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A história da revolução científica

No documento tese (páginas 33-56)

Desde o início da modernidade a discussão da episteme (conhecimento verdadeiro) é centrada na ciência e no tipo de conhecimento que ela produz. A ênfase da filosofia moderna na questão do conhecimento, de seu fundamento, seus obstáculos e suas possibilidades, é indissociável do nascimento da ciência moderna. Esse evento, fundamental para nossa cultura, é o principal objeto de estudo da história e da sociologia da ciência, que vêm se desenvolvendo como campos de estudo e acumulando uma intensa discussão metodológica. Antes de tratarmos da fundamentação baconiana da técnica como ciência, devemos retomar alguns aspectos desta discussão, mapeando divisas e posições que nos ajudarão a situar nossa perspectiva.

I – A historiografia da ciência e seus clássicos.

O surgimento da ciência moderna, suas causas e seu significado foram interpretados de diversas maneiras. A novidade da ciência moderna já foi caracterizada por seu método, pelas mudanças culturais da Europa, como quebra da noção autoridade da tradição, dissolução do feudalismo e da unidade da visão de mundo cristã, pela descoberta de novos fenômenos, mas é sob a imagem da revolução científica que ela tem, entre nós, sua imagem mais difundida. De certa forma, a revolução científica é um dos mitos de origem da modernidade, que caracterizaria muitos dos nossos modus vivendi

Essa imagem do surgimento da ciência moderna como revolução científica é uma reconstrução do final do século passado que, pelo menos até a metade do nosso, foi

crescentemente utilizada, ainda que como representação de coisas bem diferentes.1 Seu esboço foi iniciado em History of the inductives sciences (1837) na qual Whewell, que também cunhou o termo ‘cientista’, busca compreender o progresso da ciência a partir de seu rompimento com a passado medieval. Comte, Mach, Duhem, entre outros, desdobram e estendem o conceito.2 No entanto, foi Koyré o grande responsável por precisar o conceito e difundi-lo. Seus Études Galiléennes descrevem a transformação radical que ocorre na história da ciência, transformação esta que não teria sido menos revolucionária por ter sido longamente preparada. Ou seja, ainda que tivesse suas origens na alta idade média, o conhecimento científico, por uma série de razões, passa, segundo sua interpretação, por transformações radicais por volta de 1600, quando se substitui a concepção grega e medieval, que via o Cosmos como algo qualitativo, fechado, intencional, contendo uma finalidade e sentido, pela concepção de espaço infinito, homogêno (sem qualidades) e preciso (matematizável), como o da geometria euclidiana.

O conceito de revolução, na formulação inicial de Koyré, não denotava tanto um período histórico ou determinados eventos, mas uma série de mudanças teóricas. De maneira brilhante, suas análises mostram como a matematização da física, a geometrização do espaço e a unificação dos mundos infra e supra lunar constituíam o cerne da nova visão de mundo. Koyré fora influenciado pela obra de Burt, The metaphysical foundations of modern physical sciences (1924), a qual buscava explicar a

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É verdade que pensadores e ‘cientistas’ do início do século XVII se viam como modernos e tinham consciência de estar rompendo com a tradição. Porém. as razões que apontam para justificar suas diferenças frente ao antigos são bem distintas das apresentadas pelos historiadores da revolução copernicana. A teoria copernicana, por exemplo, não tinha na época o significado que passou a ter quando o heliocentrismo foi tomado como verdade científica.

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“Whereas Comte believed that positive science limits itself to relations among visible features of the world, Whewell presented a conception of science, ultimately Kantian’s inspiration, according to which ideas supplied by the mind interact with factual data supplied by the senses in a dialectical process that

matematização como um reducionismo da ciência moderna. Também Butterfield, responsável por outro estudo largamente difundido (The origins of modern science),3 considera, como Koyré, a revolução científica como uma nova maneira de se olhar antigos fenômenos. Mas estende largamente a duração do período de mudanças tratado por Koyré. Estas duas perspectivas tiveram o grande mérito de se opor a uma abordagem positivista, até hoje impregnada no senso comum e até mesmo em certos círculos acadêmicos, que considera a história da ciência como um progressivo desenvolvimento graças à acumulação de fatos e de novas descobertas.

