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A conjuntura econômica e política

No documento Construção do SUS (páginas 161-165)

Apesar da estabilidade da moeda, a conjuntura econômica foi abalada por grandes convulsões e ataques especulativos, em conseqüência da crise asiática, em outubro de 1997, da crise russa, em agosto de 1998, seguida da desvalorização da moeda, em janeiro de 1999. A estabilidade monetária não foi acompanhada pela estabilidade econômica, que foi também agravada pela recessão e pelo desemprego. A questão do défi cit público e do ajuste fi scal foi o eixo central da política econômica, subordinada aos ditames do Fundo Monetário Internacional. Essa política implicava, ao mesmo tempo, aumento de arrecadação e cortes nos gastos públicos, condicionando direta-

mente os gastos com as políticas sociais diretamente à diminuição signifi ca- tiva do défi cit público (Faleiros, 2003).

O real foi mantido como uma moeda sobrevalorizada, o que facilitou a reelei- ção de FHC e, entre outros objetivos, as importações, com efeitos desestruturan- tes sobre a indústria nacional e redutores das exportações. Para sustentar o real, o governo manteve um câmbio estável até janeiro de 1999, quando foi adotado, atabalhoadamente, o câmbio livre, elevando os juros, o que provocou recessão e acentuou o desemprego, sem muitos atrativos aos capitais especulativos interna- cionais. FHC investiu prioritariamente na aprovação de sua reeleição. Sua política de reformas da Constituição Federal teve três eixos: a maior abertura possível da economia aos capitais internacionais, eliminando inclusive os monopólios esta- tais; a privatização do patrimônio público; e a redução dos direitos sociais, com a desregulamentação das leis trabalhistas. Com a perda de reservas internacionais, o aumento do desemprego e a recessão, o governo fi cou sem saída, submeten- do-se inteiramente ao monitoramento do FMI em troca de empréstimo, pelo qual pagou juros, que aumentaram, ainda mais, a dívida pública.

O modelo político-econômico seguido pelo governo foi o de maior favore- cimento do mercado e de redução do Estado em seus serviços, e na questão da cidadania priorizou os que vivem de rendas em detrimento dos que vivem do trabalho. Instituiu-se um programa de socorro aos bancos10. Aumentaram

os subsídios a montadoras de carros – isenções fi scais, enquanto se produziam cortes nos gastos sociais e salários.

A questão do fi nanciamento do défi cit exigiu nova leva de aumento de im- postos. Entre estes, a CPMF provocou a maior celeuma, sendo viabilizada por vincular recursos para a saúde. Um dos parceiros do governo, o Partido da Frente Liberal – PFL, posiciona-se contra o novo imposto, mas, em 1996, o Supremo Tri- bunal Federal decide que a CPMF é constitucional, o que facilita sua votação no Senado Federal. De acordo com a Febraban, a contribuição da Cofi ns e da CPMF junto com outros impostos elevariam para 58% a contribuição para o governo, nas operações fi nanceiras.

A despeito dessas medidas, a evasão de divisas continua a crescer, chegando a fuga de dólares a US$ 15 bilhões, em 1998, contra US$ 6 bilhões em 1997. A equipe econômica quer usar a CPMF também para abater a dívida, o que contraria a área da

saúde. Todo o ajuste fi scal, prioridade do governo, é negociado com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, inclusive o teto salarial, os cortes no orçamento e o aumento de arrecadação. E, apesar da voracidade tributária, o défi cit público cresceu no período, chegando a 5,12% do PIB em 1998.

Houve também grande oscilação no crescimento do PIB, que fi cou em mé- dias muito baixas. No ano de 1995, o PIB teve um crescimento de 4,22%, caindo para 2,66% em 1996, e para 0,13% em 1999, o que signifi cou uma média de crescimento de 2,57% no primeiro mandato. No segundo, a média de cresci- mento do PIB foi de apenas 2,09%, com 0,79% em 1999, 4,36% em 2000, 1,31% em 2001 e 1,92% em 200211.

Apesar da diminuição do número relativo de pobres com o Plano Real, man- teve-se estagnada a desigualdade de renda no Brasil, já que os salários passaram para a URV pela média e os preços pelo pico, embora os mais pobres pudessem ter, enquanto empregados, um acesso a preços estabilizados, mas nas compras a prazo os juros embutidos eram exorbitantes (7 a 10% ao mês), favorecendo o capital fi nanceiro.

