Embates dialógicos em um país dividido: a responsividade das charges de Ivan Cabral no processo de impeachment de Dilma Rousseff
Texto
(2) MAURICIO DA SILVA OLIVEIRA JUNIOR. EMBATES DIALÓGICOS EM UM PAÍS DIVIDIDO: A RESPONSIVIDADE DAS CHARGES DE IVAN CABRAL NO PROCESSO DE IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF. Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Letras. Área de Concentração: Linguística Aplicada. ORIENTADORA: PROFA. DRA. MARIA DA PENHA CASADO ALVES.. Natal/RN 2017.
(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – CCHLA. Oliveira Junior, Mauricio da Silva. Embates dialógicos em um país dividido: a responsividade das charges de Ivan Cabral no processo de impeachment de Dilma Rousseff / Mauricio da Silva Oliveira Junior. - 2017. 116f.: il. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas Letras e Artes. Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, 2017. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria da Penha Casado Alves. 1. Charge. 2. Ivan Cabral. 3. Relações dialógicas. 4. Responsividade. 5. Embates dialógicos. 6. Impeachment de Dilma Rousseff. I. Alves, Maria da Penha Casado. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 81'33:74.
(4) À minha família, em especial aos meus dois portos seguros: Andressa e Alissa..
(5) AGRADECIMENTOS Deus. Não tenho como não agradecer a esse cara que programou o meu caminho e fez com que as coisas acontecessem no tempo em que deveriam e da forma adequada, colocando as pessoas certas no meu caminho e me permitindo ter os fracassos e sucessos na medida exata, deixando-me chegar onde estou e me encorajando a almejar sempre uma nova conquista. À minha família, que entendeu quando precisei negar todos os seus convites e, com o protecionismo familiar que se espera, dizia-me que eu iria chegar lá. Deles, preciso destacar alguns: meu pai, que, além de me dar o seu nome, me ensinou a sua profissão e, com o que podia, me apresentou ao mundo da cultura e da arte, incentivando-me a enveredar nesse caminho (principalmente quando me fez trocar meu vício pela chupeta por um conjunto de tinta guache) e mostrando que era possível viver de arte. Ensinou-me, também, a responsabilidade e a organização que, com certeza, ajudaram bastante na conclusão desta pesquisa; minha mãe, que não está comigo há algumas décadas e me faz sentir ainda mais saudades a cada conquista minha que não pudemos compartilhar... muito disso é para ela, que nunca conseguirei esquecer; meus irmãos Shirley e Mateus, que confiam muito em mim. Nunca irei decepcioná-los. À Andressa, minha esposa, que, há muito tempo, é minha maior incentivadora e motivadora. Encoraja-me em todas as escolhas que faço e me inspira para ter foco e garra em todos os meus projetos. Não bastando ser meu tudo, presenteia-me com a maior felicidade de minha vida, minha filha Alissa, que está quase chegando e, mesmo na barriga da mamãe, já me incentiva e me faz ter uma energia que eu nem sabia que existia. Sem essas duas nada faz sentido. A todos os amigos que me ajudaram a montar o caráter e a essência pelos caminhos da vida. Cada um de vocês está aqui de uma forma ou de outra. Seria impossível nomear todos eles, mas alguns se destacaram nessa etapa. Ivana, que me encorajou a conhecer a Linguística Aplicada e me fez seguir esse caminho acadêmico; Kaline, minha parceira que divide muitos desafios e conquistas e que me dá força em meus projetos e me incentiva a querer subir cada vez mais novos degraus, além de garantir que eu não tenha escrito nenhuma bobagem neste trabalho; Verônica, pelas muitas risadas e pelo apoio “normatizador” e Letícia que, com toda a sua delicadeza, sempre me incentiva e me faz acreditar que eu sou capaz. Aos parceiros acadêmicos Rosângela, Fabíola, Margot e Fabiana que, desde o início, acreditaram que eu conseguiria..
(6) Há um agradecimento muito especial aos meus amigos do “Pequeno Círculo”, Diana e Arthur, que dividiram comigo cada etapa do mestrado, partilhando conquistas, sufocos e desesperos. Eu os levarei comigo por toda a vida. À Penha, que além de orientar muito bem esta pesquisa, foi uma excelente amiga quando, com toda a paciência e humildade possível, me explicou cada detalhe da Linguística Aplicada, até então inédita para mim. Cada mensagem, cada e-mail, cada encontro de corredores e, especialmente, cada encontro de sábado mudou a minha cabeça para melhor, abriu um leque e me deu lentes que não sei se iriam surgir um dia. Sou muito grato a você. A Gilvando, pela postura e pelas orientações na banca de qualificação que fizeram com que esse trabalho ganhasse um novo corpo e que me ajudaram a melhorar como pesquisador. A Paulo Ramos, pelo esclarecimento do mundo dos “gêneros visuais” em seus trabalhos e pela prontidão em aceitar o convite para examinar esta dissertação. O que dizer de um objeto de pesquisa que sempre está disponível, comunica sobre novas informações, debate ideias e indica caminhos de pesquisa? Ivan Cabral, continue sendo esse ser humano iluminado e de coração puro. Obrigado por acreditar em meu trabalho e me ajudar no que precisei. Sem todos vocês, isso aqui não teria acontecido ou não haveria motivação alguma para acontecer. Obrigado..
(7) A charge é o verbal reciclado. Ivan Cabral.
(8) RESUMO A charge é um gênero discursivo que circula em variados veículos de notícia e, atualmente, difundido também em inúmeros outros meios de comunicação. Esse gênero discursivo permite uma maior visibilidade da opinião do autor, isto é, o "autor falante" produz o conteúdo temático carregando-o ideológico e axiologicamente. A produção de tais enunciados concretos (charges) é voltada para um ouvinte/leitor que também é histórico e também está situado em um ambiente social, fazendo com que esse direcionamento seja responsivo ao leitor, à situação e aos fatos. Para esta pesquisa, tomamos como referencial teórico as concepções advindas do Círculo de Bakhtin no que concerne às relações dialógicas, à heterodiscursividade, a posicionamento e a embates dialógicos. Para compreender o riso chargístico, apoiamos nossas reflexões em Bergson, Propp e Bakhtin. Dada a especificidade do gênero discursivo charge, buscamos ancorar nossas incursões no trabalho de Ivan Cabral, Ramos, Eisner e McCloud. O corpus desta pesquisa são as charges produzidas pelo chargista potiguar Ivan Cabral durante o período do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que ocorreu entre 02 de dezembro de 2015 e 13 de maio de 2016. A pesquisa se insere na área da Linguística Aplicada mestiça, fronteiriça e indisciplinar cujo objetivo é construir inteligibilidade sobre as práticas discursivas, considerando, para tanto, os sujeitos, as esferas de atividade e a historicidade das interações humanas. A investigação analisa os dados construídos a partir da vertente qualitativointerpretativista e o método indiciário de Ginzburg, que se volta para os indícios, os sinais que denunciam sentidos e posicionamentos. Os resultados permitem concluir que a charge, enquanto enunciado concreto, suscita responsividade que permite dar visibilidade aos embates dialógicos entre sujeitos situados e posicionados, confirmando que na interação os sujeitos ocupam lugares e posições a partir de sua visão de mundo e de um conjunto de valores. Palavras-chave: Charge. Ivan Cabral. Relações dialógicas. Responsividade. Embates dialógicos. Enunciado concreto. Impeachment de Dilma Rousseff..
