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A força dos ventos que sopraram do Oeste Catarinense

CAPÍTULO II AS CEBs EM SANTA CATARINA

2.2 A força dos ventos que sopraram do Oeste Catarinense

Um fator relevante que deve ser compreendido entre os arrolados acima e que influenciou e fortaleceu a multiplicação de Comunidades Eclesiais de Base pela Igreja Católica de Santa Catarina foi o projeto pastoral da diocese de Chapecó, tendo a sua frente Dom José Gomes, no período de 1968 a 1998. É nesta diocese que se organizam os primeiros “Grupos de Reflexão”, assim denominados para se referirem às CEBs no contexto do regime militar e de inúmeros problemas que atingiam, sobretudo, a agricultura familiar no Oeste Catarinense.

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Um caso exemplar ocorreu na diocese de Tubarão. Um grupo de vinte estudantes do curso de Filosofia engajou-se no projeto “Igrejas Irmãs” e nenhum voltou

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Quando indico “Oeste Catarinense” estou me referindo às regiões do Oeste e Extremo Oeste do Estado cuja referência é a cidade de Chapecó, município pólo daquela grande região.

Nas décadas de 70 e 80, no entanto, o Oeste Catarinense conheceu profundas transformações econômicas, sociais e políticas. O início do processo de industrialização, baseada na agroindústria, e a crescente submissão da pequena produção à sua lógica, juntamente com o esgotamento da fronteira agrícola, determinaram uma profunda crise na produção agrícola tradicional, que caracterizava predominantemente a região (UCZAI et al, 2002, p. 175).

Nesse período a diocese de Chapecó passa a desenvolver um projeto de “formação de lideranças” na perspectiva de “organização do povo”. Um dos fatores deflagradores dessa opção certamente foi um acontecimento que mobilizou toda a população do meio rural naquela região, a denominada Peste Suína Africana denunciada pelo governo e seus órgãos de assistência técnica. Segundo Uczai et al (2002), esse episódio foi marcado por grandes contradições, cuja existência nunca foi realmente comprovada. E que, diante de algumas suspeitas da existência da peste, as propriedades eram interditadas e os suínos exterminados a tiros de fuzil por pelotões do exército e depois queimados em valas abertas por máquinas. Não eram poupadas as propriedades vizinhas. Relata ainda Uczai et al, (2002) que neste episódio, a diocese de Chapecó passou a destacar agentes de pastoral para acompanhar os casos de focos identificados e de extermínio de suínos, entrevistar envolvidos, fazer levantamento de dados e todo tipo de informação possível sobre o caso, além de prestar assessoria aos camponeses proprietários de suínos. Em síntese, a diocese passou a organizar os agricultores para protestar e resistir à consumação da matança de suínos. É importante enfatizar, de um lado, o papel de mediação da Igreja no conflito, ao prestar assessoria, mobilizar e organizar os camponeses. De outro, o fato de os camponeses mobilizados perceberem um inimigo comum, personificado no exército ao executar a dizimação dos suínos por determinação do governo. Estavam consolidadas as condições para a Igreja manter-se próxima dos camponeses e continuar seu trabalho através do projeto, da organização e multiplicação dos “Grupos de Reflexão”.

Em 1978 tive a oportunidade de estar um mês numa das paróquias desta diocese, onde acompanhei o trabalho de uma equipe de sujeitos religiosos junto aos Grupos de Reflexão. Eles desenvolviam o que se registraria mais tarde: “através dos grupos de reflexão, procurava-se constituir Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que na concepção da época, era uma tentativa de viver a totalidade da vida da Igreja: Fé, Cultura e Ação” (UCZAI et al, 2002, p. 147). A formação de Grupos de Reflexão consistia na grande estratégia para o sustento e desenvolvimento das CEBs.

Para evidenciar o seu significado no conjunto das dioceses do Regional Sul IV tomo o testemunho de dois de seus padres auxiliares: Os Grupos de Reflexão (CEBs) foram certamente

A menina dos olhos do modelo de evangelização de D. José. Surgidos em meados da década de 70, tiveram seu momento forte no final dessa década e naquela de 80. Eram um meio de educação popular substitutivo da educação bancária tradicionalmente adotada pela Igreja, também na Diocese de Chapecó em seu estágio de modernização com os cursos de Criatividade Comunitária. Repetidas vezes D. José, em seus sermões quaresmais enviados às comunidades, fazia referência aos grupos, principalmente nas suas introduções. Para trabalhar nesta “pastoral” específica, D. José convocou uma agente de pastoral exclusivamente para este ministério (...) que percorria as paróquias assessorando grupos. Os Grupos de Reflexão foram um detonador de Movimentos Sociais e organizações populares como, por exemplo, os movimentos dos Trabalhadores Sem Terra, das Mulheres Camponesas, o Sindicalismo Autêntico e outros. Foram um divisor de águas entre um modelo e outro de Igreja (UCZAI et al, 2002, p. 149)

Dada a importância da presença e o papel que teve Dom José Gomes na Igreja do Oeste e em Santa Catarina em diferentes iniciativas, sobretudo, no CIMI47 e na CPT, extraio um depoimento no qual ele apresenta sua compreensão do que representavam as CEBs nas décadas de 80 e 90:

Em entrevista ao Jornal Diário da Manhã, onde comenta a relação entre a Igreja e partidos políticos, define as Comunidades Eclesiais de Base da seguinte forma: As Comunidades Eclesiais de Base nascem e crescem resolvendo problemas da comunidade, orientadas pela palavra de Deus e na busca de solução para estes problemas acabam automaticamente se envolvendo com a política, no sentido amplo da palavra. Para tentar buscar soluções relacionadas à escola, preços, sindicatos, obrigam- se a envolver-se com a política, tanto na área agrícola quanto salarial e outras. (...) as CEBs estão dando consciência ao povo dos problemas e este por sua vez está começando a contestar. Daí elas são taxadas de subversivas, quando na verdade estão apenas pedindo justiça (UCZAI et al, 2002, p. 149).

