UNIDADE 2 – SONHANDO COM O FUTURO: alicerces da criação dos cursos
2.3 A emergência das universidades e suas características
Embora o Ensino Superior tenha sido criado no Brasil há mais de um século, durante a permanência da família real portuguesa no país (1808-1821), nenhuma instituição com status de universidade existiu no período Colonial (1500-1808), Joanino (1808-1821) e Imperial (1822-1889)43. As pessoas com formações no Brasil só se diplomavam nas universidades europeias, especialmente, em Coimbra. Por isso, a Universidade de Coimbra, no dizer de Anísio Teixeira (1989), foi a nossa “primeira universidade”. Nela se graduaram em Teologia, Direito Canônico, Direito Civil, Medicina e Filosofia, durante os primeiros três séculos de nossa história, mais de 2.500 jovens brasileiros.
Os primeiros ensaios do ensino superior no Brasil constituíram-se sobre os moldes das instituições portuguesas, considerando-se que herdavam a deficiência e o atraso da Metrópole. Pode-se observar um marcante atraso nos sistemas de ensino implantados e uma defasagem nas produções intelectuais herdados pelo Brasil Colônia a partir da Metrópole, cujo processo de ensino superior era praticamente todo voltado para a área literária. Assim, o que se verifica é uma deficiência intelectual de Portugal nas demais áreas das ciências, como a Astronomia, a Botânica, a Zoologia, a Geologia, diferentemente de outros países da Europa, que já se destacavam nessas áreas científicas, a exemplo de países como França, Alemanha e Inglaterra (VERGARA, 2004). A construção do conhecimento na área de exatas e biológicas passa a ser fomentado, após a vinda da família Real para o Brasil, em 1808, quando houve a abertura dos portos as nações, o que possibilitou a importação e livre circulação de livros ingleses no Brasil.
De modo geral, ao longo do século XIX e inicio do XX, as elites optavam por enviar os filhos para Portugal, França e Inglaterra para estudar. Porém, o governo imperial foi gradualmente mudando o panorama, a partir do incentivo ao surgimento de faculdades isoladas, em virtude da vinda forçada de Dom João VI para o Brasil em 1808, fugindo das tropas de Napoleão que haviam invadido Portugal por esta época. Compreendendo que a estadia em terras brasileiras não seria curta, Dom João VI além de abrir os portos do Brasil às nações amigas, resolveu permitir a imprensa, facilitar a entrada de livros e fundar cerca de uma dezena de instituições de ensino.
Assim, em 1808, D. João VI fundou a cátedra de Medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro, e em 1819 a cátedra de Engenharia, embutida na Academia Militar do Rio de Janeiro, destinada a formar oficiais no Rio de Janeiro. Em 1813, as cátedras evoluíram, originando as escolas,
43 Para mais detalhes sobre as iniciativas de criação de universidades nesses períodos consultar Schwartzman
academias e faculdades especializadas, unidades de ensino superior organizadas em torno das cátedras, com seriação, meios de ensino e locais próprios e fixos.
Esse nível de instrução nasce no país como um modelo de instituto isolado e de natureza profissionalizante, destinado essencialmente a formar burocratas e especialistas para atender as necessidades militares da colônia, já que os filhos da aristocracia não podiam ir estudar no Velho Mundo devido ao bloqueio pela esquadra napoleônica (COSTA e RAUBER, 2009).
Algumas tentativas de criação de universidades foram feitas, mas todas sem êxito. Assim, ao final do Império havia seis estabelecimentos de ensino superior e nenhuma universidade no Brasil, ou seja: as faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia (1832); as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife (1854); a Escola Politécnica do Rio de Janeiro (1874); e a Escola de Minas de Ouro Preto (1876).
A respeito dessa origem do ensino superior no Brasil, Cunha (1986) argumenta, portanto, que a partir de 1808, são criados cursos e academias destinados a formar, sobretudo, profissionais para o Estado, assim como especialistas na produção de bens simbólicos, e em um plano, talvez, secundário, profissionais de nível médio.
