CAPÍTULO 3 -O PARADIGMA DA COMPLEXIDADE
3.6. Circularidade e causalidade complexa: a miopia provocada pela estrutura linear e
O sucesso do modelo reducionista e simplista se deu também por motivos culturais e vice-versa, o reducionismo foi um das causas responsáveis pela construção e sustentação de tal cultura. Uma sociedade que valoriza ao extremo a técnica e a rapidez não demanda apenas produtos descartáveis, exige, da mesma forma, o acúmulo de idéias facilmente digeríveis, melhor ainda se puderem ser expressas ou justificadas por clichês.
A causalidade complexa e recorrente é difícilmente aceita nesse cenário cultural. Atribuímos uma conotação negativa à idéia de circularidade, ligamos a algo contraproducente como “andar em círculos”. Para a mente moderna o ideal é o deslocamento em linha reta, em direção a metas; percebe-se apenas relações simples: meio-fim, causa-efeito etc. São desconsiderados ou postos em segundo plano o ambiente, o contexto, as associações valorativas implícitas. Estamos acostumados a pensar que um efeito é gerado por uma causa única e imediata; se modificarmos a causa, modifica-se o efeito e resolve-se o problema prático.
Uma das versões mais conservadoras desse tipo de mentalidade se manifesta na estruturação das razões jurídicas. Pontos de partida são arbitrariamente fixados, “coisificados” pelo “senso comum teórico” e a partir deles desenvolve-se uma argumentação que pretende se aproximar, o mais possível, da exatidão matemática. A coerência precisa ser alcançada a todo custo, muitas vezes o preço a pagar é o distanciamento da experiência concreta e da decisão justa. A postura totalitária do detentor de respostas verdadeiras parece ser a que melhor funciona nessa atmosfera, isto é, tem mais chances de vencer as disputas na prática judicial e no círculo acadêmico.
Por mais que a dogmática não queira enxergá-la, a multiplicidade de causas, a complexidade emerge no mundo real. As inadequações do sistema são ainda mais evidentes em países periféricos, onde o “jeitinho”, as boas relações, o clientelismo tomam o lugar da norma estatal como base de solução de conflitos125. O mais absurdo de tudo é que os
124
MORIN, Edgar: O Método 1 – A Natureza da Natureza. Lisboa: Europa-América, 1997, p. 115. 125
ADEODATO, João Maurício: Ética e Retórica – Para uma Teoria da Dogmática Jurídica.São Paulo: Saraiva, 2002, p. 124-135.
operadores jurídicos conhecem a realidade, mas repetidores que são, não cessam de tentar negá-la, assim como fizeram seus antecessores presos a sistemas puros e esquizofrênicos.
Aarnio explica bem como complexidade está âmago do fenômeno jurídico, que, como estudaremos no quinto capítulo, não pode ser reduzido a normas ou à verificação empírica:
“Por lo tanto, hablar acerca del derecho como sistema de poder o como un genuino sistema de reglas es sumamente erróneo. Lo mismo cabe decir con respecto a los intentos de explicación de los fenómenos jurídicos através de algun determinado factor social, por ejemplo, el sistema de producción o alguna orientación ideológica. Los factores explicativos mantienem una interdependência extremamente compleja con el derecho y entre sí. No es posible colocar a uno o a algunos de ellos por encima de los demás como si fueram ele trasfondo primario o central de los fenómenos jurídicos. Así, el intento de explicar la conformación del derecho solamente com los câmbios en la estructura de la economía es tan unilateral como quere invocar, por ejemplo, la ética protestante del trabajo como el único factor que habría regulado las relaciones sociales126”.
A ótica complexa moriniana compreende cada fenômeno simultaneamente enquanto causa e efeito (produto e produtor), são ciclos que se influenciam mutuamente. A circularidade dos fenômenos naturais é similar, no entanto mais profunda do que a da cibernética - a distinção se torna mais clara se levarmos em conta o fenômeno das emergências -, o efeito retroage sobre a causa, realimenta-a e transforma-a, corrigindo desvios e mantendo o equilíbrio do círculo, que é dinâmico e relativamente autônomo127.
A definição do sistema, a sua diferenciação em relação ao meio é dada pelo fecho, mas é a abertura que o alimenta e é responsável pela interação do anel com o meio. A figura de um redemoinho ilustra bem o fenômeno: o anel seria a própria forma turbilhonar, o movimento circular efetua a entrada e a expulsão do fluxo, ou seja, a abertura do sistema; e este mesmo movimento fecha, forma o sistema (é o fechamento que o torna relativamente autônomo). O circuito espiral do redemoinho é um circuito que se fecha abrindo-se e, assim, está formado e formando-se. Abertura e fecho também se encontram num relacionamento recorrente: a abertura produz a organização do fecho que produz a organização da abertura128.
