Enunciado 1 – Tchau, querido!
2.3 A charge no contexto político: posicionamentos
Por mais que os periódicos ou sites de internet estejam povoados de charges dos mais variados temas, a política ainda é tratada no gênero como principal assunto. Um leitor menos atento às publicações chargísticas pode até dissociar outras charges que não sejam da temática política como um gênero discursivo distinto, como se a charge, obrigatoriamente, tivesse que estar pautada nos acontecimentos políticos. Isso acontece pelo fato de a sua origem ser justamente este assunto, que foi se diversificando com o passar do tempo.
A gênese da charge brasileira também foi política. Segundo o jornalista Gutemberg Cruz Andrade (2011), a primeira charge brasileira foi publicada no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro (Edição 277) em dezembro de 1837 e teve autoria atribuída a Manoel de Araújo Porto Alegre. A charge satirizava Justiniano José da Rocha, político da época, em uma crítica às propinas recebidas por um funcionário do governo relativas ao correio oficial. Observa-se, assim, que o tema político sempre teve estreita relação com o gênero chargístico.
Figura 3 – Primeira charge publicada no Brasil.
Fonte: Jornal do Commercio do Rio De Janeiro/Manoel de Araújo Porto Alegre. Disponível em: <http://blogdogutemberg.blogspot.com.br/2011/07/primeira-charge-brasileira.html>. Acesso em: 4
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Muitos chargistas surgiram em meio à produção crítica à política, assim como muitos folhetins também apareceram sob os holofotes dessa mesma temática. No Brasil, O Pasquim foi um grande exemplo das publicações nascidas para o debate político, principalmente por ter aparecido em uma época difícil para os meios de comunicação: a Ditadura Militar brasileira. Editado entre 26 de junho de 1969 e 11 de novembro de 1991, O Pasquim trouxe grandes nomes da charge nacional como Henfil, Millôr, Jaguar e Ziraldo, além de muitos outros, como confirma Ivan Cabral (2008, p. 75):
Um dos fronts de resistência era ocupado por corajosos chargistas como Claudius, Fortuna, Ziraldo e Jaguar. O título de corajosos é merecido se lembrarmos que a tortura, e muitas vezes a morte, era um dos instrumentos mais usados nos chamados “porões da ditadura”. O jornal PIF-PAF, de Millôr Fernandes, foi a primeira publicação a reagir ao regime; foi lançado no Rio de Janeiro, há apenas cinqüenta dias após o golpe. Entretanto, a publicação que se tornou emblemática na resistência à ditadura foi O Pasquim, jornal de humor dirigido por Tarso de Castro e lançado quatro anos após o golpe militar, que surgiu em substituição ao Carapuça, de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do escritor Sérgio Porto. O jornal funcionou como um quartel general da brigada humorística, agregando nomes como Millôr Fernandes, Fortuna, Claudius, Jaguar, Henfil e Ziraldo, verdadeiros patronos do humor do final do século e principais influências na geração seguinte. Eles usaram a charge, na melhor concepção do termo francês, como um poderoso canhão arremessando as mais mordazes críticas contra o governo militar e denunciando com habilidade e constância os resultados e, principalmente, as causas dos malefícios sociais do regime instalado. Seus dirigentes e artistas foram presos diversas vezes, mas o jornal conseguiu resistir até o início da flexibilização do regime.
A política nunca foi um assunto resolvido, isto é, ele jamais foi esgotado plenamente. Sempre haverá o grupo eleito, que está no poder, e sempre haverá a oposição. De qualquer forma, independente do posicionamento do chargista, haverá um outro a ser buscado, haverá alguém para compreender o enunciado e resolvê-lo. Talvez por ter essa plateia sempre a postos que a temática seja a preferida tanto pelos chargistas quanto pelos leitores.
Ao trabalhar a charge política, o chargista utiliza muitos elementos estratégicos para conseguir uma responsividade, e um deles é a associação de fatos do cotidiano com o seu enunciado por meio de recursos gráficos.
Não dá para trabalhar com os personagens de forma genérica, criar falsos nomes ou representações gráficas neutras na charge política, uma vez que os políticos têm cara e nome. Os eleitores podem até ser concebidos com traços simples e genéricos: um homem ilustrado com um capacete e um macacão é normalmente utilizado para representar a classe trabalhadora, por exemplo. Eisner (2005, p. 21) explica que esse recurso estereotipado é definido como uma ideia ou um personagem que é padronizado numa forma convencional, sem individualidade,
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sendo desenhado a partir de características físicas comumente aceitas e associadas a uma ocupação, e conclui:
A arte de criar uma imagem estereotipada com o objetivo de contar uma história requer uma familiaridade com o público e a percepção de que cada sociedade tem um conjunto de estereótipos próprios que ela aceita (EISNER, 2005, p. 23).
Assim, um político comum pode até ser representado pelo uso do terno e de uma pasta, mas a técnica da caricatura é fundamental para a representação dos personagens, ancorando-os com a realidade. Dessa forma, o chargista busca o repertório do outro associando o real à construção do seu produto.
O político graficamente representado nas charges chega a ter uma assimilação mais fácil com o leitor até do que o seu próprio nome. Esse uso de imagem é inerente ao cargo e vem a partir da associação natural deles com suas respectivas imagens. A imagem do personagem político já é marcada em sua origem, desde as peças publicitárias que estampam rostos nas campanhas (os famosos "santinhos") até as atitudes de alguns candidatos. Fernando Collor de Mello (presidente do Brasil entre 1990 e 1992) era então conhecido como "O Caçador de Marajás", assim, já subsidiava os chargistas com um estereótipo para caricaturá-lo e representá- lo, buscando a responsividade do leitor. Outros presidentes ajudavam ainda mais por suas características físicas: o topete de Itamar Franco, a grande boca de Fernando Henrique Cardoso, a barba e a baixa estatura de Lula e os grandes dentes de Dilma Rousseff eram bem representados (e evidenciados) nas caricaturas das charges políticas. Até o ex-presidente José Sarney (2010), em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, disse que, ao encontrar o cartunista Chico Caruso, falou: "Eu ajudo muito os chargistas". Foi indagado: "Em quê?". "Com o meu bigode, que facilita o trabalho de vocês", respondeu.
A charge sempre manteve um estreito laço com a política e a sua intensidade (seja produtiva ou discursiva) é diretamente proporcional à situação política do ambiente onde ela vive e é criada – a época política turbulenta que o Brasil passava durante o período desta pesquisa também intensificou a produção chargística no país e, obviamente, as charges de Ivan Cabral.
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