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3. SOLIDARIEDADE NA ERA DA INDIVIDUALIZAÇÃO

3.1. Solidariedades

3.1.2. A desintegração da solidariedade operária

O internacionalismo clássico se refere a tentativa do movimento operário do século XIX, na Europa, em construir uma unidade proletária por melhores condições de vida e de combate ao

capitalismo. Essa relação foi estabelecida a partir das organizações políticas e culturais, como as Internacionais e os Partidos Comunistas (VIEIRA, 2011)82,as associações desportivas e culturais de trabalhadores (WATERMAN, 2001), os sindicatos e a imprensa anarquista (DOWNING, 2011;

GIANNOTTI, 2007; VIEIRA, 2011), que trabalhavam em torno de uma identidade de classes.

Esse conjunto de experiências tem como referência o trabalho de Karl Marx e Friedrich Engels (1997), condensada na frase “trabalhadores de todo mundo, uni-vos!”, publicada em 1848 no Manifesto do Partido Comunista. Para os autores, a globalização da luta era necessária devido a internacionalização da burguesia. E os proletários, por meio do Partido Comunista, possuíam uma potencialidade única para conterem esse avanço (WATERMAN, 2001). A ideia era unir os trabalhadores como uma força única, como sujeito revolucionário. Outra base dessa discussão, menos conhecida, foi o livro Unión Ouvrière (1997 [1843]) de Flora Tristan que, cinco anos antes do Manifesto Comunista, abordava o internacionalismo a partir de uma discussão de gênero e pelo viés da educação, ainda que sem uma perspectiva da luta de classes tão consistente como a que formularia Marx e Engels.

Mas essa solidariedade trabalhista se deparou com limites. Como escancara Santos e Costa (2005): a internacionalização do capital, desde o Manifesto Comunista, avançou muito, aumentando os níveis de desigualdade social e exploração, e a solidariedade global dos trabalhadores, baseada na identidade de classe, não se efetivou como se previa nesse momento.

Buscando entender os limites da construção da solidariedade operária e preocupado com que tipo trabalho intelectual é necessário para se produzir a “solidariedade global” hoje, Martuccelli (2006) revisa o esquema clássico no qual a solidariedade trabalhista do século XIX foi pensada. Para o autor, este esquema esteve baseado no triângulo “causas, interesses e experiências”, que possui limites no atual contexto de globalização. Segundo o sociólogo, o estabelecimento de relações causais entre os fenômenos sociais, como era a relação entre exploração capitalista e os trabalhadores precarizados, já não dá conta de impulsionar a solidariedade, independente da sua capacidade de produzir explicações: “entre as ‘causas’ e as ‘experiências’ a distância é tal que impossibilita o engendramento da solidariedade” (MARTUCCELLI, 2006, p. 96).

Somado a isso, argumenta Martuccelli (2006), a agregação de interesses hoje, é cada vez mais difícil, dada a diferença social crescente e o fato de que os atores sociais possuem, ao mesmo tempo, interesses contraditórios. Por fim, a solidariedade clássica foi concebida, segundo ele, a partir da contiguidade espacial, da semelhança cultural e da proximidade social, que daria certa coerência ao grupo a partir da experiência. No entanto, se essa homogeneidade nunca existiu, também é verdade

82 Para uma revisão mais profunda sobre as Internacionais Comunistas ver Vieira (2011).

que a fragmentação social vem se acentuando e redundando em uma variedade de diferenças socioeconômicas dentro de um mesmo grupo social.

Martuccelli (2006) propõe, assim, três argumentos de o porquê não é possível pensar a solidariedade contemporânea a partir das bases da solidariedade trabalhista clássica. E aponta como saída colocar o indivíduo no centro de uma nova forma de pensar a “solidariedade global”. Na sequência, recapitulo a linha de reflexão do autor, que dialoga diretamente com minha argumentação no capítulo anterior, permitindo-nos conectar a individualização com a solidariedade.

3.1.1.1.A relação causa e efeitos do capitalismo não é suficiente par engendrar solidariedade O primeiro argumento do autor, afirma que a relação entre causas e efeitos do capitalismo não é uma base firme para se construir as relações de solidariedade, já que há uma variedade complexa de formas de experimentar essas causas:

Cada funcionário podia perceber, quase intuitivamente, a força do raciocínio: o benefício era o resultado de um trabalho não remunerado. Essa causalidade então posicionou um ator – o proletariado – em torno de uma semelhança estrutural que se opunha, mais ou menos diretamente, a outro ator – a burguesia. Mas, no atual processo de globalização, a interdependência múltipla e hierárquica que a caracteriza, faz com que a percepção dos fenômenos sociais, por meio do entrelaçamento das causalidades – seja qual for a virtude epistemológica das explicações tão avançadas – conspirar na maior parte do tempo. contra o próprio princípio da solidariedade (MARTUCCELLI, 2006, p. 96).

