Enunciado 1 – Tchau, querido!
5.3 Março de 2016, enunciado-chave 3: "Como acabar com um protesto"
Cenário nacional na época:
Em março de 2016, o Zika vírus ainda estava causando muita preocupação e havia se espalhado por todo o país, o Whatsapp havia sido bloqueado mais uma vez e o Conselho de Ética da Câmara avaliava a quebra de decoro de Eduardo Cunha. Marcelo Odebrecht havia sido condenado a 19 anos e quatro meses de prisão pelo esquema de corrupção da Petrobrás. O STF reavaliava o rito de processo do impeachment e, no dia 13, o Brasil "explodiu", mais uma vez, numa onda de protestos contra a corrupção e, principalmente, contra Dilma Rousseff e o PT.
Gráfico 4 – Charges de março de 2016.
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No mês de março de 2016, Ivan elaborou 27 charges, das quais 26 abordavam a política de maneira geral e 24 eram referentes ao processo de impeachment. Nesse mês, houve duas publicações exclusivas no Facebook que não ganharam espaço no Novo Jornal. Março foi, sem dúvidas, o período em que a política foi o tema que mais motivou a elaboração de enunciados. 96,3% das charges publicadas traziam o tema político, e 88,88%, do total, eram referentes ao impedimento de Dilma.
Um domingo, 13 de março, foi escolhido para ser o dia da maior manifestação contra a corrupção no Brasil. A data 13 provavelmente foi escolhida por ser o dia com o número do Partido dos Trabalhadores e para associá-la à corrupção (motivo da manifestação) ao partido.
5.3.2 Apresentação do enunciado
Como já mostramos, as cores verde e amarelo tornaram-se "obrigatórias" nas vestes dos manifestantes. Isso fez com que Ivan utilizasse essa característica marcante para representar os eleitores manifestantes de forma genérica em suas charges.
Figura 10 – Manifestante genérico.
Fonte: Ivan Cabral.
Ivan preparou uma charge para ser publicada na edição de domingo do Novo Jornal, no dia 13, data de mais um protesto. Tradicionalmente, a edição mais vendida dos jornais é a dominical e isso faria com que mais leitores vissem o enunciado e associassem facilmente a charge ao que estava acontecendo no dia.
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Sincronizando o tempo de sua produção ao evento que ia acontecer, o chargista programou a publicação do enunciado para ser veiculado justamente no dia do protesto. Em seu enunciado, criticou a multidão que ia às ruas e as suas motivações.
Enunciado-chave 3 – Como acabar com um protesto20.
Fonte: Ivan Cabral. Disponível em: <http://www.ivancabral.com/2016/03/charge-do-dia-como-acabar- com-um.html>. Acesso em 28 jun. 2016.
Ivan Cabral produziu esse enunciado criticando a oposição do governo, que pedia, intensamente, a saída da governante. Os apoiadores de Dilma acreditavam que esses manifestantes requisitavam a saída da presidente sem um embasamento sólido, crendo que, apenas levados pelo movimento da massa, pediam esse impedimento.
O desenho mostra a população pró-impeachment aglomerada fugindo de um livro de História lançado no meio da multidão de fora para dentro, como se o chargista estivesse ali, arremessando o livro e inserindo o seu próprio pensamento no enunciado, ou seja, inserindo a sua própria voz, criticando claramente aqueles que estavam com um pensamento divergente.
Os personagens, ilustrados como eleitores manifestantes genéricos, estão vestidos com uma camisa verde e amarela (como já dito, um dos símbolos das manifestações) e, em algumas
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Trecho de trabalho apresentado na XXVI Jornada do Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste – GELNE, sob o título "Reverberação das charges online", em 2016, pelo mesmo pesquisador desta dissertação.
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dessas camisas, é possível ler os pedidos de impeachment e frases de repúdio ao partido da presidente, marcando claramente que se trata de membros opositores à gestão Dilma/PT.
O rosto de pânico em cada um dos personagens e a dispersão oposta ao local onde o livro cairia remetem ao medo dos manifestantes de conhecer a história do país e reconhecer que o protesto é equivocado, de acordo com o chargista. O arremesso do livro de História mostra a possível falta de conhecimento da história democrática do país (que dentre muitos problemas viveu uma Ditadura Militar) por parte dos manifestantes e o desconhecimento do que realmente o protesto estava reivindicando, pois como se via em reportagens da época, muitos levavam, inclusive, faixas nas cores verde e amarelo solicitando intervenção militar.
