4 DIREITOS FUNDAMENTAIS (JUSTIFICATION)
4.4 CONTEÚDO DOS DIREITOS SOCIAIS
4.4.3 Mínimo Existencial
Para Barroso, a dignidade da pessoa humana está intrinsecamente ligada ao mínimo existencial:
[…] dignidade da pessoa humana expressa um conjunto de valores civilizatórios incorporados ao patrimônio da humanidade. O conteúdo jurídico do princípio vem associado aos direitos fundamentais, envolvendo aspectos dos direitos individuais, políticos e sociais. Seu núcleo material elementar é composto do mínimo existencial, locução que identifica o conjunto de bens e utilidades básicas para a subsistência física e indispensável ao desfrute da própria liberdade. Aquém daquele patamar, ainda quando haja sobrevivência, não há dignidade. O elenco de prestações que compõem o mínimo existencial comporta variação conforme a visão subjetiva de quem o elabore, mas parece haver razoávelconsenso de que inclui renda mínima, saúde básica educação fundamental. Há, ainda, um elemento instrumental, que é o acesso à justiça, indispensável para a exigibilidade e efetivação dos direitos.476
Também no direito civil, fala-se na garantia de um patrimônio mínimo477, sustentando Fachin que não se confunde patrimônio com o propriedade, devendo inverter-se o locus das preocupações do direito, para centrá-las na pessoa concreta, abandonando a postura patrimonialista vigente478. Segundo ele, o mínimo não deve ser considerado o menor valor, mas um equilíbrio:
476 BARROSO, 2003, p. 335-336.
477 FACHIN, Luiz Edson. Estatuto Jurídico do Patrimônio Mínimo. 2ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 1, que fala especificamente em "patrimônio mínimo", fundado no princípio da dignidade humana: "Trata-se de um patrimônio mínimo mensurado consoante parâmetros elementares de uma vida digna e do qual não pode ser expropriada ou desapossada. Por força desse princípio, independente de previsão legislativa específica instituidora dessa figura jurídica, e, para além de mera ímpenhorabilidade como abonação, ou inalienabilidade como gravame, sustenta-se existir essa imunidade juridicamente inata ao ser humano, superior aos interesses dos credores."
478 Ibid., p. 44.
Tal mínimo é valor e não metrificação, conceito aberto cuja presença não viola a ideia de sistema jurídico axiológico. O mínimo não é menos nem é ínfimo. É um conceito apto à construção do razoável e do justo ao caso concreto, aberto, plural e poroso ao mundo contemporâneo479.
Extrai-se o direito ao mínimo existencial do objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de "erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais" (art. 3º, III).
Ricardo Lobo Torres anota que decorre também de algumas imunidades contra a incidência de tributos (art. 5º, XXXIV, LXXII, LXXIII, LXXIV, art. 154, § 4º, etc.), no art. 6º, marcando a jusfundamentalidade dos direitos sociais, e também na vinculação de receitas às despesas com educação, saúde, pobreza etc.480
Em sua dimensão negativa, realiza-se por imunidades fiscais; em sua dimensão positiva, realiza-se pela entrega de prestações de serviço público gratuito, subvenções e auxílios a entidades filantrópicas, entrega de bem público481.
Para além dessas previsões abstratas, como se viu, muito do seu conteúdo provém das Cortes.
O Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, aliás, é o mais festejado nesse aspecto, fundando o direito ao mínimo existencial na dignidade humana, na cláusula do Estado Social e no princípio da igualdade, como visto no caso acima citado por Alexy e no caso da reforma do "Hartz IV". O direito à assistência social, aliás, foi expressamente reconhecido como o "mínimo para uma existência digna"482.
A Suprema Corte dos Estados Unidos também já fez expressa referência ao princípio, falando em "minimum protection", em casos de tributos e taxas confiscatórias, além de decisão denegatória de benefícios previdenciários e serviços médicos a não residentes483.
