Para sustentar a sua tese da única resposta correta a partir do direito como integridade, Dworkin novamente, tal como no exercício da coerência narrativa, propõe que podemos melhorar nossa compreensão do Direito comparando a interpretação jurídica com a interpretação em outros campos do conhecimento, especialmente a literatura90.
Recorre ao que chama de "hipótese estética": a interpretação de uma obra literária tenta mostrar que a maneira de ler (ou de falar, dirigir ou representar) o texto revela-o como a melhor obra de arte que ele pode ser. Mas ressalta que explicar uma obra de arte é diferente de transformá-la em outra91.
Ainda, uma interpretação não pode tornar uma obra de arte superior se trata grande parte do texto como irrelevante, ou boa parte dos incidentes como acidental, ou boa parte do estilo como desarticulada. A interpretação deve ser também sensível às opiniões do intérprete a respeito da coerência ou integridade na arte. Há, não obstante, espaço para muita discordância entre os críticos acerca do que considerar como integração, que tipo de unidade é desejável e qual é irrelevante ou indesejável92.
88 DWORKIN, 2007, p. 229
89 Ibid., p. 263-264.
90 DWORKIN, 2005, p. 217.
91 Ibid., p. 222-223.
92 Ibid., p. 223-224.
Além disso, a objeção maior contra a hipótese estética a acusa de ser trivial.
Ou: diferentes teorias da arte são geradas por diferentes teorias da interpretação e as opiniões das pessoas sobre o que constitui a boa arte são inerentemente subjetivas. Dworkin defende a teoria estética, porque não há uma distinção categórica entre a interpretação, concebida como algo que revela o real significado de uma obra de arte, e a crítica, concebida como avaliação de seu sucesso ou importância. Convicções valorativas figuram em ambos os julgamentos. É claro, afirma, que nenhuma afirmação estética importante pode ser "demonstrada" como verdadeira ou falsa, se é isso que significa dizer que juízos estéticos são subjetivos.
Mas não decorre daí que nenhuma teoria normativa sobre a arte seja melhor que qualquer outra, nem que uma teoria não possa ser a melhor que se produziu até o momento93.
Dworkin rejeita também a compreensão de que a interpretação corresponda à intenção do autor, ainda que esta não seja irrelevante. Se um romance é mais interessante e mais coerente quando supomos que os personagens têm motivos diferentes daqueles que o romancista pensou ao escrevê-lo, a causa disso deve encontrar-se, de algum modo, no talento do artista. Convicções posteriores não consistem nem se baseiam em nenhuma descoberta de uma intenção anterior, mas são produzidas ao se confrontar não o seu eu anterior, mas a obra criada por ele94.
É claro que as pessoas discordam quanto ao valor estético e, portanto, sobre quais obras são melhores que outras, sobre a justiça e outras virtudes políticas. É claro, também, no Direito, que "quanto maior é a complexidade social, tornam-se mais intensas as divergências entre as expectativas em torno do texto constitucional e varia mais amplamente o seu significado no âmbito da interpretação e aplicação"95.
Essas, porém, não são discordâncias em que um lado possa vencer com algum argumento irrefutável que todos devam aceitar. Para Dworkin, e isso ficará claro em Justice for Hedgehogs, não há nada a favor da objetividade de julgamentos
93 DWORKIN, 2005, p. 226-228.
94 Ibid., p. 231-233.
95 NEVES, Marcelo. A constitucionalização simbólica. 3ed. São Paulo: RT, 2011, p. 90.
morais, a não ser argumentos morais; nada a favor da objetividade dos julgamentos interpretativos, a não ser argumentos interpretativos e assim por diante96.
Quem defende uma determinada visão – que a escravidão é injusta, p.ex. – pensa ter argumentos a favor dessa visão, mas sabe que outros adotam uma visão contrária e que pode não ser capaz de convencê-los e que eles poderiam, inclusive, ser capazes de convencer-lhe se tivessem uma oportunidade decente para tanto97.
Dworkin sustenta que acha mesmo que a escravidão é injusta e que isso não é "apenas a sua opinião", mas que todos deveriam pensar assim e ter uma razão para se opor a ela. Para Dworkin, não é possível haver um argumento contra essa proposição moral que não seja, em si, um argumento moral98.
Questiona: "Como ele [um filósofo moral] pode acreditar que a escravidão é injusta e também acreditar que nenhuma proposição pode ser real ou objetivamente verdadeira?". Seria como um jogo: dentro de certo âmbito, produzimos argumentos e convicções de certa maneira, mas, se nos colocamos no lado de fora, sabemos que nenhuma proposição pode ser real ou verdadeira99.
Dworkin não vê que diferença a palavra "objetivamente" faz. "Objetivamente"
e "realmente" não podem mudar o sentido de julgamentos morais ou interpretativos.
Não haveria uma verdade transcendente ao empreendimento humano coletivo no qual estão inseridos os julgamentos morais, estéticos ou interpretativos100.
A verdade, para Dworkin, não é proposional, cartesiana. A verdade para questões interpretativas é, em si, interpretativa. Afirma exatamente isso Dworkin::
―Nós podemos resgatar os argumentos filosóficos sobre a natureza da verdade se nos pudermos entender verdade como um conceito interpretativo.‖101
96 DWORKIN, 2005, p. 257.
97 Ibid, p. 258.
98 Ibid, p. 260.
99 Ibid, p. 260.
100 Ibid., p. 261-262. Ronaldo Porto Macedo Jr. entende que "uma parte significativa das dificuldades para a correta compreensão do debate contemporâneo e das ideias de Dworkin reside nos preconceitos filosóficos que denominei neste livro de 'concepção absoluta do mundo', em particular em sua versão fisicalista. Em outras palavras, elas residem na pressuposição, muitas vezes quase inconsciente, de que tanto a objetividade quanto a verdade dependem da existência de uma concepção de mundo exterior como domínio garantidor da verdade das proposições jurídicas."
(MACEDO JUNIOR, Ronaldo Porto. Do xadrez à cortesia: Dworkin e a teoria do direito contemporânea. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 283)
101 DWORKIN, 2011, p. 173 (tradução livre): "We can rescue philosophical arguments about the nature of truth if we can understand truth as an interpretative concept."
E isso, como visto, não implica relativismo. ―A verdade é considerada não nos termos da adequação da teoria ao objeto, mas da coerência argumentativa dos pronunciamentos emitidos num dado contexto com pretensão de validade. Ou seja, um enunciado possui um valor de verdade.‖102
É assim que ―A resposta certa não é algo dado, mas construído argumentativamente.‖103 Construído argumentativamente em sua relação com o mundo e com os outros. Afinal, "o direito, para Dworkin, é uma prática interpretativa porque o seu significado enquanto prática social argumentativa é dependente das condições de verdade das práticas argumentativas que o constituem"104.
O argumento esteticamente melhor constitui a resposta correta. É nesse sentido que Dworkin assume a virada ontológica da hermenêutica e rejeita a
―dualidade de planos entre a filosofia e a prática‖105. Não há separação, mas mundo, um ―contexto intersubjetivo‖. Trata-se de outro paradigma106.