2 OS ESTUDOS DO DISCURSO: alicerces da pesquisa
2.2 A constituição da teoria não-subjetiva da subjetividade: sujeito e
2.2.3 Interdiscurso e memória discursiva: a indispensável presença de dizeres
A noção de interdiscurso está intimamente relacionada à de formação discursiva. As FD, como vimos, são um espaço de instabilidade e de regularidades dos significados. A instabilidade está diretamente relacionada à presença do interdiscurso como constitutivo de toda FD:
O próprio de toda formação discursiva é dissimular, na transparência do sentido que nela se forma, a objetividade material contraditória do interdiscurso, que determina essa formação discursiva como tal, objetividade material essa que reside no fato de que ‘algo fala’ (ça parle) sempre ‘antes em outro lugar e independentemente’, isto é, sob a dominação do complexo das formações ideológicas (PÊCHEUX, 1997b, p. 162, grifos do autor).
O interdiscurso se caracteriza como constitutivo de toda FD, pois é pelo retorno do já- dito que o sujeito falante tem a ilusão de saber do que fala; é a objetividade material contraditória que sustenta essa ilusão. O interdiscurso, segundo Orlandi (2001, p. 31), “disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada”. As ‘escolhas’ que o sujeito faz, sejam lexicais, sejam sintáticas, a maneira como articula seu discurso, são condicionadas pelo próprio processo discursivo, entendido, como já mencionado acima, como o sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias que funcionam entre elementos linguísticos em uma formação discursiva dada.
É pelo interdiscurso que o sujeito trabalha, no jogo de relações entre a língua e a ideologia, e atualiza, organiza, formula, enfim, seu discurso.
O interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré- construído, que fornece, por assim dizer, a matéria prima na qual o sujeito se constitui como ‘sujeito-falante’, com a formação discursiva que o assujeita (PÊCHEUX,1997b, p.167, grifos do autor).
Podemos ver que as noções de discurso-transverso e de pré-construído são fundamentais para se entender bem a noção de interdiscurso em Pêcheux. Segundo Possenti (2007, p. 385), “o pré-construído é um traço, no discurso, de um discurso anterior, que produz um efeito de evidência, é, por um lado, o já dito, e, por outro, o que é uma verdade para uma FD”. Por outro lado, o discurso-transverso está na base de sustentação do discurso de um sujeito na linearização de seu intradiscurso. Segundo Pêcheux (1997b, p. 166), “pode-se dizer que a articulação (o efeito de incidência ‘explicativa’ que a ele corresponde) provém da linearização (ou sintagmatização) do discurso-transverso”. Do que podemos depreender que a sintagmatização do discurso- transverso é o que torna coerente, articulado o discurso de um sujeito em uma FD dada.
A retomada de um discurso outro é constitutiva do processo discursivo, de forma consciente ou não, com um propósito definido ou não; as palavras que significaram e foram, portanto, discurso, retornam de formas as mais variadas reproduzindo e/ou produzindo novos discursos. Nas palavras de Charaudeau e Maingueneau (2014, p. 287), “A identidade de um discurso é indissociável de sua emergência e (de) sua manutenção através do interdiscurso”.
Tarefa difícil distinguir memória discursiva e interdiscurso, mas compreendemos que a memória é o que permite o interdiscurso, a sua realização, a sua atualização. Assim, a memória discursiva tem, também, um trabalho importante no jogo dos efeitos de sentidos de um discurso. Não estamos pensando a memória de um ponto de vista psicofisiológico, um ato de lembrar um acontecimento, um enunciado, mas sim na memória que engendra a possibilidade mesma de enunciar. A dificuldade maior talvez seja a impossibilidade de provar a existência dessa memória. É o que afirma Achard (2010, p. 13):
Do ponto de vista discursivo, o implícito trabalha então sobre a base de um imaginário que o representa como memorizado, enquanto cada discurso, ao pressupô-lo, vai fazer apelo a sua (re)construção, sob a restrição “no vazio” de que eles respeitem as formas que permitam sua inserção por paráfrase. Mas jamais podemos provar ou supor que esse implícito (re)construído tenha existido em algum lugar como discurso autônomo.
Nós, como sujeitos sociais e históricos, vamos sendo constituídos por discursos, sejam aqueles aos quais nós aderimos, sejam aqueles que nós repelimos, mas todos esses discursos
fazem parte de nossa memória discursiva e é o que permite a coerência discursiva, ou seja, a afetação por uma FD num determinado momento. A esse respeito Orlandi (2001, p. 31) afirma:
A memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra.
Pêcheux, considerando o discurso como acontecimento, afirma que a memória está na base da estruturação entre a “materialidade discursiva complexa, estendida em uma dialética da repetição e da regularização” (PÊCHEUX, 2010b, p. 52) e a define como
aquilo que, em face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os “implícitos” (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível (PÊCHEUX, 2010b, p. 52).
Segundo o teórico, há um jogo que visa a manter a regularização do preexistente com os implícitos que ele vincula e, ao contrário, uma força que busca perturbar essa rede de implícitos. Como se pode notar, os conceitos de interdiscurso e memória discursiva estão diretamente relacionados ao de FD, optamos por trabalhar com os conceitos de forma distinta para melhor referi-los em nossa análise.
Davallon (2010) relaciona a imagem com um operador de memória social. Essa relação nos interessa, pois acreditamos que o significante funciona também como símbolo, como imagem e faz funcionar a memória discursiva e consequentemente o processo discursivo, em determinadas situações e em um tempo também determinado. Vejamos o que o autor afirma:
Com efeito, se a imagem define posições de leitor abstrato que o espectador concreto é convidado a vir ocupar a fim de poder dar sentido ao que ele tem sob os olhos, isso vai permitir criar, de uma certa maneira, uma comunidade – um acordo de olhares: tudo se passa então como se a imagem colocasse no horizonte de sua percepção a presença de outros espectadores possíveis tendo o mesmo ponto de vista. (DAVALLON, 2010, p. 31).
Nossa hipótese, sobre a afirmação de Davallon, é de que uma palavra, muitas vezes, repetida dentro de uma mesma FD e sob condições de produção estável, mais ou menos homogênea, pode, mesmo sendo signo linguístico, funcionar como uma imagem, gerando esse
acordo de olhares, como se tudo já fosse sabido ou se houvesse um consenso sobre seu funcionamento e sentido. Por fim, concluímos com as características apontadas por Pêcheux da memória discursiva: “[a memória] é necessariamente um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos, de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos” (PÊCHEUX, 2010, p. 56). A memória, assim entendida, nos será útil para compreendermos as repetições, sejam elas num mesmo documento, sejam entre os documentos analisados. Repetições de itens lexicais ou de expressões que apontam para um “acordo de olhares” e, em outros casos, que provocam deslocamentos desse acordo conforme a posição dos sujeitos e das FD que os constituem.