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A FLECHA CERTEIRA (OS FATORES DO MOVIMENTO)

No documento O Arco e a Flecha do Caçador (páginas 31-36)

2. A Caçada na Floresta (Campos Referenciais)

2.2. A FLECHA CERTEIRA (OS FATORES DO MOVIMENTO)

Partindo de pesquisa da professora e pesquisadora Lenira Rengel (2001), que reúne um compêndio de conceituações de movimento, desenvolvida por Rudolf Laban 7, o mestre dos estudos da dança e do movimento, apresentamos os “fatores do movimento”, instrumental necessário, como base coreológica, à análise da dança de Oxóssi, que apresentamos na Parte 3, desse trabalho, “O Agueré de Oxóssi no Candomblé do Ilê Olorum”, na página 35.

O trabalho da professora Lenira Rengel (2001), inserido na área das Práticas Interpretativas, organiza alguns dos variados conceitos da terminologia estabelecida e utilizada pelo professor Rudolf Laban, segundo os quais os “fatores de movimento”

devem ser compreendidos como componentes necessários a qualquer análise da dança.

Esses fatores foram identificados por Laban como parte de uma rede de significados que se referem como “domínio do movimento”. Segundo ele, os fatores do movimento são: FLUÊNCIA, ESPAÇO, PESO e TEMPO. (RENGEL, 2001, p. 70).

[...] “Fatores de movimento” estão em acontecimento na vida, ou seja, durante o nosso existir na natureza e que não temos consciência deles ao agir naturalmente, fazer um recorte e poder analisá-los como modo de apreensão da qualidade do movimento é essencial e, portanto, exige uma metodologia protocolar de análise. (Idem).

Neste sentido, utilizaremos os Fatores, na forma como a professora Lenira Rengel (2001) nos apresenta, para detectar a qualidade do movimento da dança Agueré de Oxóssi, descrevendo como eles se relacionam em sua integralidade. Esta relação é aparente no movimento e se estrutura por meio da capacidade mental emocional racional e física, de forma consciente ou não.

7 Rudolf Laban, de acordo com sua biografia, escrita para o International Dictionary of Modern Dance, é o nome artístico de Rezső Keresztelő Szent János Attila Lábán, um mestre húngaro dos estudos modernos da dança, que nasceu em Poszony (atual Bratislava), em 15 de dezembro de 1879 e morreu em Weybridge (Inglaterra), no dia primeiro de Julho de 1958. Desde jovem, preocupado com o desenvolvimento de uma base para estudos da dança, Laban foi dançarino, coreógrafo, teatrólogo, musicólogo, intérprete, considerado, pela maioria dos críticos, como o maior teórico da dança do séc. XX e como o “pai da Dança-Teatro”. Fundador de escola e diretor de companhia de dança, Laban foi escritor e teórico da Arte do Movimento, tendo estudado na Faculdade de Arquitetura da Escola Nacional Superior de Belas Artes de Paris (França).

2.2.1. Fator do Movimento: Fluência

O fator de movimento Fluência é o primeiro fator observado no desenvolvimento do agente, segundo a pesquisadora Lenira Rengel (2001), em sua dissertação de mestrado.

[...] A tarefa do fator Fluência é a integração (tarefa refere-se ao aspecto que o fator de movimento auxilia a desenvolver). A integração do movimento traz sensação de unidade entre as partes do corpo. A atitude relacionada à Fluência é a progressão do movimento, que pode ser livre ou contida, informando (informando refere-se ao aspecto de participação de atitude interna no movimento) o “como” do movimento: mais ou menos integrado (liberado) ou mais ou menos fragmentado (contido). A Fluência apoia a manifestação da emoção pelo movimento, pois os extremos e/ou as gradações entre um alto grau de abandono do controle ou uma atitude de extremo controle, manifestam no movimento os aspectos da personalidade que envolvem a emoção.