Claramente, a charge critica a oposição ao governo petista e mostra o posicionamento político-ideológico de Ivan Cabral.
Mais uma vez o enunciado de Ivan trouxe respostas, e, dessa vez, a resposta veio de forma inusitada: um leitor refez o discurso de Ivan construindo o seu em uma releitura distorcida e não autorizada.
5.3.3 Embates dialógicos
Enunciado-resposta 3 – Releitura da charge "Como acabar com um protesto".
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Descontente e desfavorável ao posicionamento de Ivan, um leitor, utilizando o conhecimento que tinha de manipulação de imagens, refez o enunciado original inserindo o seu posicionamento e reutilizando as mesmas estratégias que Ivan usou no enunciado-chave 3.
O uso dos mesmos recursos enunciativos fica claro, principalmente, pelo enunciado- resposta 3 ter sido feito sobre o desenho original com manipulações que exigiram poucos recursos técnicos. O coenunciador substituiu o livro de História por uma carteira de trabalho (que, por sinal, tem a mesma coloração azul), recoloriu as camisas verde e amarelo por vermelho (a cor do partido da presidente Dilma) e alterou os textos de "impeachment já" e "Xô PT" para a sigla da legenda do Partido dos Trabalhadores.
Com essas alterações, o "leitor autor" manteve o mesmo teor enunciativo que Ivan havia inserido no enunciado original: o pânico ilustrado nas ações e expressões de cada um dos personagens foi mantido, assim como dispersão oposta ao local onde a carteira de trabalho cairia, assustando os apoiadores do PT. A fuga dos personagens à carteira de trabalho remete à crítica de que os membros do PT e os apoiadores de Dilma Rousseff são avessos ao trabalho e, por isso, faziam seus protestos em dia de semana (o contrário dos protestos da oposição, que normalmente aconteciam aos domingos) e que, desempregados, recebiam auxílio financeiro para ir às ruas, invalidando o protesto de apoio – a batalha ideológica, na verdade, seria um mero contrato financeiro.
Poucos elementos foram alterados em relação à charge original: as cores e os dizeres das camisas e o elemento arremessado no centro do desenho. Essas alterações foram mínimas, mas mudaram o discurso completamente, trazendo a voz do leitor carregada de uma crítica velada, porém extremamente empoderada de forças centrífugas em relação ao enunciado original.
A releitura do enunciado de Ivan não pode ser considerada como plágio, uma vez que a sua construção está mais próxima à definição da paródia. Segundo Bakhtin (2015, p. 82), a paródia não se trata apenas de um discurso do outro na mesma "linguagem"; é um enunciado do outro numa "linguagem estranha ao autor", isto é, por mais que o novo enunciado também seja uma charge, a ideologia inserida nela é estranha ao posicionamento de Ivan. O discurso paródico rebaixa e deforma a palavra do outro. Oliveira explica que:
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No discurso popular, o termo paródia assumiu um sentido restrito e depreciativo, uma vez que, nesse caso, atribui-se a ele o sentido de imitação enganosa ou simulacro. No entanto, a sua concepção não é muito diferente no discurso da esfera literária [assim como no gênero discursivo charge]. Apesar de ter um sentido mais diversificado, continua, devido a sua natureza ambivalente, sendo definida pelos cientistas da linguagem a partir de uma conotação negativa, visto que, geralmente, são consideradas obras paródicas aquelas que se propõem a realizar a “degradação” de um modelo [...] (OLIVEIRA, 2016, p. 76, grifos nossos).
A paródia é caracterizada por uma "repetição diferenciada". Diferente de uma imitação que copia igualmente, ela traz detalhes que a diferenciam do original, valorando-a como uma recriação do texto original (CABRAL, 2008).
Ivan Cabral traz um complemento à definição de paródia quando diz que
ela precisa simultaneamente repetir-se enquanto se diferencia. Ao mesmo tempo em que inova, ela precisa manter a estrutura do texto que lhe serve de substrato, num jogo sutil entre mudança e conservação, morte e vida, diferença e semelhança. Em outras palavras, é necessário que as pistas que fazem referência ao texto parodiado sejam minimamente preservadas, caso contrário o novo texto perde sua essência paródica e compromete o fluxo entre os dois textos a ser vivenciado pelo leitor (CABRAL, 2008, p. 34).