O mínimo existencial conforma a dignidade, inserindo-se no conteúdo de cada direito social (à saúde, à assistência social, à moradia), mas não é, contudo,
479 FACHIN, 2006, p. 280-281.
480 TORRES, 2009, p. 9.
481 Ibid, p. 117.
482 Ibid, p. 64-65. Citando a decisão BVerfGE 40, 121 (133).
483 Ibid., p. 66-67. Citando as decisões Shapiro v. Thompson (394 U.S. 618, 1969); Memorial Hospital v. Maricopa County (415 U.S. 250, 1974)
um conteúdo fixo. Está condicionado espacial e temporalmente. Alexy, por exemplo, entende que o mínimo só é aferível por comparação484.
Segundo Torres, o problema do mínimo existencial confunde-se com o próprio problema da pobreza485. Os pobres, conforme conceito assumido pelo Ministério do Desenvolvimento Social, são aquelas famílias com renda de até ½ salário mínimo per capita, enquanto indigentes, de até ¼ do salário mínimo486.
Ou seja, no tocante ao benefício assistencial, como se verá, este tem como destinatário legal apenas o indigente, quando deveria abranger, pelo menos, também os pobres. Houve, portanto, um nivelamento por baixo dos destinatários do direito.
As garantias fisiológicas não são a única aspiração humana, de modo que o conteúdo do mínimo existencial abrange um conjunto de garantias materiais para uma vida condigna. O mínimo não é meramente vital.
Como adverte Marcus Orione Correia, "A nós é dado existir na perspectiva de uma sociedade de consumo. Somos cidadãos/consumidores. Aos pobres, apenas a cidadania no sentido da sobrevivência a partir dos mínimos".
Não há liberdade para essas pessoas, que passam a viver a partir de expectativas bastante reduzidas em relação ao papel que deve ser por elas cumprido no mundo. "Um papel sub-humano, já que desejamos delas que, quando muito, apenas se utilizem dos benefícios sociais para 'comer' e nada mais."487
A existência que deve ser garantida por este mínimo não é, então, apenas uma experiência física, mas também espiritual e intelectual, "aspectos fundamentais em um Estado que se pretende, de um lado, democrático, demandando a
484 ALEXY, 1997, p. 414.
485 TORRES, 2009, p. 17.
486 BALERA, Wagner. Sistema de seguridade social. 4ed. São Paulo: LTr, 2006, p. 116. No que diferem dos indigentes: "A linha de indigência é definida pela renda necessária para atendimento das necessidades calóricas mínimas de um indivíduo. A linha de pobreza é calculada como um múltiplo da linha de indigência, considerando a renda necessária para o atendimento de outras necessidades básicas mínimas, como vestuário, habitação e transportes. Pobres serão aqueles de renda inferior ao estabelecido na referida linha e não-pobres serão aqueles de renda superior." (MORO, Sérgio Fernando. Questões controvertidas sobre o benefício assistencial. In: ROCHA, Daniel Machado, et.
al. Temas atuais de Direito Previdenciário e assistência social. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, P. 143-160, p. 146-147)
487 CORREIA, Marcus Orione Gonçalves. Interpretação dos Direitos Fundamentais Sociais, Solidariedade e Consciência de Classe. In: CANOTILHO, J. J. Gomes; CORREIA, Marcus Orione Gonçalves; CORREIA, Érica Paula Borcha (coord.). Direitos fundamentais sociais. São Paulo:
Saraiva, 2010, p. 111-172, p. 125.
participação dos indivíduos nas deliberações públicas, e, de outro, liberal, deixando a cargo de cada um seu próprio desenvolvimento"488.
É preciso compreender que a pessoa pobre necessita mais do que matar fome. Enfaticamente:
Se está fazendo frio, precisa comprar um agasalho ou um cobertor. Se a telha ou a porta de sua casa estão avariadas, é preciso consertá-las. Se um filho ficou doente, é preciso comprar remédio com urgência. Se é o dia de aniversário de uma filha, é possível que a mãe queira lhe dar de presente um par de sapatos489.
