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4 DIREITOS FUNDAMENTAIS (JUSTIFICATION)

4.4 CONTEÚDO DOS DIREITOS SOCIAIS

4.4.1 Teoria da Igualdade

Falar sobre precedentes e falar sobre direitos sociais é inevitavelmente falar sobre direito à igualdade, valor que sustenta a convocação do Estado a agir positivamente, reduzindo, tal como objetiva o art. 3º da Constituição, as desigualdades.

440 MORAIS, Jose Luis Bolzan de. Estado Constitucional, Direitos Fundamentais: limites e possibilidades. Porto Alegre: TRF – 4ª Região, 2008 (Caderno de Direito Constitucional: módulo 5), p.

30.

441 SARMENTO, Daniel. A proteção judicial dos direitos sociais: alguns parâmetros ético-jurídicos.

SARMENTO, Daniel; SOUZA NETO, Cláudio Pereira de (coord.). Direitos Sociais: fundamentos, judicialização e direitos sociais em espécie. Belo Horizonte: Lumen Juris, 2008, p. 553-586, p. 566-567.

A demanda pela igualdade material442 exige do Estado que adote instrumentos que impulsionem os desavantajados – social, econômica, fisicamente – a um patamar de igualdade. São instrumentos que os tratem desigualmente na medida em que se desigualam: cotas sociais nas universidades, nas empresas, política de moradias, de tratamento tributário e, em um nível último, assistindo-os.

Dworkin, referência metodológica deste trabalho e, neste momento, referência material, ajuda a definir o direito à igualdade. Segundo Dworkin, a igualdade de consideração e respeito ("equal concern and respect") é a virtude soberana de uma comunidade política443. Este, aliás, é o fundamento axiológico da integridade.

Existiriam duas teorias acerca da igualdade distributiva. A primeira, chamada de igualdade de bem-estar, sustenta que um esquema distributivo trata as pessoas como iguais (o que é diferente de tratá-las igualmente) quando distribui ou transfere recursos entre elas até que nenhuma transferência seguinte possa deixá-las mais iguais em bem-estar. A segunda teoria, que adota, chamada de igualdade de recursos, sustenta que isso acontece quando nenhuma transferência futura possa deixar as suas parcelas na totalidade de recursos mais igual444.

Sob a igualdade de bem-estar, as pessoas decidem que tipo de vida querem, independentemente da relevante informação do quanto as suas escolhas irão reduzir ou aumentar a capacidade dos outros para ter a vida que querem; esse tipo de informação torna-se relevante apenas no momento político em que os administradores verão, após reunir as escolhas feitas, a distribuição necessária a atendê-las. De acordo com a igualdade de recursos, no entanto, as pessoas decidem o tipo de vida a seguir num contexto de informações sobre o custo real que

442 Há tempos, aliás, diz-se que a igualdade jurídica não é meramente formal, mas substancial (material). Obviamente: "o Direito Constitucional Emancipatório, comprometido até a raiz com a dignidade da pessoa humana, não deve persistir no conceito estático e formal de igualdade; bem pelo contrário, cumpre a ele propugnar por uma fórmula jurídica do principio da igualdade na qual o escopo precípuo é, através da desigualação positiva, promover a igualação jurídica efetiva." (CLÈVE, Clèmerson Merlin; RECK, Melina Breckenfeld. As ações afirmativas e a Efetivação do Princípio Constitucional da Igualdade. A & C Revista de Direito Administrativo e Constitucional. Ano 3, n.

11, jan/mar 2003. Belo Horizonte: Fórum, 2003)

443 DWORKIN, Ronald. Sovereign Virtue: the theory and practice of equality. Cambridge: Harvard University Press, 2000, p. 1.

444 Ibid., p. 12.

suas escolhas impõem a outras pessoas e, consequentemente, sobre o estoque total de recursos que pode, de forma justa, ser usado por eles445.

Sustenta, com base nesta segunda hipótese, que as pessoas com deficiências físicas ou mentais devem ter recursos extras como compensação446. É que as pessoas com deficiência também têm diferentes concepções de bem-estar, que podem ou não estar referidas a sua deficiência. Uma comunidade, exemplifica Dworkin, pode entender justo conceder uma certa quantia à pessoa com deficiência a fim de que esta tenha acesso a alguma tecnologia que possa minimizar os obstáculos que enfrenta, mas não acharia tão justo conceder essa mesma quantia se a pessoa com deficiência optasse por gastar o dinheiro com um violino, hobby que, na sua concepção de bem-estar, o deixaria mais feliz que a nova prótese.

Para Gargarella, o liberalismo igualitário de Dworkin afirma que se deve distinguir entre "personalidade" e as "circunstâncias" que cercam cada um, igualando as pessoas em suas circunstâncias e permitindo que os indivíduos se tornem responsáveis pelos resultados de seus gostos e ambições. Dworkin é, nesse sentido, mais sensível aos dons e às ambições de cada um447.

Dworkin é um racionalista, porque acredita na integridade, mas isso não significa que seja metafísico, pois insere o seu Hércules no mundo – uma comunidade de princípios –, um mundo que assujeita, sim, mas em que o sujeito deve sempre buscar a estética de si, uma vida boa e viver bem, que não é só para si, mas é também "com", ética e moral, portanto. É um liberal, porque acredita que os indivíduos devem ser responsáveis por construir os seus próprios projetos, mas é igualitário, porque entende que todos devem ser tratados com igual respeito e consideração nesse projeto e, caso haja algum fator de desigualdade de oportunidades, deve-se garantir-lhes esse patamar.

Trata-se de um conceito forte de igualdade. Assim, "uma defesa consistente do igualitarismo está intimamente conectada à defesa da liberdade, da autodeterminação individual, pois somente assim o sujeito poderá levar adiante a vida que escolher."448

445 DWORKIN, 2010, p. 69.

446 Ibid, p. 59-62.

447 GARGARELLA, Roberto. As teorias da justiça depois de Rawls: um breve manual de filosofia política. Trad. Alonso Reis Freire. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008a, p. 65-66.

448 GODOY, 2012, p. 65. (PERLINGIERI, 2008, p. 497)

Se há, como propõe Dworkin, unidade de valor, a igualdade constitui um

"todo indissociável do ordenamento jurídico unitário e se impõe ao legislador na sua integralidade"449. Não apenas ao legislador, mas ao juiz também, que deve atentar às suas violações.

Entre nós, Celso Antônio Bandeira de Melo desenvolveu uma teoria sobre igualdade, salientando a importância de se investigar o critério discriminatório e se há uma justificativa racional – abstrata e, também, concreta – para que este sirva de fundamento lógico para um tratamento desigual450. Nos casos de violação ao princípio da isonomia, sustenta Moro, quando se outorga privilégio contrário ao princípio da igualdade, bastaria estender o beneficio ao grupo arbitrariamente excluído451.

A igualdade é, assim, princípio essencial à construção do direito à assistência, seja por compensar desvantagens sofridas por determinados grupos por condições que lhe são involuntárias, seja por implicar a necessidade de recurso à analogia quando as medidas para compensar essa desvantagem não foram oferecidas a todos aqueles que poderiam ter sido objeto do mesmo discrímen.

Sendo o direito à assistência especialmente vocacionado à promoção da igualdade (de recursos), a conformação daquele depende do cuidado desta. Trata-se, afinal, de uma unidade.