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II Parte : O contexto e as críticas de Bacon

No documento tese (páginas 79-97)

Capítulo 4 :

A crítica à esterilidade da tradição filosófica

Os amontoados de erros são tantos e tão grandes que é impossível tratá-los isoladamente. Eles devem ser derrubados e varridos em massa.

F. Bacon

A crítica de Bacon à tradição é variada e complexa. Embora ela seja o tema central dos escritos O parto masculino do tempo (Temporis partus masculus, 1603),

Fio do labirinto (Filium labyrithi, 1606), Pensamentos e conclusões (Cogitata et visa de Interpretatione Naturae, 1607), Refutação das filosofias (Redargutio philosophiarum,

1608), ela aparece disseminada em boa parte de sua obra, especialmente nos livros I de

Do progresso do conhecimento (The Advancement of learning, 1605) e do Novo Órganon (1620) e do livro Da dignidade e do desenvolvimento da ciência (De dignitate et augmentis scientiarum, 1623), na qual a tradição filosófica, seja em casos específicos

ou em grupos, é examinada sob diferentes aspectos, como seus objetivos, posturas e métodos. Por causa destes diferentes aspectos em exame, alguns autores são vigorosamente criticados em certos escritos e tidos como modelos referenciais em outros.1 Esta variedade se torna especialmente complexa porque, além de criticar os equívocos do passado, Bacon busca analisar as origens dos erros e compreender suas “razões históricas”. Ou seja, ainda que o tom de algumas passagens revele uma condenação impetuosa e até mesmo pueril da tradição,2 Bacon desenvolve uma crítica

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Assim, por exemplo, Platão é criticado pela confusão entre filosofia e religião em Cogitata e Visa, Redargutio e no Novum Organum, mas em The Advancement sua solução da relação entre universais e os particulares é elogiada como modelar. Sobre a posição de Bacon frente a Platão, ver Anderson, 1948,124 -131; Rossi 1990, 121-136.

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Em Temporis partus masculus ele afirma “You philosophers are more fabulous than poets. They debauch our minds. They substitute a false coinage for the true.” De Aristóteles afirma ser o pior dos sofistas; de Ramus diz odiar mais do que aos sofistas; de Galeno, bitolado; da filosofia de Platão, “was but scraps of borrowed information polished and strung together, his wisdom was a sham” (64). Embora haja consenso quanto ao tom exacerbado desta obra, vários estudiosos (Farrington, 1964, 35-37; Rossi,

mais profunda e ponderada com um tipo de análise histórica na qual busca compreender as causas culturais e sociopsicológicas dos pensamentos mais significativos da tradição.3 E o que é mais interessante: juntamente com as filosofias e as condições históricas de sua produção, busca examinar sua recepção, ou seja, a relação que as audiências tiveram com estes textos e suas idéias.4 Além disso, Bacon não deixará de examinar as condições da própria análise, isto é, os perigos e preconceitos (ídolos) a que a própria investigação está sujeita. “O entendimento deve ser preparado antes de ser instruído, e as mentes precisam ser tratadas antes de exercitadas”. Daí a necessidade de se deter no reconhecimento desses falsos ídolos e nos cuidados para evitá-los.5

1990,101,148) observam como o essencial da crítica já está aí esboçado. Uma vez que o projeto de Bacon era a reconstrução inteiramente nova, não é de se espantar que ele procurasse jogar por terra todas as construções anteriores. “The hosts of errors are so many and so great that it is impossible to engage them singly. They must be overthrown and swept away in masses.” Isto não quer dizer que desprezasse a história do pensamento, nem que se recusasse a se ver como herdeiro desta tradição. Ao contrário, a falta de perspectiva histórica é, a seu ver, a causa da incompreensão de muitos aspectos interessantes da filosofia das diferentes épocas. Na introdução de Redargutio Philosophiarum, Bacon procurar explicar as razões de sua condenação do conjunto das filosofias com base na diferença de princípios, critérios e formas de argumentar. “To engage with them one by one in single combat would be pointless. To justify such a debate there must be agreement about first principles. But that is lacking. What is more, I reject the forms and deny the validity of their proofs and demonstrations”, 103. Nenhum destes escritos centrados na crítica à tradição filosófica foi publicado por Bacon, o que revela cautela em expor sua posição. Isto, no entanto, não diminui o valor destas obras para análise da posição de Bacon. Elas contêm de maneira condensada e direta aquilo que está disperso, suposto e, as vezes, encoberto no conjunto de suas obras filosóficas publicadas por ele em vida.