(9) ABSTRACT The cartoon is a discursive genre that circulates in varied news vehicles and, currently, also diffused in numerous other means of communication. This discursive genre allows a greater visibility of the author's opinion, that is, the "talking author" produces the thematic content carrying it ideologically and axiologically. The production of such concrete utterances (cartoons) is directed towards a listener / reader who is also historical and is also situated in a social environment, making this direction responsive to the reader, the situation and the facts. For this research, we take as theoretical reference the concepts coming from the Circle of Bakhtin in what concerns to dialogic relations, heterodiscursivity, positioning and dialogic clashes. To understand the laughter from the cartoon, we support our reflections in Bergson, Propp and Bakhtin. Given the specificity of the discursive cartoon genre, we sought to anchor our forays into the work of Ivan Cabral, Ramos, Eisner and McCloud. The corpus of this research are the cartoons produced by the potiguar cartoonist Ivan Cabral during the impeachment process of former president Dilma Rousseff, which occurred between December 2, 2015 and May 13, 2016. The research is part of the mestiza, frontier and indisciplinary Applied Linguistics whose objective is to build intelligibility on discursive practices, considering, for that, the subjects, the spheres of activity and the historicity of human interactions. The research analyzes the data constructed from the qualitative-interpretative perspective and the Ginzburg indicationary method, which turns to the signs, the signs that denounce meanings and positions. The results allow us to conclude that the charge, as a concrete statement, elicits responsiveness that allows to give visibility to the dialogic clashes between subjects situated and positioned, confirming that in the interaction subjects occupy places and positions from their world view and a set of values. Keywords: Cartoons. Ivan Cabral. Dialogical relations. Responsiveness. Dialogic clashes. Concret utterance. Impeachment of Dilma Rousseff..
(10) LISTA DE ILUSTRAÇÕES Enunciado 1 – Tchau, querido!............................................................................................... 30 Enunciado-chave 1 – Gato pingado.........................................................................................70 Enunciado-chave 2 – O alvo .................................................................................................. 78 Enunciado-chave 3 – Como acabar com um protesto............................................................ 85 Enunciado-chave 4 – Minha ponte, minha vida .................................................................... 96 Enunciado-chave 5 – Sexta-feira 13..................................................................................... 102 Enunciados-resposta 1 ......................................................................................................... 73 Enunciados-resposta 2.......................................................................................................... 80 Enunciado-resposta 3 – Releitura da charge "Como acabar com um protesto".................... 86 Enunciados-resposta 4 .......................................................................................................... 91 Enunciado-resposta 5 – ET nos protestos ............................................................................. 92 Enunciado-resposta 6 – Interação do blog Sorriso Pensante ................................................ 93 Enunciados-resposta 7 .......................................................................................................... 99 Enunciados-resposta 8 ........................................................................................................ 104 Figura 1 – Respostas ao Enunciado 1 ................................................................................... 32 Figura 2 – Ameaça de morte a Ivan Cabral ........................................................................... 34 Figura 3 – Primeira charge publicada no Brasil ..................................................................... 35 Figura 4 – Primeira charge publicada de Ivan Cabral .............................................................41 Figura 5 – Charge de 1983, Ivan Cabral substituindo Edmar Viana no Diário de Natal ....... 42 Figura 6 – Charge de 1988, durante férias de Cláudio Oliveira, na Tribuna do Norte .......... 42 Figura 7 – Charge de 1988, quando assume o cargo oficialmente no Diário de Natal .......... 43 Figura 8 – Estrela decadente .................................................................................................. 47 Figura 9 – Nova fase .............................................................................................................. 47 Figura 10 – Manifestante genérico ......................................................................................... 84 Figura 11 – Processo de reconstrução enunciativa ................................................................ 89 Figura 12 – Logotipo do programa Minha Casa, Minha Vida ............................................... 97 Gráfico 1 – Charges publicadas durante o processo de impeachment.................................... 67 Gráfico 2 – Charges de dezembro de 2015............................................................................. 69 Gráfico 3 – Charges de fevereiro de 2016.............................................................................. 77 Gráfico 4 – Charges de março de 2016................................................................................... 83 Gráfico 5 – Charges de abril de 2016..................................................................................... 95 Gráfico 6 – Charges de maio de 2016................................................................................... 101.
(11) SUMÁRIO 1 RABISCOS INICIAIS .........................................................................................................11 2 IDEIA NO PAPEL: A CONCRETUDE ENUNCIATIVA DO GÊNERO CHARGÍSTICO......................................................................................................................15 2.1 Charge: o que é?................................................................................................................18 2.1.1 O riso e o grotesco na charge ...........................................................................................23 2.2 Muito além dos balões: as vozes responsivas da charge ................................................28 2.2.1 Je suis Charlie?................................................................................................................33 2.3 A charge no contexto político: posicionamentos ............................................................35 2.4 Brasil, mostra a tua cara: o contexto político do país e o corpus pesquisado ..............38 2.4 O chargista Ivan Cabral ...................................................................................................40 2.4.1 Uma página rasgada .........................................................................................................46 3 GEOMETRIA À PARTE: UM CÍRCULO DIALÓGICO COMO BASE TEÓRICA .49 3.1 As relações dialógicas bakhtinianas ................................................................................51 3.2 Heterodiscursividade: as vozes que falam, ouvem e respondem ..................................54 3.2.1 A polêmica aberta e a polêmica velada............................................................................58 4 PERCURSO CONSTRUTIVO: APRESENTAÇÃO DA METODOLOGIA DE PESQUISA ..............................................................................................................................60 4.1 Questões e Objetivos de pesquisa ....................................................................................64 5 EMBATES DIALÓGICOS: ANALISANDO OS ENUNCIADOS .................................66 5.1 Dezembro de 2015, enunciado-chave 1: "Gato pingado" .............................................69 5.1.1 Contextualização política e dados quantitativos ..............................................................69 5.1.2 Apresentação do enunciado .............................................................................................70 5.1.3 Embates dialógicos ..........................................................................................................72 5.2 Fevereiro de 2016, enunciado-chave 2: "O alvo" ..........................................................76 5.2.1 Contextualização política e dados quantitativos ..............................................................76 5.2.2 Apresentação do enunciado .............................................................................................78 5.2.3 Embates dialógicos ..........................................................................................................79 5.3 Março de 2016, enunciado-chave 3: "Como acabar com um protesto" ......................83 5.3.1 Contextualização política e dados quantitativos ..............................................................83 5.3.2 Apresentação do enunciado .............................................................................................84 5.3.3 Embates dialógicos ..........................................................................................................86.
(12) 5.4 Abril de 2016, enunciado-chave 4: "Minha ponte, minha vida" ..................................95 5.4.1 Contextualização política e dados quantitativos ..............................................................95 5.4.2 Apresentação do enunciado .............................................................................................96 5.4.3 Embates dialógicos ..........................................................................................................98 5.5 Maio de 2016, enunciado-chave 5: "Sexta-feira 13"....................................................101 5.5.1 Contextualização política e dados quantitativos ............................................................101 5.5.2 Apresentação do enunciado ...........................................................................................102 5.5.3 Embates dialógicos ........................................................................................................103 6 ACABAMENTO FINAL ...................................................................................................106 6.1 Epílogo .............................................................................................................................109 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................110.
(13) 11. 1 RABISCOS INICIAIS Há muito tempo, os consumidores de fontes de notícia têm tido contato com um gênero de informação que foge aos padrões das publicações noticiosas impressas: desenhos que brotam no meio das brochuras de jornais e revistas quebrando a harmoniosa disposição de textos diagramados em colunas simétricas. Esse gênero, denominado de charge, tem por natureza a característica de quebrar a linearidade, de romper com a lógica (seja estrutural ou semântica) e ao mesmo tempo informar. Além dos jornais, revistas e demais veículos impressos, a charge invadiu gradativamente outros meios de comunicação como a televisão, em versões animadas dos desenhos outrora estáticos, revelando uma crítica que não costumava fazer parte dos telejornais mais assistidos do país. Há poucos anos, o Jornal Nacional da Rede Globo trazia a charge de Chico Caruso, determinadas vezes na semana, criticando algum fato de destaque e expondo o posicionamento do veículo acerca do assunto. A internet foi outro espaço onde a charge ganhou muita visibilidade, originalmente servindo de canais de replicação das charges impressas nos jornais e, depois, passando a um.
