CAPÍTULO 3 SISTEMA TEÓRICO DA AFETIVIDADE AMPLIADA (STAA)
3.1 SISTEMA TEÓRICO DA AFETIVIDADE AMPLIADA: A QUALIDADE DAS
A sociedade, de modo geral, está marcada por conceitos e crenças rígidas,
conformistas e reducionistas. Não raramente, aspectos que formam o ser (exceto a
racionalidade) são ignorados. Por assim ser, a ciência moderna frequentemente
desconsidera a influência do campo das emoções e sentimentos, da sensibilidade
subjetiva, reduzindo-se somente a teorias e conceitos fixos constituídos ao sabor de
uma lógica linear. Com este tipo de concepção, são ignoradas as possibilidades de o
conhecimento poder ser aferido também por lógicas heterodoxas, as quais estão
mais próximas da funcionalidade da afetividade (SANT‟ANA-LOOS;
LOOS-SANT‟ANA, 2013a).
Considera-se a necessidade de superar a visão dicotômica do ser e do
mundo, ora centrada na razão e ora na emoção – como se esta divisão fosse
possível, como se fossem faces de moedas diferentes. Nesse contexto, acredita-se
na impossibilidade de se isolar um aspecto enquanto se estuda outro, devido à
própria natureza multifacetada do ser (constituído por características biológicas,
cognitivas, afetivo-emocionais e sociais). Isto é, não há como se compreender a
realidade apropriadamente com os tipos de métodos atualmente erigidos,
basicamente dualistas. Diante desse cenário, apresenta-se o Sistema Teórico da
Afetividade Ampliada – STAA, que vem sendo construída por Sant‟Ana-Loos e
no presente estudo. O STAA, essencialmente, funciona como uma meta-teoria, que
tem como função atualizar ou (co)ordenar o avanço da compreensão da realidade
em uma visão dinâmica, a partir da afetividade (ampliada) envolvida nas interações
dos diversos fenômenos que estiverem em questão. Ou seja, o STAA pode ser
usado como um método que “orientaria” os outros métodos a se inter-relacionarem,
superando os problemas metodológicos oriundos da dicotomia dualista.
Basicamente, o método poder ser um problema significa que há grande
chance de haver vários caminhos para se investigar a realidade e que nem todos
eles são seguros. Ou que talvez, ou até mais provavelmente, o verdadeiro método
seja o “entrecruzamento” de mais de um método (SANT‟ANA-LOOS,
LOOS-SANT‟ANA, 2013a). E, nesse caso, haveria um “método do método”, ou seja, uma
método ou meta-teoria. Mas por que haveria de ser necessária uma
teoria-método para investigar a realidade?
Na verdade, explicam os autores, não é preciso uma teoria-método para,
literalmente, investigar a realidade. De fato, uma teoria-método é importante para
proceder à análise dos dados investigados da realidade. Isto é, a pesquisa empírica,
de um lado, ou a reflexão teórica, de outro, podem ser feitas por métodos “simples”.
Porém, a conclusão final, se o que se deseja é uma compreensão da realidade que
possa reverberar de modo sistêmico (monista), deve ser sempre um diálogo entre os
dois tipos básicos de método: materialista e idealista.
Isso porque a realidade, até para poder ser dinâmica, é sempre dual. Logo,
para se harmonizar, precisa realizar, de uma forma ou de outra, algum tipo de
diálogo (reatividade interacional) para haver homeostase entre os elementos
envolvidos. Isto é, a realidade está sempre necessitando “acomodar” as interações,
em todos os níveis ou dimensões. Entre os indivíduos: eu e você. Entre a
subjetividade e a objetividade. Entre a energia e a matéria. Entre as ideias
(abstratas) e a materialidade (empírica). E assim por diante, sempre denotando uma
“bifurcação” da experiência da existência (SANT‟ANA-LOOS, 2013, p.116-117).