(RENGEL, 2001, p. 71-72 – Grifos da autora).

Segundo a autora, o domínio do fator fluência demonstra, qualidade de expansão, abandono, extroversão, entrega, projeção de sentimentos. Para ela,

[...] O controle da Fluência demonstra, por exemplo, cuidado, restrição, contenção, retrair-se. O conceito de Fluência tem duas formas qualitativas básicas de ser experienciado, assim denominadas: 1. livre e/ ou liberada; 2.

controlada e/ou contida e/ou limitada. É possível descrever a qualidade de esforço em relação a Fluência em um movimento, bem como na sucessão de um movimento para outro. (Idem).

A autora enfatiza que a fluência é alimentadora dos outros fatores (Espaço, Peso e Tempo) e, por vezes, é a única qualidade que muda, enquanto os outros fatores têm suas qualidades cristalizadas. Nesse sentido, a autora organiza duas condições para a fluência:

1) A qualidade livre (de Fluência), descrita como fluente, abandonada, continuada, expandida;

2) A qualidade controlada (de Fluência), descrita como cuidadosa, restrita, contida, cortada, limitada.

Para ela, “[...] nem sempre em um movimento é possível discernir características de Fluência, isso se deve ao fato de outras qualidades ou considerações estarem mais imprimidas ao movimento”. (Idem).

Corroborando com o pensamento de RENGEL (2001) ousamos dizer que todo movimento é fluente, quer na qualidade livre ou na qualidade controlada.

2.2.2. Fator do Movimento: Espaço

O segundo fator de movimento, segundo a professora Lenira Rengel (2001), é o Espaço.

[...] A tarefa do fator espaço é a comunicação. A comunicação que faz o agente se relacionar com o outro, o mundo à sua volta. A atitude relacionada ao espaço

é a atenção, afeta o foco do movimento, informando sobre o onde do movimento. Características do fator Espaço trazem ao movimento um aspecto mais intelectual da personalidade, pois localizações no espaço são complexas. Estas localizações requerem atenção tanto num único foco como em dois - atenção bidimensional - ou atenção em mais focos ao mesmo tempo, gerando uma configuração no espaço nas três dimensões simultaneamente. [...]

Em geral movimentos flexíveis demonstram mais adaptabilidade, atenção multifocada, menos rigidez. Em geral movimentos retos podem revelar tanto objetividade como convencionalismo. (RENGEL, 2001, p. 73-74 – Grifos da autora).

As qualidades do Espaço se relacionam com o esforço que se realiza em relação à dimensão espacial. Nelas, que são do tipo de concentração (ou foco) ou de trajetória (movimento pelo espaço), destacam-se aspectos da forma do movimento, por onde se podem focar e visualizar o corpo agente.

Segundo Rangel (2001, p. 73), quanto ao uso experiencial do Espaço como conceito, podem ser verificadas duas formas qualitativas básicas: 1. Direta – quando se percebe um contínuo de linhas diretas e lineares que formam o movimento; e 2. Flexível – quando se percebem linhas torcidas e polineares (ou plásticas), com quebras significativas na linearidade geométrica do movimento.

2.2.3. Fator do Movimento: Peso

O fator de movimento Peso, terceiro na ordem observada, segundo RENGEL (2001, p. 75), auxilia no desenvolvimento do agente na conquista da verticalidade. Suas qualidades de esforço são a leveza e a firmeza, com variáveis possíveis de situações entre esses dois polos. Sua tarefa é auxiliar na assertividade, ou seja, tornar preciso o movimento, dando-lhe estabilidade, proporcionando segurança às formas construídas.

[...] A atitude relacionada ao peso e a intenção, a sensação. O peso informa sobre o o que do movimento. Peso traz ao movimento um aspecto mais físico da personalidade. O fator peso auxilia o desenvolvimento do domínio de si próprio, ao transportar o corpo sem ajuda do outro, daí ele gerar a afirmação da vontade. Movimentos leves são mais fáceis para cima, revelam suavidade, bondade, e em outro polo, superficialidade. Movimentos firmes são mais fáceis para baixo, demonstram firmeza, tenacidade, resistência ou também poder.

