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A exuberância embarcada

No documento A linguagem em Foucault (páginas 149-153)

A loucura faz parte do mundo e, no entanto, começa a apartar-se, a ser apartada, do mundo. No fim da Idade Média, ocorre uma “separação da loucura” revestida de uma estranha significação. Apesar de considerada de acordo com os critérios da utilidade social ou da segurança dos cidadãos, critérios mais decisivos na Idade Clássica, tal separação insere-se na tradição dos “exílios rituais”, liga-se a “motivos imemoriais”.

Como símbolo, Foucault adianta “o embarcamento dos loucos”:

Essa navegação do louco é simultaneamente a separação rigorosa e a Passagem absoluta. […] desenvolve, ao longo de uma geografia meio real, meio imaginária, a situação liminar do louco no horizonte do cuidado do homem medieval – situação simbólica e ao mesmo tempo real pelo privilégio concedido ao louco de ser encerrado às portas da cidade: a sua

1 “La fin du XVe siècle est certainement une de ces époques où la folie renoue avec les pouvoirs essentiels du

langage. […] La folie est pour l’essentiel éprouvée à l’état libre; elle circule, elle fait partie du décor et du langage communs, elle est pour chacun une expérience quotidienne qu’on cherche plus à exalter qu’à maîtriser.” (MMPSY, pp. 78-80.) Duas observações se impõem. Primo, a acreditar na palavra do arqueólogo, os renascentistas possuíam uma clara vantagem face à palavra do arqueólogo: aparentemente, podiam aceder a uma loucura em «estado livre», no «estado selvagem» inacessível ao arqueólogo. Secundo, se o fim do séc. XV é uma dessa épocas em que a loucura se religa aos poderes essenciais da linguagem, significará isso que, antes dessa «reconciliação», a loucura esteve divorciada dos poderes essenciais da linguagem? Se o esteve, não houve então um corte já decisivo antes do corte decisivo da Idade Clássica, não houve um silêncio e um silenciar prévios aos da Idade Clássica?

2 Quanto à distinção linguagem circulante/linguagem estagnante, cf. “Le Mallarmé de J.-P. Richard” [1964] in

exclusão deve prendê-lo; se não pode e não deve ter outra prisão senão o próprio limiar, é retido no lugar de entrada. É colocado no interior do exterior e inversamente. […] Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco está entregue ao rio com mil braços […] prisioneiro na mais livre, na mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à encruzilhada infinita. É o Passageiro por excelência, quer dizer, o prisioneiro da passagem. Não se sabe a que terra chegará, tal como não se sabe de que terra vem quando regressa. Não tem a sua verdade e a sua pátria a não ser nessa vastidão infértil entre duas terras que não lhe podem pertencer.1

Em termos semelhantes aos da Introduction a Binswanger, similitude a que já aludimos, este trecho insinua uma exclusão, uma experiência e uma expressão épica da loucura.

A exclusão épica toma a forma do exílio, não a do internamento. Exclusão por «externamento», se assim se pode dizer. Num mundo não ainda pleno, em que há espaço em volta, “espaço outro”, vazio, exterior, indefinido, arreda-se convenientemente os inconvenientes «para fora».2

A loucura é confiada à barca – heterotopia de passagem, “pedaço flutuante de espaço”, “grande reserva de imaginação” – e a errar pelo mundo: não está localizada. Quando for excluída do cogito e da sociedade clássica, será confiada ao erro e confinada, localizada, nas

1 “Cette navigation du fou, c’est à la fois le partage rigoureux, et l’absolu Passage. Elle ne fait, en un sens, que

développer, tout au long d’une géographie mi-réelle, mi-imaginaire, la situation liminaire du fou à l’horizon du souci de l’homme médiéval – situation symbolique et réalisée à la fois par le privilège qui est donné au fou d’être enfermé aux portes de la ville: son exclusion doit l’enclore; s’il ne peut et ne doit avoir d’autre prison que le seuil lui-même, on le retient sur le lieu du passage. Il est mis à l’intérieur de l’extérieur, et inversement. […] L’eau et la navigation ont bien ce rôle. Enfermé dans le navire, d’où on n’échappe pas, le fou est confié à la rivière aux mille bras […] Il est prisonnier au milieu de la plus libre, de la plus ouverte des routes: solidement enchaîné à l’infini carrefour. Il est le Passager par excellence, c’est-à-dire le prisonnier du passage. Et la terre sur laquelle il abordera, on ne la connaît pas, tout comme on ne sait pas, quand il prend pied, de quelle terre il vient. Il n’a sa vérité et sa patrie que dans cette étendue inféconde entre deux terres qui ne peuvent lui appartenir.” (HF, p. 26.)

