4. OS DESAFIOS DA SOLIDARIEDADE INDIGNADA
4.2. A solidariedade da urgência
4.2.5. Ativismo de eventos
Diante do desafio de atender a urgência dos contextos, mas também de conciliar o ativismo com o trabalho, com as dinâmicas internas da militância e de dedicar tempo para lutas diferentes, conforma-se, como resposta geral a este panorama, um ativismo de eventos.
Os eventos críticos funcionam como agregadores de indignação ou “agregadores de interesses” (MARTUCCELLI, 2006) pelo México. O contexto se impõe aos indivíduos, obrigando-os a unir indignações. Mendonça (2017), em um texto exploratório sobre a individualização nobrigando-os protestos de Junho de 2013 no Brasil, aponta que na ausência de uma identidade forte, que englobe a variedade das e dos protestantes, as referências aos lugares e as datas tornam-se elementos comuns que conectam as experiências individuais às coletividades: “espaço e o tempo localizam os sujeitos em um fenômeno que transcende o da existência individual” (MENDONÇA, 2017, p. 147).
Assim, as mobilizações em solidariedade às lutas mexicanas são o ponto de confluência entre as várias temporalidades e atividades que gestionam os indivíduos, são o momento no qual sobressai a doação de tempo para a militância, em detrimento das muitas outras necessidades e escolhas individuais. É nesse instante, de impacto de algo tão monstruoso, como o desaparecimento de 43 estudantes, que o senso moral diz que “não se pode ficar calado” e a mobilização coletiva ocorre.
Mas essa agregação de indignações que responde à urgência dos acontecimentos, acaba gerando outros desafios, pois tem, na percepção dos e das entrevistadas, um caráter reativo e conjuntural. Reativo porque as mobilizações em Barcelona ocorrem espelhadas no México, ou seja, ocorre algum fato grave no país, capaz de gerar mobilização e depois Barcelona responde ecoando o movimento:
Yo creo que ahí más bien es México que escoge, que se moviliza y la gente va a la calle por él. Desde acá somos un poco espejo de lo que pasa ahí (A. L., 47, mexicano).
Pues como te decía, ahora mismo estamos siendo más reactivas que proactivas […]
Entonces las movilizaciones vienen a la raíz de que nos piden […] Igual si fuéramos muchas más podríamos ser proactivas (L. S., 29, catalã).
No sé se en otras ciudades, pero en Barcelona, es que hemos sido muy reactivos. Es que a partir de que hay un asesinato de un periodista, entonces: “¡ah! ¡Pues nos juntamos y hacemos!”. ¿!Ayotzinapa!? Nos juntamos y hacemos (D. M., 35, mexicana).
…Asesinaron al hijo de Javier Sicilia… Se arma el movimiento por la paz en México, y aquí en Barcelona un par de amigos empezaron a convocar (R. M., 38, mexicana).
A sensação das e dos ativistas é que essa relação de solidariedade com o México, essa conexão espacial e temporal, ocorre sob demanda dos movimentos e acontecimentos mexicanos. É como se o ritmo e a frequência de suas ações em Barcelona fossem dados pelo México – embora também esses esforços estejam condicionados pelas forças de mobilização que possuem, como assinala L.. A sensação é de que os eventos se impõem aos indivíduos e às coletividades e a proatividade dá lugar para a reação, que é: apagar o “fogo”. Nem todas as ações e coletivos são espelhos. No entanto, essa sensação de solidariedade espelhada tem a ver com que esses momentos são grandes dissipadores de energias criativas. Grupos, ideias e iniciativas podem surgir depois deles, sem estarem ligados diretamente.
Relacionado ao caráter reativo, está a percepção de que as lutas têm ciclos curtos, que são conjunturais, ou seja, que ao responderem sempre às “novas” urgências do México, acabam por circunscreverem-se aos eventos traumáticos e têm, assim, pouca continuidade:
[…] Y cuando bajó el tema de Aytozinapa, igual que todos los temas así, hasta que venga la próxima masacre. Entonces todo esto es así. El 132 que subió y bajó.
Entonces ya sabíamos ¿no? (A. L., 47, mexicano).
Pero claro, además que son temas que caen de interés, desde la opinión pública en general (D. M., 35, mexicana).
Ya no hay estos movimientos de “llevo 20 años militando en un partido”. Ahora todo es mucho más efémero, mucho más imediato (B. P., 40, mexicana).