Com a expansão da economia cafeeira e a construção de ferrovias, estradas, portos e fábricas de tecido, no final do século XIX, ocorreu o surgimento de uma camada média ligada ao comércio e formada por operários nas cidades, as quais passaram a contar com uma série de serviços públicos. As mudanças, junto com o crescimento do aparelho burocrático do Estado, fomentou a demanda por profissionais capacitados tecnicamente, fazendo o governo imperial criar uma legislação que normatizava e restringia o acesso a diversos cargos públicos. O funcionalismo público se tornou o melhor dos empregos, mas para conseguir uma colocação era necessário possuir formação superior, criando uma cultura voltada para a valorização dos bacharéis, que passou a gerar demanda por vagas nas faculdades.
Além disso, a pressão pelo ensino superior foi acompanhada pelas reivindicações da classe média urbana. Todos queriam garantir que os filhos pudessem se tornar bacharéis para ter acesso aos cargos públicos ou para poder entrar na política. O número de faculdades, até então exclusivamente vinculadas ao governo imperial, começou gradualmente a aumentar, cátedras se juntaram originando novas academias e faculdades.
Embora o aumento tenha representado certo avanço quanto ao desenvolvimento de instituições de ensino superior, alguns fatores inibiram esse interesse pelas universidades, dos quais se destaca a ascendência do positivismo no pensamento brasileiro. Com relação as instituições de ensino, os positivistas acreditavam que a verdadeira ordem e progresso só poderia surgir a partir do ensino tecnicista, o que descartava a defesa de universidades, pois
estas eram vistas como centros metafísicos. Assim, com a tendência positivista já dominando o panorama brasileiro e principalmente forte entre os militares, as universidades, tão cedo, não foram cogitadas (MOTTA e BROLEZZI, 2011).
Mas, pode-se dizer que o embrião das futuras universidades brasileiras, inicia com a implementação das faculdades, seguindo o modelo da Faculdade de Filosofia da Universidade de Berlim, teoricamente baseado no cultivo do livre saber, mas na prática calcado no ensino da técnica. Assim, o Imperador instituiu os centros de livre docência, criando faculdades de Medicina, Engenharia, Direito, Odontologia, Arquitetura, Economia, Serviço Social e Jornalismo. Na primeira década do regime republicano, por exemplo, constata-se o surgimento de escolas superiores, tais como as Faculdades de Direito da Bahia, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, as Escolas de Engenharia do Recife e de São Paulo (Mackenzie), as Escolas Politécnicas de São Paulo e da Bahia, e a Faculdade de Medicina de Porto Alegre.
A busca da população por prestigio e poder através do diploma, junto com a facilitação do acesso44, trouxe consigo um problema, o excesso de diplomados, muito além da capacidade do mercado de absorver esta mão de obra. Essa situação aliada a fatores de outras ordens motivou uma nova reforma educacional, em uma tentativa de conter o acesso ao nível superior. A reforma proposta pelo senador e ministro gaúcho Rivadavia da Cunha Corrêa, originou o decreto n.8.659 de 5 de abril de 1911 (BRASIL, 1911), normatizando o ensino médio e superior. Os concluintes do ensino médio, incluindo o Ginásio Nacional, deixaram de gozar do privilégio de ingresso direto no ensino superior. A sistemática dos exames de admissão também foi modificada, passando a constar de uma única forma escrita sobre línguas e ciência, tendo novamente validade apenas imediata.
É necessário realçar que, desde a proclamação da República até a Revolução de 1930, o ensino superior sofreu várias alterações em consequência da promulgação de diferentes dispositivos legais. Seu início coincide com a influência positivista na política educacional, marcada pela atuação de Benjamim Constant. Tal orientação, em 1911, é ainda mais acentuada com a Reforma Rivadavia Corrêa, a qual favoreceu o surgimento de diversas unidades de ensino livre. Assim, embora o surgimento da universidade, apoiado em ato do governo federal, continuasse sendo postergado, o regime de desoficialização do ensino, instituído sob a égide da influência positivista na política educacional, a qual minimizava, também, o controle do governo federal sobre o ensino superior, acabou por gerar condições para o surgimento de instituições livres (CUNHA, 1986).