Mas, como diversas análises da reconstrução desse evento acabaram deixando claro, a interpretação de Koyré restringia a revolução científica - senão a própria ciência- aos campos da física matemática e astronomia, deixando de lado o que aí não se encaixava.4 Assim, o magnetismo, a química, as ciências da vida, a geografia,5 isto sem leads to scientific knowledge” (Lindberg, “Conceptions of the scientific revolution from Bacon to Butterfield: a preliminary sketch” In: Lindberg & Westman,1990, 11).

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The origins of Moderns Science trata da revolução científica como uma decisiva mudança na cultura, que “overturned the authority in science not only of the middle ages but of the ancient world since it ended not only in the eclipse of scholastic philosophy but in the destruction of Aristotelian physics – it outshines everything since the rise of Christianity and reduces the Renaissance and Reformation to the rank of mere episodes, mere internal displacements, within the system of medieval Christendom. Since it changed the character of men’s habitual mental operation even in the conduct of non-material sciences, while transforming the whole diagram of the physical universe and the very texture of human life itself, it looms so large as the real origin both of the modern world and of the modern mentality that our customary periodisation of European history has become an anachronism and an encumbrance” (Butterfield, 1949, 8).

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“...a ciência moderna, de Copérnico a Galileu e a Newton, conduziu sua revolução contra o empirismo estéril dos aristotélicos, revolução que se fundamenta na convicção profunda de que as matemáticas são mais do que um meio formal de ordenar os fatos, constituindo a própria chave da compreensão da natureza” (Koyré,1982,73).

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“Were we to judge from the attention given by historians of science, Ptolemy’s influence on the intellectual life of the Renaissance was exercised chiefly through his Almagest... If we look at the priorities of the time a very different picture emerges. The popular identification of Ptolemy was perhaps even more as a geographer than as an astronomer, though in truth it is rather the case that the two roles were closely intertwined and embedded in a much broader subject domain. Even the pattern of publication indicates an enormously greater interest in Geographia than in Almagest. Although Almagest was recovered in the West through manuscript translation into Latin considerably before Geographia (Almagest in the twelfth century, Geographia at the beginning of the fifteenth) their more widespread impact through printed versions, and the pattern of interest and demand indicated by the succession of editions, reveal different priorities. The first printed edition of Almagest appeared in 1515, whereas from as early as 1475 there is a bewildering succession of editions of Geographia, through the late fifteenth and sixteenth centuries, at least twelve of them published before the first Almagest” (Bennett, 1998,202).

falar em importantes atividades técnicas como a navegação e a mineração, foram relegados ao campo das questões secundárias. Um exemplo ilustrativo de deturpação histórica está, a nosso ver, na centralidade que a astronomia ocupa nestas reconstruções do surgimento da ciência nos séculos XVI e XVII e da visão de mundo moderna, deixando na sombra atividades como a navegação que envolviam uma ampla rede de pessoas, saberes e interesses, com implicações culturais mais imediatas e profundas.6

Contudo desde que tais estudos foram divulgados, vários outros historiadores tentaram assim recompor este quadro explicativo investigando outros elementos, e quase sempre tendo o período que vai de Copérnico até Newton como solo comum. Novas pesquisas foram acrescentando uma série de informações sobre as diferentes influências culturais, suas atividades e interrelações com as sociedades da época, tornando bem mais complexa a imagem que então se tinha. Dentre as mais notáveis contribuições estão, a nosso ver, as de Westfall, incorporando a química e as ciências da vida; Webster, abordando as mudanças na medicina; Yates, Rossi e Debus, revelando a importância do hermetismo e da alquimia.7

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Embora fosse uma ciência com longa tradição, a astronomia era um saber praticamente restrito às controvérsias sobre o calendário, e passa tempo de cortesãos. E mesmo seus mais ousados empreendimentos, com o observatório de Ticho, envolviam não mais que uma dezena de ajudantes.( Cf. Harris, 1998: Biagioli, 1993; Shapin, 1996).