O autor cita como exemplo a exposição midiática de uma catástrofe natural e a incapacidade de esta gerar solidariedade a partir da explicitação das causas e efeitos. Essa relação de causa e efeito é tão multidimensional, que reconhecer um oponente nos conflitos da sociedade complexa é uma tarefa cada vez mais difícil (MELUCCI, 1995). À complexidade dos fenômenos, se unem novas formas de exploração capitalista, que embaçam ainda mais a identificação das causas, consequências e inimigos.

As redes sociais digitais, por exemplo, extraem da “liberdade” de navegação dos usuários, o lucro. O recente caso da empresa Cambridge Analytica, que teria, supostamente, utilizado dados privados dos usuários na campanha do presidente norte americano Donald Trump, por exemplo, marca uma guerra por informações na qual é difícil definir com claridade o inimigo: o Facebook? Os governos que não protegem a privacidade dos usuários? Uma lógica de exploração da subjetividade?

Mas se a relação de causa e efeito do capitalismo não é mais suficiente para agregar interesses, quais outros elementos têm essa função hoje? Diante de um mar de problemas complexos e lutas diferentes em relação a eles, como engendrar a solidariedade? O que une os e as ativistas em Barcelona em torno da solidariedade com o México na capital catalã?

3.1.1.2.No mundo globalizado, a agregação de interesses em comum é um problema agudo

A articulação de interesses gerais é cada vez mais delicada, essa é a argumentação de Martuccelli (2006):

Em um mundo globalizado, a agregação de interesses comuns se torna um problema cada vez mais agudo. A crescente diferenciação social e o fato evidente de que cada ator tem, ao mesmo tempo, interesses contraditórios, tornam a união de interesses uma estratégia particularmente espinhosa (MARTUCCELLI, 2006, p. 97).

Para ele, o Fórum Social Mundial, é um exemplo claro, das tentativas frustradas de agregação de interesses hoje, pois, embora tente agregar interesses diversos, dada a variedade de organizações e visões de mundo que o compõe, consegue, no máximo, realizar atividades em conjunto, como marchas com repercussão mundial. No plano individual, o autor cita o exemplo de um pai de família que, ao defender seus direitos trabalhistas junto ao sindicato, acaba por prejudicar o filho que precisa entrar no mercado.

É fácil concordar com essa tese. No caso da solidariedade com o México, algo que chama a atenção é a criação constante de coletivos para atuarem em relação a lutas e casos específicos, que vão despontado. Essa variedade de coletividades de solidariedade com México em Barcelona, nos leva a indagar: porque elas não estão reunidas em um só grupo, já que aparentemente possuem reivindicações similares?

No entanto, se por um lado é possível concordar com o diagnóstico de Martuccelli (2006), por outro ele é um tanto globalófico, dando por certa a tese de que a globalização destruiu a capacidade de agregar interesses globais. A “multidão” de Hardt e Negri (2005), união de singularidades, aponta outro sentido. Embora a ideia tenha mais força filosófica do que sociológica, há uma intuição, a meu ver correta, de que há processos de agregação de interesses a partir das dessemelhanças (como a sincronia temporal, que veremos adiante)83.

Esta tese, na esteira dessa discussão, busca investigar como os e as ativistas enfrentam o desafio de agregar interesses em torno da solidariedade com o México. Assim, nesse ponto concreto, me distancio de Martucceli (2006), que está preocupado com o trabalho intelectual para entender a solidariedade, pois meu foco é outro: os desafios cotidianos enfrentados pelos e pelas ativistas na construção da solidariedade internacionalista. Em outras palavras, como estes ativistas inventam formas para articular a solidariedade.

3.1.1.3.A solidariedade como contiguidade espacial, proximidade social e similitude cultural, não é suficiente hoje.

83 O problema da noção de multidão é que ela ajuda pouco a operacionalizar análises, já que des-espacializa (GERBAUDO, 2012) e des-historiciza os atores: a multidão é um todo indistinguível, sem cara e sem lugar, mas sincrônica no tempo.

O terceiro argumento de Martuccelli (2006) é de que a solidariedade trabalhista foi pensada como decorrência da vida social, dada tanto pela proximidade física, quanto social e cultural entre as pessoas. Era necessário apenas dar forma para que ela emergisse com consistência e durabilidade.

Mas este pressuposto foi desmontado, argumenta o autor. Primeiro, pelo reconhecimento da existência de distâncias culturais dentro das proximidades sociais. Pessoas da mesma classe social podem ter bagagens culturais muito diversas. Segundo, pela acentuação da fragmentação socioeconômica nas últimas décadas:

As distâncias sociais entre o desempregado e o empregado, os membros das diferentes minorias, entre o setor público ou privado, entre gerações ou gêneros, ou entre os diferentes assalariados afetam as possibilidades de identificação interclassificatória nas sociedades nacionais, mas fazem este obstáculo praticamente um obstáculo intransponível em todo o mundo (MARTUCCELLI, 2006, p. 101).