O circuito puramente fechado seria irreal; é o círculo ideal, do princípio da inércia e do movimento perpétuo. O círculo unicamente aberto não seria um círculo. È por ser aberto,
126
AARNIO, Aulis: Lo Racional Como Razonable – Un Tratado sobre la Justificacion Jurídica. Madri: Centro de Estudios Constitucionales, 1991, p 31.
127
MARIOTTI, Humberto: As Paixões do Ego – Complexidade, Política e Solidariedade. São Paulo: Palas Athenas, 2000, p. 92.
128
estar em contato com o meio, que é produtor; é por ser fechado que existe como produtor. A circularidade é produtiva, pois acrescenta e se modifica a cada giro. É assim no processo de conhecimento, no círculo hermenêutico, em que há a dialética entre pré-compreensão e a compreensão da coisa, num espiral em que um elemento pressupõe o outro e faz com que ele progrida129. Outro exemplo seria a relação entre indivíduo e sociedade, os indivíduos produzem a sociedade esta reflui sobre eles, influenciando-os, co-produzindo-os.
Os sistemas, ao desenvolverem o seu determinismo interno, exercem dentro de si, e eventualmente nos seus arredores, imposições que impedem certas causas externas de terem os seus efeitos normais (no sentido de lineares). Enquanto os sistemas estaticamente organizados resistem de modo passivo ao meio, a organização dinâmica resiste de modo ativo, isto é, responde. A identidade processual e relativamente autônoma (que existe numa relação retroativa) modifica as perturbações provocadas pelo meio que podem vir a ameaçar a existência e/ou funcionamento do sistema; não sofre, simplesmente, condicionamentos, mas reage a eles. As mudanças estruturais são apenas desencadeadas, não exclusivamente condicionadas pelo meio.
Por exemplo, numa ótica simplista, o abaixamento da temperatura exterior deveria provocar o abaixamento da temperatura do corpo humano. Mas a temperatura permanece constante, pois sistema responde com relativa autonomia aos estímulos externos. Morin fala em endocausalidade - causalidade local, relacionada a uma organização ativa, circular – e exocausalidade – geral, proveniente de um jogo diverso de forças, não necessárias nem organizadas. Na cibernética o termo usado é retroação negativa, capaz de anular, desviar, transformar, contrariar, e até inverter os efeitos de uma causa exterior130.
A organização pode ser fixa ou ativa, no primeiro caso a antiorganização é virtual, no segundo atual. Fixa é a organização das máquinas, a ativa é própria dos seres autopoiéticos, isto é, dos organismos vivos. É interessante observar com Morin que “a vida integrou tão bem seu próprio antagonista – a morte – que a leva consigo constante e necessariamente131”. A degradação ou a ruína do sistema vem também de seu interior e mais cedo ou mais tarde a antiorganização irá dispersar os elementos, isto é, toda organização morre.
Na hermenêutica, essa concepção de anel e a aceitação de antagonismos pode constituir um caminho alternativo à tradicional dicotomia idealismo (solipsismo na sua versão mais radical) e realismo (conhecimento enquanto reflexo do real). Nossa estrutura muda
129
CORETH, Emerich: Questões Fundamentais de Hermenêutica. São Paulo: Ed da Universidade de São Paulo, 1973. p. 102.
130
MORIN, Edgar: O Método I – A Natureza da Natureza. Lisboa: Europa-América, 1997. P. 238. 131
constantemente em função de nosso acoplamento com o mundo e só podemos reagir ao meio a partir de nossa estrutura. As noções de recorrência, não exclusão e causalidade múltipla também nos permitem postular que os princípios organizadores do conhecimento humano são aqueles que permitem a construção subjetiva da objetividade. Veremos no sétimo capítulo que o processo de conhecimento não pode mais partir apenas de um sujeito isolado (filosofia da consciência), são necessárias comunicações intersubjetivas, confrontações, críticas e foi o desenvolvimento histórico desses processos – que podemos chamar de intersubjetivos de objetivação - que originaram a esfera cultural da objetividade científica132.
Os sistemas morinianos se diferenciam objetos clássicos, sobretudo por aceitar as conseqüências mais radicais das idéias de relacionamento, subjetividade e novidade. A objetologia clássica procurava nos remeter ao real em sua forma mais pura, no entanto a “obsessão pelo purismo” acaba por ocultar muito mais do que desvelar. Se o objetivo for uma maior aproximação do real é melhor apostar no caminho que o pensamento complexo começa a traçar, por se encontrar enraizado na physis, por acolher o sujeito na sua concretude, na sua imersão na cultura, na história e na sociedade. A complexidade “requer uma ciência física que seja ao mesmo tempo ciência humana133”.
132
MORIN, Edgar:O Método III – O Conhecimento do Conhecimento/1. Lisboa: Europa-América, 1996, p. 198. 133