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CAPÍTULO 2 ESTADO DA ARTE DOS CONSTRUCTOS DE ANÁLISE

2.4 QUARTO CONSTRUCTO - AFETIVIDADE

2.4.1 Desenvolvimento emocional da pessoa com altas

habilidades/superdotação

Com base na revisão da literatura tratada no tópico anterior, sobre a

indissociabilidade entre cognição e emoção para o desenvolvimento global do ser,

pode-se constatar que a emocionalidade é uma dimensão importante na formação

do sujeito com AH/S, isto é, imprescindível considerá-lo sob uma perspectiva

holística para maior desenvolvimento de seu potencial (ALENCAR, FLEITH, 2001;

VIRGOLIM, 2008; BAHIA, 2011a).

O constructo emoção é, consensualmente, tido como um estado complexo

que resulta em modificações fisiológicas, que por sua vez, influenciam o pensamento

e o comportamento da pessoa (BAHIA, 2011a). As emoções são estados internos

que ultrapassam o controle pessoal e abrangem julgamentos avaliativos

(subjetividade). É a interação e interrelação entre cognição e emoção que leva a

uma sincronização, gerando uma auto-organização. Pode-se compreender, deste

modo, a emoção como um sistema dinâmico, autorregulado e autorregulador

(OATLEY; JENKINS, 2000).

Partindo do pressuposto acima exposto combinado com Mönks (2000), ao

enfatizar que o nível de capacidade cognitiva exerce influência no comportamento

afetivo e social, concorda-se com Alencar e Fleith (2001) quando dissertam que o

desenvolvimento emocional do sujeito com AH/S não se dá necessariamente de

maneira mais rápida e nem mais precoce do que outros indivíduos, acontece, antes,

de maneira diferenciada. Comentando sobre a visão do grupo de Columbus, Virgolim

(2008) destaca que as crianças superdotadas não apenas pensam diferente de seus

colegas, mas também sentem de forma diferente.

O nível intelectual remete a formas de pensamento mais complexas,

explicando a grande sensibilidade dos sujeitos com AH/S. Isto porque a

sensibilidade não está limitada à compreensão dos sentimentos do outro, mas é uma

forma de ser, estar e sentir o mundo. De acordo com Ourofino e Guimarães (2007,

p. 48) essa grande sensibilidade é “[...] proveniente da acumulação de uma

quantidade maior de informações e emoções, que geralmente estão além do que

podem absorver e processar”.

Quando o sujeito tem uma capacidade cognitiva superior que os diferencia

dos seus pares etários, suas necessidades afetivas e sociais também são diferentes.

A relação entre cognição e emoção e a grande sensibilidade destes sujeitos é

discutida na perspectiva da assincronia, assunto frequentemente relacionado no

estudo das AH/S, decorrente da maturidade da criança com potencial superior, que

condiz ao descompasso entre desenvolvimento cognitivo, afetivo e psicomotor

(ALENCAR; VIRGOLIM, 1999; ROBINSON, 2002; OUROFINO, GUIMARÃES, 2007;

VIRGOLIM, 2010).

Virgolim (2007a) alerta que altos níveis de desenvolvimento cognitivo não

implicam, fundamentalmente, em altos níveis de desenvolvimento afetivo. Desse

modo, os sujeitos com AH/S estão acima da média no acúmulo de conhecimentos,

mas podem, contudo, ter ineficácia ante determinadas circunstâncias da vida,

porquanto percebem e sentem tudo com maior amplitude – decorrente da

sensibilidade.

Este termo [desenvolvimento assincrônico] aponta para as

habilidades cognitivas avançadas que se combinam com a grande

intensidade com que estas pessoas vivenciam o mundo, proveniente

da facilidade com que elas acumulam informações e emoções, mas

em uma quantidade maior do que ela pode absorver e processar.

(VIRGOLIM, 2010, p. 05).

Robinson (2002) disserta que essa disparidade entre maturidade cognitiva e

emocional tem relação com a regulação da criança superdotada, ou seja, é

frequentemente mais madura do que o estimado para sua idade cronológica,

todavia, menos madura do que sua idade cognitiva ou mental. Assim, essa criança

pode ter medos como o de crianças mais velhas não identificadas como

superdotadas. Como exemplo, pode-se ter um sujeito que localiza possíveis

consequências da radiação nuclear que pode colocar a vida humana em risco, mas

não possui o controle emocional para “deixar de lado” essas ideias e continuar sua

vida. Esse cenário é perigoso quando os adultos esperam que a criança com AH/S

se comporte sempre como uma criança mais velha e se decepcionam quando

percebem que ela continua tendo, por exemplo, 6 anos apesar de ter uma idade

cronológica de 14, e devido a isso, por vezes agirá como uma criança de 6 anos, o

que não a faz imatura, mostra antes, um desenvolvimento adequado.

Esse cenário pode ser a explicação da discrepância teórica frequentemente

encontrada na literatura quando trata a criança com AH/S, quando a coloca, em

alguns casos, como imatura e em outros, como emocionalmente avançada.

Silverman (1993) ressalta que, ela pode, na verdade, ser os dois, dependendo do

momento e condição que é observada.

Apesar de ser recorrente no estudo das AH/S, a assincronia não pode ser

considerada como característica presente em todo sujeito com AH/S. Na verdade,

essas pessoas constituem um grupo heterogêneo, com variabilidade de

características, sejam elas no domínio cognitivo, emocional ou social. Dentre as

características que podem ser apresentadas por sujeitos com AH/S, no aspecto

sócio afetivo, cita-se: perfeccionismo, consciência acentuada de si mesmo (o que o

leva a perceber como diferente), senso de humor, sensibilidade (ante os problemas

e aos outros), preocupação com temas de moralidade e justiça, capacidade criativa,

motivação intrínseca, vocabulário e funcionamento cognitivo avançado, capacidade

de liderança, curiosidade (MATE, 1996; ALENCAR; VIRGOLIM, 1999; BENITO,

2000; MONKS, 2000; ALENCAR; FLEITH, 2001; ROBINSON, 2002; VIRGOLIM,

2007c; PANZERI. 2012; OUROFINO, GUIMARAES, 2007).

Ourofino e Guimarães (2007) destacam que os sujeitos com AH/S pode se

mostrar mais resilientes, e por outro lado, mais descontentes, frustrados e ansiosos,

quando o ambiente não atender de forma satisfatória suas necessidades.

Importante destacar que as características relacionadas não condizem com

problemas propriamente ditos, o agravante é quando o sujeito não tem referências e

experiências afetivas positivas em seu processo de desenvolvimento, assunto a ser

tratado posteriormente, no tópico “Alteridade e Altas Habilidades/Superdotação”.

Como as AH/S conglomeram tanto fatores cognitivos como não cognitivos

(afetivos, motivacionais, de personalidade), é imprescindível que os sujeitos tenham

oportunidade de se expressar como sujeito do seu mundo, compreendendo a

necessidade e importância do conhecimento interior para maturidade emocional,

intelectual e social (VIRGOLIM, 2007b). Refere-se à execução de atividade

intelectual em relação às emoções, por meio da reflexão, no desenvolvimento de

capacidades para autorregulação, o que possivelmente atenuará quando da

existência de assincronia.