(14) 12. dos principais canais de veiculação – seja pela facilidade que o meio proporciona, seja pela falta de espaço na mídia convencional para chargistas talentosos exibirem seus discursos. Até o meio radiofônico, de certa forma, utiliza a charge: a rádio CBN tem um quadro chamado “A charge do jornal”, em que um jornalista relata algum fato e expõe a sua crítica, simulando o que uma charge convencional faz com recursos visuais. A charge deixou de ter características restritas ao jornalismo, passando a enfocar outras cenas do cotidiano que também mereciam o tom humorístico da crítica que ela propicia. Sites específicos produzem ou veiculam charges dos seus respectivos temas – inclusive que fogem do cotidiano jornalístico. Blogs restritos a temas específicos (videogames, moda, comportamento, tecnologia etc.) também trabalham com discursos chargísticos voltados aos seus temas. Isso mostra que o gênero agrada o leitor que provavelmente anseia por uma parcialidade em um meio no qual a imparcialidade (por mais difícil que seja encontrá-la) é a regra a ser seguida, além da melhoria de percepção do conteúdo por utilizar bem o recurso imagem. Jayme Cortez explica que a ilustração ajuda na compreensão do conteúdo, tornando-o mais agradável de ser consumido: Há milhares de anos que o homem chegou à conclusão de que a maneira mais simples de se explicar uma coisa é ilustrá-la. Esse anseio de expressão através da imagem tem dado as mais belas experiências no campo da arte como os mais expressivos resultados no setor da comunicação humana (CORTEZ, 1970, p. 10).. Para ser um bom ilustrador, deve-se dominar a técnica do desenho; já para ser um bom chargista, é necessário dominar mais do que os traços – precisa-se, também, ter a habilidade de imprimir em seu discurso a crítica sem ferir diretamente o objeto da própria crítica, ou seja, precisa-se ser sutil em seu enunciado. Foucault (1979, p. 86), falando sobre o poder no discurso na ideologia, observa que “O sucesso [do poder no discurso] é proporcional à sua habilidade para esconder seus próprios mecanismos”. Essa inserção velada da crítica do autor é inserida nos diálogos verbais e, principalmente, nos traços da charge, o que é mais difícil de deixar registrado. Quanto menos óbvia for a mensagem da charge, mais complexa terá sido a sua construção. Assim, para elaborar o enunciado de maneira sutil, o chargista deve estar atento aos conhecimentos do seu ouvinte e, só após isso, voltar à construção do discurso, encaixando-o nesse repertório alheio e deixando que a informação inserida na charge seja complementada pelo leitor. É nesse ponto que entra a Linguística Aplicada..
(15) 13. A Linguística Aplicada, ou LA, investiga o uso da linguagem nas práticas sociais. Para essa área do conhecimento, a estrutura da língua tem pouca importância quando analisada fora do palco onde ela se torna viva. Não há como vivenciar a linguagem se não em sua forma prática: construindo sentido entre a linguagem e o social. Assim, a Linguística Aplicada é a área de pesquisa na qual se insere esta investigação, uma vez que consideramos a produção de charges como prática discursiva. Para analisar a charge, utilizamos, principalmente, as concepções teóricas do Círculo de Bakhtin sobre gênero discursivo, relações dialógicas, heterodiscursividade e embates dialógicos, assim como reflexões sobre carnavalização (restringindo-nos no que diz respeito ao riso e ao grotesco); para a abordagem do gênero discursivo charge, apoiamo-nos, além de Bakhtin (1996, 1997, 1998, 2010, 2013, 2015a, 2015b, 2016), em Volóchinov (2017), Bergson (2001), Propp (1992), Ivan Cabral (2005, 2008, 2016, 2017) e Paulo Ramos (2009, 2011, 2016); os dois últimos autores também colaboram para contextualizar o potencial dos enunciados ilustrados, junto a McCloud (2005) e Eisner (1989, 2005), dentre outros. O gênero charge foi estudado nesta investigação por estar presente massivamente nas grandes mídias e por se tratar de um gênero discursivo que permite que a opinião do autor (mesmo que indiretamente) seja inserida no enunciado, isto é, a charge possibilita (e até exige) que haja um posicionamento autoral. Assim, a ideologia do chargista empregada no enunciado busca um outro enunciador que, para compreendê-lo, responde-o obrigatoriamente – mesmo que não externe essa resposta. Como se trata de uma prática discursiva situada, historicamente constituída e que busca a resposta nos seus interlocutores, justifica-se o estudo da charge no âmbito da LA, considerando-se que construir conhecimento sobre essas práticas em diferentes esferas da atividade humana é uma das prerrogativas de tal área de investigação. As charges pesquisadas neste trabalho foram aquelas produzidas pelo chargista potiguar Ivan Cabral durante o período de 02 de dezembro de 2015 a 13 de maio de 2016, recorte temporal que compreende o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A escolha do tema "política" se deu pela quantidade de charges relacionadas a ele, pois, dos temas criticados nas mídias, o sistema político tem destaque, principalmente, por quase sempre haver um grupo de oposição e por subsidiar o autor com um repertório de argumentos para serem defendidos ou rebatidos, além de ser assunto comum à maioria dos ouvintes/leitores. Lustosa (2008) afirma que charges e colunas satirizando o poder público sempre existiram, mesmo em épocas nas quais não eram permitidas, mostrando que esse gênero, apesar de já ser bem conhecido, ainda é uma fonte inesgotável de pesquisa, havendo muitos aspectos a serem explorados..
(16) 14. Este trabalho está organizado da seguinte maneira: no segundo capítulo, após a Introdução, está apresentado o conceito de charge como gênero discursivo, abordando o processo de constituição do gênero como enunciado concreto. Ainda nesse capítulo, estabelecemos a distinção entre a charge e outros gêneros próximos como histórias em quadrinhos, o cartum e as tirinhas. Vemos, também, como o gênero chargístico se posiciona em relação aos seus leitores, analisando a sua responsividade e como ele está associado ao contexto político; apresentamos, ainda, o chargista produtor dos enunciados analisados e o contexto político do Brasil durante a pesquisa. No terceiro capítulo, abordamos o referencial teórico que ancora esta pesquisa, apontando as concepções que foram utilizadas; no quarto capítulo, expomos a metodologia de pesquisa e o processo de construção dos dados, assim como a forma em que os resultados estão expostos; o quinto capítulo traz a análise do corpus pesquisado; no sexto capítulo estão as considerações finais da pesquisa e, por último, encontram-se as referências que subsidiaram a produção deste trabalho..
(17) 15. 2 IDEIA NO PAPEL: A CONCRETUDE ENUNCIATIVA DO GÊNERO CHARGÍSTICO Um gênero discursivo surge a partir das necessidades de interação numa determinada esfera da atividade humana. Os gêneros atuam nas relações humanas, pois são gerados a partir delas. Eles surgem organicamente das interações sociais, organizam-se e se estabelecem. Bakhtin (2016, p. 11) diz que os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem e, naturalmente, esses "usos da linguagem" se estruturam e criam padrões; assim, novos gêneros surgem continuamente e ganham uso prático logo que se constituem. Da mesma forma que o gênero discursivo se constitui no mundo da vida, não há criação de um gênero discursivo sem que ele se insira no cotidiano, nas inter-relações pessoais. É o uso que garante a sua sobrevivência, e a sua existência só faz sentido quando, de fato, ele é mediador das interações. Bakhtin (2016, p. 20) afirma que nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos. Bakhtin (2016, p. 15) ainda divide os gêneros discursivos em primários (simples) e secundários (complexos). Os gêneros secundários são os tradicionais; os que, digamos assim,.