O leitor que reconstruiu o enunciado de Ivan explicou em sua página pessoal do Facebook o processo de alteração do enunciado original.
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Figura 11 – Processo de reconstrução enunciativa.
Fonte: Ivan Cabral / Facebook.
Como dito pelo próprio autor do enunciado-resposta 3 na Figura 11, ele assume que fez uma montagem, mas inserindo as suas ideologias. Explica ainda como era a charge original e detalha o processo de intervenção, apontando que deixou a assinatura de Ivan "só para sacanear", único ponto que põe em xeque o seu processo de reconstrução, aproximando-o de um possível plágio ao invés de uma paródia. O autor ainda mostra que se agradou pelo fato de seu discurso ter tomando uma grande repercussão21.
O leitor reelaborou o desenho original, criando uma paródia que, além de "refazer" o desenho, criou uma nova visão ideológica sobre o mesmo tema. Por mais que tenha sido
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A paródia da charge de Ivan feita pelo coenunciador tomou proporções enormes, reverberando pela internet mais rápido do que a original. Em um perfil de direita no Facebook as reações chegaram à marca de 39.300 interações. A Revista IstoÉ, na edição de nº. 2423 de 18 de maio de 2016, publicou uma matéria intitulada “Humor em tempos de crise” e publicou a charge parodiada como se fosse original (OLIVEIRA JUNIOR, 2016).
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construído refazendo pitorescamente o discurso original, o novo enunciado tem valor. Em outras palavras, deve ser considerado, pois tinha um "novo outro" a ser atingido, possuía conteúdo a ser recuperado, transmitia a voz carregada do novo autor e estava diretamente relacionado ao original, criando um verdadeiro enunciado-resposta. Bakhtin (2015a, p. 297) explica que os enunciados não são isolados e, se não se concluem por si só, eles se relacionam e necessitam de outros: "os enunciados não são indiferentes entre si nem se bastam cada um a si mesmos; uns conhecem os outros e se refletem mutuamente uns nos outros. Esses reflexos mútuos lhes determinam o caráter". Em novo enquadramento, o discurso do enunciado-matriz cria um novo fundo dialógico: novo posicionamento contrário ao que o motivou.
Em ambos os enunciados, os autores utilizaram de uma acidez ainda mais acentuada do que o gênero exige, criticando o pensamento alheio e atingindo-o diretamente por não aceitar o seu posicionamento como importante, fazendo com que os enunciados fossem bem direcionados ao ataque à oposição, porém ainda construídos sob a perspectiva da polêmica velada.
O discurso de Ivan, no enunciado-chave 3, estava repleto de vozes direcionadas à oposição e o Novo Jornal, com a tentativa de evitar supostas represálias de leitores antagônicos ao posicionamento ideológico do chargista, recorreu ao gatekeeper22, que vetou a sua publicação, solicitando que Ivan refizesse a charge (CABRAL, 2016), com uma crítica mais sutil e menos impactante do que a que foi enviada, interferindo na voz do falante.
A charge "Como acabar com um protesto" não foi impressa no Novo Jornal, porém ganhou espaço na página do Facebook e no blog de Ivan, onde serviu de base para a elaboração da paródia e para outras respostas.
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Fernandes (2011, p. 5), citando Kurt Lewin (1947), define que a passagem da notícia em alguns veículos de comunicação depende de "portões" (gates) que funcionam dentro desses mesmos canais de comunicação. Em tradução livre, os gatekeepers seriam os "porteiros" da notícia, aqueles que determinam o que sai da edição e ganha espaço nas páginas veiculadas.
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Enunciados-resposta 4.
Fonte: Facebook.
Os embates dialógicos continuaram no Facebook e, como nos anteriores, nasceram velados e se tornam mais abertos durante todo o processo. O leitor Ferreira usa sua criatividade e expõe a sua polêmica de forma direta, por meio de um poema intitulado "O dialeto petista", carregado de forças centrífugas:
Muito exótico, indireto, Tortuoso, entrelinhado É muito falso e safado Do PT o dialeto! Não segue caminho reto Esse jargão da canalha - Que pelo Brasil se espalha Enganando tanta gente… - É promíscuo, é indecente, Só quem entende é petralha23
O uso de palavras como "falso", "safado", "canalha", "enganando", "promíscuo", "indecente" e "petralha" monta o cenário que nos permite considerá-lo um "poema responsivo" como polêmica aberta. Sem procurar usar índices que amenizassem ou direcionassem indiretamente a sua intenção, o autor preferiu ser claro e atacar diretamente quem apoiava o
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governo petista; consequentemente, atacar também o chargista. Ivan não se pronunciou nesse embate das respostas no Facebook.
