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4. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ADVOGADO

4.1 A atividade do Advogado

Inicialmente cabe destacar que a advocacia, lida de perto com os conflitos humanos, e muito embora a advocacia preventiva esteja crescendo, principalmente na área do direito empresarial, é fato que na grande maioria dos casos, o advogado só é chamado em momentos de embate, disputas, ameaças, brigas.

No Brasil, o Advogado presta serviço público e, conforme dispõe o artigo 2º da Lei 8.906/94 que é o Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil, e ainda o artigo 133 da Constituição Federal, que estabelece ser o advogado indispensável à administração da justiça:

Art. 2º O advogado é indispensável à administração da justiça.288

Art. 133. O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei.289

O advogado é uma peça fundamental a administração da justiça, sendo considerado um dos atores da arena judicial, ao lado do juiz, do Ministério Público, etc.290

Insta salientar que o exercício da advocacia se faz presente nas demandas processuais, tanto para o ingresso das medidas judiciais quanto para o desenvolvimento e conclusão dos trabalhos, porém, por mais importante que sejam as atividades do advogado, são ainda mais presentes e importantes as responsabilidades inerentes aos prestadores desse serviço público.

Ruy de Azevedo citando o Autor Rossi estabelece que o advogado é “pessoa versada em direito com a função de orientar e patrocinar aqueles que têm direitos ou interesses jurídicos a pleitear ou defender em juízo”291.

Sendo a advocacia uma profissão liberal, seus profissionais possuem a liberdade de agir, porém, sujeito à estatutos e regulamentos específicos quais sejam: Código de Ética e Disciplina do Advogado e Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (Lei 8.906/94), e também, a normas de caráter geral que são o Código Civil Brasileiro (Lei 10.406/02) e o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90).

288 BRASIL. Lei n.º 8.906, de 4 de julho de 1994. Dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). [Em linha]. [Consult. 27 de abr. de 2019]. Disponível em WWW: <URL:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8906.html>

289 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro de 1988. [Em linha]. [Consult.

27 de abr. de 2019]. Disponível em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.html>.

290 NETTO, Felipe Braga; FARIAS, Cristiano Chaves; ROOSENVALD, Nelson - Novo tratado de responsabilidade civil. 2017, p. 1.049.

291 ROSSI, Júlio César; ROSSI, Maria Paula Cassone - Direito Civil, Volume 6: Responsabilidade Civil. São Paulo: Atlas, 2007. ISBN:, p. 77.

O advogado deve agir com zelo, prudência, cautela e praticar todos os atos com o intuito de fazer com que seu cliente, que é aquela pessoa que confiou em seu trabalho, seja a ganhadora da causa, mas, no entanto, jamais fica obrigado ao resultado de sucesso do provimento jurisdicional.

A atividade do advogado é baseada na confiança entre o mesmo e seu cliente, e subordinadas a um código deontológico, sempre imposto pela associação que promove a própria atividade, como no Brasil e em Portugal, a Ordem dos Advogados. (OAB ou OA).

De acordo com o Orlando Guedes da Costa:

O código de deontologia dos advogados da União Europeia dispõe que, numa sociedade baseada no respeito pela Justiça, o Advogado desempenha um papel proeminente, não se limitando a sua missão à precisa execução de um mandato, no âmbito da lei, mas devendo o advogado servir o propósito de uma boa administração da justiça ao mesmo tempo que serve os interesses daqueles que lhe confiam a defesa e afirmação dos direitos e liberdades, não devendo apenas defender a causa do cliente mas também ser conselheiro deste, sendo o respeito pela função do Advogado uma condição essencial para a garantia do estado de direito democrático, e por isso, a sua função impõe-lhe uma multiplicidade de obrigações legais e morais, muitas vezes conflituantes, perante o cliente, etc.292

Em Portugal, após a IV Revisão Constitucional do ano de 1997, a profissão do advogado ganhou algumas garantias Constitucionais que se encontram previstas no Art. 208 da Constituição Portuguesa, que assegura:

A lei assegura aos advogados as imunidades necessárias ao exercício do mandato e regula o patrocínio forense como elemento essencial a administração da justiça.293

No Brasil, o Estatuto da OAB se assemelha ao prever que o advogado tem imunidade no exercício da profissão, desde que seja nos limites legais, em seu artigo Art. 2º, § 3º ao prever que:

Art. 2º. § 3º No exercício da profissão, o advogado é inviolável por seus atos e manifestações, nos limites desta lei.

Em uma sociedade, o advogado desempenha um importante papel, e seus deveres não são esgotados apenas com o cumprimento do mandato que lhe fora outorgado pelo seu cliente.

Conforme já asseverado acima e consubstanciado na Constituição Brasileira e Portuguesa, o Advogado tem o dever de uma boa atuação na administração da justiça, em consonância sempre com os interesses da pessoa que lhe confiou a defesa dos seus direitos.

