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CAPÍTULO IV: AS TOTALIDADES NARRATIVAS NO CANTO VI DA ENEIDA

4.1 A chegada em Cumas e o encontro com Sibila

Devemos relembrar algumas passagens importantes do enredo a fim de contextualizar o leitor antes de entrarmos na análise. No final do canto V, o capitão de umas das naus troianas, Palinuro, é lançado para fora da embarcação por Netuno e acaba sendo morto. Esse detalhe, a princípio pequeno em meio aos grandes feitos narrados, é de extrema importância para entendermos a sequência da narrativa: ao longo do Canto VI Eneias o reencontrará no Mundo Inferior, buscando atravessar o rio Estige (v. 340 – v.345). A razão por encontrá-lo nesse local se dá também no Canto V, quando em sonho Anquises, pai de Eneias, avisa-o que o teucro deve encontrar-se com ele nos Campos Elísios, local em que reside as almas divinas no Orco.

Esses dois episódios ocorridos no Canto V nos são caros na análise do Canto VI, pois deles desprendem-se valiosas informações acerca das práticas funerárias romanas e do imaginário da morte. Para além disso, poderemos perceber como a narrativa avança ao longo do capítulo até o momento de encontro do passado com o presente: Eneias e Otávio Augusto.

Partindo desses princípios, o Canto VI começa com a chegada de Eneias e seus companheiros a Cumas78. (v. 1 – v. 2) Os troianos montam acampamento em cavernas, enquanto Eneias e alguns companheiros procuram pela sacerdotisa de Apolo, Sibila (v. 7 – v. 10). Ao entrar no bosque de Hécate, deusa infernal ligada a Ártemis, Virgílio narra parte do mito do Minotauro (v.18 – v. 33). Tal referência ao mito justifica-se, na narrativa, por Dédalo ter voado do labirinto e pousado no monte de Cumas. Mas essa história, escrita nas portas do templo de Apolo, introduz o Canto para a chegada da sacerdotisa (v. 34 -36).

Assim fala a sacerdotisa para Eneias:

Non hoc ista sibi tempus spectacula poscit; nunc grege de intacto septem mactare iuuencos praestiterit, totidem lectas de more bidentes

Não é o momento de vos entreterdes com tais espetáculos. Cumpre imolar sete touros perfeitos, de acordo com os ritos, e outras ovelhas de número igual, as mais belas do armento (VIRGÍLIO, Eneida, Canto VI, V.36 – V.39).

O encontro dos dois personagens inicia-se com a necessidade de um sacrifício para entrada no Mundo Inferior. Como o Orco é um local sagrado, habitado não por vivos, mas sim pelos mortos mostra-se necessário que àquele que deseja percorrer tais espaços seja permitido entrar. Devemos atentar também que Sibila é uma sacerdotisa de Apolo, deus regente de Troia na Ilíada. Podemos aferir e em outras passagens do Canto VI evidenciam a característica de Eneias como um troiano (Tros Aenea, v. 52), o que mudará ao longo da narrativa do canto.

A narrativa segue com uma descrição da entrada para o Mundo Inferior feita pelo narrador (v. 42 – v. 45), que descreve essa entrada por uma caverna, com cem portas e cem caminhos subterrâneos (Excisum Euboicae latus ingens rupis in antrum/Quo lati ducunt aditus centum, ostia centum). A multiplicidade de caminhos e entradas para o Orco pode sugerir ao menos duas vias de interpretação: 1) a possibilidade de chegar por diversos meios até esse outro mundo; 2) tantos caminhos dificultariam a chegada até o outro mundo, tornando-se assim essa entrada um verdadeiro labirinto. Analisamos essa passagem a partir da segunda via de interpretação, uma vez que o mito do Minotauro é exposto no começo do Canto, construindo assim uma linha coerente na narrativa. Para além dessa possibilidade narrativa, alguns versos à frente percebe-se a necessidade de ritos para a abertura do caminho até o Dite (v. 133 – v.155), corroborando com a segunda interpretação. Nos versos seguintes (v. 46 – v. 53) Sibila é “possuída” por Apolo e fala a Eneias o seguinte:

Unde ruunt totidem uoces,responsa Sibyllae. Ventum erat ad limen, cum uirgo. “Poscere Fata Tempus”, ait; “deus, ecce, deus!” Cui tália fanti Ante fores súbito non uultus, non color unus, Non comptae mansere comae; sed pectus anhelum, Et rabie fera corda tumente. Maiorque uideri Nec mortale sonans, afflata est numine quando Iam propiore dei. “Cessas in uota precesque,

Attonitae magna ora domus”

Mal alcançaram o umbral, “eis chegado”, lhes diz, “o momento Certo para esta consulta! Eis o deus! Eis o deus!”, repetia. Súbito, apenas as portas alcança, mudou-se-lhe o aspecto; Em desalinho os cabelos, os sons mais do fundo, ofegante, O coração assaltado por fúria incontida, parece

De bem maior estatura e que a voz diferente lhe soasse

Que a dos mortais, por falar algum nume ali mesmo escondido. “Como? Demoras com os votos e as preces, Eneias de Troia? Pois antes disso os portões deste templo famoso não se abrem (VIRGÍLIO, Eneida, Canto VI, v. 46 – v. 53).

