A democracia moderna: filha do Estado Liberal
Pode-se apresentar duas diferenças básicas para o termo democracia. Para os antigos, ela era entendida como democracia direta; já para os modernos, como representativa.11
10 Para aprofundar o debate sobre Rousseau conferir a obra de Goyard-Fabre (2003). 11 Este debate segue a idéia de Bobbio (2000).
O termo democracia vai além do entendimento simplista de um conceito que é lembra- do apenas em época de eleições, quando, num “gesto” democrático, todos vão às urnas “exercer a democracia”. Ou quando se ouve, pela mídia, que “caiu um governo ditador e instaurou-se um regime democrático”. Segundo Bobbio, “o voto não é para decidir, mas para eleger quem deverá decidir ”. Isso significa afirmar que a maioria da população votará consciente ou não em um grupo, delegando, assim, a esta minoria, o poder de governá-la. Democracia não significa que “todos” participem do processo eleitoral. Para Kelsen, um dos maiores teóricos da democracia moderna, a eleição é o elemento essencial da democracia real, pois possibilita a seleção dos líderes para o progresso (apud Bobbio, 2000, p. 372).
Bobbio cita uma frase ilustrativa da Corte Suprema dos EUA, por ocasião das eleições no ano de 1902, para demonstrar o caráter “sagrado” do processo eleitoral daquele país, mesmo que quem dela participe seja apenas uma minoria: “A cabine eleitoral é o templo das instituições americanas, onde cada um de nós é um sacerdote, ao qual é confiada a guarda da arca da aliança e cada um oficia do seu próprio altar ” (2000, p. 272). É possível perceber que a democracia ocidental é um processo relativamente novo, e as revoluções americana e francesa marcam seu início.12
A democracia na Modernidade fez algumas “promessas” que até agora, na visão de Bobbio (1997, p. 27), não foram cumpridas. A primeira é de que a democracia ainda conti- nua subordinada a um poder “invisível”, isto é, interesses que submetem os poderes políti- cos. Aqui se pode entender a superioridade de um grupo ou pessoa, que detém o controle do poder econômico ou ideológico: “A democracia não conseguiu derrotar por completo o po- der oligárquico, é ainda menos capaz de ocupar todos os espaços nos quais se exerce um poder que toma decisões vinculatórias para um inteiro grupo social”. A segunda, os “mes- mos” permanecem no poder. De eleições em eleições acabam se elegendo sempre os “mes- mos”. Terceiro, “ausência do crescimento da educação para a cidadania”, cada vez mais o povo vê-se desacreditado dos meios políticos, ou seja, a apolitização virou uma constante. Tocqueville, citado por Bobbio, lamenta a degeneração dos costumes públicos em decorrên- cia da qual “as opiniões, os sentimentos, as idéias comuns são cada vez mais substituídas
pelos interesses particulares” e indaga “se não havia aumentado o número dos que votam por interesses pessoais e diminuído o voto de quem vota à base de uma opinião política”, denunciando esta tendência como expressão “de uma moral baixa e vulgar ”, segundo a qual “quem usufrui os direitos políticos pensa em deles fazer uso pessoal em função do próprio interesse”. Quarto, os mais “sábios”, os mais “honestos” e os mais “esclarecidos” são escolhidos (Bobbio, 1997, p. 27).
Seguindo a concepção de Bobbio, pode-se definir a democracia como “um conjunto de regras (primárias ou fundamentais) que estabelecem ‘quem’ está autorizado a tomar as decisões coletivas e com quais procedimentos”. Para que se realize a “verdadeira” democra- cia, deve-se dar as reais condições para se escolher. Para isso, “é necessário que aos chama- dos a decidir sejam garantidos os assim denominados direitos de liberdade, de opinião, de expressão das próprias opiniões, de reunião; de associação, etc.” (Bobbio, 2000, p. 20).
A democracia nasceu de uma concepção individualista da sociedade e do Estado. Para isso, ocorreram três eventos que caracterizaram a Filosofia social da Idade Moderna: o contratualismo (séculos 16 e 17), o nascimento da economia política (Smith) e a Filosofia utilitarista (de Bentham a Mill). Neste sentido,
O Estado liberal é o pressuposto não só histórico, mas jurídico do Estado democrático... Estado liberal e Estado democrático são interdependentes... é pouco provável que um Estado não liberal possa assegurar um correto funcionamento da democracia, e de outra parte, é pouco provável que um Estado não democrático seja capaz de garantir as liberdades fundamentais (Bobbio, 2000, p. 20).
Um dos principais obstáculos ao projeto político-democrático atual é a complexidade das sociedades, “que passaram de uma economia familiar para uma economia de mercado, de uma economia de mercado para uma economia protegida, regulada, planificada, que aumentaram os problemas políticos que requerem competência técnicas” (p. 34).
Tecnocracia e democracia são antitéticas. Defende Bobbio (2000, p. 34) que “a demo- cracia sustenta-se sobre a hipótese de que todos possam decidir a respeito de tudo. A tecnocracia, ao contrário, pretende que sejam convocados para decidir apenas aqueles pou- cos que detêm conhecimentos específicos”. Ou seja, há uma “sensível” mudança nos rumos
da política atual, inverteram-se os termos; ao invés da democracia, tem-se a tecnocracia. O segundo obstáculo citado por Bobbio é o crescimento do aparato burocrático: “Estado de- mocrático e Estado burocrático estão historicamente muito mais ligados um ao outro do que a sua contraposição pode pensar ” (p. 34). O terceiro obstáculo é a “ingovernabilidade” da democracia. Isso significa que o Estado é incapaz de solucionar as demandas oriundas da sociedade civil. Como vimos, foi o Estado liberal que alargou o Estado democrático e ambos contribuíram para emancipar a sociedade civil do sistema político. A democracia, portanto, é uma criação da classe burguesa.