1 INTRODUÇÃO 15
2.3 CONVERGÊNCIAS EM PPL: LINGUAGEM, IDENTIDADE E POLÍTICA 30
2.3.1 A centralidade da linguagem e da cultura em PPL 31
linguísticas e culturais, isto é, pela centralidade das questões da linguagem e cultural na compreensão da vida social. Entretanto, apesar de os estudos em PPL já trabalharem nessa confluência há bastante tempo, há um novo direcionamento fundamental a partir da redefinição desses conceitos. A seguir será discutida tal convergência na contemporaneidade, ainda a fim de explicitar a complexidade no arcabouço teórico de Política e Planejamento da
Linguagem.
2.3.1 A centralidade da linguagem e da cultura em PPL
Com a revisão conceitual de língua(gem), é proposto seu entendimento não mais como sistema abstrato, mas como produto da interação social e como forma de ação social. Desse modo, tanto a linguagem quanto o mundo social não podem ser compreendidos isoladamente. Se, por um lado, a linguagem é moldada nas esferas sociais e culturais, por outro lado, tais esferas são igualmente moldadas pela linguagem. Nesse sentido, os estudos contemporâneos em PPL dão ênfase aos processos de usos e construção da linguagem, bem como à (re)construção da sociedade.
O rompimento do ideal de um Estado moderno formado por um povo, um território e uma língua, com as demandas em prol do reconhecimento da diversidade cultural, vêm suscitando, em diversos contextos, políticas e planejamentos da linguagem que possibilitem a visualização da pluralidade cultural e, consequentemente, de construções de mundo distintas. Dessa forma, políticas da linguagem vão ao encontro de outras políticas, tais como as culturais e de identidade.
Numa perspectiva dos estudos culturais, política de identidade surge no contexto dos movimentos políticos em oposição à política da exclusão. De acordo com Stuart Hall (2000, p. 104), a identidade é um dos conceitos que não podem ser pensados da forma antiga, mas sem os quais é impossível refletir acerca de certas questões-chave. Segundo Hall, a identidade está numa posição central para a questão da agência e da política e sua noção na contemporaneidade pauta-se não em um conceito essencialista, unitário e fixo, em que um ser ou um grupo manteriam com as mesmas características ao longo de suas vidas, mas sim em um conceito estratégico e posicional, que aceita que as identidades são plurais e construídas ao longo dos discursos, práticas e posicionamentos. Considerando que as identidades são construídas dentro do discurso, ou da linguagem, como se vem tratando aqui, elas têm de ser compreendidas em seus locais históricos e institucionais específicos de produção.
Kathryn Woodward (2000) igualmente entende a identidade como construção, tanto simbólica quanto social, que adquire sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos
pelos quais elas são representadas. Exemplificando com o conflito entre sérvios e croatas, Woodward (2000, p. 11) desconstrói as identidades nacionais e observa que “Os sérvios, os bósnios e os croatas tentam reafirmar suas identidades, supostamente perdidas, buscando- as no passado, embora, ao fazê-lo, eles possam estar realmente produzindo novas identidades”.
Essa produção social de identidades (e diferenças), no entanto, é um ato de poder, ou seja, se configura no interior do jogo de poder e da exclusão (Cf. Hall, 1993, 2000). Tomás Tadeu da Silva (2000, p. 81) indica que as identidades não são apenas definidas, elas são disputadas e impostas e que nessa disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da sociedade e, por consequência, por delimitar quem é excluído e quem é incluído. A questão das identidades torna-se, portanto, política.
Por política de identidade entende-se a afirmação da identidade cultural de pessoas pertencentes a um grupo oprimido e marginalizado, quer sejam relativos a gênero, etnia, língua religião, sexualidade etc. Como distingue Woodward (2000, p. 34), “essa política envolve a celebração da singularidade cultural de um determinado grupo, bem como a análise de sua opressão específica”. Se, por um lado, a celebração da singularidade de um grupo pode se filiar a concepções essencialistas, por outro, é possível adotar uma posição distinta, baseada numa concepção de identidade fluida, sem uma essência fixa, válida para todos as épocas. A política de identidade, ao colocar em evidência especialmente identidades marginalizadas sócio-historicamente e ao problematizar categorias biológicas e construções binárias (masculino/ feminino, branco/ preto etc.), é definida como uma luta em prol da expressão da identidade.
A questão das identidades nacionais é, nesse sentido, problematizada e desessencializada. A construção de uma ideia de identidade nacional baseada na homogeneidade cultural e linguística, típica da modernidade, passa a ser substituída ou, ao menos, a concorrer com a perspectiva que compreende a pluralidade no interior dos espaços nacionais. A perspectiva da pluralidade recai com ênfase também sobre as línguas, muitas delas apagadas em prol de um monolinguismo, e até mesmo sobre as variedades no interior de uma mesma língua, e as assimetrias de status entre as diversas formas e, logicamente, entre seus falantes.