44 As escolas públicas que se submetessem a fiscalização federal garantiam que seus estudantes tinham direito ao
Nesse contexto de implementação do decreto, vão surgindo instituições com o nome de universidades como a Universidade de Manaus (1909), a Universidade de São Paulo (1911) e a Universidade do Paraná (1912). Estas, porém, não têm sido consideradas pela literatura da área de educação como universidades no sentido estrito da palavra, pois haviam sido fundadas a partir de escolas isoladas como mera agregação, não lograram êxito, e tampouco, conseguiram fixar as bases da atual estrutura universitária nacional.45
O país estava vivendo uma invasão de cursos isolados e Universidades Livres que forneciam diplomas de Ensino Superior sem nenhuma fiscalização quanto à veracidade dos documentos. A Lei Rivadavia colaborou para o comércio indevido de diplomas pelo país.
Essas tentativas, independentes e até mesmo contrárias à orientação do poder central, embora não bem sucedidas, devem ter provocado uma reação no sentido de o governo da União assumir, controlando, a iniciativa de fundar a universidade (CUNHA, 1986). Foi então que o Governo Federal, no dia 11 de março de 1915, promulgou a Reforma Carlos Maximiliano pelo Decreto n.11.530 (BRASIL, 1915), que dispunha a respeito da instituição de uma universidade pelo poder central. Além disso, com este dispositivo o Governo revogou a Lei Rivadavia, passou a exigir um retorno imediato do sistema de equiparação das instituições que forneciam Ensino Superior, e somente após cinco anos de funcionamento é que uma escola superior poderia requerer equiparação. Além disso, definiu que apenas as cidades com no mínimo cem mil habitantes poderiam manter curso superior, o que postergou algumas iniciativas de instalação de universidades no país, como mencionarei mais adiante.
O modelo padrão a ser definido pelo Governo só se consolidou em 1920 com o estabelecimento da Universidade do Rio de Janeiro pelo Decreto-Lei n.14.343 (BRASIL, 1920a). Esta instituição foi amplamente criticada o que apenas fortaleceu as discussões sobre a real necessidade de criação de universidades no país. Todavia, apesar das restrições feitas à criação dessa Universidade, cabe assinalar que, na história da educação superior brasileira, a Universidade do Rio de Janeiro é a primeira instituição universitária criada legalmente pelo Governo Federal (FÁVERO, 2006).
Ainda nesse período datam a Universidade de Minas Gerais, cuja unidade mais antiga, a Escola de Direito, foi fundada em 1892 em Ouro Preto com o nome de Faculdade Livre de
45
A partir do período republicano emergem, sem lograrem êxito, iniciativas isoladas de criação de universidades em diversos estados: no Amazonas em 1909, em São Paulo em 1911, no Paraná em 1912, no Rio de Janeiro em 1920, em Minas Gerais em 1927 e no Rio Grande do Sul em 1928. Nos três primeiros estados (Amazonas, São Paulo e Paraná) as universidades, consideradas por Cunha (1986, p.198-211) como passageiras, se dissolveram e não conseguiram se reproduzir, as universidades que surgiram posteriormente nada herdaram destas iniciativas. Já as universidades dos outros estados mencionados (Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul), mesmo tendo sido organizadas a partir da simples técnica de aglomeração, conseguiram ser sucedidas posteriormente doando parte de suas instalações as efetivas universidades, criadas a partir de 1930 no início da era Vargas.
Direito de Minas Gerais. Esta foi depois transferida para Belo Horizonte, onde viria a integrar a Universidade de Minas Gerais (atual UFMG) quando de sua instituição em 1927 (AFONSO, 1977). Também, em 1934, com a união de várias escolas forma-se a Universidade de Porto Alegre (UPA), antecessora da atual Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CARVALHAL, 1998). Diferente da URJ, nenhuma destas planejou a proposição de um curso de Ciências Naturais/História Natural.
Cabe também lembrar que projetos de formação do magistério em nível superior, no Brasil, auxiliaram a constituir o processo de origem das universidades. Evangelista (2001a) lembra, por exemplo, que em São Paulo, em 1890, Caetano de Campos, diretor da Escola Normal da Capital, defendeu a criação de um curso normal superior, modelo para a organização do sistema de ensino e de laboratórios para a formação de professores. A ideia concretizou-se em lei, prevendo um curso superior anexo à Escola Normal, o que, entretanto, não funcionou.
Essa década inaugurou nova denominação para essa instituição com a criação, por Sampaio Dória, de uma faculdade de educação para “aperfeiçoamento pedagógico e cultural geral” com o lema de formar inspetores, diretores de escolas normais, ginásios e grupos escolares, além de professores para escolas complementares (BRASIL, 1920c). A crítica acusou esse projeto de não se preocupar com os altos estudos desinteressados, centrais em muitas das propostas em circulação (EVANGELISTA, 2001a).
