CAPÍTULO I A AMAZÔNIA: PAISAGEM E DOENÇA NOS TRÓPICOS A EMERGÊNCIA DA MEDICINA TROPICAL
1.4. As “típicas” doenças tropicais: malária e febre amarela
1.4.2 A febre amarela e a “vitória” sobre o vetor
As investigações sobre a malária conduziram para o esclarecimento do problema da doença. No entanto, outros pesquisadores já haviam sugerido a relação entre os mosquitos e a febre amarela. Carlos Finlay38 (1833-1915), em 1881, em Cuba, cogitou que o Aedes aegypti (antes denominado de Stegomyia
fasciata) era o agente transmissor da febre amarela. Finlay na Conferência
Sanitária em Washington, em fevereiro de 1881, expôs a hipótese de que eram necessárias três condições para a transmissão da febre amarela: “1) a existência previa de um caso de febre amarela, compreendido dentro de certos limites de tempo com respeito ao momento atual; 2) a presença de um sujeito apto para contrair a enfermidade; 3) a presença de um agente cuja existência seja completamente independente da enfermidade e do enfermo, mas necessária para transmitir a enfermidade do indivíduo enfermo ao sadio.” (Finlay, 1959a, p. 32). Finlay não mencionou que o agente era o mosquito, mas já estava trabalhando nesta hipótese, e, a partir de então, conclui que as medidas sanitárias utilizadas naquele momento para o combate da doença eram ineficazes. As quarentenas e os isolamentos tinham se mostrado
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inoperantes no controle da febre amarela, o que vai de fato mudar é a entrada dos mosquitos como os únicos transmissores da doença (Löwy, 2006), gerando uma eficácia nunca vista antes na história da medicina, como afirma Gorgas depois da campanha em Havana.
No mesmo ano de 1881, no dia 14 de agosto, o médico cubano apresentou um trabalho na Real Academia de Ciências Médicas, Físicas y Naturales de La Habana intitulado El mosquito hipoteticamente considerado
como agente de transmissión de la fiebre amarilla (1959b, p.33-49). Nesta
exposição apresenta as características biológicas e ecológicas dos mosquitos que viviam na cidade, destacando-se um de hábitos diurnos o Culex mosquito (Finlay utilizava uma classificação que dava este nome, depois foi classificado como Stegomyia fasciata; e finalmente como Aedes aegypti). Finlay entendia que Havana tinha plenas condições para a febre amarela: indivíduos enfermos, abundância de mosquitos e indivíduos suscetíveis à infecção. Conclui ele também que as condições meteorológicas que mais favoreciam o desenvolvimento da febre amarela, eram as mesmas que auxiliam na procriação dos mosquitos (idem, p. 48). Finlay, no entanto, via o mosquito como um transmissor mecânico, não como um “vetor intermediário” do agente da febre amarela, fase necessária para que se completasse o ciclo biológico do parasito (Löwy, 2006, p.63).
O médico cubano testou a sua hipótese, infectando os mosquitos com sangue de doentes de febre amarela e depois fazendo-os picar “não- aclimatados” à enfermidade, tendo como resultado o adoecimento: um na forma benigna da doença; dois qualificados como “febre amarela abortiva”; e dois de febres efêmeras, sem caráter definido. As conclusões destas experiências foram as seguintes: o mosquito precisava picar várias vezes até saciar-se por completo para infectar-se; as partículas do vírus ficavam retidas nas “lancetas” utilizadas para picar o indivíduo doente, inoculando outra pessoa através da picada; somente uma picada seria suficiente para inocular a doença na forma benigna; sendo comprovado que o mosquito transmite e propaga a febre amarela, haveria forma de evitar a doença (1959b, p. 48-49). Ele descobriu que o mosquito contraia o micróbio pela picada em uma pessoa doente, sendo que o parasito passava por modificações no estômago do inseto. Entre 1881 e 1898 ele conduziu uma centena de experimentos, inoculando com a febre amarela, mas não conseguiu convencer os seus colegas (Porter, 1998, p.473).
As pesquisas sobre o agente etiológico da febre amarela eram controversas. No Brasil Domingos Freire pesquisava a febre amarela desde 1880/1881 e denominava o seu agente de Cryptococcus xanthogenicus. Em 1897, Guiseppi Sanarelli, italiano que trabalhava no Uruguai, anunciava que havia identificado o bacilo da febre amarela que foi denominado Bacillus
icteroides, mas também gerou muitas desconfianças no meio científico. A
identificação do vírus só foi estabelecida em 1927 por investigadores da Fundação Rockefeller que conseguiram infectar macacos Rhesus, na África Ocidental francesa. Em 1937 a mesma instituição iniciou a fabricação da vacina num laboratório localizado no Instituto Oswaldo Cruz (Benchimol, 2001; Löwy, 2006).
Em 1900 foi nomeada uma comissão para estudar a febre amarela que aterrorizava as tropas americanas presentes em Cuba desde 1899, quando a cidade chegou a ter 40 mil “não-imunes”. Walter Reed (1851 -1902) foi
convidado para chefiar esta comissão. Eles partiram da hipótese do vetor, seguindo os experimentos de Finlay. Como não conheciam animais que sofriam de febre amarela, utilizaram como cobaias voluntários que participaram dos experimentos. Jessé Lazear (1866 – 1900), manipulando mosquitos infeccionados foi picado acidentalmente enquanto trabalhava, vindo a desenvolver a doença e morrer (Porter, 1998, p. 473). A comissão americana deu uma importante contribuição no que se refere ao controle das condições naturais para a realização da experiência com humanos não-imunes, o que deu veracidade aos resultados. Este controle do “campo” foi o que faltou aos trabalhos de Finlay (Löwy, 2006, p. 64).