2 “Le premier espace qui me paraît poser le problème et manifester justement cette différenciation sociale et

historique forte des sociétés, c’est l’espace de l’exclusion, de l’exclusion et de l’enfermement. Dans les sociétés gréco-romaines, grecques surtout, quand on voulait se débarrasser d’un individu – le théâtre grec le montre bien –, on l’exilait. C’est-à-dire qu’il y avait toujours un espace autour. Il y avait toujours des possibilités de passer dans un autre lieu que la cité était censée ne pas reconnaître, ou en tout cas dans lequel la cité n’avait aucunement l’intention d’introduire ses lois ou ses valeurs. Le monde grec était divisé en cités autonomes, et il était entouré d’un monde barbare. Il y avait donc toujours polymorphie ou polyvalence des espaces, distinction des espaces et du vide, de l’extérieur, de l’indéfini. Il est certain qu’on vit maintenant dans un monde plein: la Terre est devenue ronde, et elle est devenue surpeuplée. Le Moyen Âge a longtemps conservé l’habitude tout simplement de se débarrasser, comme les Grecs, des individus gênants en les exilant.” (“La scène de la philosophie” [1978] in DE- II, n.º 234, p. 577.) Numa perspectiva mais etnológica, diríamos que a prática do embarcamento está algures entre a “antropofagia” e a “antropemia”: “A les étudier du dehors, on serait tenté d’opposer deux types de sociétés: celles qui pratiquent l’anthropophagie, c’est-à-dire qui voient dans l’absorption de certains individus détenteurs de forces redoutables le seul moyen de neutraliser celles-ci, et même de les mettre à profit; et celles qui, comme la nôtre, adoptent ce qu’on pourrait appeler l’anthropémie (du grec émein, vomir); placées devant le même problème, elles ont choisi la solution inverse, consistant à expulser ces êtres redoutables hors du corps social en les tenant temporairement ou définitivement isolés, sans contact avec l’humanité, dans des établissements destinés à cet usage.” (Lévi-Strauss, “Un petit verre de rhum” in Tristes tropiques, Paris, Plon, 1955, p. 464.) Contudo, antropofagia e antropemia sem «estabelecimento», antropofagia e antropemia no instável: os loucos não são completamente expulsos da sociedade, não perdem o seu contacto com a humanidade, não são nem «regurgitados» para um estabelecimento, nem completamente absorvidos.

casas de internamento – “heterotopias de desvio”, “casas fechadas” e, à sua maneira, “reserva de imaginação”.1

O louco está entregue à errância, a sua liberdade de movimento “esgota-se no encaminhamento”: incessantemente colocado “nessa linha que vai do espaço próximo [que começa talvez no “exterior do interior”] ao espaço longínquo [o “interior do exterior”]”.2 Experiência de uma temporalidade épica da loucura, da loucura que se insere na “Odisseia da existência” e que expressa as “dimensões originárias da existência”. Todavia, o louco, prisioneiro de um tempo circular, errando entre dois pontos, se retorna, não retorna como os outros, nem ao que os outros retornam.3

A linha de separação traça-se, mas a loucura não está completamente do outro lado da linha, move-se na linha, no limiar. O embarcamento funciona como catarse, mas talvez também como cateter para sondar o Exterior, o Outro: é para “um outro mundo que parte” e “é de outro mundo que vem quando desembarca”.4

Embarcamento para o Outro e desembarcamento do Outro que realmente não necessitam de barca, pois a loucura é já “vestígio de um outro mundo”5, “presença furtiva de um outro mundo”, do “radicalmente outro”6, figuração do Outro «aqui mesmo». O energoumenos e o mente captus, vislumbrava-se em Maladie mentale et personnalité, manifestavam a acção de um poder vindo do exterior: homens transformados em «outros» que eles próprios, os loucos apresentavam, representavam, “outro mundo”. Tal temática sobrevive no Renascimento, época

1 Quanto à heterotopia, cf. “Des espaces autres” [1967/1984] in DE-II, n.º 360, p. 1576, p. 1579, p. 1581.

2 “Sur cette ligne qui va de l’espace proche à l’espace lointain, nous allons rencontrer une forme spécifique

d’expression; là où l’existence connaît l’aurore des départs triomphants, les navigations et les périples […] l’exil qui retient dans ses filets, l’obstination du retour, […] tout au long de cette Odyssée de l’existence […] L’opposition horizontale, du proche et du lointain, n’offre le temps que dans une chronologie de la progression spatiale; le temps ne s’y développe qu’entre un point de départ et un point d’arrivée; il s’épuise dans le cheminement; et quand il se renouvelle, c’est sous la forme de la répétition, du retour, et du nouveau départ.” (“Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, pp. 133-135.) Decididamente, sob estes outros céus, Ellen West, “dividida entre duas potências cósmicas que não conhecem nenhuma conciliação ou reconciliação”, temporalizando-se na “vastidão infértil entre duas terras que não lhe podem pertencer”, não seria esquizofrénica. Ellen, prisioneira da passagem, desequilibrando-se para uma transcendência, não manifestará no “palacete da sua consciência” isso “que foi outrora a fortaleza visível da ordem”? (“Il est mis à l’intérieur de l’extérieur, et inversement. Posture hautement symbolique, qui restera sans doute la sienne jusqu’à nos jours, si on veut bien admettre que ce qui fut jadis forteresse visible de l’ordre est devenu maintenant château de notre conscience.” – HF, p. 26.)