Essas diversas iniciativas possibilitaram debates e críticas em torno do problema universitário no País, ampliando as discussões sobre concepção de universidade, funções que deveriam caber a elas (desenvolver pesquisa, formar profissionais e/ou ser um foco de cultura e disseminação de ciência), modelo universitário a ser adotado no Brasil (se existiria um padrão, ou cada instituição se organizaria em função de condições locais), projetos em disputa quanto à formação docente em nível superior (se deveria haver uma unidade universitária programada para isso, ou todas as unidades deveriam se responsabilizar), dentre outros pontos.
Um passo em direção a criação de universidades no país ocorreu a partir dos anos 1920, com o espírito de modernização do país via reforma da educação e do ensino, assim como uma conscientização maior dos problemas educacionais, que se inicia o caminho para instalar as instituições universitárias. Somente após a Revolução de 1930, e tendo sido criadas a ABC e a ABE, surge a ação positiva do Governo para estabelecer diretrizes de criação de universidades. O passo final veio com a fundação do Ministério da Educação e Saúde no ano de 1930, quando então o ensino começou a receber maior atenção do Governo Federal, pois o órgão objetivou organizar reformas educacionais em todos os níveis de ensino, consequentemente, abriu caminho para estruturar as primeiras universidades brasileiras. Como
já mencionado, iniciava-se naquele momento um processo voltado à formação de professores em nível superior que pudesse suprir as necessidades do país.
No ano seguinte a fundação do Ministério, o Governo Provisório de Getúlio Vargas implementou a Reforma Educacional Francisco Campos, que com seus diversos decretos, estabelece um estatuto para as universidades brasileiras. Duas determinações importantes despontavam dos decretos sobre ensino superior que compunham essa reforma. A primeira delas era que a universidade deveria desenvolver, primordialmente, atividades de pesquisa que transcendessem o interesse profissional, e não se reduzisse apenas à função didática. Para o ministro, a universidade tinha por objetivo “equipar tecnicamente as elites profissionais do País e de proporcionar ambiente propício às vocações especulativas e desinteressadas, cujo destino, imprescindível à formação da cultura nacional, é o da investigação e da ciência pura” (BRASIL, 1931c, p.4). A segunda determinação era que para a criação de uma universidade, seriam necessárias, pelo menos, três faculdades dentre as seguintes: Direito, Medicina, Engenharia, e Educação, Ciências e Letras. Essas faculdades seriam ligadas por vínculos administrativos, embora pudessem manter a sua autonomia jurídica.
É por meio dessa lei que, em 1934, na busca por direcionar melhor os dispositivos sobre o ensino superior e a formação de professores, é produzida a primeira proposta de Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Essa unidade não passará a integrar o corpo universitário apenas como mais uma unidade, mas funcionará como um eixo para as demais faculdades. Nessa perspectiva, assumirá contornos diferentes em decorrência das inspirações dos sujeitos que nela transitaram, como será possível observar no decorrer deste texto, ao analisar a história de algumas universidades.
Para este momento é oportuno dirigirmos a atenção para os contornos da estruturação das universidades e, consequentemente, para o papel, então, que as faculdades de filosofia deveriam assumir. Na busca por recuperar-se do atraso histórico em relação ao ensino superior, os intelectuais brasileiros buscam nos projetos de instituições estrangeiras aquilo que deveria ser a futura universidade brasileira.
A Europa mostra-se como o berço do surgimento das primeiras universidades, inicialmente em países como Itália, França e Inglaterra no início do século XII, e disseminando-se posteriormente por todo o território europeu, e marcantemente a partir dos séculos XIX e XX, por todos os continentes, passando as universidades a integrarem o elemento central da prática do ensino superior (MENDONÇA, 2000).
Essas instituições, antes do século XIX, ofereciam um ensino essencialmente de tipo clássico – centrado no latim, no grego e no estudo da lógica e da filosofia, o que servia de
base para as principais carreiras profissionais existentes: medicina, direito e teologia. De acordo com Schwartzman (1979), o desenvolvimento da ciência empírica começa a tornar evidente a insuficiência dessa formação clássica, que normalmente ocorria nas universidades tradicionais, responsáveis pela oferta das “profissões cultas”. Ao mesmo tempo, pessoas que adquiriam conhecimento fora do sistema de ensino tradicional começavam a disputar os privilégios e monopólios profissionais dos poucos que conseguiam obter a educação clássica.