Para o autor, a diferenciação socioeconômica acaba gerando uma vivência particular dos interesses, sem que os indivíduos consigam conectá-los de forma mais abrangente. À essa diferenciação, adiciona-se outra: a sociocultural. Como processo da modernidade e da individualização societária que é parte dessa, há uma diferenciação cultural que transcende as fronteiras dos grupos sociais em si. Em outras palavras, dentro dos próprios grupos culturais é possível encontrar indivíduos culturalmente muito diversos, que valorizam essa singularidade enquanto elemento central em suas vidas e na construção do ativismo. Para Martuccelli (2006), a radicalidade desse processo chega a ameaçar o Estado de bem estar social, dado que nesse tipo de sociedades existe menos vontade para financiar projetos para “os outros”:

Em qualquer caso, na medida em que a vida e a cultura de outros (pobres, estrangeiros, diferentes ou distantes) são vistas como totalmente estranhas à própria realidade, a capacidade de produção da solidariedade, por semelhança ou contiguidade, se desaparece no ar (MARTUCCELLI, 2006, p. 101).

Embora a diversificação das condições socioeconômicas e culturais sejam, de fato, processos cada vez mais profundos e evidentes, a tese do autor assume, novamente, um caráter demasiadamente desagregador ou globalófico. Em um trabalho sobre as articulações de solidariedade ibero-americanas, Carou e Bringel (2010) defendem uma tese exatamente oposta à de Martuccelli (2006):

Tentaremos, enfim, explorar as linhas de articulação regional desses processos de globalização, os quais consideramos que, em grande parte, não são produzidos aleatoriamente ou de forma abstrata, mas sim forjados em torno de campos de proximidade geográfica e/ou afinidade cultural (CAROU; BRINGEL, 2010, p. 41).

Para os autores, a proximidade geográfica ainda é um campo importante para forjar solidariedade, pois esta também está associada a relações históricas, a imaginários coletivos e às (im)possibilidades de aproximação. Que o Fórum Social Mundial seja realizado no Brasil ou em outro

país possui implicações diferentes: sua composição de participantes muda, mas também as teias de poderes e organizações que o irão conformar, argumentam os autores. A afinidade cultural também atua na conexão entre as lutas, já que estas tem a mesma receptividade em diferentes contextos culturais: “o recente golpe de Estado perpetrado em Honduras teve muito mais cobertura da mídia na Espanha do que em outros países europeus” (CAROU; BRINGEL, 2010, p. 41), argumentam os autores.

Nesta mesma linha, as entrevistas realizadas nessa tese explicitam que as conexões geográficas e culturais são desafios que se impõem aos ativistas na produção das redes recentes de solidariedade com México. O fato de ser mexicano na Espanha ou de ser um catalão que visitou os zapatistas pode ser um fator de aproximação culturalmente com o México e de sensibilização para as lutas no país.

Acabo de mostrar como Martuccelli (2006), preocupado com o trabalho intelectual necessário para se produzir a “solidariedade global”, dá por acabado os três pilares da solidariedade clássica trabalhista. Ainda que eu tenha questionado e discordado de certo radicalismo do autor, estou de acordo que é necessário pensar a solidariedade contemporânea a partir de novas bases, tendo em conta as experiências dos indivíduos.

Embora o diagnóstico seja de desintegração dos pilares da solidariedade obreira clássica, o internacionalismo trabalhista enquanto prática não morreu e hoje se articula de outras formas, dividindo espaço com outras experiências de solidariedade global e renovando as discussões. Entram em cena temas como as novas formas de competição dentro das classes e entre os países do sul e norte global (GAJEWSKA, 2009), os impactos da financeirização da economia na organização do internacionalismo (BIELER; LINDBERG; PILLAY, 2008), bem como sobre os caminhos para a renovação da solidariedade trabalhista (SANTOS; COSTA, 2005; WATERMAN, 2001).

A seguir, recapitulo algumas experiências do internacionalismo contemporâneo, dentro do qual se insere a experiência mexicana aqui trabalhada. O intuito é recuperar um contexto de tentativas de renovação do internacionalismo e de evidenciação dos processos de individualização. Do internacionalismo clássico damos um salto para os internacionalismos em tempos de globalização neoliberal. Entre eles existem muitas outras experiências, inclusive do próprio internacionalismo trabalhista, que assumiu diversas formas para lidar com contextos como: o nazismo a Guerra Fria, a globalização neoliberal, etc. Mas a ideia é apenas assinalar este longo histórico de solidariedade e estabelecer um contraponto com as experiências contemporâneas.