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CAPÍTULO 3 SISTEMA TEÓRICO DA AFETIVIDADE AMPLIADA (STAA)

3.3 A CONSTITUIÇÃO DA PSIQUE – SELF : DIMENSÃO RECURSIVA

Conforme explanado anteriormente, a identidade denota um processo

constituído no trânsito da existência do ser, sendo o que torna possível a

configuração de uma pessoa (ou de qualquer outro ser); isto é, a identidade dá

forma àquilo que se constituiu ao longo da vida e que está inerente ao ser,

possibilitando assim a representação do “si mesmo” para o mundo, e, portanto, o

acesso dos outros. É nesse contexto que se apresenta o self, não como sinônimo de

identidade (como geralmente aparece na literatura psicológica, onde parece faltar

uma distinção clara e precisão do que vêm a serem ambos os fenômenos), mas sim

permite tratar desses constructos (da identidade e do self) como independentes e de

maneira isolada.

De acordo com os pressupostos do STAA, o self é o fundamento da

dimensão recursiva do ser humano, na qual estão dispostos os recursos construídos

ao longo da vida da pessoa. Estes recursos, por sua vez, conglomeram o

conhecimento de mundo e as crenças que o sujeito constrói sobre si – crenças

autorreferenciadas (já descritas no Capítulo II); logo, parte de sua individualidade,

que se completará e se expressará na configuração da identidade. Pode-se inferir

que o self é uma espécie de “reservatório” que guarda o conceito de si

(autoconceito) e tudo o que se atrela a ele, como os sentimentos ligados a si mesmo

(autoestima), bem como um conjunto de indicadores sobre suas próprias

competências e a confiança que deposita nelas (crenças de controle, de autoeficácia

ou autoconfiança), constituído e ajustado continuamente. Ao que se alia,

igualmente, todas as referências sobre a realidade, isto é, além dos autoconceitos

também estão ali os conceitos externos, os conceitos do mundo. Consiste na

imagem que o sujeito tem sobre sie do mundo que o rodeia (nos âmbitos físico,

cognitivo, emocional e social) somada às experiências prévias, à noção do presente

e à perspectiva do futuro. Aspectos do self, tornados conscientes quando se

expressam por meio da identidade (pelo fato dessa configurar, dar uma forma

externa ao que se organiza internamente), tanto é resultado das interações com o

meio, quanto, ao mesmo tempo, motor das ações, comportamentos e interações

(SANT‟ANA-LOOS; LOOS-SANT‟ANA, 2013b).

Como dissertado, o self, como uma espécie de “depósito” de recursos

psicológicos que provê ao indivíduo indicadores que o habilitam a se comportar de

determinadas maneiras, as que ele foi acumulando como as mais adequadas

estratégias de ação (coping) nas interações com as quais se depara. Abarca, além

das crenças que o ser tem sobre si mesmo, as demais crenças sobre o

funcionamento do mundo (conhecimento de mundo).

Faz-se oportuno destacar a existência nesse “banco de recursos” para análise

das estratégias de enfrentamento de situações adversas e conflitos (coping), já que

essas estratégias se expressarão por meio da identidade do indivíduo a cada

situação estressora enfrentada. Assim sendo, o STAA defende que o coping não

seja somente associado à resiliência, como é possível comumente se encontrar na

configura como elemento importante na regulação do mesmo, já que seu papel é o

de promover o ajustamento da pessoa ao longo de seu desenvolvimento. Ou seja,

em última análise, o coping é a instância que permeia e sedimenta a construção e a

existência dos conceitos (auto e externos) que preenchem o self, pois ele permite

agir (afetar) e se constrói pela confirmação externa (ou não) da competência dessas

estratégias (ser afetado) (SANT‟ANA; LOOS, 2010).

Uma implicação do STAA é, então, o entendimento do self operacionalizado

com certa estabilidade que permite ao indivíduo dizer a si mesmo e aos outros o que

e quem é, além de receber e emitir ao outro referências que entram no jogo de

construção de suas crenças de mundo. Essa abordagem teórica ainda permite a

compreensão da relação eu-outro não como complementar, mas como construídos

reciprocamente. O “eu”, segundo esse raciocínio, é construído nas relações sociais,

à medida que se autoavalia e reavalia o mundo, (re)estrutura e (re)significa, o que

provoca a reorganização do sistema de crenças autorreferenciadas. Assim, o “eu”

deixa de ser um ideal “egoísta” ou “egocêntrico”, liberal(izado) da interdependência

mútua que todas as coisas têm, já que:

[...] toda e qualquer coisa funciona, logo existe, a partir da

conflagração da interação: “interage, logo existe” ou “existe porque

está interagindo”. Sendo que tal paródia ao cogito cartesiano

(“penso, logo existo”) não é exatamente aleatória, mas sim uma

ampliação da compreensão deste princípio; afinal pensar é fazer

relações (interações congruentes), ou seja, é estar interagindo com

os dados da realidade, buscando articulá-los coerentemente.

