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CAPÍTULO 2 ESTADO DA ARTE DOS CONSTRUCTOS DE ANÁLISE

2.3 TERCEIRO CONSTRUCTO-ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO:

O objetivo deste tópico é conceituar as Altas Habilidades/Superdotação

(AH/S). Ao contrário do que aparenta, a tarefa de definir a área não é sinônimo de

algo fácil e/ou simples (ALENCAR; FLEITH, 2001; PALUDO, 2009).

Sabe-se da relação entre AH/S e inteligência. Assim, como uma justificativa

para a dificuldade em conceituar o termo, pode-se citar a própria mudança no

entendimento acerca de inteligência empreendida nos últimos anos. Até certo

tempo, a inteligência era centrada em uma visão unidimensional, nos altos escores

em testes padronizados, e a superdotação, por sua vez, definida e identificada neste

molde. Contudo, com o desenvolvimento de estudos, a inteligência passou a ser

entendida numa perspectiva multidimensional, considerando múltiplas dimensões na

constituição do ser (ALENCAR, FLEITH, 2001; PANZERI, 2012).

Desta maneira, inteligente não é mais estritamente o sujeito que obtém

índices altos nos testes de coeficiente intelectual, o que admite uma pessoa ter

capacidade superior em uma ou mais áreas em detrimento de outras, enquanto que

outras pessoas teriam um desenvolvimento maior em dimensões diferentes. Neste

raciocínio, consideram-se diferentes tipos de inteligência e não apenas a linguística

e lógico-matemática, mais frequentemente avaliadas nos testes de QI (ALENCAR,

FLEITH, 2001; ALENCAR, 2007).

Essa concepção multifatorial de inteligência trouxe como desdobramento

mudanças na maneira de se entender e conceituar as AH/S. A superdotação passou

a ser considerada em diferentes e diversas dimensões da capacidade humana.

Constata-se que, além de valorizar o aspecto intelectual puramente, tem-se levado

em consideração fatores de extrema importância, como questões de personalidade e

disposições ambientais. Deste modo, a superdotação não é mais tida como um

constructo imutável, antes influenciada e dependente do contexto (não estrito ao

microssistema, mas no macrossistema). Assim, uma criança que tenha capacidade

superior na música, se não possibilitado o acesso aos instrumentos musicais, por

exemplo, não terá oportunidade de se desenvolver neste aspecto (BENITO, 2000;

ALENCAR, FLEITH, 2001; SABATELLA, 2008).

As pessoas com altas habilidades/superdotação formam um grupo

heterogêneo, o que também dificulta a conceituação. Isto porque, não se resume em

um escore de inteligência como se acreditou durante muito tempo, passível de ser

medida, mas implica antes, considerar uma constelação de características e sua

interrelação com o contexto no qual a pessoa está inserida, o que impossibilita de

falar sobre um perfil único. Mesmo o profissional que tem trabalhado com esse grupo

de pessoas encontra dificuldades, uma vez que, as características não são

padronizadas.

A heterogeneidade encontrada na população de alunos com AH/S é devida

à variabilidade de habilidades cognitivas, atributos de personalidade e nível de

desempenho. Nesse sentido, um indivíduo pode ter capacidade superior em várias

áreas, enquanto outros em apenas uma e ainda, no que concerne à personalidade,

alguns podem ser extrovertidos e outros extremamente introvertidos, por exemplo

(BENITO, 2000; ALENCAR 2007; SABATELLA, 2008). Esse cenário é o que

dificulta a definição da área, bem como o processo de identificação, pois há a

tendência de repetir padrões e não olhar a individualidade do ser.

Várias são as abordagens teóricas que empreendem o esforço de conceituar

as AH/S. Entretanto, ao se analisar diferentes autores (MATE, 1996; ALENCAR;

FLEITH, 2001; VIRGOLIM, 2007; SABATELLA, 2008), averígua-se uma tendência

em referenciar os estudos do psicólogo, professor e diretor do Centro Nacional de

Pesquisas sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut,

Joseph Renzulli, por meio da teoria de superdotação denominada Concepção dos

Três Anéis. Seu uso no presente estudo se justifica, também, por ser o referencial

teórico adotado no Brasil pelo Ministério da Educação para elaboração de propostas

pedagógicas e políticas públicas.

Renzulli (2004) prefere falar sobre comportamentos de superdotação ao invés

de adjetivar o indivíduo como sendo ou não superdotado. Este autor publicou sua

teoria na década de 70, quando as diretrizes existentes se reportavam ao trabalho

de Levis Terman e “à crença de que um certo nível de inteligência medida da forma

tradicional era sinônimo de superdotação” (RENZULLI, 2004, p. 80). Segundo este

autor (2004), um indivíduo pode apresentar comportamento de superdotação em

alguma área específica sob o desenvolvimento de determinadas atividades. Desta

forma, acredita que, a superdotação “[...] emerge ou “se esvai” em diferentes épocas

e sob diferentes circunstâncias da vida de uma pessoa”. Acrescenta que os

comportamentos de superdotação podem aparecer em certos indivíduos, em

determinados momentos, sob certas ocasiões, mas não em todos os indivíduos, nem

todos os momentos e, nem em todas as ocasiões de sua vida (RENZULLI; REIS

apud ALENCAR; FLEITH, 2001).