A passagem acima deixa clara a necessidade de um rito para adentrar a esse espaço do submundo. Nesse aspecto, o rito sacraliza o espaço, tornando-o um ambiente sagrado, divisor entre vivos e mortos. É interessante notar que a ritualização liga os vivos com esse aspecto do divino79, tornando necessária uma correta execução destes. Ademais, segundo Regina Maria Bustamante, a religião romana tem como característica ser ritualística. Sobre isso a historiadora escreve:

As análises dos serviços religiosos, os debates no senado, os escritos dos antigos poetas e dos pensadores apresentam a religião romana como ritualística. Deve-se, entretanto, entender que, em seu sentido latino, o termo ritus designava um modo de ação, de celebração dos serviços religiosos, sem abarcar o conteúdo próprio deste serviço. Para este conteúdo, isto é, para o que nós chamamos atualmente de ritos, os romanos empregavam dois termos: sacra e caerimoniae. Nenhum historiador moderno questiona o formalismo da religião dos antigos romanos. Mas, tradicionalmente, a historiografia o interpretava pejorativamente, reproduzindo as críticas dos pensadores cristãos, que inseridos num contexto de polêmica contra o politeísmo, acentuavam o caráter “frio”, “vazio de sentido” das suas obrigações rituais, enquanto a fé cristã e seus dogmas atendiam às necessidades dos homens. Tal postura foi revista com os estudos antropológicos atuais, que perceberam a importância dos rituais para as sociedades que os praticavam (BUSTAMANTE, 2011, p. 2).

Podemos entender que o caráter ritualístico romano perpassa a religião e tem sentido ao ser praticada pelos seus cidadãos. Para além disso, devemos atentar, mais uma vez, ao fato da presença de elementos narrativos que demarcam aqui a origem do Herói, até então, troiano: Apolo como deus regente e protetor de Troia possui Sibila para apressá-lo acerca da realização dos ritos e, para além disso, explicitamente o chama de “Eneias de Troia”, no verso 52, evidenciando que Eneias ainda é muito mais um troiano do que um romano.

79 Utilizamos o termo “divino” como forma de apontar qualquer experiência religiosa que marque essa fronteira de

Avançando na narrativa até os versos 82 a 98, Apolo, ainda apossado de Sibila, fala a Eneias o que o aguarda no Lácio:

O tandem magnis pelagi defuncte periclis! Sed terrae grauiora manent. In regna Lauini Dardanidae uenient; mitte hanc de pectore curam; Sed non et uenisse uolent. Bella, hórrida bela, Et Thybrim multo spumantem sanguine cerno. Non simois tibi, nec Xanthus, nec Dorica castra Defuerint; alius Latio iam partus Achilles, Natus et ipse dea; nec teucris addita Iuno Usquam aberit, cum tu supplex in rebus egenis Quas gentes italum aut quas non oraueris urbes! Causa mali tanti coniunx iterum hospita Teucris Externique iterum thalami.

Tu ne cede malis, sed contra audentior ito Quam tua te Fortuna sinet. Via prima salutis, Quod minime reris, Graia pandetur ab urbe.

Ó tu, que alfim te livraste dos grandes perigos dos mares! Outros, maiores, em terra te esperam: Aos reinos lavínios Virão os filhos de Dárdano. Disso, porém, não receies; Lastimarão muito cedo até lá terem vindo. Percebo

Guerras, terríveis encontros e o Tibre espumando de sangue. Não sentirás falta aqui nem do Xanto, do torvo Simoente, Nem do arraial dos aqueus. Já no Lácio nasceu outro Aquiles, Filho também de uma deusa, e assim mesmo outra Juno, a inimiga Irredutível dos troas. Premido por tantos obstac’los,

De que nações, de que povos da Itália não vais socorrer-te! E a causa, sempre, a mulher, novamente uma esposa de fora, Tálamo estranho aos troianos.

Porém não cedas; com mais decisão para a frente prossigas Quanto a Fortuna o deixar, pois a luz salvadora – o que nunca Puderas crer – te virá de uma grande cidade dos dânaos (VIRGÍLIO, Eneida, Canto VI, V 83 – V 98).

Apolo narra alguns acontecimentos acerca do futuro de Eneias e as batalhas que ele passará. Deve-se salientar que essa visão do futuro que um deus oferece a um mortal também aparece na Iliada. No épico grego, Zeus envia a Agamêmnon um sonho de que este conquistaria Troia, o que alimenta o desejo do rei dos aqueus a continuar combatendo (Iliada, canto II, v. 7 – 15). Já no caso de Eneias, Apolo envia sua premonição de forma mais direta, afirmando as dificuldades que encontrará nas terras do Lácio.

Outras referências à Iliada aparecem no trecho destacado. Ao citar heróis da guerra de Tróia para explicar os tipos de desafios que aguardam por Eneias, a profecia de Apolo mostra-se tanto um recurso narrativo para ligar o Canto VI aos próximos acontecimentos, como também apresenta como habilidosamente Virgílio consegue referenciar e dar sentido a sua narrativa a partir de outras histórias já consolidadas. Nesse sentido, vale destacar a presença dessas estruturas narrativas que sustentam o enredo ao longo do épico, o que também nos releva sobre o refinamento e conhecimento das fórmulas narrativas gregas por Virgílio.

Nos versos seguintes, Sibila retorna a possessão de si mesma e Eneias faz a ela um pedido: que uma vez no mundo dos mortos, que a sacerdotisa o leve diretamente ao encontro do seu pai, Anquises (v. 106 – v.109). A partir desse momento o diálogo entre Eneias e Sibila desenvolve-se acerca de personagens mitológicos que conseguiram descer ao mundo Inferior ainda vivos. O herói troiano elenca Orfeu (v. 119 – v.120); Pólux (v.121 – v.122) e Hércules (v.123) e argumenta que como eles deve também merecer descer até o Orco. Nota-se que o argumento de Eneias se baseia nos mitos gregos, colocando-o também sua causa como elegível e merecedora de tamanha tarefa. Mas como foi possível a Eneias descer até os infernos?