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4. OS DESAFIOS DA SOLIDARIEDADE INDIGNADA

4.2. A solidariedade da urgência

4.2.2. Segundo Trabalho

4.2.2. Segundo Trabalho

O ativismo toma muito tempo, então como conciliar o engajamento com o trabalho? Este aparece como um dos desafios mais concreto para os e as ativistas. É praticamente uma unanimidade entre os entrevistados e as entrevistadas que o ativismo ocupa muito tempo, que é um “segundo trabalho”:

Toma mucho tiempo, mucho compromiso. Esta semana, por ejemplo, hubo una asamblea ayer y hay otras tres asambleas esta semana. Hay semanas que estás casi todo el día metido en algo […] Pues es prácticamente mi segundo trabajo (E. E., 38, mexicana).

Es un trabajo, al menos a mí, me lleva muchas horas. Los dos ejes en que he participado de la Taula [per Mèxic], con diversos informes, con diversas tareas, es mucho trabajo (S. V., 23, catalã).

A princípio essas são declarações que poderiam ser dadas por qualquer militante, afinal, parece óbvio que o ativismo tome tempo e que ele precise ser conciliado com outras atividades pessoais e coletivas. Podemos até pensar que a quantidade de tempo livre para um trabalhador de fábrica do século XIX era menor do que a existente para estas pessoas, com trabalhos intelectuais, vivendo no

“norte global”, com escolaridade elevada, etc. Mas essa percepção deve ser contextualizada num conjunto de práticas e dinâmicas ativistas e, sobretudo, nas condições de trabalhos enfrentadas por estes atores.

A maior parte das e dos entrevistados possuem trabalhos com contratos temporários, são freelancers ou dedicam-se à pós-graduação (mestrado, doutorado, pós-doutorado), ou seja, exercem atividades de curta duração. A relação entre tempo e ativismo depende, dentre outras questões, do trabalho que possuem, como explica uma ativista “un poco trabajar así, a veces te da mucho tempo, a veces no te da nada de tempo” (B. P., 40, mexicana).

Em muitos momentos os e as ativistas relatam não conseguirem levar bem essa dupla dedicação. Nesses casos, a solução é participar menos; fazer as tarefas que podem, mas não as que necessitaria o coletivo; ou mesmo se afastar temporariamente do grupo. Estes momentos de desconexão temporal, como se pode ver abaixo, se repete nas narrações:

Es complicado por el tema del trabajo. Cuando yo trabajaba con un horario más estable, pues, cuando puedes (S. V., 23, catalã).

Ahora cada vez menos. Ahora tengo dos trabajos (risos). Realmente el Nuestra Aparente Rendición es un voluntariado, que en donde todos los que pertenecemos dedicamos tiempo libre a él. Bueno, ahora, de marzo acá casi no tengo tiempo de dedicarle. Subo cosas una vez por semana, una vez cada dos semanas. Twiteo, retwiteo lo que puedo, pero hago lo que puedo, dedico muy poco tiempo (A. V., 38, mexicano).

Yo trabajo en el ayuntamiento. Con mucha información que tengo que hacer, cada día me topo con preguntas distintas, entonces tengo que estar como muy….Y por esto estoy un poco fuera. No tanto, pero participando menos y quizás como me gustaría, y también a algunos compañeros, en Taula [per Mèxic] (D. M., 35, mexicana).

Porque además me pasó que en estos últimos 6 meses, ponle, estuve como muy desvinculada por el tema de la tesis [de doctorado]. Al final sí tuve que dejarlo [el activismo], tuve que dejar esto para acabar la tesis, si no, no la acababa (F. G., 34, argentina).

Estoy con el doctorado, estoy dando clases en la universidad, estaba dando otro curso, a final es que mis tiempos son muy limitados, el niño, bueno, mil cosas más, ¿no?

Entonces voy muy corta de tiempo (B. P., 40, mexicana).

Essas falas trazem diferentes experiências vividas pelos e pelas ativistas, mas um sentido semelhante: a existência de um trabalho que consome quase toda a jornada útil do dia. As situações são descritas como momentâneas, já que em outro momento havia condições de dedicar-se mais ao ativismo.

