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A verdade do bobo

No documento A linguagem em Foucault (páginas 154-158)

No sorriso da loucura não transparecia apenas a morte. Outra coisa, igualmente venerável – e que Foucault não explicita devidamente –, ecoava em certos risos e palcos do mundo:

1 Cf. MC, pp. 387-388.

2 “Elle portait alors des significations réductrices: la différence de destin, de la fortune, des conditions était effacée

par son geste universel; elle tirait irrévocablement chacun vers tous; les danses des squelettes figuraient, à l’envers de la vie, des sortes de saturnales égalitaires; la mort, infailliblement, compensait le sort.” (NC, p. 175.)

3 A “experiência cosmológica da loucura” efectuada na Idade Média e no Renascimento pode ter uma leitura

ontológica. A loucura parece constituir-se como uma modalidade de acesso à totalidade do mundo enquanto nada, sendo nisso similar à angústia (“a priori da existência”) que Heidegger tematiza. Entretanto, não queremos dizer que tal experiência desabrigada pela loucura é experiência da ou na angústia, apesar de tal ser possível em retrospectiva: “Nous autres modernes, nous commençons à nous rendre compte que, sous la folie, sous la névrose, sous le crime, sous les inadaptions sociales, court une sorte d’expérience commune de l’angoisse.” (HF p. 146.)

4 Quanto a estas expressões, cf. “Introduction” [1954] in DE-I, n.º 1, p. 123 e p. 129. “[…] la sagesse consistera à

dénoncer partout la folie, à apprendre aux hommes qu’ils ne sont déjà rien de plus que des morts, et que si le terme est proche, c’est dans la mesure où la folie devenue universelle ne fera plus qu’une seule et même chose avec la mort elle-même. […] c’est la montée de la folie, sa sourde invasion qui indique que le monde est proche de sa dernière catastrophe […]” (HF, p. 32.)

5 A morte «já aí», tema, tópico, antigo: “[…] c’est la possibilité d’une certaine forme de prise de conscience de

soi-même, ou une certaine forme de regard que l’on va porter sur soi-même à partir de ce point de vue, si vous voulez, de la mort, ou de cette actualisation de la mort dans notre vie. En effet, la forme privilégiée de la méditation de la mort chez les stoïciens, c’est, vous le savez, l’exercice qui consiste à considérer que la mort est là, selon le schéma de la praemeditatio malorum, et que l’on est en train de vivre son dernier jour.” (HERS, p. 458.) Premeditação que não é lírica, mas cósmica na medida em que o virtuoso olhar do sábio – o de Séneca, exempli gratia – percorre e contempla o mundo (mundum circureme) para “apreender o mui pouco que somos” – a pobre presa que somos e seremos –, o pequeno ponto que somos “no sistema geral do universo”. Olhar que não se arranca ao mundo, que está “em comunicação com todo o universo”. Olhar de um si que se cuida, que se conhece, ligado ao conhecimento da natureza, não a uma «interioridade». (Cf. HERS, pp. 265-267.) Olhar «embarcado», não «internado». Será preciso esperar por Descartes.

Nas Farsas […] a personagem do Louco, do Parvo, do Tolo, adquire uma importância crescente. Já não é apenas […] a silhueta ridícula e familiar: tem lugar no centro do teatro, como o detentor da verdade […] Se a loucura conduz cada um a uma cegueira em que se perde, o louco, pelo contrário, relembra a cada um a sua verdade. Na comédia, em que cada um engana os outros e se ilude a si próprio, ele é a comédia em segundo grau, a ilusão da ilusão; na sua tola linguagem, que não tem figura de razão, diz palavras de razão […]1

Mas não nos iludamos com tal detenção da verdade. A verdade não desliza inteiramente para o palco. E essa verdade em palco não é, evidentemente, uma verdade na loucura. É verdade “desarmada e reconciliada”, secretamente investida por uma razão astuciosa. Afinal, sempre se trata de teatro, de farsa…

No teatro medieval e renascentista é à personagem do louco ou do bobo2 que cabe “dizer a verdade”: sabe mais que os que não são loucos, vê a verdade melhor do que os que não são loucos, está dotado com a visão de uma outra dimensão. Assemelha-se ao santo, ao profeta. Porém, o profeta narra a verdade e sabe que narra a verdade; o louco, pelo contrário, é um profeta ingénuo, narra a verdade não sabendo que narra a verdade: é a verdade irresponsável, “só é o Diferente na medida em que não conhece a Diferença”.3

