• Nenhum resultado encontrado

1 PANORAMA E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE LÍNGUA

1.4 As teorias heterogêneas e construção de novos objetos de ensino

1.4.1 A constituição do texto como objeto de ensino

O texto é o objeto de ensino de maior destaque nos documentos oficiais, porém sua presença na escola antecede as discussões e as proposições das teorias linguísticas no Brasil. O que podemos afirmar é que a forma de tratamento e o estatuto do texto sofrem mudanças ao longo do tempo e, como objeto de ensino, sua compreensão talvez seja a que mais tenha sido afetada pelos estudos linguísticos. Sem citar esses estudos, Geraldi (2015, p. 75) constata que: “o ensino de língua materna, desde sempre, operou com textos, mas as formas destas operações variaram ao longo do tempo”. Iniciamos nossa compreensão do texto na disciplina de língua portuguesa a partir da década de 1950, do século passado. Para Soares (2002, p. 167):

É então que gramática e texto, estudo sobre a língua e estudo da língua começam a constituir realmente uma disciplina com um conteúdo articulado: ora é na gramática que se vão buscar elementos para a compreensão e a interpretação do texto, ora é no texto que se vão buscar estruturas linguísticas para a aprendizagem da gramática. Assim, os anos 1950 e1960, ou se estuda a

gramática a partir do texto ou se estuda o texto com instrumentos que a gramática oferece.

Nesse contexto histórico, os textos literários predominavam de acordo com os objetivos dessa época, o que, para Bunzen (2011, p. 899, grifo do autor), dava-se da seguinte forma:

no geral, percebe-se que o Programa de Português de 1951 priorizava exercícios práticos de gramática e textos literários, atendendo a dois objetivos: “a habilitação do aluno para falar e escrever corretamente” e “a missão do professor de despertar no aluno o amor pela língua pátria e o gosto literário”.

Essa visão dos objetivos e do texto na escola altera-se de forma significativa com o golpe militar de 1964. Sob novas diretrizes e com objetivos mais pragmáticos, o ensino de língua assume novos contornos teóricos, sofrendo, inclusive, mudança de nome da disciplina de Língua Portuguesa para Comunicação e Expressão. O texto assume diferentes características, bem como os objetivos de seu ensino e o formato de inserção em sala de aula:

A partir da reforma e com a introdução da disciplina “Comunicação e Expressão”, muda-se o objeto de estudo: elementos da teoria da comunicação passam a fazer parte do que se ensina e se aprende; busca-se a expressão criativa (há manuais de criatividade publicados nesta época!) e também entram para dentro da sala de aula os textos de leitura. A coleção de livros didáticos assinada por Magda Soares, ‘Português através de textos’ indiciam esta novidade nos objetos de trabalho de sala de aula. E muitos serão os gêneros acolhidos – não mais textos literários seletos, em prosa e verso – até mesmo histórias em quadrinhos. Um espanto para qualquer professor por acaso ainda vivo da primeira república! (GERALDI, 2013, p. 114-115).

É, nesse momento, que a variedade e a quantidade de textos passam a ser uma característica básica no ensino de língua materna, permanecendo até os dias de hoje.

Outro deslocamento importante viria sob a asserção de uma nova concepção de linguagem e da relação do sujeito constituído pela e na linguagem. Britto (1997) cita alguns dos autores fundamentais nesse deslocamento, entre eles Franchi, Osakabe, Ilari, Pécora, Geraldi e Possenti. Sobre Franchi e Geraldi, o autor afirma:

A força do pensamento de Franchi e Geraldi está no fato de eles não se limitarem a propor um novo método ou novos procedimentos. Ao contrário, elaboraram suas propostas para o ensino de português a partir do estabelecimento de uma concepção de linguagem e de construção de conhecimento bastante diferente da tradicional, centradas na historicidade do sujeito e da linguagem (BRITTO 1977, p. 154).