A partir disso, a referida teoria avança em entender e explicar o crescimento
psicológico, cognitivo, emocional e social, ou seja, as diversas facetas do
desenvolvimento humano, em uma perspectiva de análise sistêmica. Para tanto, o
STAA analisa e integra quatro mecanismos psicológicos essenciais: identidade, self,
alteridade e resiliência; os quais são autocomplementares, interligados e
inseparáveis, podendo surgir sequencialmente ou mesmo serem interrompidos em
seu desenvolvimento saudável, causando problemas de autogerenciamento e,
portanto, de conduta (SANT‟ANA; LOOS, 2010).
Tais mecanismos formam a base de quatro dimensões amplas do ser
humano, a saber: identidade (dimensão configurativa), self (dimensão recursiva),
alteridade (dimensão moduladora) e resiliência (dimensão criativa e ampliadora)6. O
STAA busca explicar o desenvolvimento a partir da integração e interrelação das
dimensões apresentadas, as quais proporcionam a análise da psique humana por
meio das categorias referidas, como pode ser visualizado na Figura 3:
FIGURA 3 - DIMENSÕES DO SISTEMA TEÓRICO DA AFETIVIDADE AMPLIADA(STAA) E SUAS
RESPECTIVAS CATEGORIAS MAIS REPRESENTATIVAS
Fonte: A AUTORA
Esses termos são familiares na Psicologia, porém são frequentemente vistos
de maneira desconectada, como se constituíssem fenômenos independentes. Ou
seja, os conceitos são habitualmente vistos de forma reducionista, por conta, muitas
vezes, da confecção de métodos “não-ampliados” para se ver(ificar) a realidade.
Outras vezes, são apresentados com pouquíssima precisão, até mesmo de forma
6
LOOS-SANT‟ANA, H.; SANT‟ANA-LOOS, R.S. Sistema Teórico da Afetividade Ampliada. (Notas
de Aula). Curitiba, novembro/2011. Disciplina “Cognição e Afetividade”, ministrada na Linha de
Pesquisa Cognição, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano da Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal do Paraná.
ambígua, como é o exemplo das categorias self e identidade. Assim sendo, uma das
contribuições desta abordagem teórica é a maneira pela qual propicia uma maneira
mais estendida, ampliada, de entender tais constructos. Além disso, se dispõe a
mostrar como tais fenômenos se relacionam coerentemente entre si e com o
movimento dinâmico do desenvolvimento.
O STAA busca demonstrar o impacto das diversas forças que influenciam o
desenvolvimento do humano, tendo como foco primeiro a análise da qualidade das
interações: como elas se afetam mutuamente. Para o que utiliza e modula o conceito
de dialética do “afetar e ser afetado”7
.
No que se refere à contribuição trazida para o entendimento dos conceitos de
identidade e de self, constructos frequentemente tratados no estudo do
quemsou/somos e como me/nos reconheço/cemos, estão presentes na lista de
conceitos que abarcam os limites da filosofia e da ciência, com o que se observa a
realidade epistemologicamente. O (re)conhecimento desta constatação feita pelo
STAA rompe com a ideia de identidade limitada ao caráter individual, situando-a no
campo relacional, enquanto demarca o self como uma dimensão relativamente
estável ou tendendo à estabilidade, contudo necessitando autoatualizar-se
(periodicamente), como toda estrutura dinâmica o necessita. Mesmo assim, estes
constructos “coirmãos”, dependem completamente um do outro, somente se
expressando a identidade de alguém a partir dos recursos armazenados no self.
Esses, por sua vez, precisam manter um nível de estabilidade para dar ao indivíduo
o senso de unidade e de continuidade, mas também necessitam se constantemente
se (re)ajustar. Nessa perspectiva, são modulados pelas interações vivenciadas por
meio da alteridade. Neste contexto do STAA, a alteridade opera na assertividade do
diálogo, com o qual o indivíduo poderá se atualizar, o que ele sempre faz almejando
a harmonia interacional com o outro, ou seja, com o mundo ao seu redor, buscando
realizar com este interações “em ordem” (SANT‟ANA-LOOS, LOOS-SANT‟ANA,
2013a, 2013b).
Cada um é um conjunto (organismo) e, por conseguinte, limita-se às
referências deste conjunto para proceder ao entendimento, criar opiniões, sobre as
coisas. Logo, se este conjunto recorrer a outros conjuntos para ampliar a
possibilidade de entendimento, então, tal como a vontade, a abrangência do
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