Verdade diferida, verdade ferida talvez, verdade que não se percebe no momento em que é proferida. O louco diz antecipadamente a verdade, mas nunca é escutado e só acabada a peça é que se percebe, em retrospectiva, que dizia a verdade. Inevitavelmente, a verdade que profere está contida num discurso que lhe é exterior. O não ser escutado denota a sua posição ambígua, afastada das outras personagens: “palavra rejeitada como não tendo valor e jamais completamente aniquilada”. De um lado, temos os que dominam a vontade e não sabem a verdade. Do outro, o louco que narra a verdade, mas que não domina a sua vontade, nem mesmo o facto de narrar a verdade. Esse afastamento entre a vontade e a verdade, entre verdade

1 “Dans les Farces et les soties, le personnage du Fou, du Niais, ou du Sot prend de plus en plus d’importance. Il

n’est plus simplement, dans les marges, la silhouette ridicule et familière: il prend place au centre du théâtre, comme le détenteur de la vérité […] Si la folie entraîne chacun dans un aveuglement où il se perd, le fou, au contraire, rappelle à chacun sa vérité ; dans la comédie où chacun trompe les autres et se dupe lui-même, il est la comédie au second degré, la tromperie de la tromperie ; il dit dans son langage de niais, qui n’a pas figure de raison, les paroles de raison […]” (HF, pp. 28-29.)

2 Devemos salientar uma dificuldade de tradução quanto ao termo fou utilizado por Foucault. Nem sempre se

deverá entender por «louco». No capítulo Stultifera navis devemos ter em conta outros significados: «parvo», «imbecil», «bobo», etc. Antes da segunda metade do século XVII, «loucura» ou «folia» não são termos diferentes; a disjunção só será exclusiva a partir da segunda metade do século XVII. Como afirma Alan Sheridan: “What, then, is Foucault’s translator to do with folie and fou? Clearly, «madness», «mad», «madman» and «folly», «foolish», «fool» must be used when they are felt to be most appropriate. But the English reader should make a mental note that whenever one set of terms is used the other is also present within it. After the mid-seventeenth century, of course, the problem does not arise. Folly/madness and its free communication with Reason disappears. In its place, there is a new Reason and a new Madness, new because one has come to dominate and exclude the other […]” (Alan Sheridan, Michel Foucault: The will to truth, edição citada, pp. 16-17.).

3 “Dans la perception culturelle qu’on a du fou jusqu’à la fin du XVIIIe siècle, il n’est le Différent que dans la

desapossada da vontade e vontade que não conhece ainda a verdade, é o afastamento entre os loucos e os que não são loucos. O discurso do louco é um discurso de verdade que não tem vontade de verdade, não a possui em si próprio.1

* * *

O bobo não saltitava apenas nos palcos do mundo. A sua iluminante função de “dizer a verdade”, produzindo-a sem obedecer a regulae que dirigem o espírito, era real: passava nos paços do mundo.

Como diz um dos nossos romancistas, também historiador, longe de ser insignificante, tinha até valor político. Era o ministro de uma mui sorridente verdade:

O truão foi uma entidade misteriosa da Idade Média. Hoje a sua significação social é desprezível e impalpável; mas então era um espelho que reflectia, cruelmente sincero, as feições hediondas da sociedade desordenada e incompleta. O bobo, que habitou nos paços dos reis e barões, desempenhava um temível ministério. Era ao mesmo tempo juiz e algoz; mas julgando, sem processo, no seu foro íntimo, e pregando, não o corpo, mas o espírito do criminoso no potro imaterial do vilipêndio.2

Não convém exagerar tal faculdade de julgar. As palavras do bobo tinham um estatuto ambíguo. O bobo, que voluntária ou involuntariamente, por jogo ou por natureza, era louco ou imitava a loucura, dizia coisas que não deviam ser ditas por um indivíduo que tivesse um estatuto normal na sociedade; assumia a função de transgredir o interdito, fazia circular uma palavra marginal num sentido suficientemente importante para que fosse escutada, mas suficientemente desvalorizada, desarmada do seu «perlocutório».3 Mais quoi? Ce sont des fous…

1 Quanto a estes esclarecimentos, cf. “Folie, littérature, société” [1970] in DE-I, n.º 82, p. 978 ss. e “La folie et la

société” [1978] in DE-II, n.º 222, p. 489. O último Foucault retomará este tema na sua análise do “dizer a verdade”, da parrésia. Descreverá a “tradição crítica do Ocidente” enquanto preocupada com a questão da importância de dizer a verdade, de saber quem é capaz de dizer a verdade, de saber porque é que se deve dizer a verdade. Ora, a personagem do louco no teatro medieval e renascentista opõe-se àquele que “diz a verdade”, ao parrésico. O parrésico diz a verdade porque sabe que é verdade; e sabe que é verdade porque é realmente verdade. Há uma relação entre aquele que diz a verdade e isso que diz: o sujeito que enuncia a verdade está comprometido no que diz, acredita no que diz. Por outras palavras, o parrésico é a verdade responsável. Clara e distintamente nos antípodas do louco. (Cf. FS, pp. 12-14, p. 170.)