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Assim antes de tratar dos autores clássicos da Grécia indagará que tipo de povo era aquele e em seguida sobre as condições históricas daquela época em comparação com outras (Refutation...,109).

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Muito do que entendemos por histórias das idéias aparece aí enunciado. Ao procurar descrever e compreender o estado do conhecimento, Bacon propõe que se enriquecesse a (precária) história das artes, das práticas, dos livros, das escolas e filosofias, com uma história que contivesse “the antiquities and originals of knowledge, and their sects, their inventions, their traditions; their diverse administrations and managing, their flourishings, their oppositions, decays, depressions, oblivions, removes; with their causes and occasions of them, and all other events concerning learning throughout the ages of the world [...] The use and end of which work I do not so much design for curiosity, or satisfaction of those that are lovers of learning; but for a more serious and grave purpose, which is this in few words, that it will make learned men wise in the use and administration of learning”(Advancement..., VI,174). Anderson (1948,113) observa como, em Bacon, a história das idéias serve tanto para emancipação de uma tradição particular, quanto de incentivo para novas descobertas.

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O exame da tradição é parte do tratamento (“a depuração do entendimento, para fazê-lo apto para a verdade precisa de três refutações: a refutação das filosofias, das demonstrações e a refutação da razão natural humana” Distributio operis, VIII, 48), mas não pode deixar de lado suas próprias limitações. Assim, no mesmo ano em que escreve Temporis Partus Masculus, Bacon escreve também Valerius Terminus, em que apresenta sua formulação inicial da teoria dos (falsos) ídolos. Este trabalho de

Tudo isso traz dificuldades para avaliação da posição de Bacon frente à tradição, pois tem-se a impressão de esta estar pontuada por ambigüidades e contradições.6 Seja como for, nosso interesse aqui é o exame das características centrais da crítica de Bacon, e não resta dúvida de que o eixo da crítica é a esterilidade de toda a tradição filosófica, pois, para Bacon, a filosofia como um todo, talvez com exceção de alguns raros momentos como entre os pré-socráticos, se caracterizava pela futilidade de abstrações sem sentido e inutilidade para a melhoria da vida dos homens.

O conhecimento é geralmente procurado seja por deleite e satisfação, seja por profissão ou por crédito e ornamento, e todos estes objetivos são como as bolas de Atalanta, que obstruem a geração de invenções. Pois os homens se adentraram tanto na procura de aumentar a massa do conhecimento, da qual não tirarão mais do que servir, e se algum dentre tantos procurou o conhecimento por si mesmo preferiu conhecer a variedade das coisas do que discernir a verdade e suas causas. E quando sua investigação foi severa, tendeu mais ao julgamento do que à invenção, e mais à descoberta da verdade na controvérsia, do que em novas matérias. E se seu coração foi tão grande a ponto de ter proposto a si mesmo avançar descobertas e invenções, estas disseram respeito a novos discursos e especulações de coisas do que efeitos e operações (Filum Labyrinthi, 5).

Bacon pretende abrir ao entendimento humano uma via completamente distinta da conhecida no passado, e o exame geral de sua posição frente à tradição nos fornece um importante elemento para a compreensão de seu projeto, pois indica justamente o tipo de falta que sua reforma deverá sanar para instaurar o programa que idealiza. Assim, a análise do que ele considera estéril e fútil lança luz sobre o que ele concebe como a nova ciência produtiva e fecunda. A nosso ver, a crítica de Bacon à esterilidade

‘desideologização’ não se esgota previamente ao início da análise. Primeiramente porque, como ele explica em Refutation, a mente humana não é como um quadro que deve ser apagado antes de nele se escrever o novo: “on a mind you cannot rub out the old except by writing in the new”(Refutation..., 103). Em segundo lugar, porque, como veremos noutro momento, sua teoria dos ídolos não assevera que os erros e preconceitos sejam elimináveis, mas tão somente controlados, o que supõe vigilância constante.