Deve-se ter o cuidado, portanto, de não servir o mínimo de subterfúgio para uma proteção deficiente ou aquém do possível. Ou seja: garantir o mínimo pode ser um pretexto para garantir pouco, quando se poderia garantir mais. Mas ele é, sim, um conceito necessário: "Para quem vive no absoluto desamparo e ignorância, a distância que o separa da dignidade, ainda que em seu próprio conteúdo mínimo, é todo o caminho de volta à sua própria humanidade."490
As garantias fisiológicas não são, assim, a única aspiração humana, como pondera Agamben, ―o sentimento último de pertencimento à espécie não pode ser, em nenhum caso, uma dignidade.‖491
Álvaro de Souza Cruz também sustenta a necessidade de uma garantia mínima de comida, educação e saúde para viabilizar qualquer participação na sociedade.
Anota o autor a discussão sobre o fundamento do mínimo existencial a partir da ponderação de valores (Ricardo Torres) e no grau de essencialidade, invocando,
488 BARCELLOS, 2008, p. 230. Chega a ser lugar-comum a quantidade de vezes que a advertência aparece na doutrina. Com autoridade: "Uma democracia não se constrói com fome, miséria, ignorância, analfabetismo e exclusão. A democracia só é um processo ou procedimento justo de participação política se existir uma justiça distributiva no plano de bens sociais" (CANOTILHO, 2008, p. 252) E Sarlet, que se refere ao mínimo sociocultural: "o mínimo existencial abrange não apenas a garantia da sobrevivência física (o que significaria a redução do mínimo existencial a um mínimo vital) quanto abarca o que se convencionou designar de um mínimo existencial sociocultural (e mesmo, como já se sustenta mesmo entre nós, de um mínimo existencial ecológico ou ambiental), incluindo, portanto, o direito à educação e, em certa medida, o próprio acesso a bens culturais." (SARLET, 2012, p. 320)
489 SUPLICY, Eduardo. Da Renda Mínima à Renda Básica no Brasil. CORREIA, Marcus Orione Gonçalves; CORREIA, Érica Paula Bacha. Direito previdenciário e Constituição. São Paulo: LTr, 2004, p. 70-103, p. 88-89. Defende há muito em sua atuação política a renda mínima, a fim de estimular o trabalho, como um imposto de renda negativo, de forma que a renda obtida pelo trabalho sempre será superior à renda do benefício. (Ibid, p.79-93)
490 BARCELLOS, Op. cit., 2008, p. 355.
491 AGAMBEN, 2008, p. 98.
porém, a noção de contingência e a estrutura do Direito como subsistema social na concepção de Luhmann (com correções de Habermas, vislumbrando a noção de mínimo social já dentro da argumentação moral), a fim de garantir as condições materiais para a participação, salientando que toda sociedade possui um mínimo de recursos que viabilize a existência física/orgânica das pessoas492.
Desse modo, o conteúdo do mínimo existencial abrange um conjunto de garantias materiais para uma vida digna. Trata-se de um limite histórico que funda também a assistência social. A fronteira entre o que deve ser considerado básico ou essencial e o que se pode reputar adicional ou acidental, será sempre uma fronteira móvel, histórica e aberta493. Aliás, todos os conceitos – mínimo existencial, dignidade e mesmo a noção de igualdade – necessitam ser constantemente refundados.
Ana Paula de Barcellos, ao sustentar que o mínimo corresponde exatamente ao núcleo essencial da dignidade, traz uma imagem interessante: a de dois círculos concêntricos.
O círculo interior cuida do mínimo da dignidade. O espaço entre o círculo interno e o externo será ocupado, segundo ela, pela deliberação política, a quem caberá, para além do mínimo existencial, desenvolver a concepção de dignidade prevalente em cada momento histórico494. Sustenta-se, aqui, que mesmo o primeiro círculo é expansivo e que não apenas à deliberação política representativa cabe preencher os espaços, mas também à jurisdição constitucional e seu papel de intérprete da comunidade de princípios historicamente situada.