(18) 16. são mais consolidados e nutrem as interações nas esferas mais elaboradas: romances, dramas, artigos científicos etc. que se constituem interpretando, reconstruindo e agrupando elementos dos gêneros primários, aqueles que surgem nas comunicações imediatas do cotidiano – a linguagem que surge na internet, os jargões de fala de grupos sociais (a linguagem militar ou as gírias dos surfistas, por exemplo) ou até a linguagem coloquial utilizada nos aplicativos de mensagens instantâneas. É muito importante saber como um gênero surge e também como ele se mantém ativo, mas, para a Linguística Aplicada, é ainda mais importante conhecer a sua historicidade do que a sua gênese. É fundamental para esse estudo conhecer onde o gênero circula, em que círculo ele vive e em qual esfera ele se constitui, ou seja, como ele se torna ferramenta nas/para as interações. Bakhtin (2016) apresenta, também, as características do gênero discursivo: o conteúdo temático, que é o tema axiologicamente tratado e marcado pela intenção do autor; a construção composicional, que diz respeito à estrutura do material e à forma do texto; e o estilo, que concerne às escolhas de linguagem (padrão frasal, uso de abreviaturas, construções fraseológicas e escolhas lexicais, por exemplo). Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no conjunto do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso (BAKHTIN, 2016, p. 12, grifos do autor).. Bakhtin (2016, p. 21) conclui que "onde há estilo há gênero", mostrando que, por mais que alguns desses gêneros não permitam uma maior intervenção estilística, sempre haverá a presença de traços autorais. O grau de inserção particular na elaboração dos enunciados oscila de acordo com o gênero pela sua própria natureza. Uma charge exige um posicionamento autoral, um ofício militar utilizado em quartéis não, ou seja, a intervenção estilística varia de acordo com o local onde enunciado está inserido, por quem está sendo dito e em que circunstância social ele está inserido: o estilo vive em enunciados concretos. Reforçamos que os gêneros nascem das interações sociais e são constituídos de enunciados que também estão inseridos na prática social. Casado Alves (2016, p. 164), ancorada em Bakhtin, diz que "o enunciado não é uma abstração linguística: ele nasce, vive e.
(19) 17. 'morre' no processo de interação social", ou seja, não há como pensar nos enunciados sem aplicá-los à vida, e isso é que o faz se tornar concreto e pleno. Todo enunciado tem algo a dizer, e o cenário embasador de sua gênese e de sua vida é o círculo social onde ele habita. Assim, por estar inserido em um ambiente "vivo", ele é voltado a alguém e é, necessariamente, carregado de um posicionamento ideológico1. Volóchinov traz, em uma conceituação sobre enunciado no livro Marxismo e filosofia da linguagem, que O enunciado se forma entre dois indivíduos socialmente organizados. [...] A palavra é orientada para o interlocutor, ou seja, é orientada para quem é esse interlocutor [...] não pode haver um interlocutor abstrato, por assim dizer, isolado [socialmente]; pois com ele não teríamos uma língua comum, nem no sentido literal, tampouco no figurado. (VOLÓCHINOV, 2017, p. 204 e 205, grifos do autor).. Bakhtin explica que, da mesma forma que a oração é a unidade da língua, o enunciado é a unidade da comunicação discursiva, ou seja, assim como um texto (quando analisado sintaticamente) é composto por orações, os diálogos (da linguagem aplicada na prática) são compostos de enunciados, sem esquecermos que esses enunciados devem estar inseridos na vida social para que haja a dialogicidade. Isso é reafirmado por Volóchinov quando diz que: De fato, o ato discursivo, ou mais precisamente o seu produto – o enunciado – de modo algum pode ser reconhecido como um fenômeno individual no sentido exato dessa palavra, e tampouco pode ser explicado a partir das condições psicoindividuais e psíquicas ou psicofisiológicas do indivíduo falante. O enunciado é de natureza social (VOLÓCHINOV, 2017, p. 200, grifos do autor).. Assim como os enunciados não podem existir se não estiverem associados à situação social, eles também não podem ser analisados fora dessa perspectiva. Devem ser vistos pelo pesquisador com atenção ao contexto em que foram elaborados, para quem se dirigem e com qual finalidade, sem desprezar, também, o círculo social e temporal no qual o interlocutor que interage com o enunciado está inserido. Volóchinov (2017, p. 216) conclui: "o centro organizador de qualquer enunciado, de qualquer expressão não está no interior, mas no exterior: no meio social que circunda o indivíduo".. 1. “Ideologia, na teoria do Círculo de Bakhtin, é o nome dado ao universo que engloba a arte, a ciência, a filosofia, o direito, a religião, a ética, a política, ou seja, todas as manifestações superestruturais. [...] Qualquer enunciado é sempre ideológico – para eles, não existe enunciado não ideológico” (FARACO, 2009, p. 46, grifos do autor)..
(20) 18. Com essas reflexões, vemos que a charge também é um enunciado construído a partir de experiências sociais intercaladas, carregadas de valores e aplicadas a um contexto real, tornando-a um exemplo de enunciado concreto, com seus valores e suas ideologias bem definidas. Nesta pesquisa, trabalharemos a charge sob essa perspectiva de enunciado pleno e concreto, valorado e inserido em situações reais do cotidiano social. 2.1 Charge: o que é? Desde que iniciamos o processo de alfabetização tradicional, somos desestimulados a "ler imagens". Isso mesmo: a ler o que as representações gráficas têm a nos dizer. Passamos a produzir sentido exclusivamente pelos caracteres impressos e até esquecemo-nos que eles, quando vistos isoladamente, também são símbolos gráficos. Isso fica mais claro quando observamos línguas estrangeiras com caracteres distintos e acabamos enxergando os hieróglifos e os ideogramas orientais, por exemplo, apenas como "desenhos". Se pararmos para pensar, veremos que os caracteres do nosso alfabeto, quando isolados, também são imagens. Dondis, no livro A sintaxe da linguagem visual, traz uma reflexão sobre esse "desencorajamento" da leitura visual e apela aos educadores para uma maior atenção ao conhecimento visual: Eles próprios [os educadores] precisam compreender que a expressão visual não é nem um passatempo, nem uma forma esotérica e mística de magia. Haveria, então, uma excelente oportunidade de introduzir um programa de estudos que considerasse instruídas as pessoas que não apenas dominassem a linguagem verbal, mas também a linguagem visual (DONDIS, 1997, p. 230).. O mesmo desconforto é revelado por Will Eisner (1989, p. 7-8):.
