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A IDA DE JOCA

No documento Portal Luz Espírita (páginas 147-156)

Na noite que se seguiu e durante toda a madrugada, o sono inquieto e os altos soluços e gemidos de Tico começaram a preocupar o casal de pica-paus no assa-peixe. Assim que o dia começou a clarear, ambos foram para a entrada da toca tentar entender por que aquele pardalzinho tinha voltado a chorar depois de tanto tempo.

– O que houve, pardal? Para que tanto choro? – perguntou Chanchã.

– Vou perder meu pai, Chanchã. Está próximo. Ele me avisou ontem – respondeu Tico.

– Depois daquele sonho ter virado realidade, não duvido de mais nada que venha de você – disse o pica-pau. – Mas sinto muito pelo seu pai. Espero que o tenha aproveitado muito.

– Ah, eu aproveitei, pois sempre foi o meu companheiro até que eu viesse para a Mata da Encosta. Ensinou-me tudo o que sei e me criou como se realmente fosse um filho seu.

– Mas você era! – disse Tauá. – Só não era biologicamente, mas, nos demais sentidos, pelo que me contou Chanchã, você era um verdadeiro filhote dele, não era?

– Sim, desde o ovo, inclusive. Nunca me preocupei em saber quem eram os meus pais, porque meu pai e minha mãe são o meu pai coruja. E isto ninguém nunca me tirará.

– Com certeza, não! – disse o pica-pau, olhando para o céu ainda semiestrelado e

se lembrando dos seus tempos de garoto. – As imagens de seu pai e o respeito que sente por ele ficarão para sempre em seu coração. Mas vamos falar de coisas alegres? Não quero vê-lo aí tão tristonho. Vamos passear para comer larvas? Mostrarei a Tauá os melhores buracos habitados por elas. É o meu convidado hoje. Pode se levantar daí e voar com a gente.

– Está bem! – reanimou-se o pardal, em parte para esquecer um pouco a tristeza e em parte para não fazer desfeita à recém-chegada Tauá. – Vamos sim. O canário cuidará da perdiz hoje de manhã.

Enquanto os amigos conversavam, Joca, que havia passado a noite no cume sem ao menos ter caçado uma presa, começava a sentir mais próxima ainda a presença de Aepyornis. Foi quando a figura alada surgiu, clareando ainda mais o ambiente e ofuscando as últimas estrelas que ainda teimavam no firmamento engolido pelo crepúsculo matutino após uma aurora fulgurante. Depois do espetáculo noturno do lindo céu de inverno, a luz da criatura era um coroamento dos momentos ali passados.

– Nobre amigo Joca, hoje é o último dia que terás lições em vida. Teu filho as ouvirá também de onde estiver, pois lhe serão útil em sua caminhada.

Tico estava pousado em um galho observando o bater de bicos do casal de pica-paus em uma velha árvore quando começou a ouvir as vozes da criatura alada, chegando a pedir um pouco de silêncio aos amigos e a voar para duas árvores adiante.

– Hoje, contar-vos-ei a história de algumas aves, que se esforçaram para renovar-se. A renovação deve ser constante, a fim de que o tempo não se perca pelo caminho e a tristeza não acompanhe o ócio do conhecimento. O alicerce do sentimento é essencial para que a incessante transformação do ser aconteça em todos os momentos de sua vida.

– Existia um carcará1, ansioso por conhecimento assim como vocês, que procurava ajudar a todos em sua chapada, seja o pato

1

A ida de Joca 149 mergulhão1, seja a seriema2, seja o falcão3. Apesar de sua aparência de ave de rapina, estava sempre próximo a quem precisasse, deixava um conselho amigo, uma palavra consoladora, um sorriso sereno. Parecia uma fonte inesgotável, que alimentava cálices de luz. Mas especializou-se tanto em ajudar que começou a achar que poderia fazer isso com todas as aves, deixando de lado os importantíssimos pequenos auxílios que prestava. Subiu em uma montanha e lá começou a arquitetar seus planos de ajudar o mundo inteiro e foi se afastando da prática singela e tão necessária. Simplesmente esqueceu- se de se transformar. Quando se deu por conta, sua fonte não servia nem para saciar a sede do mais fétido abutre. Teve que se recolher por tempos e tempos, a fim de se purificar, para que pudesse dar de beber a alguns humildes passarinhos.