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Entretanto, estas inclusões eram muitas das vezes conflitantes e, além disso, foram exigindo que se estendesse o período da Revolução de maneira que acabava por diluí-lo. Uma ruptura que se delonga por séculos , digamos do XIII ao XVII, perde sua força de impacto, já que a imagem de um longo processo acaba por se mostrar muito mais pertinente. Além disso, houve, como observa Biagioli, uma profissionalização e especialização internas da historiografia da ciência e uma mudança de exigências dentro da comunidade acadêmica. “What we find is that the scientific revolution has not been deconstructed conceptually, but has fallen by the wayside, largely ignored by a new generation of historians busy at analyzing specific and previously unstudied aspects, actors and actresses of early modern science.” Ou seja, embora os estudos sobre a revolução científica e sobre os pais da ciência moderna tenham sido cruciais para o estabelecimento da disciplina e da profissão, narrativas como a de Koyre não mais preencheriam os padrões acadêmicos. “Still revered as quasi-sacred, Koyre’s works are no longer presented as exemplars for young professional historians to imitate. The bureaucratic, academic standards that have evolved alongside the professionalization of our discipline have made Koyré look outdated not so much because of the specific content of his interpretations, but because of is grand historiographical style. What has changed is our ‘form of life’, not just our interpretive dispositions”(Biagioli,1998, 8).

Até que ponto houve realmente uma revolução na ciência no século XVII é uma questão ainda em aberto.8 Tanto a ruptura quanto a reconstituição de continuidades (que notam elaborações prévias equivalentes a partir do século XII), são apontadas em diferentes aspectos: racionalidade, método, modelos, visão de mundo, fatos descobertos, instrumental, práticas, instituições, estruturas sociais e econômicas, demandas culturais etc. Conforme se detenha sobre alguns desses aspectos, sejam métodos, conceitos ou experimentos, se realiza o que costuma ser considerada de história internalista, ao passo que, quando se focaliza os determinantes econômicos, as tecnologias, as estruturas sociais e os acontecimentos políticos e ambientes culturais (religião e artes, por exemplo), se faz o que se chama de história externalista. A diferença entre estas duas abordagens marcou uma longa disputa na história da ciências.9

As argumentações básicas de uma e de outra abordagem são, de maneira resumida, as seguintes. Os internalistas consideravam a ciência como uma instância que, diferentemente das outras atividades humanas, tem uma maior autonomia em relação às determinações sócioculturais, e que, portanto, a história da ciência deveria se ater ao que lhe é específico, ou seja, seu desdobramento interno, como teorias, experiências, conceitos, que interagem e explicam suas mudanças. Assim, Koyré mostrara como um estudo aprofundado do sistema teórico, por exemplo de um Galileu, independentemente do que a sociedade de sua época tinha condição de entender ou

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O título e o início do recente livro de Shapin ( The scientific revolution,1996) ilustram isto bem : “There was no such thing as the Scientific Revolution, and this is a book about it. Some time ago, when the academic world offered more certainty and more comforts, historians announce the real existence of a coherent, cataclysmic, and climactic event that fundamentally and irrevocably changed what people knew about the world and how they secured proper knowledge of that world....Many historians are now no longer satisfied that there was any singular and discrete event, localized in time and space, that can be pointed to as ‘the’ Scientific Revolution. Such historians now reject even the notion that there was any single coherent cultural entity called ‘science’ in the seventeenth century to undergo revolutionary change” Seja como for, alguns dos historiadores aos quais Shapin se refere têm tentado, como de certa forma ele próprio, retomar narrativas heurísticas ( Cf. Dear, 1998).