292 COSTA, Orlando Guedes - Direito Profissional do Advogado: noções elementares. 7ª ed. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2010. ISBN 978-972-40-4140-7, p. 6.

293 PORTUGAL. Constituição da República Portuguesa, de 02 de abril de 1976. “Artigo 208.º. Patrocínio forense. A lei assegura aos advogados as imunidades necessárias ao exercício do mandato e regula o patrocínio forense como elemento essencial à administração da justiça”. [Em linha]. [Consult. 27 de abr. de 2019].

Disponível em WWW: <URL:

http://www.oa.pt/cd/Conteudos/Artigos/detalhe_artigo.aspx?sidc=31690&idc=1&idsc=54532&ida=109035>.

Frise-se que o verdadeiro advogado não deve apenas estar preocupado apenas em captar causas, mas também de ser uma pessoa de confiança do seu cliente, ser seu verdadeiro conselheiro, pois muitas das vezes é isso que o cliente precisa naquele momento de angústia.

Por situações, o cliente não quer só um advogado para agir em seu nome, mas precisa de alguém que o aconselhe e principalmente que o escute no momento em que ele está precisando.

Sempre que um advogado é acionado, há um conflito a ser solucionado, e com isso, aquele que aciona, espera além da defesa dos direitos, um aconselhamento, e principalmente a sensação de confiança na pessoa que está contratando. Há um respeito muito grande pela figura do advogado no Estado Democrático de Direito.

E é pela razão dita acima que a função do advogado possui uma série de obrigações sejam elas legais, sejam elas morais e até conflitantes perante sua clientela, perante os Tribunais e outras esferas que o advogado atue na defesa dos interesses dos seus clientes, e ainda, há a obrigação para com o outro colega e com a advocacia em geral.

E com isso, o advogado possui alguns deveres a serem levados a sério, deveres estes que estão previstos nos Códigos Deontológicos dos países na qual são inscritos como Advogados. Ocorre que este não é tema central do nosso estudo, motivo pelo qual deixamos de citar de forma pormenorizada todos os direitos e deveres dos Advogados.

De acordo com Orlando Guedes:

Ao dever de consciência moral se referiu também Angel Ossorio Y Gallardo: no advogado, a retidão de consciência é mil vezes mais importante que o tesouro dos conhecimentos. Primeiro, ser bom; depois, ser firme; por último, ser prudente; a ilustração vem em quarto lugar; a perícia, no fim de tudo.294

Contudo, não devemos esquecer que o Advogado é o primeiro juiz da causa, e é isso que ouvimos desde o início dos nossos professores nos bancos acadêmicos, eis que o ajuizamento de uma causa, depende de estudo prévio de todas as possibilidades de êxito, e ainda, a eleição da mais adequada via, sendo hoje em dia muito comum que os novos advogados cometam erros justamente pela falta de preparo, e isso pode acarretar em sua responsabilização civil295.

Um dos casos mais graves de responsabilização do advogado é a perda de prazos, uma vez que todos os prazos processuais estão tipificados na legislação, não sendo tolerado que o profissional advogado não saiba quais prazos possui para um determinado ato296.

294 COSTA, Orlando Guedes - Direito Profissional do Advogado: noções elementares. 2010, p. 13.

295 GONÇALVES, Carlos Roberto - Responsabilidade civil. 2014, p. 362

296 GONÇALVES, Carlos Roberto - Responsabilidade civil. 2014, p. 363.

Conforme já citado acima, o Advogado deve ser diligente e muito atento, não podendo, em hipótese alguma, deixar perecer o direito do cliente por falta de medidas ou por omissão.

Insta salientar que o advogado, no exercício de sua atividade, sempre mantém a sua independência, e livre de qualquer pressão, abstendo-se de negligenciar a ética profissional prevista dos estatutos deontológicos seja para agradar seus clientes, colegas de profissão ou ao Tribunal, ou até mesmo a terceiros, sendo isso preconizado pelo autor Durval Ferreira em seu estudo297.

O mesmo autor segue em sua obra alertando que a relação entre o advogado e cliente deverá sempre ser baseada em confiança reciproca, pois, o advogado deve confiar em seu cliente, e vice-versa para que a relação seja boa do início ao fim do contrato. E segue informando que o advogado tem não só o dever, mas a obrigação de agir de forma que venha a defender os legítimos interesses dos seus clientes, sem que fiquem prejudicadas as normas éticas contidas nas legislações deontológicas298.

Em suma, o advogado deve agir de acordo com a boa-fé, tanto na fase das negociações preliminares, quanto durante o curso do contrato, tal qual após a finalização do mandato sendo essa uma regra geral de conduta que deverá ser seguida pelo profissional, aliás, por todos os profissionais.

Ademais, cabe uma última observação acerca deste item: não há melhor publicidade para um advogado do que seu cliente satisfeito com os serviços que lhe fora prestado. E assim, o advogado consegue fazer sua clientela e seu nome no mercado de trabalho.