É sob esse deslocamento das concepções de linguagem e de sujeito que o tratamento do texto vai se popularizar. Várias correntes linguísticas publicam obras nesse período, constituindo-se um momento de efervescência do mercado editorial sobre o ensino de Língua Portuguesa. Em 1980, ano da primeira publicação de O texto na sala de aula, obra que consideramos basilar sobre o assunto, Pécora defende sua dissertação de mestrado, trabalho motivado pela constatação das dificuldades de escrita dos alunos de linguística da UNICAMP. Em 1983, o trabalho é publicado com o título Problemas de redação, obra que, segundo o autor, é apresentada com mínimas modificações do texto original e, na qual, apresenta, tendo por base a teoria do discurso, uma proposta de trabalho para enfrentamento dos problemas de leitura e escrita observados nos textos dos alunos. Segundo Pécora (1992, p.17):

já não bastava afinar seus instrumentos no sentido de uma explicação para o fenômeno, não bastava caracterizar o fracasso e especificá-lo em um diagnóstico. Cabia-lhe, também, afinar-se em uma prática que atuasse sobre o diagnóstico, e, portanto, que contribuísse para a instauração de uma outra prática: a produção escrita pessoal e intransferível (PÉCORA 1992, p. 17). Essa obra exemplifica como as teorias linguísticas, por variadas formas e caminhos, tornaram o objeto texto em um novo objeto, mesmo se tratando de textos universitários. São várias as publicações que contribuíram para a constituição do texto como um novo objeto de ensino. Considerado em uma nova dimensão metodológica e teórica, Geraldi (2001 [1984], 1997 [1991], 1996) publica, além de O texto na sala de aula, Portos de passagem e Linguagem e Ensino: exercícios de militância, respectivamente. Em todas essas obras, o autor propõe o trabalho com o ensino de Língua Portuguesa pautado pela linguagem como processo de interlocução, de interação verbal e, em decorrência disso, o trabalho dever ser baseado no texto, ou seja, no uso da linguagem. Segue um enunciado que resume essa posição:

Compreendidos os pressupostos que embasam as práticas de ensino propostas, a elas podemos retornar. Centrar o ensino no texto é ocupar-se e preocupar-se com o uso da língua. Trata-se de pensar a relação de ensino como o lugar de práticas de linguagem e a partir delas, com a capacidade de compreendê-las, não para descrevê-las como faz o gramático, mas para aumentar as possibilidades de uso exitoso da língua (GERALDI, 1996, p. 71, grifos do autor).

Além das obras citadas, destacamos outras publicações, não apenas pelas importantes contribuições que trouxeram para o ensino-aprendizagem de língua portuguesa mas também pelo aparecimento da palavra texto em seus títulos. O volume 1 da coleção Aprender e Ensinar com

Textos, por exemplo, coordenado por Wanderley Geraldi e Beatriz Citelli foi publicado, inicialmente, em 1997. Segundo Chiappini, coordenadora geral da coleção, “os fundamentos teóricos do trabalho são basicamente uma concepção dialógica e interacionista da linguagem apoiada em Bakhtin” (CHIAPPINI, 2002, p. 12). Geraldi, em artigo publicado nessa mesma obra, Da redação à produção de texto, reitera:

O texto (oral ou escrito) é precisamente o lugar das correlações: construído materialmente com palavras (que portam significados), organiza estas palavras em unidades maiores para construir informações cujo sentido/orientação somente é compreensível na unidade global do texto. Este, por seu turno, dialoga com outros textos sem os quais não existiria (GERALDI, 2002, p.22). Citamos também Fávero e Koch (2002), Linguística Textual: Introdução, obra publicada, inicialmente, em 1983; Koch e Travaglia (1999), Texto e coerência, primeira publicação em 1989; Costa Val (1994), Redação e textualidade, primeira publicação em 1991. Todas fundamentadas pela Linguística Textual, com a concepção de texto que pode ser resumida como em Costa Val (1994, p. 3), “pode-se definir texto ou discurso como ocorrência linguística falada ou escrita, de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal”. São obras que dão maior relevância para a construção e a composição de aspectos estruturais do texto, ainda que em função dos sentidos produzidos por esses arranjos. Por último, citamos, ainda, Fiorin e Savioli (1998), Para entender o texto, obra publicada inicialmente em 1990, cujo caráter é diferente das demais, pois é uma obra de aplicação, ou seja, os autores mostram exemplos de tratamento do texto pelo viés da Semiótica. Os autores tecem considerações sobre o texto, mas não expressam uma concepção de linguagem e de texto de forma explícita.

Muitas outras obras foram publicadas, nas últimas três décadas, com títulos que destacam a palavra texto. Chamamos a atenção para esse fato, pois denota a importância que este objeto assumiu para o ensino de língua e para as demandas sobre a necessidade dos professores de se inteirarem de novas formas e métodos de abordagem do texto para o ensino da Língua Portuguesa.