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CAPÍTULO 4 INTERAÇÕES INTERSISTEMÁTICAS: HERMENÊUTICA E

4.2. A complexidade da organização jurídica

4.2.2. A ideologia como co-produtora da identidade social

O desiderato tanto do purismo kelseniano como também de algumas correntes realistas, notadamente sociologismos de orientação marxista, era o de libertar o direito de contaminações ideológicas. Para que fosse vislumbrada tal descontaminação era necessário pressupor a existência de um lugar de “não ideologia”, nesses termos, a idéia de ideologia se aproxima da doxa platônica, das aparências que se contrapõe às essências.

No contexto da discussão filosófica atual não é difícil perceber a fragilidade de tal concepção, a organização social conforma-se como um holograma, no sentido de que cada um de seus componentes (indivíduos) precisa ter dentro em si “algo” do todo. A unidade pressupõe uma “pertença” que se incorpora à própria essência do indivíduo, o todo se torna parte inseparável dos seus componentes; assim, a ideologia se expressa através do indivíduo- ator ao encenar seu papel social. Desse modo não existe um lugar não ideológico, não podemos nos esquivar do círculo hermenêutico, de nossa constituição mundana e lingüística. Daí a necessidade de nos desapegarmos de “obsessões puristas” e procuramos compreender o direito e sua relação com a ideologia a partir de conceitos contaminados.

Podemos começar a nos aproximar da noção de ideologia propondo que uma teoria terá uma maior carga ideológica quando preponderar nela a função persuasiva ou de justificação, em oposição a sua função informativa. Mas, tal critério ainda deixa uma vasta zona cinzenta, já que uma teoria revestida de todas as garantias de cientificidade – rigor

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ADEODATO, João Maurício: O Problema da Legitimidade – no Rastro do Pensamento de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Forense Universitária,1989, p. 69-75.

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MAIA, Alexandre da: Ontologia jurídica – o problema de sua fixação teórica com relação ao garantismo jurídico. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2000, p. 73-77.

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CASAMIGLIA, Albert. “Postpositivismo”. Doxa, n. 21-I. Alicante: Universidad de Alicante, 1998, p.130- 155.

lógico, prova de falsidade, verificação interpessoal – pode exercer simultaneamente uma função ideológica, na medida em que justificar uma realidade ou projetar o futuro.

Partindo do princípio weberiano de que relações sociais envolvem previsibilidade, isto é, precisam de uma orientação comum fornecida por um sistema de significações estável; Ricoeur constata que o fenômeno ideológico conecta-se à necessidade de um grupo de estabelecer uma imagem para si mesmo.

Em nível ideológico enfatiza-se mais a operacionalidade do que a reflexividade, ou seja, a ideologia está mais vinculada à ação, que necessita de pontos de referência fixos (dogmas) para a sua orientação, do que o dubium168 infindável da investigação filosófica e também científica. É simplificadora, reducionista, existe menos para explicar e mais para persuadir; portanto, refere-se mais à eficácia de uma idéia do que a sua pretensão de verdade ou aproximação com a realidade. É, simultaneamente, reflexo, justificação e projeto de uma determinada sociedade.

“O fenômeno ideológico é essa mutação de um sistema de pensamento para um sistema de crença. É através de uma imagem idealizada que um grupo representa sua própria existência; e é essa imagem que, contra-reação reforça o código interpretativo169”. Não só a religião (Marx), como também a ciência e a tecnologia podem possuir um alto teor ideológico, desde que escondam por detrás de sua pretensa imparcialidade, alto grau de justificação e dissimulação.

Note-se que os contornos da distinção permanecem pouco nítidos, pode-se, apenas, falar em diferentes matizes, cultura e a ideologia estão sempre por trás de nós e suas influências são apenas parcialmente perceptíveis. E a força da ideologia vem exatamente do que não se pode tematizar (pois quando tematizado perde seu poder de mito) sobre o modo de existir de uma sociedade; forma-se, assim, o que pode ser chamado de espaço inconsciente ou as sombras da cultura. Como escreve Ricoeur:“É a partir dela que pensamos mais do que podemos pensar sobre ela170”.

A ideologia está ligada à constituição simbólica de uma sociedade, que precisa de interpretação e imagens e representações para existir enquanto tal, daí sua função de integração. Mas, ao mesmo tempo que interpreta e atribui um significado a realidade, a ideologia nega outros significados e interpretações possíveis. A interpretação sempre se produz num campo limitado, mas a ideologia opera um aumento desses limites. Ela estreita,

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FERRAZ JR., Tércio Sampaio: Direito, Retórica e Comunicação – subsídios para uma pragmática do

discurso jurídico. São Paulo: Saraiva, 1997, p 172.

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RICOEUR, Paul: Interpretação e Ideologias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988, p 68-69. 170

castra, enclausura a realidade. É redução, esquematização, simplificação, quer dizer, tem também a função dissimuladora. Modificam-se os fatos e situações, mas ela permanece presa a sua esquematização inicial, sedimenta-se enquanto tal. Toda a sociedade tem algo de intolerante, que se manifesta mais claramente quando a novidade ameaça a visão que uma comunidade tem de si mesma, a possibilidade do grupo de se reconhecer. Ao justificar o antigo, a ideologia passa a ser um instrumento social com a finalidade de frear a mudança.

Além da função de integração (coesão social) e de dissimulação, Ricoeur explica que a ideologia funciona também como instrumento de dominação. Existe uma relação intrínseca entre as três funções e uma co-dependência entre elas. O fenômeno da autoridade também faz parte da constituição do grupo, que precisa de imposições, força para a tomada de decisão. “O que a ideologia interpreta e justifica, por excelência, é a relação com as autoridades, o sistema de autoridade171”.

Para Ferraz Jr. ideologia é “a valoração dos valores, mas uma valoração última e universalizante que não admite outra”172. De acordo com o autor, é a ideologia prevalecente que, manifestando núcleos significativos vigentes numa sociedade, determina o relato das normas jurídicas173.Assertiva que nos parece um tanto forte, melhor seria dizer que a ideologia co-determina o conteúdo de normas, jurídicas ou sociais, e que o movimento é circular e recorrente, em outras palavras, o direito pode também ser revolucionário e ser um dos fatores capazes de modificar ideologias e valores dominantes em determinada sociedade.

No que diz respeito às condições de possibilidade de um saber sobre a ideologia, temos de, antes de tudo, ter em conta que pertencemos a um mundo e que ele se expressa através de nós, mas que condicionamentos e a pertença, não excluem completamente o espaço da liberdade. A ideologia só pode ser compreendida a partir da falta, a incompletude faz com que o distanciamento seja também um momento de pertença e que o novo possa ser recebido apenas dentro do típico. Assim, crítica a ideologia é um projeto desde sempre falido, mas que deve persistir, pois podemos criar.