretendem possuir verdades.
6.4. O amor como fundamento da sociabilidade humana.
Ao assumir a biologia assumimos a corporalidade, ao invés de tratá-la como uma impertinência ou limite, saímos do paradigma cartesiano da separação entre mente e corpo;
218
MATURANA, Humberto: Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p 18. 219
podemos compreender o fenômeno do conhecer como um fenômeno vivo.O que nos leva também a dar a devida importância ao emocional. Todas as ações humanas acontecem num espaço constituído por emoções, não há nenhuma atividade totalmente desvinculada de sentimentos, nem mesmo a atividade de construção de sistemas explicativos racionais. A contaminação fica mais evidente em determinadas circunstâncias, como na discussão entre duas pessoas irritadas, que facilmente “perdem a razão”; também, podemos percebê-la no momento em que são estabelecidas as premissas de um sistema teórico; para o autor, o fato das premissas serem aceitas a priori - isto é, sem fundamento racional - torna claro o caráter preponderantemente emocional (velado, na maioria das vezes) de sua admissão220.
Ao incluir dimensões humanas tradicionalmente negligenciadas pela filosofia, como as emoções e o corpo, Maturana põe às claras o complexo jogo de interações concretas que torna inseparáveis a biologia, a ética e a sociologia.
O biólogo considera que o fundamento da sociabilidade humana é o amor e que sem esse sentimento qualquer sociedade se desintegra. Amar o outro significa reconhecê-lo e legitimá-lo, sem que ele precise de nenhum modo justificar sua humanidade. Argumenta que nos grupos humanos a convivência social ocorre de forma espontânea, como expressão de nosso modo de ser biológico atual, vivemos numa comunidade em função do prazer de termos a companhia de outra pessoa, do que denomina “pegajosice biológica”. A linguagem seria co-responsável por essa proximidade, pela conservação da “pegajosice biológica”, pela inteligência tipicamente humana, baseada na cooperação e não na competição221.
De acordo com Maturana, relações baseadas na autoridade ou em outras emoções que não sejam o amor não podem ser consideradas como sociais; por exemplo, as relações de trabalho, que gravitam em torno do produto e nas quais o ser humano pode ser substituído por um autômato. Dada nossa tendência biológica para socializar e para amar, o problema do desamor numa sociedade que, por exemplo, centra suas relações no consumo e troca de produtos, seria cultural, conecta-se à cultura do patriarcado que configura um ambiente que faz prevalecer no ser humano sentimentos egoístas e valores como a exclusão e a competição. O biólogo propõe, então, que se repensem hierarquias valorativas que estão por trás de nossas crenças. Considera possível transformar paradigmas, construir um uma sociedade que se aproxime mais de culturas matrísticas que valorizam o acolhimento, a cooperação, a
220
MATURANA, Humberto: Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p. 48. 221
qualidade de vida, em detrimento de valores típicos do patriarcado, tais como o individualismo e a expansão222.
Sergio Costa sintetiza as idéias de Maturana: “O amor, explicitado como vivência na intimidade dos modernos, recupera o sentido do fundamento do social. O amor é quem estabelece a possibilidade tanto do contrato social, como do natural. É sobre bases emocionais (mais do que racionais) que se constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência. Portanto, a convivência, entendida como fundamento do fenômeno social, ainda que viabilizada racionalmente através do desenvolvimento dos sistemas econômico e político, depende da existência de uma ligação emocional positiva entre os participantes223”.
Pode-se enxergar o lado maniqueísta do pensamento de Maturana, já que sua ética, em alguns momentos, chega a soar utópica e talvez um pouco purista, mormente quando argumenta que o amor é o fundamento (será a essência?) do social e não categoriza como sociais relacionamentos onde não há amor (como separar com nitidez?).
Trata-se de uma crítica possível, no entanto, preferimos fazer uma leitura mais favorável e compreender que Maturana vê o ser humano como sistema vivo, autopoiético, em acoplamento com o meio, cuja história pessoal consiste numa deriva ou um curso (sentido) que se constrói de momento a momento, sem fim pré-estabelecido. Daí emerge a idéia de socialização como processo real e humano: sociedade e indivíduo devem ser considerados concretamente, compreendidos como sistemas complexos e contraditórios, constituídos não só por coerências e harmonia, mas também por agressividade, competição, desamor etc. Assim, cultura do patriarcado e cultura matrística, cooperação e competição, expansão e acolhimento, são vistos com extremos dos quais as comunidades concretas podem se aproximar ou se afastar.
Melhor do que enfatizar o lado utópico da ética de Maturana é compreendê-la como tentativa de resgatar e enaltecer valores negligenciados por nossa cultura e é proveitoso observar as vantagens do seu uso como modelo regulador, que pode vir a fornecer um novo propósito a ações atuais.
Tanto Maturana como Levinas partem da falta, a ética deve nascer da exposição do abismo entre conceitos e realidade ou, de forma mais ampla, da exposição da guerra entre
222
MARIOTTI, Humberto: As Paixões do Ego – Complexidade, Política e Solidariedade. São Paulo: Palas Athenas, 2000, p.35-45.
223
COSTA, Sérgio e LEIS, Hector Ricardo: “Dormindo com uma desconhecida – a teoria social contemporânea enfrenta a intimidade”. Imprimatur:Revista Virtual de Ciência Humanas, n 2, 1999, p, 15-18.
totalizações (que pode se expressar por meio de outros invólucros que não conceitos) e infinito. Em termos psicanalíticos o abismo corresponde ao “buraco”, a falta em contraposição ao “falo”, este último é o símbolo do poder, que na filosofia - tradicionalmente pensada por homens - tentou se impor a todo custo. Fica clara a conexão: a falta e o acolhimento são qualidades femininas, enfatizadas em culturas matrísticas, das quais – de acordo com Maturana – devemos procurar nos aproximar.
São pensamentos que não precisam ser ortodoxamente seguidos, mas devem ser seriamente considerados, sobretudo por enfatizarem a alteridade e romperem com os parâmetros da discussão jurídico-filosófica contemporânea centrada no estudo de éticas procedimentais.
No rastro das idéias da “Dogmática da Multiplicidade224’ de Da Maia, e da “Semiologia do Desejo225” de Warat, proporemos a constituição de uma atmosfera que leve em consideração procedimentos e parâmetros racionais, mas que parta de faltas e tenha sempre em conta a sua própria arbitrariedade, portanto, permita transgressões, rupturas, inclusive, na forma. O projeto vai em direção a fluidez. Falaremos no oitavo capítulo sobre possibilidades de conciliação entre razão e arte, ciência e metafísica.