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A FLEXIBILIDADE COMO RESPOSTA ARQUITETÔNICA: TRANSFORMAÇÔES E NOVAS

1 MERCADO IMOBILIÁRIO E EVOLUÇÃO TIPOLÓGICA DOS APARTAMENTOS

2.1 A FLEXIBILIDADE COMO RESPOSTA ARQUITETÔNICA: TRANSFORMAÇÔES E NOVAS

TRANSFORMAÇÔES E NOVAS NECESSIDADES DOS USUÁRIOS

A flexibilidade espacial se realiza a partir de ações específicas: alteração de layout; remoção e/ou acréscimo de componentes construtivos; alteração e/ou multiplicidade de funções, podendo um espaço ou edifício abranger mais de um tipo de uso; integração ou desmembramento de unidades habitacionais contíguas, vertical ou horizontalmente. Desta maneira, os apartamentos comercializados nas décadas de 1980 e 90, cujo quarto de empregada poderia ser alterado, assim como na década de 2000, cujo terceiro ou quarto dormitórios são desmembrados para ampliação das salas, são opções de flexibilidade, mas não chegam a configurar a flexíbilidade propriamente dita (BRANDÃO e HEINECK,1997). Sua setorização continua a mesma, além do fato da possibilidade de alteração ser muito limitada nestes casos, não garantindo mobilidade e liberdade suficientes para atender a uma grande diversidade de organização devido ao posicionamento de janelas, estruturas e pontos hidráulicos - refletindo por fim a mesma organização tripartidária burguesa oitocentista (TRAMONTANO, 1998), conforme mencionado no capítulo anterior.

Um projeto flexível não se define apenas pela plasticidade da espacialidade arquitetônica, mas principalmente pela sistematização de aspectos e sistemas técnicos, definido como “um conjunto de elementos invariantes (permanentes) e um conjunto de elementos variáveis (transitórios)” (TIBAU, 1972, p.8). As invariantes funcionam como moldura para o quadro das variáveis, a fim de que estas possam ser organizadas, mantendo o conforto e a qualidade projetual, sendo que:

“o problema básico da flexibilidade em arquitetura não está realmente em resolver o conjunto transitório, mas sim em fixar o conjunto de invariantes do sistema, pois aí é que se

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MESTRADO - FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO MACKZENZIE

manifestará a arquitetura em sua plenitude de obra de arte e de seu conteúdo humano.” (TIBAU, 1972, p. 9).

Figura 6 - Esquema do funcionamento da arquitetura flexível a partir da teoria de Tibau (1972). FONTE: Autora (2011).

A flexibilidade espacial também pode ser encarada como aplicação de formas genéricas e padrões, bem como soluções gerais de problemas, a partir da análise de relações necessárias para se resolver o caso, dado que a essência da resolução empregada surge conforme as demandas do local e situação específica em que se encontra:

“Cada padrão descreve um problema que se planta uma e outra vez em nosso entorno, e logo explica o núcleo da solução a este problema de tal maneira que se possa utilizar esta solução mais de um milhão de vezes sem necessidade de repeti-la nunca exatamente” (ALEXANDER, 1980, p.9, tradução nossa).

Assim, o projeto arquitetônico recupera determinados arranjos de espacialidade, organização e emprego de sistemas construtivos de maneira comprovadamente funcional. Conforme explica-se:

“un lenguaje de patrones tiene la estructura de una malla. Esto se explica llenamente en ‘el modo intemporal de construir’. Sin embargo, cuando empleamos la malla de un lenguaje, la utilizamos siempre como una secuencia, que va a

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través de los patrones, avanzando siempre desde los mayores hacia los menores, desde los que crean estructuras a los que embellecen esas estructuras y después a los que embellecen los embellecimientos” (ALEXANDER, 1980, p.13).

A organização das plantas flexíveis demanda o pensamento de uma cadeia flexível: estrutura, vedação interna e externa, sistemas prediais, pé-direito. Os arquitetos, possuindo conhecimentos técnicos e estéticos específicos, ao analisar as demandas solicitadas e estabelecer um programa geral de necessidades, desenvolvem um desenho baseados em sua bagagem profissional, tanto de referências externas, como de experiências profissionais anteriores.

Alguns fatores são considerados decisivos quando se trata de projetos flexíveis, sendo que este sistema se desenvolve basicamente em torno de sete organizações de componentes básicos:

“1) Divisórias internas não portantes e removíveis; 2) ausência de colunas ou, preferencialmente, grandes vãos entre elementos e vedos portantes; 3) instalações, tubulações e acessórios desvinculados da obra bruta, evitando embuti-los na alvenaria; 4) marginalização da área úmida e das instalações de serviços em relação à seca; 5)localização das portas e das janelas de maneira a permitir mudança de posição sem comprometer as funções dos vedos portantes e dos vedos externos; 6) utilização de formas geométricas simples nos quartos; 7) não utilização, na medida do possível, da locação central dos aparelhos de iluminação, além de outras restrições semelhantes.” (RABENECK, SHEPPARD e TOWN, 1974 apud BRANDÃO e HEINECK : 1997, p. 2).

Sendo assim, aberturas, estrutura, sistemas hidráulicos e elétricos têm destaque na composição flexível. Brandão (2002) enuncia o emprego de diretrizes facilitadoras da diversidade de arranjos no projeto: espaços ou ambientes reversíveis; espaços multiuso centralizados; alternância entre isolamento e integração dos ambientes com elementos móveis e portas; baixa hierarquia entre os ambientes com o uso de divisões ou dimensões semelhantes, comunicações e

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acessos adicionais para deixar a planta fluida e menos hierárquica; e mobiliário planejado para substituir paredes divisórias e ainda incorporar funções.