E um pequenino poema canção com uma voz magnífica terminou a história do carcará, para o deleite de pai e filho.

Mas mal sabia que metamorfose o aguardava insistente

Pois que a lagarta fará o casulo onde der Mas, depois, o que acontece, de repente É um novo ser que sabe pousar onde bem quer.

E a primeira parte da sétima lição (A transformação) veio logo em seguida.

Todo ser deve se transformar, serena e naturalmente. Irradiar vida, tornar-se fonte de essência pura, para que os outros seres possam dela beber. Para se transformar, é preciso coragem e confiança plena na vida, é necessária a fé com amor.

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Pato mergulhão (Mergus octosetaceous).

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Seriema (Cariama cristata).

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– Meus amigos – continuou Aepyornis. – vosso caminho, como o de todas as outras aves, é cheio de percalços e obstáculos. Preparai-vos para cada um, a fim de não sucumbir às provas que os sulcos materialistas vos impuserem. Tende forças! E o que vos dará forças será a reforma interior que nutrirdes pelas estâncias da vida. Joca, nobre coruja amiga, prepara para a tua maior oportunidade de renovação. Era preciso que ouvisse estas lições antes de partir. Tico, pequenino pardal, ouve isto: mesmo que voares somente perto das

sombras, voa sempre com uma luz ante os olhos.

Pai e filho nem piscavam enquanto ouviam os ensinamentos e as instruções da Ave Suprema, tamanha era a solenidade com que Aepyornis imprimira às suas palavras naquele dia. Quando pensaram que havia terminado, eis que a ave continuou a falar, entoando a segunda parte da sétima lição.

A atitude real é o movimento da vida, o que

impulsiona a vida, o que a torna viva. Sem a atitude, a vida é apenas fantasia, é querer ser sem ser, é ausência de vida, é o metabolismo da morte. Com a atitude, o ser se transforma e, em se transformando, vive e, vivendo, irradia espontaneamente.

– Agora, contar-vos-ei a história de duas aves, em forma de poema-canção (A andorinha e o joão-de-barro). A primeira parte, a da andorinha1, é para o pardal e a segunda parte, do joão-de-barro2, para a coruja.

Voltar pra o rumo, pois já é a hora Partir logo para a próxima estância Fazer um pouco dela o lugar onde mora

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Andorinha-do-campo ou tapera (Phaeoprogne tapera fusca).

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A ida de Joca 151

Sem deixar de sentir aquela boa ânsia De buscar novas terras, uma nova outrora Continuar voando sem medir distância Se é longo demais, o caminho? Ora, ora! Uma andorinha jamais, jamais se cansa Pois agora que já fiz a minha estalagem Já posso partir para outra morada

Se não posso construir em outras paragens Qual a razão de eu iniciar minha jornada? Não tem destino a minha incansável viagem Pois muito há o que construir na empreitada Se um edifício quero erguer com coragem Tenho que começar carregando a enxada

– Tico, está na hora de enfrentares novas estâncias. Vai, assim que o próximo dia amanhecer. Joca, está no momento de partires para a sua nova morada. Vai para o pináculo, onde poderá vislumbrar pela última vez o bosque onde viveu toda a sua vida.

–A Ave Suprema partiu. Com ela, partiram a esperança da continuidade dos laços estreitos em vida física e a ansiedade da espera. Mas ela deixou a certeza de novos rumos e uma confiança inenarrável. Joca foi imediatamente para o pináculo e Tico demorou alguns segundos para despertar de seu transe, do qual se desvencilhou bastante afoito.

– Preciso ir agora para o outro lado da montanha! – disse o pardal aos pica-paus. – Meu pai está indo!