(SANT‟ANA-LOOS, 2013, p. 95-96).

Nesse sentido, o olhar do outro se reveste de grande importância na

formação do self e, portanto, da identidade, processo este que evoca o próximo

tópico, a alteridade.

3.4 A CONSTITUIÇÃO DA PSIQUE – ALTERIDADE: DIMENSÃO

MODULADORA

A alteridade versa sobre a importância do “outro” como valor imensurável na

constituição do ser. Isto é, em última análise, o outro também sou eu. Alude sobre

uma relação dual, bidirecional, entre o “eu” e o “outro” pautada na proximidade. Esse

“outro” tem papel decisivo na formação da pessoa, visto que é, por meio das

relações sociais, que o ser conhece o outro como humano e se reconhece como tal.

Embora se adote que o aspecto social é imprescindível na formação da pessoa, o

sujeito não é um ser passivo nesse processo, no qual o mundo externo imprime nele

as informações disponíveis, cabendo-lhe apenas internalizá-las.

A pessoa em desenvolvimento é um agente de produção no seu processo de

constituição, assim como no de outros sujeitos e contextos; por meio das interações,

os envolvidos se constituem reciprocamente. Isso destaca a importância de relações

alteras, qualitativas, que busquem a melhor harmonia possível entre os membros de

uma interação qualquer. Desde a mais tenra idade, essa relação altera é uma das

condições para um desenvolvimento humano saudável. Isso não significa que não

sejam necessárias as situações de conflito, pois é justamente a busca de solução

para os conflitos a oportunidade de crescimento mútuo (desenvolvimento) e de maior

harmonia. E é aí que repousa a confusão que provoca o dualismo, por conta do não

entendimento que as interações de alteridade são duais e que tendem a rumar para

a homeostase:

Tal bifurcação da experiência é a constituição de uma dualidade inerente à

própria condição da realidade dinâmica de ser interacionista. Isto é, não há como

haver dinamicidade – movimento e criação expansionista – se não existir diferença

entre os elementos que interagem e formam a realidade. Sendo que essa diferença,

apesar de poder extrapolar inúmeras formas, é basicamente dual, ou seja, de que

uma coisa é (esta) uma coisa e qualquer outra é somente (essa) outra. Por isso, não

é preciso enumerar todas as outras, pois só se vai interagir (dialogar) com uma de

cada vez ou somente uma de cada vez vai poder incidir interferência notória. Essa

perspectiva é o fundamento de toda a lógica, desde o silogismo aristotélico.

(TUGENDHAT, WOLF, 1996).

E isso não é nenhum problema, em si, pois toda a organização da realidade

se perfaz por essa dualidade dialógica. O problema realmente começa quando se

assume para essa dualidade a característica de independência e incompatibilidade.

É aí que se transforma a dualidade em dualismo, como usualmente é interpretado o

método cartesiano.

O dualismo assim concebido se torna uma dificuldade para a compreensão da

realidade justamente porque principia a ideia de independência, o que sugere que

não há a necessidade de diálogo entre a dualidade diferencial. No caso do

cartesianismo, tal independência faz com a realidade possa ser “lida” pelo método

idealista sem a necessidade de diálogo com a posição empírica, materialista. E a

incompatibilidade suscitada pelo dualismo provoca a impressão de que se está em

uma guerra que busca conquistar à força, a partir da vontade do mais forte, do mais

hábil, do mais eloquente, o direito de cientificidade investigativa (SANT‟ANA-LOOS,

2013, p. 117-118).

Nesse sentido, o Sistema Teórico da Afetividade Ampliada se refere à

alteridade como principal constituinte da dimensão moduladora. Isso porque é a

partir do feedback do “outro” que as crenças construídas pelo sujeito sobre si mesmo

são validadas (ou não), permitindo a ele regular seu comportamento. Quando isto é

feito a contento, alinha-se as interações em uma dualidade que retroalimenta os

elementos em contínua autocomplementaridade, em vez de um dualismo sectário e

que provoca uma “luta de classes” ad infinitum entre os elementos

(SANT‟ANA-LOOS, LOOS-SANT‟ANA, 2013a, 2013b).