Em resposta à solicitação do Novo Jornal, Ivan elaborou um novo enunciado abrandando a sua voz e construindo uma nova crítica velada, mais sutil, que foi publicada pelo periódico.
Enunciado-resposta 5 – ET nos protestos.
Fonte: Ivan Cabral. Disponível em: <http://www.ivancabral.com/2016/03/charge-do-dia-como-acabar- com-um.html>. Acesso em 28 jun. 2016.
O novo enunciado traz um cenário parecido com o cenário do enunciado reprovado no enunciado-chave 3. O protesto novamente está sendo retratado com a participação dos "eleitores-manifestantes" genéricos com suas camisas amarelas. Nota-se a presença de placas pedindo a saída do PT e o pedido de impeachment. No centro, em destaque, há a presença de um ser extraterrestre também vestido com a camisa verde e amarela com uma placa que destoava das demais, perguntando: "Moro, e o PSDB?", criticando a postura do juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, por não incluir as denúncias contra os partidos de oposição ao PT.
A presença de um extraterrestre é para comunicar que apenas um ser que não vivesse no planeta Terra e não estivesse sendo influenciado pela opinião da massa e dos grandes veículos de comunicação teria capacidade de mensurar imparcialmente a situação, cobrando a investigação de todos os possíveis partidos envolvidos.
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Com esse enunciado, Ivan deixou a crítica particular de lado e voltou à crítica institucional, apontando as falhas do processo e os conchavos partidários de interesses.
A nova charge passou pelo crivo editorial do Novo Jornal e foi publicada, além de republicada no Facebook e no blog. Dessa vez o blog, que normalmente é uma plataforma com pouca interação, recebeu uma resposta de um leitor também questionando a postura de Ivan e de suas charges.
Enunciado-resposta 6 – Interação do blog Sorriso Pensante.
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Nota-se que há um embate entre chargista e leitor repleto de polêmicas abertas. No discurso do leitor, há uma forte demonstração dessas polêmicas em trechos como: "não interessa agora essa merda de oposição", "você está ajudando um bando de criminosos com seus argumentos bobos" e "Charges como essa só desviam a atenção do que interessa, e com um argumento frágil. Seus netos um dia vão lhe cobrar". Outro trecho mostra que o leitor analisou outras postagens, pois retoma a charge que não havia sido publicada no Novo Jornal (enunciado-chave 3) quando diz: "[...] ignorando a maior manifestação da história dizendo que todos que estavam lá são ignorantes em relação a história".
Na réplica de Ivan, também há a presença das polêmicas abertas. Inicialmente, o chargista valida a análise do outro com a frase: "O seu comentário, embora discordante, é importante. Significa que você fez uma leitura da charge e resolveu comentá-la, argumentando, mesmo que discordando". Abre a polêmica nos pontos 1 e 2, resgatando, ainda, o histórico de corrupção do PSDB ao referir-se à falta de investigação do partido desde a época de Mário Covas. Ivan tenta posicionar-se de forma menos incisiva quando justifica a sua "imparcialidade" no trecho "minha intenção não é ajudar um bando de criminosos com argumentos bobos, mas denunciar a indignação seletiva, apoiada por parte significativa da grande mídia". O chargista finaliza convidando o leitor a ler a postagem "Eu, Petista?!", que já citamos nesta pesquisa.
Os dois enunciados produzidos por Ivan que utilizamos na análise do mês de março mostram que há uma interação intensa entre os enunciados produzidos e os seus leitores, além de apontar que existem inúmeros meios de se manifestar essas respostas além dos comentários diretos em redes sociais, como foi o exemplo da paródia produzida que acabou ganhando, inclusive, mais alcance responsivo do que o enunciado original, mostrando que a charge tem um grande potencial para alcançar “o outro” e suas inevitáveis respostas.
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5.4 Abril de 2016, enunciado-chave 4: "Minha ponte, minha vida"