– Vai para onde? Para a sua antiga casa? Espere aí, vamos com você – disse Chanchã, gritando pelo canário que se encontrava ali por perto e olhando para Tauá.

– Furriel! Temos que ir. Temos que ajudar nosso amigo neste momento difícil.

– É pra já! – disse o canário, terminando de verificar as condições da perdiz. – Vamos todos!

A comitiva partiu rapidamente para o outro lado da montanha. Voaram até atingir o cume e logo se lançaram pelo ar, planando até alcançar uma altitude próxima à das torres da universidade para que pudessem bater asas outra vez. Alguma correção de trajetória e lá estavam, próximos à abertura do pináculo.

O coração de Tico batia descompassadamente e os amigos sentiam que realmente o pior estava por vir, em seu entender. A coruja realmente estava lá, como que sentada, já sem o apoio das patas, em posição de vislumbre do horizonte por sobre as árvores do bosque. O corpo ainda quente, as asas ainda rijas, mas o “cordão de prata” que liga o organismo anímico ao organismo biológico já havia sido desligado. Joca já havia sido levado e os poucos sintomas de vida que ainda restavam eram por conta do sangue que ainda circulava após as últimas batidas do coração.

Não fosse pela cuidadosa preparação feita pelo pai, o pardal teria entrado em desespero, mas restou-lhe abraçar o corpo de Joca e entregar-se aos prantos mais intensos de sua vida. Um sentimento agudo lhe tocou fundo a alma e não havia consolo naquele momento que alguém pudesse dar. Os amigos limitaram-se a vigiar as reações do pardal para que não fizesse nada além do normal e ficaram ali por perto até que Tico se restabelecesse do primeiro choque de tristeza. Alguns minutos depois, conseguiu dar os primeiros abraços e receber algum consolo. O filho ficou velando o pai por muitas horas e Chanchã foi com Tauá buscar algum alimento para todos, enquanto Furriel fazia companhia ao amigo. Mais algum tempo e resolveram sepultar a coruja, no cume da montanha e ao horário do pôr-do-sol em que Joca tomava para fazer as suas reflexões. Os pica-paus, como eram maiores do que a coruja, tomaram a iniciativa de levar o corpo e as duas aves menores completavam o cortejo a certa distância. Tico realizou a cerimônia com a certeza de que não enterrava uma vida, apenas um corpo. Do outro lado, a vida continuaria plena, sem nenhuma dúvida. Com algum tempo, ficaria ainda mais radiante do que era no organismo biológico.

A ida de Joca 153 Esta certeza contaminava o ambiente e a mensagem exprimida pelo semblante do pardal tomou conta de toda a noite. Furriel, Chanchã e Tauá reuniram-se com Tico em frente ao buraco de Pygia, onde os cinco amigos relembravam os bons momentos de amizade para tentar acalmar o coração do pardal. Mal sabiam que o filho da coruja partiria na manhã seguinte. Para eles, naquele momento, era mais uma passagem difícil de uma amizade que se eternizaria na Mata da Encosta. Furriel, o cantor da turma, entoava canções que não eram tão alegres como outras ocasiões pediam, mas também não tão tristes que aumentassem a melancolia de Tico. Assim, todos renunciaram à noite para fazer companhia ao pardal. Isto até que o sono advindo do cansaço vencesse a agonia e derrubasse as pálpebras do pardal, que foi carregado até a sua toca e vigiado pelos pica-paus. O canário, também tomado de sono, dormiu ali mesmo, na toca de Pygia, sem nem sentir falta de sua morada. Chanchã e Tauá, no assa-peixe, somente dormiram quando perceberam que o órfão já não gemia nem fazia tanto barulho com as asas sonâmbulas inquietas.

À hora da morte, o espírito da coruja havia sido desligado do corpo no momento previsto por Aepyornis. A própria Ave Suprema cortou o cordão que a unia à vida material, em uma cerimônia belíssima que já havia começado desde que havia chegado ao cume da montanha. Além da grande ave, ainda estavam lá o velho Stan, os pais de Joca e outros indivíduos que serão conhecidos mais tarde. Como que em um coma profundo, a coruja nada sentiu e nada percebeu do que ocorria em sua volta.