El problema fue que volví yo con toda mi energía, con todas mis ganas … y fue justo cuando se desintegró el movimiento […] ¿Por qué se había desintegrado? ¿Por qué ya cuando convocábamos no llegaba nadie? ¿por qué si hace dos meses éramos cuarenta, ahora éramos cinco? ¿Por qué cuando se convocaba una manifestación, antes éramos quinientos y ahora doscientos? (R. M., 38, mexicana)
Nesse sentido, embora exista coletivos e certa continuidade entre os momentos de mobilização, a percepção que sobressai é de que as ações estão demasiadamente coladas aos acontecimentos específicos que ocorrem no México e tendem a perder força após o auge de
mobilização e visibilidade. Não se consegue construir uma estrutura de solidariedade mais estável, como sintetiza um dos ativistas:
Estas cosas, tienen sus ritmos, son explosión, manifestaciones de rabia, momentos desbordantes, pero que no necesariamente iban creando una estructura en México, no se forma algo más estable (A. L., 47, mexicano).
Este ativismo de eventos é uma das características mais marcantes da temporalidade da solidariedade indignada e se difere muito do princípio zapatista “vamos lentos porque vamos longe”.
A solidariedade indignada organiza-se menos em função desse horizonte temporal estendido do zapatismo, no qual vai tomando forma um projeto revolucionário, aos poucos, e ocorre mais em função dos eventos de protestos conjunturais.
Em termos bastante concretos, em relação à dinâmica temporal, mobilizar-se por Ayotzinapa não é o mesmo que construir um Encontro Intercontinental contra o Neoliberalismo. A primeira ação tem um caráter de urgência. Ocorre um fato grave de violação de direitos humanos e “não se pode ficar calado”. A segunda ação refere-se a um projeto de construção de uma rede de resistência à globalização, a ser desenvolvida no longo do prazo. Na solidariedade zapatista, a própria figura do movimento zapatista, da luta indígena de Chiapas e a temporalidade dessa eram uma linha que conectava as experiências dos coletivos zapatistas internacionalistas.
A solidariedade da urgência apresenta certa contradição com o princípio da solidariedade horizontal zapatista, ou seja, de que solidariedade não era para salvar os indígenas de Chiapas. Aqui existe menos a ideia de troca e de conexão com uma luta específica (pela autonomia naquele caso) e mais uma resposta instantânea à “necessidade” de uma luta, movimento e acontecimento no México serem visibilizados. Algo que já discuti no capítulo anterior, quando falo das explicações que os e as ativistas dão para “o que se pode fazer desde fora”. Não estou sugerindo que a solidariedade indignada seja vertical, apenas que ela se configura de forma diferente da solidariedade horizontal zapatista, no sentido de que essa última pressupunha trocas mais constantes entre ambas as pontas da solidariedade (ainda que isso possa ser questionado).
A experimentação de todas as lutas agora e ao mesmo tempo é diferente também da ideia de ativismo múltiplo, que apela mais para uma lógica da interseção entre várias identidades constituídas, na qual os e as ativistas podem ser, ao mesmo tempo, feministas e anticapitalistas, por exemplo. O que passa com os e as entrevistadas é um ativismo flutuante, que os permite estar em um coletivo hoje, mas amanhã não. Ou seja, antes que uma questão de conciliação identitária, o que sobrepõe é uma lógica temporal que implica no revezamento entre diferentes atividades, espaços e lutas. Ora existe tempo para o cinema ocupado, mas no outro dia urge responder ao desaparecimento de 43
estudantes e na semana seguinte é o novo trabalho que ocupa a rotina. O ativista flutuante apaga o fogo da urgência de uma realidade que se impõe.
É importante marcar que a reatividade e a fugacidade não são um espontaneísmo, experiências de curta duração na prática de construção da solidariedade. A questão não é que essas ações de solidariedade surgem “do nada”, num vácuo histórico, ou da inexistência de organizações e líderes.
É que a relação entre cada um dos momentos desbordantes da ação coletiva é cortada. Existem permanências entre eles, como uma discussão crítica sobre a guerra ou mesmo a formação de redes, mas não há uma clara articulação ideológica ou organizacional que englobe todas as ondas de mobilizações de solidariedade. Entre uma e outra onda outros grupos emergem, outros indivíduos chegam. A continuidade fica à cargo, muitas vezes, de alguns e algumas ativistas estarem presentes em diferentes momentos para fazerem a ponte.
Se por um lado, o ativismo de eventos é uma resposta a uma experiência temporal complexa, por outro, existem pequenas estratégias para lidar com a efemeridade. A primeira é a criação de uma organização, Associació Solidaria Cafè Rebeldía-Infoespai, para dar continuidade a comercialização do café zapatista após a extinção do CSRZ, com uma pessoa economicamente liberada para isso. A segunda é a existência de um tipo rotineiro de ação coletiva, que depende menos da continuidade de um grupo e mais de que a ação se repita incansavelmente. Esse é o caso do Bordando por la Paz, que se encontra a cada primeiro domingo do mês em um lugar público para bordar pelos mortos e desaparecidos no México. A terceira estratégia coletiva, mais recente, é a formalização de um coletivo, a Taula Per Mèxic. Essa foi criada justamente na perspectiva de que as ações de solidariedade não fossem de caráter apenas reativo.