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Bacon afirma seguidamente que não tratará dos filósofos individualmente, entretanto, nem sempre é isso que acontece. A questão mais intrigante é, a nosso ver, a publicação de A sabedoria dos antigos (De sapientia veturum), em 1609, tendo justamente condenado nos escritos anteriores a referência aos tempos antigos para apresentar sugestivamente suas propostas. “Truth must be discovered by the light of nature, not recoverd from the darkness of the past”(Refutation...,121). O uso paradoxal das fábulas antigas e da autoridade dos antigos, em vez da investigação da natureza, é explicado na nota do tradutor (Farrington,1964,82) como estratégia para quebrar a resistência do público a suas novas propostas: “a misture of old and new to prepare the way for the new unmixed.” Também Paterson (1989) interpreta o uso de Bacon destas ‘estratégias de ocultamento’ por razões pedagógicas e propagandísticas.

[B1] Comentário: [B2] Comentário:

da tradição se desenvolve em três vertentes: os objetivos do conhecimento, as formas de se alcançá-lo e a relação que se tem com ele. Embora estas vertentes se entrelacem, vamos procurar tratá-las separadamente e nesta ordem. Antes, contudo, é conveniente traçar, ainda que em linhas gerais, o contexto no qual ela se forma.

I – Os objetivos equivocados

No mundo intelectual da Europa do final do século XVI, Platão e Aristóteles serviam de bases às principais correntes de pensamento. O primeiro se fazia influente através de um platonismo cristianizado (Morus, Bruno e Campanella) ou de um neoplatonismo que, de maneira sincrética, misturava fontes herméticas com outras doutrinas espiritualistas, como se pode depreender da filosofia de Marsílio Ficino, de Pico della Mirandola e de outros pensadores renascentistas. Já o aristotelismo imperava nas escolas, isto é, era a base dos currículos universitários e exercia, por intermédio dos escolásticos, forte influência na lógica e na filosofia natural (Schmitt,1975).

A resistência ao aristotelismo já era relativamente difundida na época de Bacon. Paracelso, Erasmo, Lutero, Ramus, Telésio, Bruno, Campanela, Galileu e vários outros se opunham às idéias do estagirirta sob diferentes pontos de vista. Ou seja, embora representasse a filosofia oficial, o aristotelismo era também o alvo preferencial de todos aqueles que, por diferentes razões, criticavam o ensino universitário e o conhecimento oficial. Entretanto, várias destas críticas e suas alternativas serão também, por sua vez, criticadas por Bacon. Algumas destas, como a perspectiva dos humanistas, a dos reformadores da retórica, não se diferenciavam muito, aos seus olhos, dos objetivos equivocados, da linguagem artificialmente complexa e da impostura da tradição. Contudo, ainda que Bacon estivesse às voltas com diferentes tipos de platonistas e

aristotélicos, e que a estes se opusesse mais do que a Platão e Aristóteles, ao procurar compreender as origens dos equívocos e das razões que levaram ao hermetismo, à filosofia mágica dos platonistas e ao academicismo dos aristotélicos, ele terá que lidar com a filosofia dos pensadores gregos e outros iniciadores da tradição desvirtuada.7

A primeira vertente da crítica à esterilidade da tradição filosófica diz respeito aos objetivos do conhecimento. Bacon não hesita em condenar a elevação do espírito ou a honra pública, o prazer ou a tranqüilidade da alma como fins inferiores e degenerados. A seus olhos, a função meramente contemplativa da filosofia e a ausência de uma tentativa de compreensão que representasse um domínio da natureza são as principais razões da estagnação, dos ‘destemperos do conhecimento’ e de seus procedimentos dogmáticos.

Uma das causas básicas da confusão de objetivos estava, para Bacon, “na mescla danosa” com a teologia.