Assim o problema é menos uma longa e exaustiva jornada de trabalho braçal e mais a instabilidade dos empregos contemporâneos. Para lidar com isso, os e as ativistas colocam em prática diferentes estratégias de conciliação do tempo de trabalho com o tempo do ativismo. O afastamento momentâneo é uma delas, sobretudo nos casos de maternidade100. Isso está explícito na fala acima de B., mas também de outra mãe entrevistada:

[….] Y bueno bastante involucrada [na Taula pre Méxic]… Menos de lo que quisiera por que claramente no tengo el tiempo, Porque todos estos sietes meses… Tiene este bajito [referência ao filho no seu colo], y los primeros seis meses he estado bastante desconectada, la mamá full time (R. M., 38, mexicana).

O afastamento também é uma opção em outras situações para além da maternidade como, por exemplo, ter que priorizar energias para o novo trabalho. Mas em três casos, especificamente, a conciliação entre ativismo e trabalho é mais harmônica: quando possuem trabalhos de meia jornada ou com horários flexíveis; quando podem acessar o “paro” (seguro desemprego); e quando se desempenha uma função ativista paga.

100 As duas mães entrevistadas estavam com seus filhos no momento da entrevista. O único pai entrevistado, embora também colocasse o filho como um desafio temporal para a militância, não estava com este no momento. Talvez pura casualidade da vida, mas que deixo assinalada.

No primeiro caso, estão aqueles e aquelas que podem conciliar o ativismo com o trabalho pelos próprios regimes dos seus empregos, que são flexíveis ou de meia jornada:

Bueno, ahora como tengo trabajo de media jornada, pues parte del día la dedico a las cosas, como puedo (L. Z., 42, mexicana)

Yo cuando regresé a México, mientras estaba en la estancia del postdoc pues tenía mucho tiempo libre, cuando estaba desempleado también. Pues le dedicaba bastante, le dedicaba al menos, dependiendo del tema, unas dos o tres horas diarias al menos.

Editar, twitear, Facebook, contestar los correos (A. V., 38, mexicano).

Yo trabajaba medio tiempo, por las tardes, eran como veinte horas a la semana. Que era un trabajo que me dejaba mucho tiempo libre, y el resto del tiempo lo dedicaba todo a eso (C. R., 31, catalã).

Y como ya conocía mucha gente empecé a hacer cosas así como dar charlas, dar talleres de género, de feminismo, casi siempre sale, casi todos los meses alguien te llama, necesitamos un taller de tal cosas, salen investigaciones que te pagan. Casi siempre te entra dinero […] (F. G., 34, argentina).

Embora os trabalhos de meia jornada possam se inserir dentro de um contexto de precarização dos contratos laborais, poder se sustentar com meia jornada também é um privilégio. F. traz um elemento importante: a eleição da precariedade para poder dedicar tempo ao ativismo:

Yo creo que tengo el privilegio de hacer esto. De decir, bueno, yo vivo con 500 euros y ya está. Me voy tirando la vida un poquito porque la mayor parte del tiempo lo paso haciendo cosas que me interesan. Yo, tengo un privilegio muy fuerte que es asumir la precariedad. Yo puedo vivir en la precariedad, pero no todo mundo puede (F. G., 34, argentina).

A reflexão de F. é bastante singular e não se repete no restante das falas. Mas revela muito de uma condição trabalhista e econômica que é própria do grupo de ativistas entrevistados e entrevistadas, e, inclusive, da autora desse trabalho. A fala mostra que a instabilidade e a precarização dos empregos de “classe média”, são tanto um problema, como uma solução na conciliação de tempo com o ativismo101. São uma faca de dois gumes.

Uma segunda forma de dedicar tempo ao ativismo advém da possibilidade de acessar o seguro desemprego. O respiro que esse direito trabalhista oferece, sobretudo na Catalunha102, onde pode ser longo, carrega a possibilidade de favorecer o ativismo. No entanto, essa também é uma condição momentânea, assim como os trabalhos de jornada reduzida:

101 Embora o pós-doutorado e os freelas possam ser considerados formas de trabalhos precárias, se os comparamos com a almejada estabilidade e direitos trabalhistas, eles estão longe de serem as atividades menos remuneradas economicamente e simbolicamente na sociedade. A flexibilidade de horários, ao mesmo tempo em que é uma nova forma de exploração da mão de obra e tem outras implicações, é vantajosa à nível individual em certos aspectos, como poder dedicar tempo ao ativismo.