A presença das CEBs atingiu todo Oeste e Extremo Oeste Catarinense, pois segundo o próprio D. José, “no primeiro ano havia apenas uns 1.200 grupos (na diocese) mas em dois anos passaram de 10.000. Hoje passam de 12.000 grupos de adultos que procuram ser cristãos comprometidos com Deus e com os irmãs na luta por um mundo melhor” (apud UCZAI et al, 2002, p. 153).

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O CIMI faz parte do conjunto das pastorais sociais da Igreja Católica, cujas dimensões de atuação são: terra, movimento indígena, alianças, formação a serviço da autonomia dos povos indígenas, educação, saúde, auto-sustentação, diálogo inter-cultural e inter-religioso e índios na cidade. Os objetivos desta atuação foram redefinidos em Assembléia Nacional no ano de 1995: “impulsionados (as) por nossa fé no Evangelho da vida, justiça e solidariedade e frente às agressões do sistema liberal, decidimos intensificar a presença e apoio junto às comunidades, povos organizações indígenas e intervir na sociedade brasileira como aliados (as) dos povos indígenas, fortalecendo o processo de autonomia desses povos na construção de um projeto alternativo, pluriétnico, popular e democrático” (disponível em www.cimi.org.br acessado em abril de 2008).

Este movimento originário da década de 70 vai se espraiando de Chapecó para outras regiões do Estado. É significativo, no bojo desse processo, a criação da “Romaria da Terra de Santa Catarina”, a partir de 1986, operando como um evento mediador, aglutinador de lideranças e participantes de CEBs de todo o Estado48. A presença da Igreja progressista de Chapecó em assembléias anuais, no “Conselho Regional de Pastoral” ou nos “encontros regionais de pastorais sociais” quase sempre realizados em Lages, dos quais sou testemunha, suscitava continuamente o debate caloroso sobre “o novo jeito de ser Igreja” em Santa Catarina. Isso, de um lado, encorajou, estimulou inúmeros sujeitos religiosos ou leigos de outras dioceses a sustentarem valores e práticas que iriam consolidar as Comunidades Eclesiais no Estado. De outro, nada aconteceu sem conflitos implícitos ou explícitos, inclusive geradores de oposições radicalizadas, como exemplarmente ocorria com a diocese de Joaçaba. Talvez esteja aí um aspecto para ser mais refletido quando na Igreja Católica de Santa Catarina se observa uma posição ambígua em relação às Comunidades Eclesiais de Base. Mas, não resta dúvida de que os dois princípios reconhecidos por Uczai e ai (2002) na orientação dos Grupos de Reflexão no Oeste Catarinense também estiveram presentes no desenvolvimento das CEBs pelo Brasil a fora: ou seja, “o de levar a comunidade a descobrir seus problemas, valores, e situações vividas; e o de possibilitar que os membros das comunidades assumissem as situações concretas e procurassem os meios de resolvê-las” (p.148). Nessa perspectiva é que se pode reconhecer a presença das CEBs no Oeste Catarinense.

Quando estas Comunidades se multiplicaram pelo Estado e tornaram-se objeto de análise e de inclusão no projeto regional, a denominação CEBs foi motivo de contendas, conflitos, mal-estar entre os bispos e outros sujeitos religiosos na Igreja Católica de Santa Catarina, o que provavelmente retirou a designação CEBs do linguajar daqueles sujeitos que já as compreendiam assim. Os conflitos persistem até agora49. Conseqüentemente cada diocese chamou para si o direito de nominar essas

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A primeira Romaria da Terra ocorreu em 1986, em Taquaruçu, município de Fraiburgo, um antigo reduto de remanescentes envolvidos na Guerra do Contestado (1912-1916), sendo agora ressignificada pela Comissão Pastoral da Terra, como um evento da primeira luta pela terra de Santa Catarina. A partir daquela data, todos os anos, no mês de setembro, é editada a Romaria em uma das dioceses do Regional Sul IV. Nos primeiros quinze anos o público participante nunca foi inferior a 20.000 pessoas.

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Segundo um informante, “hoje no Estado duas equipes de CEBs encontram-se organizadas. Há uma equipe ampliada de CEBs que existe desde o início da articulação das CEBs em Santa Catarina. E, agora, organizaram uma Equipe Estadual de Grupo de Família e de Reflexão. A organização desta última Equipe é um jeito que encontram para engavetar as CEBs” (G..R., 51 anos).

organizações por diferentes designações para referirem-se às Comunidades Eclesiais de Base assumidas desde o final da década de 197050.