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ainda do que, aos olhos de hoje, parece errado, pode explicar uma série de desenvolvimentos da ciência passada. Não é necessário dizer que a leitura filosófica, conquanto interessada em idéias, argumentos e conceitos, sempre se inclinou para este tipo de abordagem, no qual formulações são interpretadas muitas vezes longe do contexto da época em que a obra foi elaborada.10

Para os defensores da perspectiva externalista, por outro lado, são os fatores extra-científicos ou sócioculturais que direcionam a atividade científica. Ainda que admitam uma certa autonomia, ela não é vista como determinante para a compreensão - ou tão importante para a explicação- das demandas, motivações, direções e dinâmica do desenvolvimento científico. Nessa perspectiva, fatores econômicos e religiosos seriam os que maior peso tiveram na revolução científica do século XVII ou, ao menos, os que mais detiveram a atenção dessa abordagem historiográfica.

A importância que a igreja tinha na estrutura social e que a teologia -“a rainha das ciências”- tinha na hierarquia dos saberes da época fazem da relação entre ciência e religião o principal objeto de estudo dos historiadores externalistas e culturalistas.11 A condenação da igreja católica de várias hipóteses científicas e a de alguns de seus defensores, juntamente com a percepção de que o sistema copernicano e a visão mecanicista do universo contradiziam dogmas católicos foram durante muito tempo interpretados como um claro sinal de que o catolicismo fora um obstáculo ao nascimento da ciência moderna. Portanto, os países europeus nos quais a igreja católica perdera terreno para o protestantismo, como na Inglaterra e Holanda, teriam tido, segundo este esquema interpretativo, um campo mais aberto à transformação de idéias e comportamentos, que não tiveram lugar em Portugal e na Espanha, para citar alguns.

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Merton, na esteira de Weber, defendeu que a ética protestante foi um fator decisivo não só para formação do espírito capitalista, mas particularmente para o desenvolvimento da ciência nestes países. Os valores comungados pelos puritanos, por exemplo, a ênfase na justificação através das obras e na direta comunhão com Deus através da natureza, teriam incentivado o interesse pela ciência, em seus aspectos experimental, instrumental e utilitário que a caracterizam no século XVII. Há, de fato, muitas semelhanças entre o ‘ascetismo intramundano’ nas atividades experimentais e as justificações utilitaristas dos cientistas da Royal Society,12 além do que, a proporção de protestantes entre os cientistas era bem maior do que no conjunto da população inglesa. A tese de Merton teve um grande impacto13 e foi depois desdobrada por vários outros autores, como Jones (1965), Webster (1976) e Hill (1992). Contudo, uma série de estudos White (1978), Hooykaas (1988), Popkin (1985), Funkenstein (1986) mostram que o religião católica não fora sempre obstáculo à nova visão de mundo. Diferentemente, para eles a visão de mundo bíblica em seu conjunto trouxera elementos vitais ao surgimento da ciência moderna.

Embora a relação da ciência moderna com o protestantismo tenha ficado célebre com a tese de Merton, ela era apenas uma entre as expostas em seu livro Ciência, tecnologia e sociedade no século dessessete.14 A outra era uma versão da historiografia

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Embora haja também diversos estudos de histórias das idéias religiosas e científicas, como o de Funkenstein, que, adotando esta classificação, são claramente internalistas.

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“The formal organization of values constituted by Puritanism led to the largely unwitting furtherance of modern science. The Puritan complex of a scarcely disguised utilitarianism; of intramundane interests; methodical , unremitting action; thoroughgoing empiricism; of the right and even the duty of libre

examen.; of anti-traditionalism –all this was congenial to the same values in science. The happy marriage

of these two movements was based on an intrinsic compatibility and even in the nineteenth century, their divorce was not yet final” (Merton,1970, 136).