A corrupção da filosofia, advinda da superstição e da mistura com a teologia, vai muito além e causa danos tanto aos sistemas inteiros da filosofia quanto às suas partes, pois o intelecto humano não está menos exposto às impressões da fantasia que às das noções vulgares. A filosofia sofística, afeita que é às disputas, aprisiona o intelecto, mas esta outra, fantasiosa e inflada, e quase poética, perde-o muito mais com suas lisonjas. Pois há no homem uma ambição intelectual que não é menor que a ambição da vontade. Isso acontece, sobretudo, nos espíritos preclaros e elevados. Na Grécia, encontram-se exemplos típicos de tais filosofias, sendo o caso, antes dos demais, de Pitágoras, onde aparecem aliadas a uma superstição tosca e grosseira. Mais perigoso e sutil é o exemplo de Platão e sua escola.8

7 Decerto todos estes autores mantêm, assim como Bacon, elementos da filosofia aristotélica. Alguns

intérpretes, como Larsen (1962), consideram, a nosso ver equivocadamente, estes resquícios como sinal de que estes autores não eram propriamente modernos.

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A tentativa de separação da ciência da religião era algo imbricado, pois a teologia era a principal forma de conhecimento; além disso, boa parte dos filósofos naturais era clérigos ou estavam como sobre o patronato da igreja, ( como os professores universitários). Rossi mostra, no entanto, como a condenação de Bacon ao pensamento grego é fortemente entrelaçada com o tema religioso: a sua idiossincrática interpretação da queda, sua divisão entre os livros das palavras de Deus e os de suas obras, e sua condenação das explicações finalísticas. “Encontra-se também este mal, parcialmente, nas restantes filosofias, onde são introduzidas formas abstratas, causas finais e causas primeiras, omitindo-se quase sempre as causas intermediárias. Diante disso, toda precaução deve ser tomada, pois nada há de pior que a apoteose dos erros, e é como uma praga para o intelecto a veneração votada às doutrinas vãs” (Novo Órganon,.1: 64).

Platão é condenado por sua falta de interesse pela filosofia natural e por ter corrompido o estudo da natureza com a teologia, o que o teria levado a entender e explicar a natureza em termos do sumo Bem. Também Aristóteles e sua doutrina da causa final acabam, segundo Bacon, incorrendo numa perspectiva teleológica equivalente à de Platão.9 Esta perspectiva impedia, a seu ver, a busca das causas físicas que possibilitam ter algum domínio sobre os fenômenos naturais. Explicações teleológicas sobre operações da natureza, como a de que as chuvas são feitas para aguar a terra e as folhas das árvores para proteger os frutos, transformam, segundo Bacon, a ciência numa teologia. As causas finais são, portanto, vistas como questões acerca da providência divina, e suas especulações como “uma virgem consagrada a Deus, que não produz nada.”

Assim, é razoável que Bacon colocasse os pré-socráticos naturalistas acima de Platão e Aristóteles.10 Especialmente Demócrito, que, a seu ver, removeu Deus e a mente da fábrica das coisas e tratou das causas das coisas particulares como necessidades da matéria, sem nenhuma intromissão das causas finais. Também os

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“For the handling of final causes mixed with the rest in physical inquiries hath intercepted the severe and diligent inquiry of all real and physical causes, and given men the occasion to stay upon these satisfactory and specious causes, to the great arrest and prejudice of further discovery. For this I find done not only by Plato, who ever anchoreth upon that shore, but by Aristotle, Galen and others, which do usually likewise fall upon these flats of discoursing causes” (Advancement of Learning. VI, 223)

10 A simpatia de Bacon pelos pré-socráticos se dá por diversos motivos. Telésio (1509) e Patrizi (1529-

1597) haviam despertado seu interesse, mostrando como a leitura que os aristotélicos haviam feito deles era facilmente objetável, o que era uma importante munição na discussão com os peripatéticos. Bacon escreve em Novo Órganon: “os mais antigos filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides, Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros ( excluindo Pitágoras, por se ter entregue à superstição), não abriram escolas, ao que saibamos: ao contrário, e no maior silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o mais pesado e consistente. Contudo, nem mesmos eles foram imunes aos vícios de seu povo.” (1:71). Vícios estes que, a nosso ver, devem ser interpretados como tendência excessivamente teorizante.