Renzulli (2004) propõe duas amplas categorias de habilidades superiores nas

quais o indivíduo pode ser identificado: a superdotação escolar ou acadêmica e a

superdotação criativo-produtiva. A superdotação acadêmica é mais facilmente

identificada uma vez, que nesta, encontram-se as habilidades geralmente exigidas

nas aprendizagens escolares e, mais facilmente mensuradas pelos testes

padronizados de capacidade. “A ênfase neste tipo de habilidade recai sobre os

processos de aprendizagem dedutiva, treinamento estruturado nos processos de

pensamento, e aquisição, estoque e recuperação da informação” (VIRGOLIM,

2007a, p. 43). Desse modo, há uma valorização maior das habilidades analíticas em

detrimento das habilidades criativas ou práticas (RENZULLI, 2004, p. 82). Sobre

esse tipo de superdotação, Renzulli (2004, p. 82) destaca que “ela existe em graus

variados; pode ser facilmente identificada através de técnicas padronizadas e

informais de identificação (...)”.

Ainda que a superdotação acadêmica seja valorizada na teoria de Renzulli, o

principal foco do trabalho deste autor está centrado no que chamou de superdotação

criativo-produtiva. A superdotação criativo-produtiva se refere ao desenvolvimento

de ideias, produtos, expressões artísticas originais. Nessa “[...] as situações de

aprendizagem concebidas para promover a superdotação criativo-produtiva

enfatizam o uso e aplicação do conhecimento e dos processos de pensamento de

uma forma integrada, indutiva e orientada para um problema real”. Nesse sentido, o

sujeito atua como produtor do conhecimento ao invés de um mero receptor e

consumidor de informações (RENZULLI, 2004, p. 83).

De acordo com Rezulli (2004), o potencial superior é obtido por um conjunto

de três fatores ou anéis, a saber: habilidade acima da média em alguma área do

conhecimento, envolvimento com a tarefa e criatividade, concretizando em sua

teoria, denominada Concepção dos Três Anéis. Destaca ainda que (2004, p. 82) “as

crianças superdotadas e talentosas são aquelas que possuem ou são capazes de

desenvolver este conjunto de traços e aplicá-los a qualquer área potencialmente

valorizada do desempenho humano”.

A habilidade acima da média engloba a habilidade geral e habilidade

específica. A habilidade geral se refere à “capacidade de utilizar o pensamento

abstrato ao processar informação e de integrar experiências que resultem em

respostas apropriadas e adaptáveis a novas situações”. A habilidade específica, por

sua vez, consiste “[...] habilidade de aplicar várias combinações das habilidades

gerais a uma ou mais áreas especializadas do conhecimento ou do desempenho

humano, como dança, fotografia, liderança, matemática, composição, musical, etc”.

(VIRGOLIM, 2007b, p. 33). O envolvimento com a tarefa é o empenho empregado

pelo indivíduo em uma área específica. Tal comprometimento pode ser entendido

como autoconfiança, perseverança e paciência (VIRGOLIM, 2007b). A criatividade

ausência de medo em correr riscos e sensibilidade a detalhes (ALENCAR; FLEITH,

2001, p. 59).

Segundo Renzulli, essa forma de se entender a superdotação tem permitido a

muitos indivíduos oportunidades para desenvolver altos níveis de realização criativa

e produtiva que, de outra maneira, teriam sido negadas pelos modelos tradicionais

dos programas especiais (RENZULLI; REIS apud VIRGOLIM, 2007b).

Sobre a Concepção dos Três Anéis é importante ressaltar que nenhum dos

traços nomeados de superdotação (habilidade acima da média, envolvimento com a

tarefa e criatividade) é mais importante que o outro e que estes não precisam

necessariamente estar presentes ao mesmo tempo e na mesma proporção para que

os comportamentos de superdotação se concretizem (VIRGOLIM, 2007a).

Cabe destacar ainda que, a habilidade acima da média é “[...] uma condição

necessária, mas não suficiente para altos níveis de produtividade”. Assim sendo, o

envolvimento com a tarefa tem papel primordial no desempenho produtivo

(VIRGOLIM, 2007b, p. 34). Virgolim (2007b, p. 34), acrescenta ainda que, o

envolvimento com a tarefa e a criatividade, “[...] são traços variáveis, que podem

estar presentes em maior ou menor grau, dependendo da atividade”. Já, a aparição

de um pode estimular o surgimento do outro.

Um ponto interessante de se notar é que os comportamentos de

superdotação são, em parte, influenciados por características de personalidade

(autoestima, autoeficácia, energia, etc.), fatores ambientais (nível socioeconômico,

recursos disponíveis, nível educacional e personalidade dos sujeitos que compõem

a família, etc.) e fatores genéticos (VIRGOLIM, 2003).

Tomando como base ainda a teoria dos Três Anéis, é importante destacar

que a superdotação acadêmica é contemplada principalmente no anel da

capacidade acima da média, com tendência a permanecer estável, onde o sujeito

nem sempre mostra o máximo de comprometimento com a tarefa ou de criatividade.

Já os indivíduos altamente criativos e produtivos tendem a ter altos e baixos em seu

rendimento (RENZULLI, 2004). Renzulli acredita que os comportamentos de

superdotação são influenciados tanto por fatores genéticos quanto ambientais.

Assim, uma criança com alta motivação ao realizar uma tarefa “[...] poderá

esforçar-se e vir a dominar, em algum momento, o conhecimento associado a essa área de

interesse, mesmo que anteriormente não tenha demonstrado uma capacidade

intelectual superior” (VIRGOLIM, 2007b, p. 35). A persistência, a autoconfiança e

determinação são fatores essenciais para que essa criança seja um adulto produtivo.

A inteligência é a primeira característica assinalada quando se faz referência

àquele que possui uma identidade superdotado. Por outro lado, e aliado à cultura

ocidental, percebe-se o detrimento de uma esfera importantíssima que compõe o

ser, de igual valor para a formação integral do sujeito com AH/S, que é o aspecto

afetivo, tópico discutido a seguir.