(21) 19. Durante os últimos cem anos, o tema da leitura tem sido diretamente vinculado ao conceito de alfabetização;... aprender a ler… tem significado aprender a ler palavras… mas… gradualmente a leitura foi se tornando objeto de um exame mais detalhado. Pesquisas recentes mostram que a leitura de palavras é apenas um subconjunto de uma atividade humana mais geral, que inclui a decodificação de símbolos, a integração e a organização de informação… Na verdade, pode-se pensar na leitura – no sentido mais geral – como uma forma de atividade de percepção. A leitura de palavras é uma manifestação dessa atividade; mas existem muitas outras leituras – de figuras, mapas, diagramas, circuitos, notas musicais.... Assim, gêneros discursivos com grande potencial enunciativo passaram muito tempo sendo tratados como produtos de função lúdica ou, nos melhores dos casos, para uso auxiliar de construção de conhecimento, como as ilustrações em manuais de instruções, por exemplo. Um desses gêneros visuais desprezados por alguns educadores e, consequentemente, por seus discípulos, é o quadrinho. McCloud (2005, p. 18, grifos do autor) diz que "a expressão 'história em quadrinhos' teve conotações tão negativas que muitos profissionais preferem ser conhecidos como ilustradores, artistas comerciais ou, na melhor das hipóteses, cartunistas!" Como um gênero, o quadrinho possui padrões definidos que o caracterizam como tal. Para McCloud (2005, p. 9), as histórias em quadrinhos são imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada destinadas a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador; assim, as histórias em quadrinhos exigem um pré-conhecimento para compreendê-las e dissociá-las de outros gêneros semelhantes. Ramos (2016, p. 14), estudioso dos quadrinhos e de outros gêneros visuais, explica que ler quadrinhos é ler sua linguagem, tanto em seu aspecto verbal quanto visual (ou não verbal). A linguagem dos quadrinhos é híbrida. Por mais que haja inúmeros exemplos de histórias produzidas apenas com imagens, é bem comum que os desenhos dispostos em quadros separados por sarjetas tragam balões com texto verbal que complementem a narrativa (RAMOS, 2016). Assim, com um potencial enunciativo composto por textos e imagens, os quadrinhos podem ser utilizados de muitas maneiras, desde um produto de entretenimento até uma base sólida para obtenção de conhecimento. Alguns teóricos, como Paulo Ramos, Scott McCloud e Will Eisner sugerem que os quadrinhos possam ser tratados como um "gênero-matriz", que serve como gênese para outros gêneros visuais. Ramos (2016, p. 20, grifos do autor) identifica três comportamentos teóricos sobre os quadrinhos:.
(22) 20. ● ● ●. O que vê os quadrinhos como um grande rótulo que abriga diferentes gêneros; O que vincula os gêneros de cunho cômico – charge, cartum, caricatura e tiras – num rótulo maior, denominado humor gráfico ou caricatura (termo usado num sentido mais amplo); O que aproxima parte dos gêneros, em especial as charges e as tiras cômicas, da linguagem jornalística (linha apoiada no fato de serem textos [normalmente] publicados em jornal).. Barbieri (1998 apud RAMOS, 2016, p. 17-18) defende que as várias formas de linguagem não estão separadas claramente; na verdade, estão interconectadas. Essa linguagem poderia ser comparada a um grande ecossistema composto de pequenos ambientes que teriam características próprias, podendo compartilhar características comuns. Da mesma forma, "os quadrinhos dialogam com recursos da ilustração, da caricatura, da pintura, da fotografia [etc]. Isso não significa que os comics [sinônimo dos quadrinhos] não constituam um nicho próprio e autônomo" (RAMOS, 2016, p. 18, grifo do autor). O autor (2016, p. 21) ainda explica que os cartuns, as charges e as tiras (de modo geral) podem ser inseridos dentro desse hipergênero: os quadrinhos. Independentemente da linha teórica seguida, é consensual que os gêneros visuais são semelhantes e possuem características muito parecidas; em alguns casos, são apenas pequenos detalhes que os diferenciam. McCloud (2005, p. 21) diz que há uma grande relação entre quadrinhos e cartuns (dentre outros gêneros), "contudo, não são a mesma coisa!". Em uma estratificação rápida, podemos distinguir das histórias em quadrinhos alguns gêneros visuais como o cartum2, as tiras (e as suas subdivisões como tiras cômicas, tiras sequenciais etc.) e a charge. O cartum é o desenho com traço simplificado, em que o mais importante é o conteúdo discursivo em relação ao respeito às anatomias e à representação gráfica real de mundo. McCloud (2005, p. 30) define o cartum como "forma de amplificação através da simplificação". Continua (p. 31, grifos do autor): "Cartum não é só um jeito de desenhar, é um modo de ver. [...] A capacidade que o cartum tem de concentrar nossa atenção numa ideia é parte importante de seu poder especial, tanto nos quadrinhos quanto no desenho em geral". Logo, concluímos que o cartum é o tipo de desenho que, além de também estar definido como um dos estilos dentro das possibilidades do quadrinho, serve como base para a elaboração de outros dois gêneros: as tiras e a charge.. 2. "O texto caricatural denomina-se cartone (em italiano), carton (em francês) e cartoon (em inglês), passando para o nosso léxico sob a denominação de cartum" (ROBERTO, 2005, p. 73-74)..
(23) 21. As tiras (ou tirinhas) utilizam o estilo cartunesco para contar histórias fictícias com o intuito mais próximo ao humorístico do que ao informacional ou opinativo (duas características bem marcantes do gênero charge), tornando-se mais claras quanto à sua definição. É comum encontrar as tiras em grandes jornais impressos, alocadas em páginas dedicadas ao entretenimento, que abordam cultura e que também trazem jogos de passatempo como cruzadas e caça-palavras. Assim como a charge, a tira pode trazer humor, mas diferencia-se no tocante à notícia que a charge carrega, como aponta Ramos (2016, p. 16): Charge e tira cômica, por exemplo, são textos unidos pelo humor, mas diferentes no tocante às características de produção. Para ficar em apenas uma distinção: a charge aborda temas do noticiário e trabalha em geral com figuras reais representadas de forma caricata, como os políticos; a tira mostra personagens fictícios, em situações igualmente fictícias.. A charge, termo que vem do francês com a mesma grafia, significa "carga de cavalaria", ou seja, ataque (MARINGONI, 1996 apud ROBERTO, 2005, p. 76). Essa origem etimológica justifica um dos principais objetivos do gênero charge: ele sempre é crítico, sempre tem um "alvo" a atingir. [A charge] é a crítica humorística de um fato cotidiano, o chargista procura fazer humor de tudo e de todos. O efeito humorístico nasce do encontro entre o querer de um sujeito, neste caso individual e não mais coletivo, e certas circunstâncias responsáveis por sua colocação em xeque (ROBERTO, 2005, p. 76).. A crítica, assim como a obrigatoriedade de trazer um fato do cotidiano a ser comentado, faz com que a charge se diferencie de outros de gêneros discursivos (além de outros gêneros visuais). Ramos (2016, p. 21, grifos do autor) complementa a definição da charge diferenciando-a do cartum, afirmando que "a charge é um texto de humor que aborda algum fato ou tema ligado ao noticiário. De certa forma ela recria o fato de forma ficcional, estabelecendo com a notícia uma relação intertextual" e a principal diferença entre a charge e o cartum (p. 23) é que este não está vinculado a um fato do noticiário. Em outra publicação, Ramos (2009, p. 193) traz uma finalização a essa definição: A charge é um texto de humor que dialoga especificamente com fatos do noticiário. É uma leitura irônica de alguma informação, reportada ou não no jornal ou site em que foi veiculada. Quando tem como personagem algum político ou personalidade, é comum o uso de caricatura para reproduzir as feições da pessoa representada..