Discutindo o conceito de identidade na linguística, Rajagopalan (2006, p. 26) reflete sobre como a linguística, enquanto ciência moderna, operou com a questão da identidade como algo pacífico, quer seja com a noção de identidade de uma língua, quer seja com a identidade do falante de uma língua. Essa constatação é visível quando, por exemplo, na corrente gerativista, os pesquisadores, baseando-se em uma coleta de dados introspectiva, utilizavam a si mesmos como informantes, ou na corrente estruturalista, com a não focalização
da fala, dada a natureza social que lhe era atribuída. No que tange à identidade de um indivíduo falante de uma língua, Rajagopalan (2006, p. 28) indica que ela foi tomada como central, dando origem a expressões como “falante nativo”, o qual teria todos os conhecimentos sobre uma língua, incapaz de errar. Ele seria necessariamente falante nativo de uma, e somente uma, língua.
As problematizações contemporâneas, advindas do reconhecimento de que as sociedades são, na verdade, pluriculturais e plurilíngues, de que os usuários de uma língua estão inseridos em redes sociais e de que um indivíduo não necessariamente adquire uma única língua na primeira infância, colocaram a necessidade de uma revisão teórica no conceito de identidade na linguística. A reconsideração da questão das identidades, tanto para os sujeitos quanto para as línguas, passa então a se pautar num conceito plural, aberto e inacabável.
Embora a redefinição do conceito de identidade esteja ocupando uma posição central nos estudos em diversas disciplinas, é possível constatar que nem sempre isso ocorre nos estudos de política da linguagem. Nesses estudos, opera-se muitas vezes com conceitos essencialistas, de línguas e grupos sociais unos e acabados, que podem estar presentes tanto em planejamento de status como de corpus. Nesse sentido, pode ser questionado o que está ou não implicado em mudança de status de uma língua, se a mudança de status de uma língua terá por consequência a mudança de status das diversas variedades dessa língua, bem como quais os objetivos dos planejamentos de corpus, gramática, dicionários, padronizações etc.
Apesar de ter sido construída há mais de cinco séculos, a ideologia que vinculava uma língua a um Estado nacional persiste hegemônica. Se na Europa já se configuram há algum tempo estados e blocos multi/ plurilíngues, no continente americano, ainda se visualizam os efeitos sociais e culturais de um longo processo de colonização e se caminha (em alguns casos lentamente) para o reconhecimento de direitos linguísticos e cooficialização tanto de línguas de povos originários quanto de comunidades de imigrantes. Tanto no Peru como na Bolívia, Colômbia, Paraguai, Brasil e demais países latino-americanos, encontram-se cenários configurados por uma cultura e língua com maior prestígio (espanhola ou portuguesa) e por diversas línguas e culturas minorizadas, particularmente as originárias.
Por muito tempo, tanto as políticas como os planejamentos da linguagem foram primordialmente centrados na esfera dos Estados. Dando especial ênfase ao poder que só os Estados podem exercer na delimitação de uma política nacional e na execução de seu planejamento, outros agentes políticos foram frequentemente desconsiderados, em particular nos primeiros estudos em PPL. Entretanto, com o avanço na participação desses outros agentes políticos em prol do seu reconhecimento e de seus direitos, a consideração dos
agentes de PPL foi ampliada, assim como o olhar para as políticas em microesferas, mais locais.
2.3.2 A política em PPL
Como mencionado anteriormente, o uso da linguagem, bem como as propostas de política e planejamento são perpassadas por relações de poder. Nesse sentido, quer se esteja tratando da escolha de uma língua, quer se esteja tratando da ação sobre seu status ou
corpus, é necessário compreender estas ações como decisões políticas, que produzem
efeitos em todas as esferas, social, cultural, econômica etc.
Durante muito tempo, as propostas de política linguística basearam-se apenas na perspectiva de que os estados seriam os únicos agentes, ignorando as políticas dos usos cotidianos. Como destaca Hamel (1993), houve uma redução de política à planificação, e a consequente separação entre ações institucionais explícitas e outras intervenções sociais sobre as línguas e seus falantes. Em seus estudos, Hamel sugere uma visão integradora de política, dos processos e atividades, implícitos e explícitos, institucionais e não institucionais, “para poder captar la tensión que muchas veces se produce entre unas y outras y que determinan en buena medida los resultados de los programas” (1993, p. 18). Acrescenta que esse modelo integrador teria que considerar inclusive o conjunto de políticas que se desenvolvem em um país e estabelecer uma relação fundada entre as políticas de determinação de funções que operam para as línguas subordinadas em contextos multilíngues e aquelas de desenvolvimento que funcionam ao interior de uma língua dominante.
Com ênfase nesse entendimento, destacam-se as perspectivas de estudos da
Glotopolítica, existente desde a década de 1950, e, mais recentemente, da Política da Linguagem Crítica.
De acordo com Herrero Valeiro (1997), os estudos em Glotopolítica surgem já nas décadas de 1950 e 1960 com os trabalhos de Currie (1952), Hall (1952, 1964, 1966) e Malmberg (1959), entretanto é, na década de 1980, no âmbito da escola de Rouen, que o conceito, retomado e reformulado por Baptiste Marcellesi e Louis Guespin (1986), ganha expressão. Na nova formulação, glotopolítica:
designa as diversas formas em que uma sociedade atua sobre a linguagem, seja ou não consciente disso: tanto sobre a língua, quando por exemplo uma sociedade legisla a respeito dos estatutos recíprocos da lengua oficial e das línguas minoritárias;; como sobre a fala, quando reprime tal ou qual uso em um ou outro emprego;; o sobre o discurso quando a escola decide converter em objeto de avaliação a produção de um determinado tipo de texto (Guespin e Marcellesi, 1986, p. 5, tradução nossa).