O pai de Tico foi levado para uma clínica, em que foi devidamente tratado com os melhores primeiros socorros de que tinha direito. Ainda nada mexia, mas mantinha a mesma aparência que possuía quando estava no plano físico. As reações do organismo anímico ainda eram praticamente as mesmas do biológico, como se “vivo” ainda estivesse, pois a transição é lenta e, muitas vezes, dolorosa. A materialidade sairia do espírito de Joca aos poucos, na medida em que o tempo passasse e em que entendesse a sua nova

condição após o choque involuntário provocado pelo desenlace. As primeiras horas de tratamento foram delicadas e, por isto mesmo, acompanhada por vários médicos e enfermeiros, que procuravam garantir uma transição mais tranquila para a coruja.

O pardal acordara no final da madrugada, ainda muito triste, mas decidido a ir embora quando o dia clareasse. Saiu da toca sem ninguém perceber e foi buscar algumas poucas provisões, que levaria pelo bico, no caso de não encontrar comida pelo caminho. Na volta para a toca a fim de preparar um embornal, seu voo chamou a atenção de Chanchã, que acordou assustado, estranhando a movimentação antes do amanhecer.

– O que há, pardal? Madrugando para buscar comida? – perguntou o pica-pau, acordando Tauá.

– Meu amigo, preciso ir embora. Já chegou a minha hora de partir para outros lugares – respondeu Tico.

– Mas já? Você acabou de sofrer uma perda. Não está cedo? – Não! É a hora! Outras experiências me chamam. Preciso ir de fato! – retrucou o pardal, arrumando a sua pequenina trouxa.

O pica-pau não perdeu tempo. Voou rapidamente até a toca do canário, acordando o amigo e depois trazendo a perdiz pelo bico.

– Este rapazinho é imprevisível! – comentou Pygia. – Espero que não tenha resolvido partir pelo impulso.

– Não, perdiz. Estou partindo conscientemente. Já estava me preparando há dias e me foi confiada uma missão que preciso cumpri- la – explicou o pardal.

– Qual? – perguntou a perdiz.

– Conhecer as coisas profundas da vida. Foi o que meu pai e um amigo nosso me confiaram quando nasci. E estou disposto a seguir até o fim.

– Admiro a sua coragem. E desejo-lhe muito boa sorte! – Obrigado, Pygia. E, mais uma vez, reafirmo minha promessa. Trarei o seu marido, você vai ver.

A ida de Joca 155 eternamente grata! – disse a perdiz.

– Meus amigos sinceros – disse o pardal a todos, em tom solene. – Após a perda do meu pai, é preciso que eu vá, pois tenho algo a cumprir. Nossa amizade será eterna e, por isto, não sinto um peso ao partir. É possível que eu passe por aqui algumas vezes e, quem sabe, possa ficar mais uma temporada. Mas levo vocês em meu coração para sempre, estando juntos ou não. Vou me lembrar de cada momento que passamos aqui, que serão como um tesouro para mim em toda a minha vida. Digo estas palavras não como uma despedida, porque vocês estarão sempre comigo. Mandem lembranças a Karkia e aos biguás por mim, porque não terei tempo de me despedir deles. Os amigos começaram a chorar imediatamente, pois a emoção tinha ficado muito grande a essa altura. Não era sempre que um verdadeiro amigo partia, talvez para sempre. Acostumaram-se a colecionar amigos e conviverem com uma população sempre crescente. Perder um amigo na Mata da Encosta era uma novidade até então.

A despedida foi curta. Tico trocou algumas poucas palavras, abraçou-se com cada um dos amigos e partiu, sem olhar para trás, como lhe ensinara seu pai. A vida segue em frente, como um rio que corre para o mar e como a luz que atravessa galáxias para fazer brilhar o céu durante uma noite bela. É preciso perder para ganhar. É preciso renovar para crescer.

CAPÍTULO 18

No documento Portal Luz Espírita (páginas 147-156)