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A aparência de uma aparência: unidade fluída da performance

No documento Performance, corpo e inconsciente (páginas 158-163)

Parte 2. PERSPETIVAS ACERCA DO INCONSCIENTE E DA PERFORMANCE

8. A aparência de uma aparência: unidade fluída da performance

Invertendo os meios e os modos, Nietzsche traz-nos o testemunho de uma visão em que a consciência constitui a maior parte da nossa realidade vivida. Conquanto com um sentido de paradoxo próprio de uma visão romântica, procura inverter essa hierarquia. Discorre sobre “o outro lado” e enaltece as qualidades do inconsciente ou do sonho, apesar de ter consciência de que privilegiamos precisamente o oposto disso.

“(…) Por mais certa que seja a forma como, das duas metades da vida, a que está desperta e a que sonha, a primeira nos surja como sendo incomparavelmente a mais privilegiada, mais importante mais digna de existir e de ser vivida, e mesmo a única que é vivida (…).”376 375 Shakespeare, William, Hamlet: “Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa deve suportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um dilúvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo- as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse sono pomos termo aos sofrimentos do coração e às mil dores legadas pela natureza à nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrível perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o sono da morte, depois de expulsarmos de nós uma existência agitada? E não deverei eu refletir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz!” (trad. nossa). Sendo o texto original em verso, escrevemo- lo em prosa para ser mais clara a relação entre o corpo e a mente, entre o inconsciente e a consciência que eclode permeabilizada pelo facto de perceber que não controla o seu íntimo e as suas emoções, mesmo quando a vontade férrea se interpõe entre ambos.

Assim, o seu propósito é procurar defender a existência de um plano primordial no qual o sonho será uma aparência de aparência. Segundo Nietzsche, essa aparência de que os sonhos são feitos devia ser entendida não como uma fisionomia do mundo real, mas como “uma satisfação da sede primitiva de aparência.”377 Ou seja, o sonho está mais próximo

da representação da aparência do Uno-Primitivo e é nesse sentido uma “aparência da

aparência”378. Seguindo ainda o pensamento do filósofo, este vê nos “poderosos impulsos da arte um desejo fervoroso à aparência”379, a qual se sobrepõe à aparência do real empírico

que nos rodeia. Deste modo, a arte é uma forma de redenção que nos “promete” uma aproximação dessa aparência do Uno Primordial, sobrepondo-se como outra pele, isto é, outra aparência sobre a aparência constituída pelo real empírico, sendo uma representação desse impulso primitivo.

Nietzsche procura aprofundar a importância de uma parte de nós que considera próxima da natureza, de algo que é primário, seguindo de perto essa “unidade do homem com a

natureza”380. Defende que é o sonho que nos sustenta e fundamenta enquanto seres mais

próximos desse Uno-Primordial. “(…) Gostaria porém, mau grado o aparente paradoxo, de

sustentar precisamente a apreciação oposta do sonho no que diz respeito àquele misterioso fundamento do nosso ser, cujo fenómeno somos.”381 Assemelhar-se-á essa unidade fluída ao

uno de que é feito o inconsciente?

Se consideramos que existem esferas do ser que pertencem tanto ao inconsciente como à consciência, ou que estas se intersetam e se cruzam nalgum lugar psíquico, haverá, então, mecanismos que transitam e servem os dois lados. Recordamos, por exemplo, os níveis de concentração exigidos aos desportistas e as narrativas que associam um grau de inconsciência do arqueiro quando solta a flecha. Ambos os estados podem melhorar a eficácia de um e/ ou a pontaria de outro, uma vez que o desempenho consciente necessita de lutar e de abrir espaço para agir e o inconsciente coloca em movimento um sem número de qualidades físicas em simultâneo. Ou seja, o comportamento consciente necessita de introduzir um esforço que gasta uma quantidade de energia maior e mais conflituante com o real, enquanto o inconsciente vem de si mesmo e emerge sem esforço. Como nos diz Hartmann, “O

inconsciente pode realmente superar todas as performances da razão consciente (vol. 2, pp. 39-40)”382. 377 Ibidem, p. 39. 378 Idem. 379 Ibidem, p. 29. 380 Ibidem, p. 28.

381 Nietzsche, op. cit., 1997, p. 38.

Fig. 51. Fotografia de performance Blindfolded Catch- ing, Vito Acconci, 1970.

As perspetivas de Hartmann acerca do inconsciente estão “(…) em sintonia com as ideias

românticas que caracterizaram grande parte da literatura europeia e americana, as artes e a música durante quase todo o século XIX”383.

O espírito romântico desenvolveu-se através de um raciocínio de rebeldia e de rutura que arremetia tanto contra o classicismo, quanto contra o racionalismo exacerbado. Além desse aspeto, o romantismo festejou os sentidos da natureza, da sensualidade e dos sentimentos – incluindo aquilo a que chamou de “reinos sombrios da alma”.

