As belas e difíceis páginas da Introduction a Traum und Existenze de Binswanger, editada no mesmo ano de Maladie mentale et personnalité, colocam-nos na presença de um Foucault simultaneamente próximo e distante – quer dizer, distanciando-se – do Foucault desta última. Como se, entre um e outro texto, atravessando certas orientações de pensamento, Foucault procurasse já definir “um posicionamento singular pela exterioridade das suas vizinhanças”.
Sinais de proximidade seriam, entre outros, a operatividade do conceito de alienação1 ou o interesse teórico pela existência concreta, pelo homem. Interesse teórico que segue, no entanto, perspectivas de análise um tanto ou quanto secundarizadas, limitadas e não completamente esclarecidas, em Maladie mentale et personnalité.
Tomando como horizonte uma futura investigação tentando situar a análise existencial no desenvolvimento da reflexão contemporânea sobre o homem, seguindo a inflexão da fenomenologia para a antropologia, Foucault considera uma forma de análise que tem como objecto o homem, o ser-homem, o Menschsein. Todavia, a antropologia deve situar-se no contexto de uma reflexão ontológica que tem por tema a presença ao ser, a existência, o Dasein. O nível antropológico – em que se exploram as modalidades do Menschsein, em que se analisa o homem enquanto homem e no interior do seu mundo – é constituído. O nível ontológico – analítica da forma de presença absolutamente originária em que se define o Dasein, do modo de ser da existência enquanto presença ao mundo – é constituinte. A ontologia deve definir as condições de possibilidade de uma análise do homem.2
Foucault está atento à distinção entre fundante e fundado. Atenção aos fundamentos e aos limites que denota a tentativa de arrumar, “situar num contexto”, a psicologia na antropologia e esta última na ontologia. A antropologia existencial, secundarizada em Maladie mentale et personnalité, porque incapaz de dar conta das condições de aparecimento da doença mental, continua a ser secundarizada na Introduction. Não procurará, pois, Foucault pensar um meio de ultrapassar a antropologia?
1 Por exemplo, na última frase do texto, lê-se: “[…] puisque le malheur de l’existence s’inscrit toujours dans
l’aliénation […]” (“Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, p. 147.)
Todavia, ainda que aludindo a tal ultrapassagem, Foucault difere o estudo do estatuto das condições ontológicas da existência.1 Talvez porque, com as distinções entre fundante e fundado, constituinte e constituído, formas e condições, ôntico e ontológico, se veja já embarcado, de alguma maneira, num “discurso de natureza mista”, enlaçado no par empírico- transcendental.
Par visível nisso que é o ponto de partida de uma reflexão concreta no movimento da qual se elabora a eventual passagem da antropologia à ontologia. Ainda que distintos, o ontológico e o antropológico não estão separados: o Menschsein é o conteúdo efectivo e concreto disso que a ontologia analisa como a estrutura transcendental do Dasein. É na existência concreta, na «facticidade», que tudo se dá: no conteúdo real de uma existência que vive e experiencia, se reconhece e se perde, num mundo que é simultaneamente a plenitude do seu projecto e o elemento da sua situação. É na existência concreta que tudo se enlaça – a própria existência indica o seu fundamento ontológico, é esse problemático ponto em que se articulam formas antropológicas e condições ontológicas – e se desenlaça: manifesta a transgressão de uma linha de separação dificilmente traçada entre o antropológico e o ontológico.2
A Introduction não está, pois, completamente isenta do «materialismo» de Maladie mentale et personnalité. Contudo, e isso seria sinal de distanciamento, a «facticidade» referida na Introduction indica um nó entre formas antropológicas e condições ontológicas, condições ontológicas que não são exactamente essas condições culturais, sociais, reais, materiais, exteriores, objectivas, históricas, apresentadas em Maladie mentale et personnalité. Apesar de transgredida, a linha, ainda que vagamente, está traçada: a estrutura transcendental do Dasein não se confunde com o seu conteúdo efectivo e concreto. O transcendental não definirá condições de possibilidade irredutíveis ao jogo das práticas sociais, históricas?
Digamos que Foucault se encontra num impasse ontológico, numa “dobra ontológica” que não é ainda inteiramente tomada como histórica. Foucault não se decidiu ainda completamente por esse ser que “se constitui historicamente como experiência”.3 Entanto, é significativo que se comece a esclarecer os elementos dessa decisão.
1 “Bien sûr, cette rencontre, bien sûr aussi le statut qu’il faut finalement accorder aux conditions ontologiques de
l’existence font problèmes. Mais nous réservons à d’autres temps de les aborder.” (“Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, p. 95.)
2 Cf. “Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, p. 94. “La ligne de partage qui apparaît si difficile à tracer, il ne cesse de
la franchir ou plutôt il la voit sans cesse franchie par l’existence concrète en qui se manifeste la limite réelle du Menschsein et du Dasein.” (“Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, p. 95.) Esse homem descrito em Les mots et les choses como par empírico-transcendental, ser em que se tomará conhecimento do que torna possível todo o conhecimento (MC, p. 329.) não será vislumbrado na Introduction na simples afirmação “o homem é o único meio de chegar ao homem”?
Na Introduction, encontramos um Foucault interessado na significação, e principalmente na expressão, da existência, da subjectividade, nos modos como esta aparece/desaparece a si própria. Interesse também presente em Maladie mentale et personnalité, na medida em que uma das suas questões orientadoras é, justamente, a de saber como uma sociedade se exprime nas formas mórbidas em que se recusa reconhecer.
O conceito de linguagem em jogo não difere muito daquele utilizado em Maladie mentale et personnalité. A linguagem é um modo de expressão, comunicação, diálogo, da existência humana. Apesar de Foucault não questionar ainda explicitamente a importância do sujeito, da consciência, da existência humana, de não enveredar ainda por um certo estruturalismo, de estar ainda no movimento de uma filosofia da significação e não no da “própria linguagem”, o pensamento que esboça sobre a expressão não a toma na forma da interioridade de um sujeito fundador: a expressão é um modo do ser-no-mundo.