3 “Ces thèmes sont étrangement proches de celui de l’enfant interdit et maudit, enfermé dans une nacelle et confié

aux flots qui le conduisent dans un autre monde, mais, pour celui-ci, il y a ensuite retour à la vérité.” (HF, p. 26. Itálico nosso.)

4 “C’est vers l’autre monde que part le fou sur sa folle nacelle; c’est de l’autre monde qu’il vient quand il

débarque.” (HF, p. 26.)

5 “En cette figure empirique, et pourtant étrangère à (et dans) tout ce que nous pouvons expérimenter, notre

conscience ne trouve plus comme au XVIe siècle la trace d’un autre monde; elle ne constate plus l’errement de la

raison dévoyée; elle voit surgir ce qui nous est, périlleusement, le plus proche […]” (MC, p. 387. Itálico nosso.)

6 “La déraison ne se retrouve pas comme présence furtive de l’autre monde, mais ici même, dans la transcendance

naissante de tout acte d’expression […] il ne lui appartient plus de faire surgir ce qui est radicalement autre, mais de faire tournoyer le monde dans le cercle du même.” (HF, p. 439. Itálico nosso.)

em que se torna visível “uma invasão proveniente do interior”: “a invasão do Insensato que coloca o Outro mundo ao mesmo nível deste”, “faz habitar a estranheza no próprio coração do familiar”.1 Fulguração do exterior no interior do mundo, a loucura comunica na linha de diferenciação. Revela uma certa «dobra», talvez «originária», em que o mundo rodopia no círculo do outro. Na incerteza da experiência, tudo é talvez outro.

E talvez a loucura seja a heterotopia par excellence, “pedaço flutuante de espaço” que se relaciona com outros, que representa outros, mas que neutraliza, contesta ou inverte o conjunto de relações que os outros designam e reflectem: lugar como que fora de todos os lugares, ainda que efectivamente localizável.

Como se «teatro», justapondo, dobrando em si, espaços estranhos entre si; pequena parcela do mundo no qual pode desfilar, espelhar-se a totalidade do mundo, «microcaosmos»; espaço ilusório que denuncia como ainda mais ilusório o espaço real, no interior do qual a vida está fechada.

Como se «espelho»2, misto de heterotopia e utopia, em que o mundo – o «nosso» ou o

«outro», disjunção inclusiva – “se desdobra numa miragem fantástica”; a loucura, ao re- presentar o outro mundo, seria utopia, lugar sem lugar; e nesse espelho, o mundo, o «nosso», ver-se-ia lá onde não está, num espaço irreal que se abre virtualmente por detrás da superfície de contacto entre o espectáculo da loucura e o olhar/mundo espectador. Como se uma espécie de sombra desse ao mundo a sua própria visibilidade, lá onde está ausente. E seria heterotopia pois existiria realmente, teria um efeito retroactivo sobre o mundo: a partir da loucura, o mundo descobrir-se-ia ausente do seu lugar, porque se veria, outro, nela. No momento em que o mundo se visse na loucura, a loucura tornaria o mundo simultaneamente real e absolutamente irreal, porque, para se perceber, o mundo seria obrigado a passar por um ponto virtual. «Instalação» instabilizando, a loucura manifestaria uma dobra/desdobra em que o mundo é forçado a interrogar-se…3

1 “Ainsi la Renaissance […] a éprouvé dans ce monde-ci un nouveau péril: celui d’une invasion sourde, venant de

l’intérieur […] cette invasion, c’est celle de l’Insensé qui place l’Autre monde au même niveau que celui-ci, et comme à ras terre; de telle sorte qu’on ne sait plus si c’est notre monde qui se dédouble dans un mirage fantastique, si c’est l’autre, au contraire, qui prend possession de lui, ou si finalement le secret de notre monde, c’était d’être déjà, et sans que nous le sachions, l’autre. Cette expérience incertaine, ambiguë, qui fait habiter l’étrangeté au cœur même du familier, prend chez Jérôme Bosch le style du visible […]” (MMPSY, p. 91.) Experiência que tomará o estilo do enunciável. A dobra deixará de ser cósmica, será antropológica, não provirá do interior do mundo, mas do interior do homem.

2 A loucura manifesta essa propriedade em Histoire de la folie : “Le symbole de la folie sera désormais ce miroir

qui, sans rien refléter de réel, réfléchirait secrètement pour celui qui s’y contemple le rêve de sa présomption. La folie n’a pas tellement affaire à la verité et au monde, qu’à l’homme et à la vérité de lui-même qu’il sait percevoir.” (HF, p. 42.)

No documento A linguagem em Foucault (páginas 149-153)