Sobre estes aspetos, e regressando a Nietzsche, podemos encontrar a procura de um valor ligado à natureza que se aproxima dos conceitos definidores de inconsciente. A ideia de que existe uma unidade primordial ligada à natureza vai-se vulgarizando e alastra para outros domínios do pensamento e neste caso para além da filosofia. Espalha-se a ideia de uma força ignorada, oculta e poderosa, que nos impulsiona e leva a fazer coisas das quais desconhecemos o sentido maior e mais profundo.

Consideramos que nestas propostas se encontra a influência do desenho do inconsciente, existindo paralelismos entre este conceito e algumas das sugestões da filosofia de Nietzsche como, aliás, sugere Peter Sloterdijk (1947)384: “(…) El inconsciente es el nombre dado a esas fuentes originarias (…)”385. Esta ligação do inconsciente às forças originárias, às fontes

primitivas, contém em si mesma a sugestão de ligação do homem à natureza que estava a ser colocada em causa com o advento do modernismo e o dualismo cartesiano. A consciência de uma natureza da qual se faz parte parece ter sido perdida e de novo reencontrada. “Quanto

mais me dou conta, nomeadamente na natureza [o lugar de onde emerge ou onde se situa 383 Whyte, Lancelot Law, apud Kihlstrom, John, loc. cit., 1993-2007, p. 12.

384 Peter Sloterdijk é um filósofo alemão que é com frequência convidado a falar sobre as suas teorias sociais na televisão e que escreve também para várias publicações de massas. É professor de Filosofia e de Teoria dos Media na Universidade de Arte e Design de Karlsruhe. Participou no programa de televisão alemão Im

Glashaus: Das Philosophische Quartett até 2012. É especialista em Nietzsche a quem tem dedicado um

estudo profundo da sua obra e das suas influências que se mantêm até à contemporaneidade. Foi um autor significativo para o estabelecimento da relação entre a performance, o corpo e o inconsciente como conceitos importantes para a nossa investigação.

385 Sloterdijk, Peter, El pensador en Escena, El materialismo de Nietzsche, PRE-TEXTOS, Valência, 2009, p. 90.

o inconsciente e ao qual Nietzsche atribui o poder de ser a fonte de todas as coisas, como propõem as teorias românticas], daqueles impulsos todos poderosos e neles de um ardente

desejo de aparência (…)”386. Segundo o filósofo, a natureza utiliza a ilusão como um fim

para atingir os seus propósitos “que exige um nuevo tipo de arte y una nueva comprensión

de la verdad”387. Aliás, este constante desejo de uma nova arte e de uma nova história da

verdade parece ser para o filósofo alemão o objetivo da humanidade. Dado que, também, a humanidade faz parte da natureza, esta tem ligação umbilical com esse fundo em que os românticos insistem e que enfatizam para que não seja esquecido.

Esta ilusão de uma aparência alimenta, então, um sentido de superação da verdade. E através da busca da verdade o homem e o artista conseguem dar resposta ao sofrimento, dando-lhe um sentido. Toda a indagação relativa à compreensão da consciência e do inconsciente através da ciência se radica neste fundo. Assim, a tentativa de interpretação da consciência e das suas implicações para a existência no mundo têm como objetivo esta superação da verdade, a qual apenas se pode realizar por meio de um esforço de vontade superior que a aproxime dessa aparência de aparência da qual nos fala Nietzsche. Num mundo em que a ciência ocupa esse lugar com grande proeminência haverá, então, um novo papel para as artes? A busca de uma superação da verdade está hoje muito associada à emergência do espírito científico e à sua vontade de explicar o mundo de forma definitiva. De o iluminar e de o ilustrar em definitivo. Ora, segundo Nietzsche, esta perquirição da verdade está umbilical e intrinsecamente ligada ao ideal ascético que é uma profunda vontade de verdade.

Nietzsche define a consciência da realidade empírica como um “Não-ser” e o sonho como uma vontade de uma aparência de uma aparência que é uma satisfação de uma sede primitiva de aparência. Ora, é nessa sede primitiva que se encontra a vontade de superação da verdade e é aí que se institui o ideal ascético que tem um fundo moral que lhe está associado, ou que foi apropriado, pela religião cristã. Ou seja, a consciência torna-se uma aparência que está mais distante dessa sede primitiva e que se redime criando sistemas de ilusão e redenção, como sejam a arte e a ciência. É na zona do “Não-ser” que se busca a superação da verdade e se tenta chegar próximo da vontade de satisfazer essa sede primitiva.

Fig. 52.

Fotografia de performance Quarry,

Meredith Monk, 1975.

