2. INDIVIDUALIZAÇÃO, MOVIMENTOS SOCIAIS E COMUNICAÇÃO
2.6. A individualização e as provas
2.6.2. Do indivíduo à sociedade: os desafios cotidianos
O trabalho de Danillo Martuccelli em conjunto com Kathya Araújo busca captar um processo de individualização específico de determinada sociedade, no caso a chilena (ARAUJO;
MARTUCCELLI, 2012). Nessa abordagem, o destaque vai para a categoria analítica de provas, entendida como desafios estruturais da sociedade aos quais os indivíduos estão obrigados a passar, ainda que de forma singular. As provas são impostas de fora para dentro aos indivíduos, e há um
“trabalho” para lidar com os diferentes desafios:
Os processos de individuação são assim definidos por uma combinação da natureza estrutural das provas que devem ser confrontadas – uma dimensão que sublinha nossa participação em um coletivo social e histórico comum – e o trabalho dos indivíduos – as maneiras pelas quais cada ator as percebe e as enfrenta singularmente através, por um lado, de certos ideais que o orientam e, por outro, por aquilo que sua própria experiência pessoal lhe diz sobre as maneiras possíveis, aconselháveis e eficientes de se apresentar e se comportar no social (ARAUJO; MARTUCCELLI, 2012, p. 5–6).
Assim, as provas não se reduzem a experiência pessoal e nem apenas aos traços estruturais e modelos culturais de uma sociedade, são sempre uma narrativa do indivíduo, que concebe a vida como um conjunto de desafios. A noção mobiliza uma concepção particular do indivíduo, aquele que está obrigado estruturalmente a enfrentar estes desafios. Isso não significa que todos eles tenham que solucioná-las, afinal as respostas podem ser muitas. Mas estes desafios estão dados na sociedade em que vivem e afetam suas vidas. Assim, o que torna uma prova uma prova, é o fato de que ela seja um grande desafio estrutural para todos os indivíduos de dada sociedade e não apenas um problema social ou existencial. Outra característica das provas, é que elas apontam para um modo de seleção contingente, ou seja, os indivíduos avaliam a si mesmo enfrentando estes desafios de formas diferentes.
No que tange a sua operacionalização, não se pode perder a conexão entre indivíduos e sociedade. Metodologicamente, as provas são construídas pelos pesquisadores de forma indutiva, a partir da repetição, na fala dos entrevistados, dos desafios enfrentados por eles em seus cotidianos. A ideia é evitar a reificação de “objetos sociais” da qual este tipo de sociologia quer se afastar.
A partir de entrevistas em profundidade, busca-se captar essas diferentes formas de enfrentar os mesmos desafios estruturais. As provas podem ser, por exemplo, o “trabalho”, o “mérito”, para citar dois exemplos analisados pelos sociólogos. Após esta primeira etapa de caráter indutivo, entra em jogo a interpretação e análise. O objetivo, neste segundo momento, é a construção de um retrato de uma sociedade específica e histórica, que explica como os indivíduos enfrentam os desafios estruturais de diferentes maneiras, mas também a partir de um quadro comum (que guarda dentro dele singularidades e divergências):
[…] O essencial da individuação, em nossa opinião, não é dar uma tipologia de caráter moral, psicológico ou existencial, nem uma mera descrição dos efeitos que, no nível dos indivíduos (anomia, alienação, desorientação), produzem vida social. O principal é reconstruir o caráter específico de uma sociedade histórica no nível de seus indivíduos (ARAUJO; MARTUCCELLI, 2012, p. 4).
Enquanto, o objetivo último dos autores é reconstruir o caráter específico de uma sociedade a partir dos indivíduos, minha proposta é mais restrita e se apropria destes insights para analisar o ativismo, adaptando a noção de provas. Ao trabalhar com o ativismo, acabo por dar atenção a vinculação entre indivíduo e os coletivos ativistas. Por isso, essa tese também opera num nível meso-sociológico, para além do micro e macro, como fazem os autores.
O marcador histórico nacional, utilizado por eles ao falarem em uma sociedade chilena, também não engloba os entrevistados. Ou seja, entre mexicanos, catalães, espanhóis e pessoas de outras nacionalidades, não estou de fato construindo um retratado de nenhuma sociedade, mas de um ativismo que se constrói nas fronteiras, isso é, a partir da relação entre várias nacionalidades e lugares de vivências. Assim, o produto da análise das provas do ativismo de solidariedade com o México não pode ser o retrato da sociedade mexicana e nem da sociedade espanhola, mas um retrato específico do ativismo contemporâneo internacionalista.
Para operacionalizar esse diálogo com Kathya Araujo e Danilo Martuccelli, utilizo a noção de
“provas” a partir de duas linhas: o ativismo como prova e as provas ativistas. A primeira explica como o ativismo se constitui como uma prova, ou seja, como a militância e, mais especificamente a solidariedade com o México, se impõem como um desafio para as e os entrevistados. Diante de um contexto de violência e barbárie generalizada no México, pouco visível aos olhos da sociedade civil internacional e da condição de estar fora do México, os indivíduos se sentem obrigados a fazer algo.
Mas essa militância também pode ser decomposta em outros desafios, relativos à construção da
solidariedade em si: as provas ativistas, que são as conexões geográficas, o tempo e a participação/relação indivíduo e coletivo.
Busco assim traçar um retrato, específico e contextualizado, de como se constrói a solidariedade com o México desde Barcelona, a partir da experiência pessoal dos e das ativistas. A noção de provas permite deslocar análises imbuídas de preconcepções sobre o ativismo tal como a ideia de autonomia, horizontalidade, não institucionalidade, etc., diagnosticadas pelos sociólogos e jornalistas contemporâneos. Sem desconsiderar que estes são temas de primeira ordem para os ativistas, busco abordá-los a partir das ações, do movimento dos ativistas, e de suas narrações para construir a solidariedade com o México no dia-a-dia. Evito assim enquadrar a solidariedade previamente, o que seria pré-defini-la como solidariedade horizontal, solidariedade digital, solidariedade autônoma, etc.
Com Kathya Araujo e Danilo Martuccelli inseri uma metodologia para realizar uma análise do ativismo a partir das experiências dos indivíduos, contribuição que não aparece nos autores anteriores. Ao mesmo tempo, os autores não trabalham com os movimentos sociais de forma direta e nem com a solidariedade política como eu e, por isso, a necessidade de pensá-los a partir da tradição acionalista de Alain Touraine. Mas também considero as rupturas que Martuccelli propõe em relação as teorias da subjetivação, destacando a necessidade de um olhar para o indivíduo com menos peso normativo do que sugere a noção de ator. No próximo capítulo busco conectar essa discussão sobre individualização com a solidariedade internacionalista.