Segundo o Ipea (2003), o gasto social federal, em valores constantes de dezembro de 2001, aumentou 19,3% de 1995 a 2001, passando de 143,538 a 171,274 bilhões de reais, aumentando 21% no primeiro mandato, mas reduzindo o seu crescimento no segundo. O aumento se deveu ao incremen- to do valor do salário mínimo. Ainda de acordo com o Ipea, a participação relativa da previdência social no gasto social federal, no período de 1995 a 2001, foi de 45,9%; de 20,l5% para benefícios a servidores; de 14,1% para a saúde; de 7% para a educação e cultura; de 4,1% para o emprego e defesa do trabalhador; de 2,6% para a assistência social; de 2,4% para a habitação e urbanismo e de 3,6% para outros programas. Os gastos com saúde per- maneceram quase constantes no período, em torno de 23 bilhões de reais (23,181 bilhões em 2001).

Na área social, de acordo com a orientação de transformar o Estado, de buro- crático a gerencial, o governo considerou atividade exclusiva do Estado apenas a previdência social básica, e impôs aos estados o mesmo esquema do ajuste fede- ral, considerando que o desequilíbrio fi scal é provocado pelos estados e municí- pios. Na lógica do governo, o ajuste e a redução do Estado são os pontos-chave,

inclusive para o desenvolvimento, pois, segundo Roberto Campos, a fórmula do desenvolvimento é simples: governo pequeno (o motor de desenvolvimento é o setor privado); impostos baixos (o governo é mau alocador de recursos); respeito à propriedade física; e abertura internacional (Pereira, 1998).

O gasto social no Brasil, por outro lado, em 1997 foi de apenas US$ 129,9 por habitante, enquanto na Argentina era de US$ 457,00. Segundo o Bird – Banco Mundial, o Brasil gastava R$ 90 bilhões ou 13% do PIB em progra- mas sociais, mas o fosso entre ricos e pobres não diminuiu, pois os 50% mais pobres representavam 12% da renda em 1990, e os 20% mais ricos aboca- nhavam 65% da renda, conforme relatório sobre o desenvolvimento humano de 1996 (Pnud, 1996:20).

A reforma da previdência, por sua vez, agravou a crise do défi cit, ao colocar os que estavam prestes a se aposentar, diante da perspectiva de ver sua situa- ção piorar e provocou o aumento do número de pedidos de aposentadoria: por exemplo, na Universidade Federal Rural de Pernambuco, 7% dos professores entraram com pedido de aposentadoria, provocando o adiamento do ano letivo por falta de professor.

Num contexto econômico de crises e estagnação, a legitimação do governo se fez pelo controle da infl ação obtida com o Plano Real. Nos dois últimos anos de governo, FHC implementou um programa de bolsas de ajuda social focaliza- das nos segmentos mais pobres.

A focalização de benefícios em determinados segmentos, por intermédio da concessão de bolsas e a gestão das mesmas pelo uso de cartões bancários, tor- nou-se a forma dominante de implantação e de implementação de novos pro- gramas sociais por parte do governo federal. Seguem essa linha os programas como o Bolsa-Escola, do Ministério da Educação (Lei nº 10.219, de 11/4/2001), o Bolsa-Renda para a população das regiões da seca (Medida Provisória nº 2.203, de 8/8/2001), o Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, da Secre- taria de Assistência Social (Portaria MPAS/Seas nº 879, 3/12/2001), o Sentinela – com bolsas de R$ 50,00, por criança para famílias acolhedoras de crianças vitimizadas (Portaria MPAS/Seas nº 878, de 3/12/2001) e o Bolsa-Alimentação, do Ministério da Saúde (Medida Provisória nº 2.206, de 8/8/2001), este imple- mentado a partir de setembro de 2001.

Em nível estadual e municipal, também já existem programas de bolsas com saque dos benefícios em caixas eletrônicos de bancos estatais ou privados. Esses programas focalizados destinavam-se a determinados grupos, como crianças de famílias pobres, com renda de até 1/2 salário mínimo per capita, que tivessem fi lhos na escola na faixa de 7-14 anos, ou que tivessem carência nutricional e estivessem na faixa de até 6 anos, incluindo também gestantes ou jovens de 15 a 17 anos. O programa Sentinela foi destinado a adolescentes e crianças em situação de exploração sexual, atingindo menos de uma centena de municípios. O governo FHC priorizou mecanismos de transferência direta de renda por meio de um sistema de bolsas, principalmente da Bolsa-Escola, cujos gastos foram de R$ 254,05 milhões em 2000 e R$ 1,9 bilhão em 2002.

No documento Construção do SUS (páginas 161-165)