Essas mudanças foram mais fortes na França, no final do século XVIII, onde as antigas universidades foram praticamente substituídas por escolas profissionais, e os estudos científicos e a filosofia científica passaram a ocupar o lugar central, que antes havia sido ocupado pela educação clássica tanto no nível secundário quanto no superior. Durante o período Napoleônico, no entanto, a orientação científica foi enfraquecida, e o ensino clássico foi gradualmente restaurado à sua antiga importância na escola secundária. Na prática, o que ocorreu foi uma inversão da ideia, anterior ao século XIX, de que a formação clássica precedia a formação profissional: “[...] No novo sistema a educação especializada passava a ser vista como uma forma de aprofundamento intelectual e de aperfeiçoamento da mente, que fazia de seus estudantes homens de cultura de um novo tipo.” (SCHWARTZMAN, 1979, p.36).
É o sistema alemão, no entanto, que incorporaria à concepção de universidade do século XIX, a pesquisa científica, que visa à busca de novos conhecimentos e não o ensino repetitivo, mas mais do que isso, propagaria a concepção de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e formação. Esse modelo estabeleceu-se a partir da fundação da Universidade de Berlim, em 1810, sob cujo padrão foram reformadas as demais universidades alemãs. A criação daquela universidade foi precedida por uma especulação teórica, da qual fizeram parte filósofos, como Fichte, Schelling e Schleiermacher e filólogos como Wolf e Guillermo de Humboldt, o fundador da Universidade de Berlim.
Dentre tantas diferenças entre o modelo francês e alemão, aponta-se que:
Enquanto o modelo francês volta-se para a formação especializada e profissionalizante, via escolas isoladas; o alemão enfatiza a formação geral, científica e humanista, com enfoque na totalidade e universalidade do saber e na consequente importância da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como órgão central da universidade. Enquanto a universidade francesa, desde Napoleão, é mantida e dirigida pelo Estado, tornando-se uma espécie de aparelho ideológico deste, com pequena autonomia frente aos poderes políticos; a universidade alemã, embora sendo instituição do Estado, por ele mantida financeiramente, conservou uma parte notável do seu caráter corporativo e deliberativo, gozando de liberdade de ensino e de pesquisa, nas suas primeiras décadas de funcionamento, no século XIX. (PAULA, 2002, p.152)
Com relação à institucionalização das universidades no Brasil, de modo geral, pode-se dizer que as seguintes características dos referidos modelos universitários foram incorporadas:
[...] a universidade brasileira é determinada pela associação entre ensino (processo de construção do saber) e pesquisa (processos de objetivação ou materialização desses conhecimentos), provenientes do modelo alemão [...]. O modelo francês, também conhecido como napoleônico, influenciou significativamente a concepção e a estrutura do ensino superior do Brasil, uma vez que as primeiras faculdades isoladas foram criadas por D. João VI em 1808, com o objetivo de formar as pessoas para o domínio técnico e profissional como maneira de romper o subdesenvolvimento. (MARCHESONI e MARQUES, 2011, p.2).
Enquanto o modelo francês de ensino superior visava o ensino técnico por meio de faculdades profissionalizantes, o alemão teve por propósito ser um centro de formação liberal, assentado na pesquisa científica, de caráter liberal. Mas, o modelo francês de universidade não influenciou o modelo brasileiro de universidade apenas no quesito estrutura. Também forneceu elementos de cunho ideológico como a laicidade, a predominância das ciências humanas, e a tradição liberal e humanista.
Além disso, a influência francesa foi ampla e profunda não se restringindo apenas as questões educacionais, não atingindo, portanto, apenas a universidade, mas sim, a cultura brasileira. Foi por meio das traduções francesas que os clássicos da literatura mundial chegaram ao Brasil. Houve uma influência na percepção das questões sociais, pois tanto a elite, quanto o povo se alimentavam da ideologia francesa. Como exemplos educacionais pode-se mencionar a expansão da cultura francesa no Brasil pela criação do Colégio Pedro II,