(24) 22. Concluindo a diferenciação entre charge e cartum, Ivan Cabral, em sua dissertação de mestrado "Humor gráfico: o sorriso pensante e a formação do leitor", traz a seguinte conclusão: Diferente das charges, os cartuns são atemporais. Geralmente, eles não fazem referência a nenhuma personalidade ou fato do noticiário. O cartum pode ser considerado um texto de humor universal. Isso significa dizer que a compreensão desses textos não apresenta maiores dificuldades como no caso das charges, que exigem por parte do leitor um conhecimento de época, das pessoas e dos fatos envolvidos. São comuns os cartuns de náufragos, bêbados, e pessoas não identificadas (CABRAL, 2008, p. 80).. O elo entre os dois gêneros é tão intenso que, na língua inglesa estadunidense, os termos utilizados para a charge são political cartoon e editorial cartoon (CABRAL, 2008, p. 77). O meio de veiculação original das charges foram as páginas impressas de jornais. A charge foi definitivamente incorporada ao jornalismo por volta de 1830, quando o francês Charles Philipon fundou o jornal humorístico La Caricature (FONTANA, 2009), famoso periódico de Paris que tinha como característica principal trazer charges comentando fatos do cotidiano. Os jornais de Philipon caracterizavam-se pela liberdade artística e pela experimentação radical, oportunidades que levaram os artistas aos melhores esforços e inovações gráficas. Daumier criou suas primeiras obras-primas reconhecidas nas páginas desses jornais. Gustave Doré começou sua carreira nessas publicações. Contribuições de artistas do porte de Gavarni, Grandville, Monnier, Traviés e tantos outros levaram a caricatura a ser reconhecida como arte (FONSECA, 1999, p. 70 apud CABRAL, 2008, p. 69).. Colocada quase sempre em página nobre do jornal, a charge acaba sendo um tipo de editorial gráfico. Não obstante tudo isso, estar atrelada a acontecimentos noticiosos pautados em acontecimentos reais, a charge tem vida efêmera: passado o acontecimento, será difícil compreendê-la (ROBERTO, 2005, p. 79). A temporalidade da charge é um fator que merece destaque. Por se alimentar do noticiário tanto local quanto global, a charge se torna um gênero ancorado em uma pequena temporalidade, isto é, um tempo brevíssimo que se extingue no momento em que um outro assunto emerge (FERREIRA, 2013, p. 19).. Todos os leitores de charge precisam estar situados em um mesmo ambiente de espaço e tempo para assimilarem o conteúdo sem ruídos e com o completo repertório da situação relatada pelo discurso. “Tudo que pertence ao presente morre juntamente com ele” (BAKHTIN, 1998, p. 363). O próprio Bakhtin nomeia esta relação espaço/tempo de cronotopo e a coloca como grande responsável por nortear o discurso:.
(25) 23. O cronotopo organiza significativamente os acontecimentos e, desta forma, a própria relação e situação enunciativas, a qual o gênero medeia. O cronotopo é responsável pela imagem-demonstração dos acontecimentos: o espaço, o tempo, os participantes, a situação imediata, a situação ampla, graças “justamente à condensação e concretizações espaciais dos índices de tempo em regiões definidas do espaço” (BAKHTIN, 1998, p. 355).. Na charge, além da finalidade informacional atribuída à relação com os fatos noticiosos, há a finalidade de criticar e, quase sempre, divertir. A construção composicional chargística traz a imagem, a representação gráfica do texto falado e, eventualmente, caricaturas. O estilo, que é toda escolha da linguagem feita pelo autor que deixa mais evidente as suas marcas personalizadas, aparece na charge como a segmentação estrutural do gênero mais marcante, uma vez que ele (o gênero charge) permite a individualidade do autor. Todas essas características, com base na perspectiva bakhtiniana, são marcadas pela valoração, pelo posicionamento e pelo teor axiológico que o autor imprime ao seu texto visual. Assim como a escolha gramatical feita pelo falante é um ato estilístico (BAKHTIN, 2016), o traço do chargista também o é. Ele garante a sua autoria, comprova a construção composicional e até dispensa a assinatura do discurso, ou seja, é muito difícil que o chargista se esconda por trás de um pseudônimo, porque sua autoria sempre será exposta à luz do leitor, mostrando como o estilo presente no gênero é importante na produção do discurso chargístico. Na narrativa chargística, o desenhista também se posiciona como narrador dos acontecimentos, imprimindo a sua voz no discurso das personagens e utilizando esse recurso para controlar as ações durante a elaboração do enunciado. Volóchinov (2017, p. 259) diz que “a posição do narrador é oscilante e, na maioria dos casos, ele fala com a linguagem dos personagens representados". Além dessas características inerentes à construção da charge, é comum que o enunciado chargístico traga humor, e este recurso é utilizado, normalmente, para quebrar a linearidade do pensamento e criticar o fato com sutileza por meio do riso.. 2.1.1 O riso e o grotesco na charge A charge possui um caráter valorativo e responsivo que mescla o humorístico e o linguístico/discursivo para formar a sua estrutura básica. E um desses elementos composicionais mais marcantes do gênero é o humor, como confirma Ferreira (2013, p. 65) quando diz que "o humor é uma das armas as quais a charge usa para acentuar sua crítica"..
(26) 24. Propp (1992) define o humor como a capacidade de perceber e criar o cômico, elencando alguns elementos linguísticos para o riso como os trocadilhos, os paradoxos, as tiradas, as ironias e as paródias. Quando falamos de charges, esse humor precisa se inserir na realidade do outro para existir. Bergson (2001, p. 6, grifos do autor) explica bem: "a comicidade exige um eco, uma cumplicidade com outros ridentes, reais ou imaginários. [...] A comicidade nascerá, ao que parece, quando alguns homens reunidos em grupo dirigirem todos a atenção para um deles, calando a própria sensibilidade e exercendo apenas a inteligência". Essa inteligência apresentada por Bergson é utilizada, ainda, como estratégia de atenuação da crítica, tornandoa mais sutil quando trabalhada com a intenção cômica. O humor tem como objetivo principal causar o riso, e o humor na charge tem essa característica: satirizar o cotidiano, rir da notícia. Para existir como charge, o enunciado busca extrair o riso. Eisner (2005, p. 106) diz que há histórias que, para existirem, podem depender de uma piada. Para Alberti (2002 apud RAMOS, 2011, p. 37), o cômico surge por oposição ao trágico. A comédia é construída a partir de algo verossímil e tem duas diferenças em relação à tragédia: não pune os homens maus em seu desfecho (ao contrário da tragédia) e representa os chamados "homens baixos" (os não-nobres). O cômico, portanto, não está vinculado a uma noção de dor ou visto de maneira negativa. Seria um defeito moral ou físico e, como tal, inofensivo (RAMOS, 2011, p. 37).. Ivan Cabral, em sua dissertação de mestrado, explica – utilizando como suporte a teoria de carnavalização de Bakhtin (1996, 1997) – que para que o homem realize o riso cômico é necessário que ele neutralize, pelo menos momentaneamente, qualquer sentimento de compaixão ou piedade para com o objeto do seu riso. [...] A compreensão mais completa do riso só é possível se o analisarmos em seu contexto natural: a sociedade (CABRAL, 2008, p. 21).. Isso significa que o riso é deturpador. Ele é uma afirmação de superioridade frente a alguma fraqueza humana (ALBERTI, 2002 apud RAMOS, 2011, p. 39). A gênese do riso é "a mistura do prazer com uma das dores da alma, a inveja (manifestada na pessoa que é risível)" (RAMOS, 2011, p. 37 e 39). Um dos primeiros estudiosos a teorizar sobre o riso foi Mikhail Bakhtin. O pensador russo, no livro “Problemas da poética de Dostoiévski”, afirma (1997, p. 106-107) que na Antiguidade Clássica e durante o Helenismo, surgiram os gêneros do sério-cômico, opostos aos "gêneros sérios" (como a epopeia, a tragédia, a história, a retórica clássica etc.)..
