1 INTRODUÇÃO 15
5.1 ESFERA CONJUNTURAL 69
5.1.3 As práticas de usos das línguas 72
5.1.3.1 No ambiente residencial 72
A análise dos usos das línguas pelos estudantes visava a identificar as mudanças e manutenções tanto no ambiente residencial quanto no educacional. De modo a buscar por efeitos da política e planejamento da linguagem da instituição, foram propostos contrastes primeiramente entre os usos que os estudantes ingressantes faziam em suas residências familiares e os usos dos formandos nas residências familiares-estudantis, e, em seguida, entre os usos das línguas pelos estudantes ingressantes no ensino básico e os usos dos estudantes formandos no ensino superior. O objetivo dessa análise consistia em verificar se houve ou não uma alteração nos usos nesses dois ambientes, residencial e educacional, isto é, se os usos dos estudantes, antes de ingressarem na Universidade, eram monolíngues, bilíngues ou plurilíngues e como se configuram quando na conclusão do curso. Logo em seguida, passando à análise da esfera individual, foram avaliadas as mudanças nos níveis de conhecimento das línguas, em particular do espanhol e do português.
Cabe esclarecer que se compreende o uso das línguas nas residências também como efeito de políticas e planejamentos de linguagem. No caso específico de uma Universidade voltada para a integração latino-americana, sediada no município de Foz do Iguaçu, Brasil, que recebe estudantes provenientes de diversas regiões, é relevante observar como tal proposta age sobre os usos das línguas pelos estudantes em seu dia-a-dia social não acadêmico.
5.1.3.1 No ambiente residencial
Passando à análise dos usos, foram considerados primeiramente os usos das línguas pelos estudantes ingressantes em suas residências familiares, antes, portanto, de ingressarem na Universidade. Para tanto, foi proposta a seguinte pergunta: Que língua(s)
você fala? A essa pergunta se somam três outras: Que língua(s) você fala em casa? Fala alguma língua indígena? Compreende alguma língua indígena? Por se tratar de uma
declaração sobre os próprios usos, previu-se, nesta primeira questão, que línguas minoritárias poderiam ser apagadas, o que motivou a inserção das outras três questões. Essas quatro questões foram propostas de forma aberta, e os estudantes poderiam, portanto, indicar a língua do modo como quisessem. No Gráfico 7, a seguir, constam os resultados obtidos das respostas dos estudantes ingressantes, expressos por nacionalidade, a fim de explicitar também algumas diferenças no perfil sociolinguístico dos estudantes ingressantes. Os resultados estão categorizados em: usos monolíngues em espanhol ou português;; usos monolíngues em guarani;; usos bilíngues em espanhol-português;; usos bilíngues em espanhol-quéchua.
GRÁFICO 7
Como expresso no Gráfico 7, identificou-se, na amostra selecionada, que a totalidade dos estudantes de nacionalidade argentina, chilena, colombiana, peruana e uruguaia usava unicamente o espanhol em suas residências familiares. Dentre os estudantes brasileiros e bolivianos, encontrou-se uma pequena porcentagem de falantes bilíngues no par espanhol- português, 4,7% e 12,5% respectivamente. Na amostra equatoriana, 75% dos estudantes declararam usar apenas o espanhol e 25% indicaram usar, além do espanhol, o quéchua. Dentre os estudantes paraguaios, 94,1% declararam usar unicamente o espanhol, e 5,9% declararam usar unicamente o guarani.
De modo geral, identificou-se uma grande maioria de estudantes que, em suas residências familiares, antes de ingressar na Universidade, usava apenas uma língua, o português ou o espanhol. Pouquíssimos estudantes declararam o uso duas línguas em seus lares, quer seja em espanhol e português, quer seja em espanhol e quéchua. No caso dos estudantes paraguaios, um pequeno grupo indica usar apenas o guarani. Outras línguas que aparecem em diagnósticos sociolinguísticos de comunidades na América Latina não apareceram na amostra, o que não significa que outras línguas não sejam usadas por estudantes que não participaram da amostra.
Quanto à questão que versava sobre uso de alguma língua indígena ou sua compreensão, os dados indicaram que a totalidade dos estudantes paraguaios falam e compreendem guarani, apesar de apenas 5,9% terem declarado usar a língua em suas residências. Observa-se com isso que o guarani pode já ter passado por processo de perda, deixando de ser utilizado no ambiente residencial. Com relação aos estudantes bolivianos, 12,5% declararam compreender quéchua, apesar de não saber falar. Já os dados dos estudantes equatorianos foram coincidentes, isto é, 25% falam quéchua e a usam em casa, e demais estudantes de outras nacionalidades declararam não falar nem compreender nenhuma língua originária.
100% 87,50% 95,30% 100% 100% 75% 94,10% 100% 100% 5,90% 12,50% 4,70% 25% Argentina Boliviana Brasileira Chilena Colombiana Equatoriana Paraguaia Peruana Uruguaia
Usos das línguas no ambiente residencial
A fim de verificar a evolução nos usos das línguas no contexto residencial, os dados dos estudantes ingressantes foram contrastados com os usos dos estudantes formandos, que serão apresentados a seguir.
5.1.3.2 No ambiente residencial-estudantil
A pergunta acerca dos usos das línguas nas residências estudantis foi proposta igualmente de forma aberta, do seguinte modo: Que língua(s)s você fala em casa/ moradia
atualmente? Acerca dessa questão, cabe esclarecer que grande parte dos estudantes
brasileiros provenientes de outros estados e estudantes de outros países da América Latina mora em residências estudantis ou compartilha a locação de uma casa/ apartamento. Há ainda, em alguns casos, estudantes brasileiros que já residiam em Foz do Iguaçu e estudantes paraguaios residentes em Ciudad del Este ou Hernandárias que continuaram morando com suas famílias. No Gráfico 8, a seguir, constam as respostas obtidas.
GRÁFICO 8
Conforme expresso no gráfico 8, os usos das línguas dos estudantes formandos em suas residências familiares-estudantis concentraram-se em monolíngues em espanhol ou português e bilíngues em espanhol e português. Nota-se que, nos casos dos estudantes argentinos, chilenos e peruanos, 100% indicaram o uso tanto do português como do espanhol em suas residências. Dentre estudantes de outras nacionalidades, boliviana, brasileira, colombiana, equatoriana, uruguaia e venezuelana, observa-se que sempre mais da metade (66,7%, 68,8%, 87,5%,80%, 52,6% respectivamente) usou ambas as línguas. Por outro lado, observa-se a permanência de usos monolíngues em espanhol ou em português, tal como
50,00% 47,40% 20% 12,50% 31,20% 33,30% 33,30% 100% 50,00% 52,60% 100% 80% 87,50% 68,80% 100% 66,70% 66,70% Argentina Boliviana Brasileira Chilena Colombiana Equatoriana Paraguaia Peruana Uruguaia Venezuela…
Usos das línguas no ambiente residencial - estudantil