2 Alexandre Herculano, O Bobo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1978, p. 27.

3 “[…] le statut du fou par rapport au langage était curieux en Europe. D’un côté, la parole des fous était rejetée

comme étant sans valeur et, de l’autre, elle n’était jamais complètement annihilée. […] il racontait sous forme symbolique la vérité que les hommes ordinaires ne pouvaient pas énoncer.” (“La folie et la société” [1970] in DE- I, n.º 83, p. 999.) “Le bouffon, c’était l’institutionnalisation de la parole folle; le bouffon, c’était celui qui (encore une fois, il n’est pas possible de savoir c’était voluntairement ou involontairement, par jeu ou par nature, peu importe) était fou ou imitait la folie de telle manière qu’il puisse mettre en circulation une espèce de parole marginale en un sens suffisamment importante pour qu’on l’écoute, mais suffisamment dévalorisée, suffisamment désarmée pour qu’elle n’ait aucun des effets ordinaires de la parole ordinaire.” (“La folie et la société” [1978] in DE- II, n.º 222, pp. 488-489.) Essa indiferença face a uma loucura natural ou fingida é importante. O caso da mimese parece indicar uma sociedade que entra no jogo, que a inclui no jogo. E exemplifica, talvez, a experiência “de uma Razão desarrazoada, de uma razoável Desrazão”. (Cf. HF, p. 70.)

Apesar de louco ou bobo, no palco ou fora dele, o que dizia não era necessariamente “sem sentido”.1 A insensatez, a infelicidade talvez, do sujeito enunciante não era entrave para o «locutório» ou «ilocutório» do speech act, para a felicidade da ironia, do vilipêndio… Aparentemente, não importava quem falava, quem dizia a verdade: o louco/bobo podia dizer “o verdadeiro no espaço de uma exterioridade selvagem” ou mesmo “no verdadeiro”. E importava

quem falava. Mais quoi? Ce sont des fous…2

Mas que “palavra de verdade” era essa? Que verdade era essa?

Não era verdade adaequatio. Não era verdade ao nível da proposição, contida no interior do discurso. Mais que ter ou deter a verdade, o louco parecia tido e detido, «raptado», pela verdade, como se seu inconsciente, involuntário, ambíguo, instrumento ou oráculo.

Talvez não importasse quem falava, quem dizia a verdade, mas o que se dizia não se dizia não importa onde: era “tomado necessariamente no jogo de uma exterioridade”.3 A «palavra de verdade» proferida pelo louco era acolhida num contexto – numa “política geral da verdade”4

hospitaleiro face a certos actos de fala «parasitas», «marginais», «interditos». Palavra cuja «verdade» era exterior, decifrada pela razão, decifrada enquanto razão. A razão só decifra a partir das suas regras, ou seja, investindo a loucura de razão: razão ventríloqua. Só assim podia uma tal palavra «estar no verdadeiro». A eventual linguagem autóctone da loucura, proferida numa «exterioridade selvagem», não era escutada «no verdadeiro». A «separação», o separar, estava já lá nas palavras do louco/bobo. (De facto, de direito, que sabemos nós, esteve aí desde sempre, latente ou patente, fraca ou forte.)

1 Eis um exemplo tirado do teatro (mas supomos que o mundo do teatro também espelha o teatro do mundo):

“Fool: all thy others titles thou hast given away. That thou wast born with. Kent (to Lear): this is not altogether fool, my lord.” (Shakespeare, King Lear, Sc. 4, 140-145.).

2 “Depuis le fond du Moyen Age le fou est celui dont le discours ne peut pas circuler comme celui des autres: il

arrive que sa parole soit tenue pour nulle et non avenue, n’ayant ni vérité ni importance […] il arrive aussi en revanche qu’on lui prête, par opposition à toute autre, d’étranges pouvoirs, celui de dire une vérité cachée, celui de prononcer l’avenir, celui de voir en toute naïveté ce que la sagesse des autres ne peut pas percevoir. […] pendant des siècles en Europe la parole du fou ou bien n’était pas entendue, ou bien, si elle l’était, était écoutée comme une parole de vérité. Ou bien elle tombait dans le néant – rejetée aussitôt que proférée; ou bien on y déchiffrait une raison naïve ou rusée, une raison plus raisonnable que celle des gens raisonnables. De toute façon, au sens strict, elle n’existait pas. C’était à travers ses paroles qu’on reconnaissait la folie du fou; elles étaient bien le lieu où s’exerçait le partage; mais elles n’étaient jamais recueillies ni écoutées.” (OD, pp. 12-13.)

3 “«N’importe qui parle», mais ce qu’il dit, il ne le dit pas de n’importe où. Il est pris nécessairement dans le jeu

d’une extériorité.” (AS, p. 161.)

No documento A linguagem em Foucault (páginas 154-158)