102 Existem diferenças de salários mínimos e benefícios trabalhistas entre as regiões autônomas da Espanha. A Catalunha é considerada uma das regiões mais ricas e com salário mínimo melhor que outras regiões, como a Andalucía.

Se acabó el curro y me quedé en el paro desde marzo. Entonces esto también responde del tiempo (risos). Estoy en el paro y estoy también en otros proyectos, estoy escribiendo… (A. L., 47).

Ahora no trabajo en una oficina desde hace 4 meses y seguramente en septiembre volveré, pero he tenido este período de seis meses de tener un horario completamente libre. Entonces me he vinculado mucho y no hay nada que me frene a ir a una asamblea, a un acto o a una reunión del ayuntamiento. Y me he vinculado un montón (S. V., 23, catalã).

Aproveitar o seguro desemprego para militar ou fazer “outras coisas da vida”, ao invés de procurar trabalho, certamente não é uma realidade generalizada no mundo, mas nem por isso deixa de ser uma forma de conciliação entre ativismo e trabalho.

Por fim, um terceiro fator que soma a favor de uma dedicação de tempo mais constante ao ativismo tem a ver com a possibilidade que determinadas tarefas sejam remuneradas para que alguém lhes dedique um tempo periódico. Nem sempre ter uma função paga é vista com bons olhos pelos ativistas, já que isso pode significar certa institucionalização do movimento ou certa dependência de fontes externas de financiamento. Mas em alguns casos, as próprias funções que desempenham podem trazer um retorno financeiro de forma autônoma.

Esse é o caso do comércio do Café Zapatista, que começou sendo gestionado dentro do Col·lectiu de Solidaritat amb la Rebel·lió Zapatista de Barcelona e, com o fim desse, passou a ser administrado em um espaço a parte, chamado Associació Solidaria Cafè Rebeldía-Infoespai. Em ambos os casos, dado o tamanho da tarefa, bem como a responsabilidade de gerir uma grande quantia de dinheiro e café, existiu e existe uma pessoa liberada para operacionalizar a função. Aqui, o importante é que sem a ajuda financeira (já que essa não chega a ser um salário) estes ativistas teriam que trabalhar e não poderiam exercer essa tarefa específica. C.103, que hoje leva a Associació Solidaria Cafè Rebeldía-Infoespai, conta que estava militando no Infoespai quando acabava o seu seguro desemprego. Nesse momento começaria a buscar trabalho e assumiu a tarefa do café:

…Surge esto del café… Entonces a mí se me está terminado el paro, ya tengo que empezar a moverme para conseguir un trabajo o hacer algo, porque ya se me está acabando la cuestión económica. De repente aparece ya el del café y yo explico mi situación. “Bueno, mira, del café puede salir la mitad de un jornada”. Entonces yo pienso y digo: “casi mitad del camino no me hace falta. Porque si estoy cobrando el paro con ayuda y medio jornal, se me hace casi un jornal entero” (C. G., 52, catalã).

103 O caso de I. foi o mesmo de C., mas ainda no antigo Collectiu de Solidaritat amb la Rebellió Zapatista de Barcelona (CSRZ). I. gestionava o El LoKal, espaço que abrigava, dentre outros coletivos, o CSRZ. As tarefas eram muitas e a ajuda financeira do café zapatista servia para garantir a tarefa, mas também o liberava para coordenar o espaço e estar presente em outras atividades de militância:

“Llegó un momento que yo trabajaba en el colectivo [CSRZ], porque era imposible hacer todo esto sin una persona. O sea, había un montón de gente voluntaria. Entonces yo me puse a trabajar con lo del café aquí, pero para el colectivo”

(I. G., 61, catalão).

Embora a ajuda financeira pague por uma atividade específica, acaba liberando a pessoa para participar de outras atividades de militância. A Taula per Mèxic também estava buscando, no momento das entrevistas, liberar ativistas para desempenhar funções. Mas essas duas experiências são as únicas maneiras coletivas de gestão do tempo de ativismo encontrada entre os ativistas solidários com o México. Todas as outras são estratégias temporais individuais, e cada um faz como pode ao sabor das circunstâncias.