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I.B Cohen (1990) analisa esta repercussão em seu artigo introdutório ao volume por ele editado:

Puritanism and the Rise of Modern Science. The Merton Thesis. Vale acrescentar que diversos programas

de pesquisa nos países de língua inglesa adotam como legenda o título do livro de Merton: Science,

Technology and Society.

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Justiça seja feita, Merton afirmara em várias circunstâncias que outros fatores poderiam também ter conduzido de forma equivalente à inclinação científica. Floris Cohen, ponderando sobre as diferentes

marxista que buscava compreender o desenvolvimento da ciência pelos determinantes sócio econômicos.15 Fugindo do esquematismo de alguns de seus antecessores, Merton procura documentar como a situação econômica e demandas da mineração, transporte e atividades militares influenciaram fortemente a atividade científica da Inglaterra seiscentista.16

Ao enfocarem as determinações externas para as motivações e interesses da comunidade científica, análises como as de Merton deixavam à margem as atividades práticas dos cientistas (suas experiências, invenções e argumentações) como uma esfera relativamente autônoma. O que acaba por reforçar a separação entre as abordagens internalistas e externalistas. Entretanto, essa dicotomia foi de certa maneira colocada em cheque por aqueles que buscavam examinar aspectos que não se reduziam exclusivamente a nenhum de seus pólos, como as instituições científicas, mecanismos psicossociais da prática científica e processos de legitimação social. Kuhn, por exemplo, procurou superar esta dicotomia em duas frentes: a primeira com a análise de mecanismos de poder institucional, e a segunda, mais tardiamente, com a postulação que diferentes tipos de ciências tem diferentes inserções sociais e interações culturais. Deixemos esta segunda para ser tratada mais a frente, quando estivermos discutindo a críticas a tese de Merton, escreve aquela que nos parece a conclusão mais sensata para a referida polêmica. “Although there have undoubtedly been specific networks of scientists with strongly similar religious convictions and motivations in specific areas and during specific periods, the Scientific Revolution, when taken as a whole, was simply too variegated an event to allow for any overall explanation through the dominant contribution of any specific denomination of Christian belief.”(Cohen, 1994, 319)

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O caso clássico na história da ciência é “The social and economics roots of Newton’s ‘Principia’” de Boris Hessen, segundo o qual os Principia constituiriam uma investigação e resolução sistemáticas de todo o grupo principal de problemas físicos com que se defrontavam o transporte, a comunicação, a indústria e a artilharia da época. Sem dúvida, uma melhor representante desta historiografia marxista da ciência é a obra de Bernal, Science in history.

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Merton procurou mostrar como as pesquisas iniciais da Royal Society estavam relacionadas a necessidades sócioeconômicas, e longe da ciência pura. Isto foi em boa parte desmentido quando as pesquisas históricas aprofundaram o exame dos debates entre os membros da Royal Society (Keller, 1993,80).

questão da unidade e diversidade de estilos, e vamos nos deter um pouco sobre a primeira abordagem, que seguramente teve mais impacto na filosofia e na historiografia da ciência.

II – As contribuições de Kuhn e de seus herdeiros

As análises de Kuhn tornaram-se um marco na história das transformações científicas ao mostrar a importância dos mecanismos de padronização e controle nas instituições científicas. Como se sabe, ele defendera que, normalmente, isto é, fora dos períodos de crise revolucionária, a atividade científica é determinada pelo paradigma correntemente adotado pela comunidade científica relevante, composta por seus mestres e colegas. Nessa adoção de paradigmas, a discussão racional é menos importante do que parecia e do que apregoam os metodólogos. Se na historiografia sociológica da ciência, considerava-se a esfera científica dentro de um quadro sóciohistórico que determinava seus interesses demandando certos resultados, mas sem interferir de fato em como estes eram produzidos, ou seja, sem interferir na esfera específica na qual o exame racional das idéias e de experimentos imperava, para Kuhn a ciência devia ser

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