(Idem).

Segundo a autora, são observáveis no conceito Peso quatro fatos consideráveis:

1 - força de gravidade – para que o corpo se mantenha na posição vertical é necessário que se exerça uma força em direção para cima e igualmente em direção para baixo. A força de gravidade pode ser superada de forma leve ou firme, com todas as gradações possíveis entre ambos os extremos;

2 - força cinética – a força (ou energia) que é necessária para mover o corpo no espaço. O corpo ou partes do corpo pode ser movido de forma leve ou firme, com todas as gradações possíveis entre ambos os extremos;

3 - força estática – a força (ou energia) que é exercida quando uma posição é mantida em um estado de ativa tensão muscular. Esta força não é para mover o corpo e sim mantida no corpo. Esta força é sentida como se uma resistência interna está sendo acrescentada ao movimento. Resistencia interna pode acontecer de modo leve ou firme, com todas as gradações possíveis entre ambos os extremos;

4 - resistência externa – a resistência oferecida por objetos ou pessoas. Um parceiro, um móvel podem resistir ao corpo ou também suportar o corpo.

Resistencia externa e suporte podem acontecer de modo leve ou firme, apresenta a professora Lenira Rengel (2001, p. 78-79). Segundo a pesquisadora, o que percebemos como tempo, no movimento, é um aspecto mais intuitivo da personalidade, ou seja, algo que faz com que o movimento seja único na execução específica de um agente, com identidade e carga subjetiva.

E se a tarefa do fator tempo é auxiliar na operacionalidade, isto é, a disponibilização de elementos que facilitam a execução do movimento, a atitude tempo é decisão, ou seja, o quando do movimento. O que implica na flexibilidade da percepção dos limites, pois as atitudes internas, o treino e o domínio do movimento, na perspectiva do tempo, auxiliam numa maior mobilidade e tolerância. A própria condição de ensaio, repetição, experimentação, condiciona o tempo como matéria elementar do movimento.

O fator tempo possui qualidades de esforço definidas como: sustentada e súbita, indo de uma à outra, na escala de execução do movimento.

[...] importante ressaltar, que se usa também lento e rápido para referir-se a tempo sustentado ou tempo súbito. Laban preferia sustentado e súbito por achar que rápido e lento são termos quantitativos, enquanto sustentado e súbito requerem uma atitude interna de sustentação do tempo ou de aceleração do tempo, gerando deste modo, aspectos qualitativos. (RENGEL, 2001, p. 78).

A duração (curta ou muito curta / longa ou muito longa) de um movimento, vivida em um contínuo de tempo, é um fato a ser observado, assim como, a própria velocidade (rápida ou muito rápida / lenta ou muito lenta) com que esse movimento é realizado num contínuo de muito rápido a muito lento. Considerando-se que além desses dois fatos (duração e velocidade) é necessário compreender que no fator tempo a velocidade não é

constante no movimento. Durante o processo, sempre haverá momentos de aceleração e desaceleração.

Assim, Laban apresenta as qualidades súbita e sustentada e os três fatos relevantes quanto ao tempo como fator de movimento (duração, velocidade e alteração de velocidade) na seguinte enumeração:

1) qualidade súbita é percebida em movimento(s) rápido(s) de curta duração;

2) qualidade súbita é percebida em aceleração de curta duração;

3) qualidade sustentada é percebida em movimento(s) lento(s) de longa duração;

4) qualidade sustentada é percebida em desaceleração de longa duração;

5) movimentos rápidos de longa duração;

6) aceleração de longa duração;

7) curtos movimentos lentos;

8) desaceleração curta.

No documento O Arco e a Flecha do Caçador (páginas 31-36)

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