(27) 25. No século XVIII, o processo de decomposição do riso da festa popular que, durante o Renascimento, penetraria na grande literatura e na cultura chegou ao seu termo, ao mesmo tempo que o processo de formação dos novos gêneros da literatura cômica, satírica e recreativa que dominarão no século XIX. Estabeleceram-se também as formas reduzidas do riso: humor, ironia, sarcasmo, etc. que evoluirão como componentes estilísticos dos gêneros sérios (principalmente o romance) (BAKHTIN, 1996, p. 103).. Esses gêneros classificados sério-cômicos estão relacionados por uma forte ligação com o folclore carnavalesco, impregnando-se de uma cosmovisão carnavalesca. Ferreira (2013, p. 63) resume a teoria da carnavalização: [O carnaval] enquanto festa popular que envolve toda uma comunidade durante um espaço-tempo limitados oficialmente (agindo como o não-oficial dentro da oficialidade, já que a sociedade séria abre mão de sua postura dominante de maneira convencional e limitada); cosmovisão carnavalesca como a atmosfera que se cria em meio à festividade do carnaval ou de cunho carnavalesco, a qual apresenta determinadas peculiaridades que caracterizam enquanto tal (a lógica das inversões, a subversão, a profanação, o livre contato familiar e a excentricidade); e a carnavalização como a transposição da cosmovisão carnavalesca para esferas outras de circulação enunciativa (FERREIRA, 2013, p. 63, grifos nossos).. Em síntese, o carnaval de Bakhtin é uma metáfora das trocas de relações entre o "baixo" e o "alto", o "sagrado" e o "profano", o "belo" e o "grotesco" etc. Essa troca não é um deslocamento que mantém as fronteiras entre os opostos, e sim uma transgressão dessas fronteiras, que se misturam sem ordens hierárquicas, gerando formas híbridas de vozes – as chamadas vozes polifônicas.. E, na utopia de superar toda e qualquer monologização da existência humana, Bakhtin viu no carnaval – entendido não como uma festa específica, mas como todo um modo de aprender o mundo [...] – uma poderosa força vivificante e transformadora da vida cultural, dotada de uma vitalidade indestrutível [...] (FARACO, 2009, p. 80).. Bakhtin analisa o carnaval na Idade Média pelo fato de, nessa época, haver uma divisão muito forte entre o cômico e o sério, em que o cômico estava associado a um mundo inferior, principalmente devido à inferiorização do riso pela igreja, como explica neste trecho: O riso na Idade Média estava relegado para fora de todas as esferas oficiais da ideologia e de todas as formas oficiais, rigorosas, da vida e do comércio humano. O riso tinha sido expurgado do culto religioso, do cerimonial feudal e estatal, da etiqueta social e todos os gêneros da ideologia elevada. O tom sério exclusivo caracteriza a cultura medieval oficial (BAKHTIN, 1996, p. 63)..
(28) 26. Quando a igreja permitia o riso, fazia isto como uma exceção, um tipo de "bonificação" para que os fiéis pudessem viver um pouco fora da penitência constante: A tradição antiga permitia o riso e as brincadeiras licenciosas no interior da igreja na época da Páscoa. Do alto do púlpito, o padre permitia-se toda espécie de histórias e brincadeiras a fim de obrigar os paroquianos, após um longo jejum e uma longa abstinência, a rirem com alegria e esse riso era um renascimento feliz (BAKHTIN, 1996, p. 68).. Paulo Ramos (2011, p. 38) ainda explica que Na Idade Média, o riso esteve muito associado à visão teológica. O raciocínio pode ser resumido num silogismo: Cristo, Deus feito homem, não demonstrava ter rido nos textos bíblicos; os homens devem ser imagem e semelhança de Deus; logo, não é próprio do homem rir. O riso, ou o não-sério, era visto como desnecessário (ALBERTI, 2002 apud RAMOS, 2011, p. 38).. O carnaval seria um hiato (com período e duração determinado) em que o profano poderia ser experimentado sem que comprometesse o objetivo sagrado que o fiel da Idade Média desejava. Permitiria que as experiências comuns aos grupos, que outrora estavam segregados, pudessem ser vividas e misturadas, destruindo a barreira existente entre o "alto" e o "baixo", transpondo, inclusive, a linha do religioso para o cômico. Logo, nessa linha teórica, os homens que riem são aqueles que pertencem ao submundo. Mas, afinal de contas, por que se ri? Durante a pesquisa, encontramos diversas explicações do porquê de rirmos. Segundo Aristóteles, o homem é o único animal que ri e, numa análise médico-filosófica, ri por um motivo físico: o calor gerado na região do diafragma (RAMOS, 2011, p. 37). Cabral (2008, p. 16) aponta que o homem é o único que ri de si mesmo e Bergson amplia a regra aristotélica definindo que o homem não é apenas o único animal que ri – inclusive de si mesmo – mas, também, é o único que produz o riso zombador. Para se rir é necessário que o falante articule a sua narrativa para que atinja o seu objetivo. Ri-se das falhas humanas e esse riso surge a partir das estranhezas inesperadas. O texto humorístico existe quando consegue surpreender o seu ouvinte. Eisner (2005, p. 106) diz que Estruturalmente, uma piada é a dramatização de uma "surpresa". Um resultado incongruente de um ato ou discurso, ela também pode estar na forma de diálogo ou ser apresentada como um incidente. É o imprevisto e o inesperado que despertam o prazer do alívio ou do divertimento que resulta na risada..
(29) 27. Para Muniz (2013, p. 47), "pode-se rir de diferentes maneiras, fazendo apelo a certos saberes culturais e sociais, reproduzindo/resistindo/instituindo determinados aspectos institucionais. Mas o fato é que todos riem, e sempre a partir de um procedimento linguístico e discursivo". Cabral (2008) enumera alguns atributos inerentes aos textos de humor, como a ausência do medo ou piedade; o exagero; o inusitado; a metáfora e a superioridade. Todas essas características são encontradas na charge, assim como em outros gêneros humorísticos, porém, uma delas tem presença marcante no gênero: o exagero, representado pela caricatura. Se uma das maneiras de se buscar o humor está no rebaixamento dos defeitos do risível (daquilo que se ri), a caricatura é a representação gráfica exagerada destes defeitos ou, em uma visão menos intensa, das características marcantes do indivíduo ou de suas ações. Podemos posicionar a caricatura, na composição da cosmovisão carnavalesca bakhtiniana, como o que ele chamou de realismo grotesco. Segundo Ferreira (2013, p. 62), "o traço marcante desse realismo é o rebaixamento, a transferência de tudo o que é elevado para o plano material e corporal; imperfeição, incompletude e inacabamento". Minois conclui: No realismo grotesco, uma das imagens mais comuns é a do gigante por suas dimensões exageradas e grosseiras. Com isso, a natureza do grotesco busca mostrar a dualidade da vida e todo exagero era visto de maneira positiva, sendo o realismo grotesco uma percepção da origem de todas as realidades – incluindo-se as mais sublimes –, dos processos biológicos fundamentais (MINOIS, 2003, p. 158).. É fato que as experiências imagéticas sempre estiveram associadas ao humor, seja, por exemplo, nas brincadeiras infantis de caretas, buscando atingir o riso, ou seja nas narrativas textuais que buscam montar a imagem grotesca e exagerada no detalhamento, por escrito, de características e ações. Assim, a caricatura seria essa objetivação do riso pelo grotesco representada graficamente. “A arte do caricaturista é captar esse movimento às vezes imperceptível e, ampliando-o, torná-lo visível para todos os olhos” (BERGSON, 2001, p. 1819). A essência da caricatura foi reiteradamente definida de modo convincente e correto. Toma-se um pormenor, um detalhe; esse detalhe é exagerado de modo a atrair para si uma atenção exclusiva enquanto todas as demais características de quem ou daquilo que é submetido à caricaturização a partir desse momento são canceladas e deixam de existir (PROPP, 1992, p. 88-89).. Finalizando a nossa apresentação da charge, diferenciando-a dos quadrinhos, cartuns e definindo-a como gênero discursivo carregado de opinião e, em muitas vezes, de humor (uma.