Mas enquanto aqueles pensadores italianos modernos (para Bacon, Telésio fora o primeiro dos modernos) haviam se interessado particularmente pela filosofia de Parmênides, Bacon privilegiará o materialismo atomista de Demócrito. A afinidade com a filosofia de Demócrito aparece em De Sapientia

céticos, como veremos no próximo capítulo, serão reverenciados por suas críticas às pretensões do conhecimento filosófico, mas não serão poupados da acusação de esterilidade, por causa da desesperança e conformação que seus pontos de vista levavam. 11

Ao tentar compreender as razões da adoção de objetivos equivocados, Bacon em alguns momentos se deterá na análise dos elementos psicológicos e culturais. Assim, em O parto masculino do tempo, a incapacidade dos filósofos em procriar (filosofias estéreis em obras) expressa uma atitude moralmente culpada, advinda da soberba daqueles que não prestaram atenção aos limites, nem tiveram apreço pela realidade e respeito pela obra do Criador, colocando acima de tudo ‘as astúcias do engenho e a obscuridade das palavras’. Esta postura se revela, por exemplo, na pretensão de encerrar a universalidade do saber e a totalidade da natureza em princípios e doutrinas.

Já em The Advancement of Learning, Bacon trata dos erros e da futilidade como “destemperos do conhecimento”.

Existem principalmente três futilidades nos estudos (...) seja por causa destas coisas que nós consideramos vãs, por serem falsas ou frívolas, seja por causa daquelas que não têm veracidade ou utilidade, ou por causa daquelas pessoas que consideramos vãs, por sua credulidade ou curiosidade, curiosidade esta em matérias ou em palavras, seja isto na razão ou na experiência, terminam por se mostrar como três destemperos do conhecimento: o primeiro, conhecimento fantástico, o segundo, contencioso e o terceiro, delicado. Vãs imaginações, vãs altercações e vãs afetações.12

Veterum, nas fábulas de Pan e de cupido, e nos capítulos 4 e 5 do De Augmentis e no aforisma 57 de Novo Órganon.

11 Discordamos radicalmente da interpretação de Zagorin, segundo a qual Bacon nunca teria levado a

sério o desafio cético: “he did not see epistemology as a significant problem or worry much about the errors of the senses or the various other grounds for doubting the very possibility of knowledge that the skeptics proposes” (1998,36). Não apenas Bacon se refere a eles com especial reverência, mas também o problema da desesperança na possibilidade do conhecimento, que, para ele, era o que o ceticismo implicava, é uma das questões centrais de seu Novo Órganon. Trataremos de expor e discutir estas evidências no próximo capítulo.

12 (Advancement..., VI,117). Estes destemperos são, em seguida, destrinçados em várias faltas ou pecados

menores (peccant humours): afetação pela antiguidade e novidade; desconfiança quanto às novas descobertas; presunção que as melhores opiniões prevalecem; redução prematura do conhecimento em artes e métodos; negligência da universalidade; demasiada reverência ao intelecto; mistura do conhecimento com inclinações humanas; impaciência da dúvida; transferência dogmática do conhecimento; ambições pessoais; e incompreensão da finalidade do conhecimento. (cf. Vickers, 1996, 575-586 ). Algumas destas intemperâncias e faltas dizem respeito ao que estamos aqui agrupando como

Estes três destemperos caracterizariam as principais tendências de sua época: neoplatonismo, escolástica aristotélica 13 e retórica humanista.14 Mas a pecha de estéril não diz respeito somente a estas correntes, mas ao conjunto das filosofias antigas e de sua época. Mesmo a obra de Telesius,15 por quem Bacon nutre reconhecida admiração, não deixa de ser considerada, pejorativamente, como contemplativa e pastoral.

A esterilidade, vale frisar, não é propriamente teórica, mas em termos de frutos (obras) que aliviem a condição material dos homens. Bacon considera os sistemas dos filósofos como teias das aranhas. Com esta imagem ele exprime, simultaneamente, a

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