Alguns elementos construtivos devem se manter independentes em um projeto flexível para que sua supressão ou substituição ocorra sem atrapalhar o restante do sistema (TIBAU, 1972).

A questão estrutural é relevante quando se trata de arquitetura aberta: estudos realizados comprovaram que os pilares são mais bem alocados quando organizam um espaço central e naves laterais, que posteriormente podem ser fechadas para se converter em salas, conforme a necessidade (ALEXANDER, 1980). Situar pilares somente no perímetro da forma-tipo do edifício e junto à escada de incêndio remete a planta livre, recorrente na arquitetura moderna em função dos cinco pontos formulados por Le Corbusier na década de 1920, em oposição à planta sistemática e rígida:

“No entanto a independência estrutural foi um grande passo. Naturalmente há uma hierarquia na estrutura do edifício flexível em termos de flexibilidade. [...] Uma parte da estrutura, aquela que corresponde ao que denominamos de infra-estrutura formal, tem caráter permanente e pode inclusive ser monolítica.” (TIBAU, 1972, p.37).

Segundo Brandão (2002), a hierarquização dos ambientes e suas relações são importantes, pois quanto maior a hierarquização, menor o potencial de flexibilidade. Brandão (2002 apud SOUZA E TRAMONTANO, 2009) analisa as relações entre os diferentes espaços que integram o setor social e entre os setores social e íntimo, já que podem ser realizadas tanto por um corredor de distribuição, uma sala íntima ou de forma direta – mediante aberturas e portas. A adoção de formas complexas nos ambientes, como curvas ou ângulos fechados, dificultam o remanejamento de funções nas unidades habitacionais.

O posicionamento e tamanho das janelas (conectoras dos ambientes ao exterior) têm importante papel na flexibilidade porque condicionam o posicionamento dos ambientes conforme a necessidade de ventilação e insolação. O posicionamento

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das aberturas e portas (conectoras dos ambientes entre si e destes com as circulações do local) proporcionam importantes questionamentos quanto às interligações internas e aos acessos das unidades, que podem ser de serviço (realizados pela cozinha ou lavanderia) e, ou social (realizadas diretamente pela sala de estar, e ou, jantar, ou por um hall - simples ou configurando uma pequena circulação que interliga os setores sociais e de serviços). Os setores sociais e de serviços também podem ser interligados por uma copa, corredor ou estar íntimo, assim como os setores íntimos e de serviço.

A distribuição de sistemas prediais e posicionamento de pontos hidráulicos devem refletir as possíveis mudanças no ambiente, tanto por meio da utilização de shafts como da opção de deixar suas tubulações e eletrodutos aparentes. Não localizar os pontos de iluminação no centro dos ambientes, evitar embutir estes sistemas nas paredes, assim como deixar a área úmida e de instalações e serviços nas periferias são indicações adotadas por diversos autores (RABENECK et al.,1974 apud BRANDÃO, 2005).

Juntamente com as definições construtivas do projeto arquitetônico verifica-se na espacialidade das habitações alternativas para o processo de conversão de ambientes, passando então o layout inicial a agregar uma das possíveis opções de acomodação dos espaços.

Segue uma síntese das principais formas de conversão empregadas em projetos realizados na cidade de São Paulo, conforme conclui-se da leitura de revistas especializadas em arquitetura e interiores, tais como ProjetoDesign, AU, Arquitetura e Construção, Casa Cláudia, além da imobiliária Qual é imóvel:

- Dormitório social em sala de TV, escritório, closet, sala de jantar, ampliação da sala de estar ou da cozinha.

- Banheiro social em banheiro de suíte, lavabo ou closet.

- Varanda: sala de jantar, ampliação da sala de estar ou de dormitórios.

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- Banheiro de empregada em banheiro de suíte, lavabo, despensa ou escritório.

- Dormitório de empregada em dormitório social, suíte, ampliação da sala, depósito, escritório, ampliação lavanderia.

Esta forma de expressão da arquitetura flexível estudada em São Paulo na última década tem empregado uma arquitetura aberta, cuja essência é a combinação de elementos racionalizados em planta livre, na qual o cliente opta pela distribuição dos ambientes com organização fluida, não estanque, a não ser quando essa condição é solicitada. O ponto de partida de um projeto de edifício residencial é a definição da projeção do edifício conforme parâmetros urbanísticos, seguida da localização dos sistemas de circulação vertical e horizontal nesse perímetro de projeção.

As unidades habitacionais são definidas a partir de uma relação entre áreas necessárias apresentadas pelos incorporadores, fator decidido conforme a localização do empreendimento e o público alvo. A geometria fundamental dos apartamentos é decorrência destes fatores, enquanto sua espacialidade interna é a resposta, a partir do perímetro do apartamento, articulada entre elementos fixos e móveis propostos.

Os fixos condicionam a área de atuação disponível e juntamente com os elementos móveis, que setorizam os ambientes, condicionam os fluxos e os diferentes pesos na hierarquia espacial, conforme sua necessidade. Conclui-se que a arquitetura aberta é regida então pela categoria de forma arquitetônica sistemática, conforme nomenclatura adotada por Colin (2000), caracterizada a partir da solução antecipada dos problemas propostos por um ou mais sistemas nela envolvidos: estrutural, espacial, instalações técnicas (esgoto, água, eletricidade, gás, ar- condicionado) e instalações físicas (mobiliário e equipamentos).

2.2 FLEXIBILIDADE - DA PLANTA LIVRE E DA MÁQUINA DE MORAR Á