386 Nietzsche, Friedrich, op. cit., 1997, p. 38. 387 Sloterdijk, Peter, op. cit., 1986, p. 90.

“Quanto mais me dou conta, nomeadamente na natureza, daqueles impulsos todo-poderosos e neles de um ardente desejo de aparência, de serem redimidos por meio da aparência, tanto mais me sinto compulsionado a adoptar a hipótese metafísica de que o Ser verdadeiro e Uno primordial, enquanto entidade eternamente sofredora e contraditória, necessita simultaneamente, para a sua permanente redenção, da sedutora visão, da deleitosa aparência: essa mesma aparência que nós, completamente presos nela e por ela constituídos, nos vemos obrigados a sentir como sendo o verdadeiro Não-ser, isto é, um constante devir em tempo, espaço e causalidade, por outras palavras como realidade empírica.”388

Fig. 53. Três imagens fotográficas de performance 8.8.88, Thomas Ruller, 1988.

Na primeira parte deste excerto que citamos, Nietzsche define, com aguda clareza, a realidade empírica a que estamos presos e à qual atribuímos um sentimento de profundo sofrimento. Mas, como diz o filósofo, o problema do sofrimento não está no sofrimento enquanto tal, e sim na necessidade de dar um sentido a esse sofrimento. Está no “facto de lhe faltar uma

resposta para o grito interrogativo: ‘sofrer para quê?’ ”389 Para resolver este problema a

consciência vai procurar investir nesta sede primitiva de aparência através da ciência e das artes, ambas procurando atingir uma superação da verdade através do ideal ascético. “O

ser humano, o mais corajoso e mais habituado à dor de entre todos os animais não nega o sofrimento enquanto tal: ele quer o sofrimento, até o procura, desde que se lhe mostre um sentido para isso, um para quê do sofrimento.”390 Como se pode inferir, esta necessidade

de dar um sentido ao sofrimento é uma força que dirige e orienta a vida do ser humano. E está associada a esse desejo primordial de compreender a vida, de lhe dar um sentido, que desde sempre é perseguido e que está ínsito nos sinais e nas ideias que vão dominando cada época da humanidade. Contudo, segundo o filósofo, através do sonho estamos mais próximos dessa aparência de aparência – por conseguinte, dessa fonte primitiva da qual nos despegámos e onde deixámos o animal − para passar a evoluir na realidade empírica do mundo. Essa sede primitiva é uma vontade de potência que emerge através do sonho e em todas as manifestações humanas, manifestações nas quais nos vemos constituídos, nos vemos a nós mesmos enquanto consciência do mundo que existe, pois, em última instância, é deste lado da realidade que lhe vamos construindo as últimas aparências. A importância do sonho para a construção dessa realidade é o fator que mais nos aproxima dessa suspeição da importância do inconsciente. Mesmo para a elaboração de sistemas de superação da

388 Nietzsche, op. cit., 1997, p. 38.

389 Nietzsche, Friedrich, apud Constâncio, João, op. cit., 2013, p. 195. 390 Ibidem, pp. 195-196.

verdade, que sejam eles próprios sistemas de ilusão, que nos ofereçam, ainda com maior precisão, essa certeza de que existe um outro lado das coisas que nos escapa constantemente. Que papel tem o corpo nestas viagens entre o sonho e o “Não-ser”? Entre o verdadeiramente inexistente e o verdadeiro existente, será que o corpo sonha e regressa ao mundo para se tornar uma visão dessa outra aparência de uma aparência? O corpo torna-se parte do mundo e afasta-se dele em simultâneo, ao superar-se em busca dessa verdade. Ao tornar-se uma ilusão, uma visão de aparência que transporta consigo o conhecimento de um Uno Primordial que lhe permite abrir o mundo.

Nietzsche fala-nos do sonho e da sua importância para aceder ao cerne mais íntimo da natureza que estabelece um elo, uma familiaridade, com o artista ingénuo e a obra de arte ingénua, expressões máximas que a arte pode ter, estabelecendo uma ligação com a eterna dor primitiva, fundamento único do mundo. A aparência da arte surge-nos, assim, como um sentimento de que algo que necessita de ser preenchido, surge como reflexo do eterno desacordo, o pai de todas as coisas. A aparência que nos impele a sentir provoca a abertura de um espaço interior, torna-se aparência de um vazio do ser em busca que necessita de correspondência e movimento em direção à construção de um mundo de mundos e ao seu sentido.

“Se portanto abstrairmos por um momento da nossa própria realidade, se concebermos a nossa existência empírica, e a do mundo em geral, como uma representação do Uno Primordial, então o sonho tem de surgir-nos como aparência da aparência, e assim como uma satisfação da sede primitiva de aparência.”391

Ao sonhar o corpo aproxima-se desse outro lado de onde nos despegámos que é, portanto, o mundo ao qual regressamos quando estamos acordados.

Este movimento de regresso ao mundo é feito através de representações que não são outra coisa para além de aparências da aparência do mundo.

O movimento incessante do corpo entre a profundidade e a superfície – entre o interior e o exterior − em busca de matéria que necessita de aberturas sucessivas dá-se através da representação do mundo. Por esta razão a noção de boca surge implícita neste movimento de abertura e de fechamento. A importância da experiência mediada e constantemente criativa é um fundamento performativo que nos surge associado a este acontecimento transformador e transfigurador.

No documento Performance, corpo e inconsciente (páginas 158-163)