1. DA SOLIDARIEDADE ZAPATISTA À SOLIDARIEDADE INDIGNADA
1.1. A solidariedade zapatista
1.1.1. Atenco (2006)
Os distúrbios de Atenco foram uma série de protestos, com enfretamento violento entre as forças de repressão do Estado e os militantes, ocorridos na cidade de San Salvador de Atenco, estado do México, nos dias 3 e 4 de maio 2006.
O conflito guarda raízes em 2001, quando o então presidente Vicente Fox anunciou que iria construir um aeroporto na zona agrícola de Texcoco, que se localiza próxima a vários ejidatarios, terras comunais de camponeses. Os agricultores que seriam atingidos pela obra conformaram a Frente
de Pueblos en Defensa de la Tierra (FPDT) e, depois de muitos enfrentamentos através de mobilizações, caminhadas e ações judiciais, conseguiram, em 2002, que se cancelasse a construção do aeroporto. No entanto, o Estado continuou, ao longo dos anos, tentando comprar as terras coletivas dos camponeses e emplacar o megaprojeto24.
Então, em maio de 2006, ocorreram conflitos violentos, nos quais integrantes da FPDT, habitantes do povoado de San Salvador de Atenco e aderentes da Outra Campanha do EZLN, foram atacados pelas forças policiais. Os ataques começaram com um conflito local entre a polícia e os vendedores de flores de um mercado, no município de Texcoco. No primeiro dia, os vizinhos conseguiram se defender e no dia seguinte o Estado, que na época tinha como governador e futuro presidente Henrique Peña Nieto, respondeu com uma violência desmesurável, enviando para a localidade mais de 3000 policiais em uma operação de 10 horas. Como resultado, houve a detenção de mais de 200 pessoas, dois mortos, 50 feridos, a expulsão de 5 estrangeiros (sendo duas ativistas de Barcelona, María e Cristina, recebidas no dia 8 de maio em Barcelona por militantes zapatistas) e tortura sexual a 26 mulheres25.
É importante destacar que o conflito ocorre no momento em que o EZLN encampava a Outra Campanha. O Zapatismo demonstrou amplo apoio às mobilizações, declarando alerta vermelho, suspendendo suas atividades, se colando sob ordem da FPDT e convocando sua rede a se mobilizar por Atenco26.
Internacionalmente ocorreram a partir de 2006 mobilizações pedindo justiça pelas atrocidades cometidas pelo Estado. O jornal La Jornada, no dia 20 de maio de 2006, fez um apanhado geral dos lugares onde houve mobilizações por Atenco ao redor do mundo, no qual não só vincula as mobilizações ao chamado do EZLN, como cita a própria contabilização zapatistas dessas articulações internacionais:
Conforme relatado pela Comissão Inter-Galáctica do EZLN, "até 17 de maio, pelo menos, 85 ações foram registradas no mundo, exigindo a liberação incondicional de tod@s os detid@s, contra a brutal repressão policial e pela punição dos responsáveis do assassinato, dos estupros, dos golpes e das torturas empreendidas contra noss@s camarad@s" (BELLINGHAUSEN, 2006).
Ainda que as ações de solidariedade internacionais possam ter tido ímpetos mais independentes do movimento zapatista do que o autor da matéria crê, é inegável a relação do Zapatismo com estas expressões. Esses protestos tiveram como tema a denúncia da violência do
24 Disponivel em: <http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2014/05/08/carta-de-solidaridad-con-atenco-no-olvidamos-lo-que-paso-los-3-y-4-de-mayo-tampoco-la-lucha-en-contra-del-aeropuerto/>. Acesso 24 de nov. de 2017.
25 Disponível em <https://hipertextual.com/2016/05/atenco e https://eljuegodelacorte.nexos.com.mx/?p=1925. Acesso:
14 de nov. 2017.
26 Disponível em <http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2006/05/03/urgente-acciones-en-apoyo-a-companeros/. Acesso: 14 de nov. 2017.
Estado contra os manifestantes, a reivindicação de libertação dos presos políticos e, também, o apoio a Outra Campanha. Fazendo referência as mesmas mobilizações citadas na matéria do La Jornada, o Col·lectiu de Solidaritat amb la Rebel·lió Zapatista de Barcelona, participante dessas jornadas de lutas, escreve em seu documento de memória:
No dia 14 de maio, convocamos um evento de informação e denúncia sobre a repressão em Atenco no Casinet d'Hostafrancs com María e Cristina e em 19 de maio, uma manifestação pela liberdade d@s pres@s de Atenco no âmbito do Dia internacional de luta convocada pela Outra Campanha (CSRZ, 2010, p. 22).
Os diferentes atos de solidariedade para denunciar o massacre de Atenco e demonstrar apoio a Outra Campanha, tiveram diferentes conformações e foram realizados em suas respectivas cidades e países por coletivos e agregações de forças distintas. Para além da notícia do La Jornada27, que lista muitos destes atos, no blog Zapateando28, há uma descrição mais pormenorizada das 98 manifestações, ocorridas em 50 cidades de 24 países, entre os dias 3 e 22 de maio de 2006. Nessa listagem, é possível captar uma diversidade de formas de mobilização, que vão desde manifestações em frente de embaixadas mexicanas, como ocorreu em Quito, no Equador e em Caracas na Venezuela; até a realização de vídeos debates como em Nápoles na Itália e em Santiago, Chile.
Os exemplos são muitos e os atores que os convocam em cada localidade também. Em Paris, por exemplo, a convocação foi realizada por uma série de grupos: Confederación Nacional del Trabajo (CNT), Comité de Solidaridad con los Pueblos de Chiapas en Lucha (CSPCL), Comité de Solidaridad con los Indios de las Americas (CSIA-Nitassinan), Tierra y Libertad para Arauco, SCALP-Reflex, dentre outros. No equador a convocatória veio da Coordinadora Juvenil Ecuatoriana de Solidaridad con Cuba y Juventud Bolivariana del Ecuador, não tendo, ao contrário da França e de muitas localidades, nenhum coletivo zapatista diretamente envolvido.
Abaixo fotos de dois destes momentos:
27 Para ver um apanhado geral dos lugares onde houveram mobilizações em 2006 em solidariedade a Atenco. Disponível em: <http://www.jornada.unam.mx/2006/05/20/index.php?section=politica&article=018n1pol>. Acesso 24 de outubro de 2017.
28 Disponível em: <https://zapateando.wordpress.com/2006/05/24/ecuador-colombia-francia-alemania%E2%80%A6-con-atenco/>. Acesso 10 de nov. de 2017.
À esquerda: Conserto realizado em Barcelona em prol de Atenco no dia 18 de junho de 2006, com a presença de 8000 pessoas29. À direita: No dia 17 de março de 2015, antes mesmo do massacre de Atenco, três grupos ativistas de Londres fizeram uma manifestação em frente a empresa de arquitetura contratada para realizar as obras do aeroporto a ser construído30.