(30) 28. das ferramentas para tal é a caricatura), trazemos uma definição do chargista Chico Caruso apresentada por Ivan Cabral (2008, p. 86) que define o que dissemos: O cartum contemplaria o plano geral, aberto e com o foco no infinito. A charge aproxima esse olhar, situando-o em uma realidade determinada mais próxima e identificada com o contexto social do leitor. A caricatura realiza um close focado em um indivíduo dessa cena, retratando-o minuciosamente.. Nessa seção, apresentamos parte da teoria da carnavalização, uma das mais importantes teorias definidas pelo Círculo de Bakhtin e fundamental para análise do humor e da comicidade, restringindo-a ao que interessava para definição do humor no gênero charge: o riso e o grotesco. Neste trabalho, não a utilizaremos por completo, pois o objetivo da pesquisa é analisar a responsividade dos enunciados chargísticos; na sequência, apresentaremos as teorias que servirão de base para essa análise. 2.2 Muito além dos balões: as vozes responsivas da charge A charge, como vimos, é um gênero discursivo já consolidado. Possui características, forma e moldes que a caracterizam e a distinguem de outros gêneros. No entanto, um dos elementos mais fortes na construção de sua estrutura composicional é a carga crítica que vem ancorada em seu discurso. Esse gênero se destaca dos demais padrões de publicações porque é composto, quase sempre, de linguagem não verbal, o que proporciona facilidade de assimilação ao mesmo tempo que exige uma relação dialógica intensa entre falante e ouvinte. A construção da charge necessita de um alinhamento de repertórios para que seja compreendida e para que haja um diálogo. A fala, o enunciado ou, dentre outros sinônimos, o discurso é, de fato, qualquer manifestação do uso da língua, independentemente de tamanho ou organização sintática. Uma frase curta ou apenas uma palavra como a expressão "Pare!" já vem carregada de sentidos que precisam ser lidos por um ouvinte que, com o seu repertório, irá complementar o sentido do discurso do falante. Esse mesmo "pare" pode significar uma ordem de uma mãe para uma criança ou uma regra de trânsito grafada em uma placa octagonal vermelha do Código de Trânsito Brasileiro. Assim, de acordo com seu uso, o discurso exige um resgate de repertórios diferentes. Bakhtin (2010, p. 126) reitera isso apontando que.
(31) 29. [...] de fato um mesmo objeto – igual do ponto de vista do conteúdo-sentido – considerado de diversos pontos de um mesmo espaço por pessoas diferentes ocupa posições diferentes e é diversamente dado no conjunto arquitetônico3 concreto do campo visual destas pessoas que o observam.. Assim, observa-se que o discurso é, por natureza, interativo. O senso comum tem a ideia de que o discurso é emitido por uma fonte para quem pouco importa o destinatário. Ao analisar o discurso falado, a melhor e mais natural representação, é natural que se associe a uma responsividade nata – quase sempre há um interlocutor a serviço do falante. Porém, ao pensar em outros tipos de gêneros discursivos que parecem ser vias de mão única (como cartas, emails, telegramas ou outros textos escritos, por exemplo) é difícil enxergar a interatividade do discurso. Bakhtin (2016, p. 122) observa que "todo discurso pressupõe um ouvinte, um apelo a este", ou seja, o discurso, independentemente de gênero (inclusive os que parecem desprezar a necessidade de um leitor ou aqueles em que o leitor seja passivo), pressupõe a presença de um outro alguém que o complementa. E conclui (2015a, p. 271): O ouvinte [...] ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda e discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante.. Assim, o falante (nesse caso, o chargista), desde o início da produção do seu enunciado, procura direcionar a fala ao seu ouvinte, respeitando o repertório dele. Isso faz com que haja, desde o início, uma espera pela resposta de quem receberá o discurso. "Desde o início o falante aguarda a resposta deles, espera uma ativa compreensão responsiva. É como se todo o enunciado se construísse ao encontro dessa resposta" (BAKHTIN, 2015a, p. 301). Dessa maneira, o enunciado pertence tanto ao falante quanto ao ouvinte; é uma construção feita por duas partes, partes essas que são fundamentais para que ele exista como enunciado concreto.. 3. A arquitetônica que Bakhtin apresenta (1998, 2010) está relacionada a um conjunto de relações construídas em torno dos seres humanos em sociedade que orientam a sua percepção enunciativa/responsiva..
(32) 30. [...] a palavra é um ato bilateral. Ela é determinada tanto por aquele de quem ela procede quanto por aquele para quem se dirige. Enquanto palavra, ela é justamente o produto das inter-relações do falante com o ouvinte. Toda palavra serve de expressão ao “um" em relação ao "outro". Na palavra eu dou forma a mim mesmo do ponto de vista do outro e, por fim, da perspectiva da minha coletividade. A palavra é uma ponte que liga o eu ao outro. Ela apoia uma das extremidades em mim e a outra no interlocutor. A palavra é o território comum entre o falante e o interlocutor (VOLÓCHINOV, 2017, p. 205, grifos do autor).. Não há como criar um enunciado isolado, sem estar inserido em um contexto e sem estar direcionado a um ouvinte responsivo para compreendê-lo. O exemplo a seguir mostra como a responsividade é um elemento inerente ao processo interativo.. Enunciado 14 – Tchau, querido! Fonte: Ivan Cabral. Disponível em: <http://www.ivancabral.com/2016/04/charge-do-dia-tchauquerido.html>. Acesso em: 9 jul. 2017.. O enunciado, produzido em 21 de abril de 2016, após votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, mostra dois momentos em que um personagem (representando um político opositor da presidente, posição identificada pelo discurso e pela cor azul do terno e amarela da gravata, tons do principal partido de oposição petista, o PSDB). No primeiro quadro, o personagem repete o que aconteceu na votação em que os deputados aproveitaram o momento como palanque e fizeram discursos antes do voto, muitas vezes não 4. O enunciado ainda não faz parte, diretamente, da análise de dados desta pesquisa. Ele está presente pela necessidade de ilustrar como a responsividade dos enunciados chargísticos acontece na prática..
Outline
Documentos relacionados
Curvas de rarefação (Coleman) estimadas para amostragens de espécies de morcegos em três ambientes separadamente (A) e agrupados (B), no Parque Estadual da Ilha do Cardoso,
Senhor Lourival de Jesus por conta de seu falecimento, solicitando uma Moção de Pesar inclusive, solicitou também a restauração das estradas da zona rural, em especial
Se a pessoa do marketing corporativo não usar a tarefa Assinatura, todos as pessoas do marketing de campo que possuem acesso a todos os registros na lista de alvos originais
São considerados custos e despesas ambientais, o valor dos insumos, mão- de-obra, amortização de equipamentos e instalações necessários ao processo de preservação, proteção
Não podem ser deduzidas dos nossos dados quaisquer informações sobre uma dada característica específica, nem sobre a aptidão para um determinado fim. Os dados fornecidos não eximem
Quando contratados, conforme valores dispostos no Anexo I, converter dados para uso pelos aplicativos, instalar os aplicativos objeto deste contrato, treinar os servidores
Dada a plausibilidade prima facie da Prioridade do Conhecimento Definicional, parece que não se poderia reconhecer instâncias de F- dade ou fatos essenciais acerca
Data limite para as Coordenações de Cursos Superiores encaminharem à CORAE os processos de Colação de Grau, Atas de Apresentação do TCC, Termo de Aprovação, convalidação de