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Foram realizadas experiências que buscavam testar a teoria de transmissão através do vetor. Mas para isto precisavam também mostrar que as roupas e objetos de um “amarelento” não poderiam transmitir a doença. A experiência foi realizada com soldados e enfermeiros voluntários do exército americano, e também com recém-imigrados, estes foram divididos em dois grupos: o primeiro ficou em um quarto com vestimentas e roupas de cama de uma vítima de febre amarela para testar a teoria do contágio que ainda era defendida por médicos; o segundo grupo foi isolado, quando receberam picadas de mosquitos infeccionados por pacientes de febre amarela. Nenhum dos voluntários do primeiro grupo contraiu a doença; enquanto que no segundo
grupo 80% ficaram doentes, mas todos sobreviveram (Porter, 1998; Löwy, 2006). Foi provado que o mosquito era o responsável pela transmissão da doença, mas o agente ainda era desconhecido. As experiências de Cuba, segundo Benchimol, formam “um divisor de águas na história da febre amarela” que afastaram as discussões sobre a etiologia da doença, abrindo espaço para as ações que afastaram, por um determinado tempo, as epidemias dos núcleos urbanos (2001, p.39).
Os resultados das experiências da Comissão de Reed em Cuba, conduziram o médico militar William Gorgas (1845 – 1920), em 1901, a realizar o controle da febre amarela através do combate ao mosquito. O “modelo de Havana”, como foi conhecido posteriormente, consistia em destruir os recipientes de água, espalhar querosene nos lagos, telar os poços e tanques, e isolar os pacientes de febre amarela. Depois de poucos meses a febre amarela foi eliminada de Havana (Porter, 1998, p. 474). Segundo Manson, a comissão reduziu em 90% o número de mosquitos da cidade de Havana (1919, p. 268). O trabalho profilático dirigido por Reed implicou certa dose de coerção aos moradores de Havana, que foram obrigados a se adaptar às medidas do exército americano (Löwy, 2006, p. 69).
Em informe sobre “la fiebre amarilla y el mosquito”, em março de 1902, William Gorgas declara que a tarefa mais importante em Havana foi realizada sobre os mosquitos, e os resultados foram “tão positivos como inesperados”, não somente contra a febre amarela, mas também com a malária. Assim o médico norte-americano declara que: “Havana tem sido a primeira cidade onde se tem empreendido em grande escala um sistemático trabalho de destruição dos mosquitos, toda vez que se tem comprovado que são eles a causa da enfermidade” (1959, p. 57). As investigações iniciais sobre o mosquito mostraram que ele estava presente em todas as casas porque as pessoas tinham o costume de guardar água da chuva para o uso doméstico, sendo o lugar ideal para o Stegomyia. Gorgas explica que foram organizadas três secções de trabalhadores especialmente dedicados aos mosquitos: a primeira denominada de “Brigada Stegomyia” para trabalhar na parte urbana da cidade;
a segunda, a “Brigada Anopheles” para trabalhar nos subúrbios e pântanos vizinhos; e a terceira, a “Brigada de Febre Amarela” para combater os mosquitos que haviam adquirido a infecção. A cidade foi dividida em sete distritos, cada um deles era controlado por um inspetor e um ajudante, que inspecionava um número de casas cada dia, observando se havia locais de procriação dos mosquitos (idem, p.59). Para o combate às larvas utilizou-se o petróleo e para o combate ao mosquito na forma alada utilizou-se a fumigação com pó de piretrum. A eficácia no combate à febre amarela, segundo Gorgas, se deu pela rapidez em diagnosticar os casos da doença, permitindo o isolamento do doente e o combate aos mosquitos infectados na residência.
Depois desta intensa campanha, Gorgas declara que não ficou um mosquito infectado em Havana. O sistema de controle sanitário também foi alterado, pois não se dava mais atenção aos objetos de possíveis enfermos de outras localidades, mas ao isolamento do doente e ao controle dos mosquitos. As medidas eram uma conseqüência da “teoria do mosquito”, como declara o médico. Ele ainda afirma que esse trabalho sobre os mosquitos nunca foi realizado em outro lugar: “O trabalho do exército em relação à febre amarela tem sido único, ao menos no que sei, na história da medicina. A teoria do doutor Finlay foi tomada pelo Comandante Reed, e a comissão do Exército, que a experimentaram em seres humanos, demonstrando-se, como nenhuma outra teoria na medicina o tenha sido, no transcurso de um ano” (1959, p. 63).
O sucesso da campanha em Havana fez com que os trabalhos fossem repetidos na construção do canal do Panamá para o controle da malária e da febre amarela, sob a chefia de William Gorgas. A febre amarela foi novamente controlada na Zona do Canal, morrendo, em 1906, a última vítima. Depois disto, foram direcionados programas para vários países da América Latina (Porter, 1998, p. 474). No Brasil, tanto os experimentos como as medidas profiláticas contra a febre amarela foram reproduzidas, como veremos adiante, em São Paulo por Emílio Ribas e Lutz; no Rio de Janeiro e Belém por Oswaldo Cruz; em Manaus por Alfredo da Matta e Miranda Leão, ainda na primeira década do século XX.